quinta-feira, dezembro 31, 2009

2010 Para Sempre


“Para sempre ao seu lado” não é mais um simples filme tocante baseado numa história real. A história do akita japonês Hachi e seu dono, um professor universitário de música de Tóquio, é uma lição de amizade eterna. Mais que isso, é um nocaute naqueles que deixam de ver os seus amigos mais importantes. A lealdade, na verdade, algo bem mais forte que esse sentimento, faz Hachi esperar todos os dias seu dono voltar do trabalho na estação de trem. Seu dono, não. Seu amigo, seu companheiro, seu amor em uma escala difícil de mensurar, pois trata-se de um amor infinito. Infinito e eterno, porque Hachi seguirá esperando pelo professor todos os dias, mesmo se não for mais possível ele voltar.
Em algum momento do filme, belíssima adaptação da história real pelo diretor sueco Lasse Halström (de “Chocolate”), alguém fala na importância de não esquecermos quem amamos. Refere-se, claro, a Hachi, mas o comentário serve a todos nós que temos amigos e amores que não esquecemos. Aqui, porém, cabe um adendo: algumas dessas pessoas com quem não falamos mais, ou que não procuramos mais, nós não esquecemos. Basta uma história como essa, uma canção, um lugar, um exemplo como o de Hachi, para voltarmos no tempo e para desejarmos ver agora, urgentemente, essa pessoa que assalta nossa memória e coração. Triste não sermos, então, corajosos como Hachi. Triste não irmos esperar essas pessoas na saída de seus trabalhos. Triste o ser humano não superar suas fraquezas e, às vezes, seus erros, e não ir lá fora tentar resgatar um pouco das pessoas que foram essenciais para a formação de nosso coração.
Outra frase do filme, dita pelo professor, aborda um tema paralelo, mas que se relaciona também com a busca por um encontro de Hachi: o professor de música diz aos seus alunos que a música tocada na hora, ao vivo, tem algo que as canções gravadas jamais terão: tem a vida sendo construída, emitida, sentida, tocada, transmitida para as pessoas naquele exato momento. Essa vida não pode ser reproduzida com um simples apertar da tecla play. Porque essa vida ao vivo chama-se criação. E escutar, ver e sentir a obra sendo criada é um dos tesouros de um tempo chamado presente.
Talvez por isso que Hachi não aceite viver de lembranças. Ele quer o presente de novo, ele não quer a vida, o carinho, o pulo, o abraço, o amor que pedirá, sempre, o ENCONTRO. Não era isso o que sempre pedia e cantava o poeta Vinicius?
“A vida é a arte do encontro.”
Espero que sejamos mais Hachi em 2010.
Espero que transformemos afetos e lembranças em ações.
Fotografias são belas mas são apenas pedaços de papel ou retângulos frios na tela de um micro.
Por isso, pé na rua, pé pra fora de nossos orgulhos e receios, para reencontramos quem não pode virar uma simples foto.
Disposição, meus caros, e um feliz 2010. Corações que não se transformam em passos e abraços não valem nada.

sábado, dezembro 26, 2009

O presente de Natal


As mesmas origens na escola, a adolescência com instantes mágicos compartilhados, a paixão meio louca pela vida. O romance de dezembro parecia promissor, mas tudo acabou rápido e fugaz como começou. A mágica da juventude ficara para trás. Mas pela manhã, depois do fim, ele pegou o belíssimo presente de Natal que ela lhe deu, colocou no carro e pelo menos pôde conhecer uma das mais bonitas baladas da história do rock. O mais incrível e louco é que a baladaça é do AC-DC. Love Song. Canção de Amor. Paulada para corações solitários. O raro momento em que Angus Young, em vez de explodir o mundo, resolveu dilacerar os corações mais românticos. A epifania do vocal sublime do falecido Bon Scott cantando o amor como se deve: com a simplicidade e intensidade de um homem que ama uma mulher com uma paixão e entrega juvenil. Sim, o caso de dezembro acabou, mas o coração ganhou mais um daqueles presentes e remédios incomparáveis que são as grandes canções. Apertem o play abaixo e mergulhem fundo na dádiva que é esta canção. Obrigado, moça, que puta presente!*
* Love Song é a 2ª faixa de um dos cd´s (tem também um DVD) de uma caixinha que o AC-DC lançou há pouco tempo, Back Tracks.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Homens que desabam de montanhas


Greg Long, vencedor do histórico Eddie. Waimea.9/12/09
“... no mar que não nos dá coisa alguma a não ser pancadas e por vezes uma oportunidade de sentirmos nossa própria força”, assim escreveu Joseph Conrad no clássico "Juventude". Sim, ele só sabia do mar como marinheiro e escritor a enfrentar o alto mar, não como surfista. Não compreendia tudo que o oceano poderia oferecer na arrebentação. Mas sobre a força ele tinha razão pois, quando o mar cresce, é atrás de algo maior que encaramos o grito do oceano.
A sexta-feira chuvosa de duas semanas atrás não convidava. Mas sabíamos que elas estariam lá. Elas, as ondas. Mais que isso, algo maior, não só fisicamente falando. Algo chamado Ondas Grandes. Havia desistido, mas no último momento disse ao brother, “vamo lá, se estiver insurfável (nosso pico costuma virar uma maçaroca gigante sem boa formação logo que entram as frentes frias) pelo menos a gente toma umas vacas enormes”, falei. Mal sabia que a brincadeira das vacas seria profética...
Sabadão. Choveu a viagem toda mas ventava fraco, bom sinal para a formação de nossa praia, muito aberta, desprotegida dos ventos fortes. Chegando lá, a chuva também havia parado. Uma leve olhada e, coisa rara, a arrebentação não parecia muito complicada.
Não parecia... A remada foi longa, sem parar, braços, ombros e costas no limite. O brother que tenta voltar à velha forma toma uma série toda na cabeça, mas chega lá.
Chega lá atrás. E tem a visão mágica maior para qualquer amante das ondas e do mar: vê as morras, as montanhas. Sim, para surfistas profissionais seria apenas um bom dia de ondas médias, no máximo dois metros. Para nós era o Himalaia. A cadeia montanhosa toda, pois as séries não paravam de rugir, e cada onda despencava como poucas vezes havia visto em nossa praia: desabava de repente, triângulos projetando-se como a mandíbula de um tubarão dando o bote. As presas eram nós... Mas antes de sermos atacados, fizemos o que qualquer privilegiado duma session poderosa dessa faz: rimos, maravilhados com a fúria e altura das bestas líquidas; rimos especialmente da imensa cortina-spray de água que nos lavava a cabeça das morras arrebentando enquanto escapávamos delas remando mais para o fundo. Ríamos como se orássemos ao grande deus dos mares, ao grande Deus que fez tudo isso. Ríamos em comunhão com o máximo em emoção e beleza que a vida e a natureza podem oferecer. Ríamos de alegria por estarmos lá. Ríamos porque éramos loucos caçadores de uma caça aquém de nossas pranchas. Loucos porque aqueles “rifles” 6´2 mostravam-se pequenos para a magnitude da caça e nossas habilidades de poucos recursos.
Logo um ria do outro...
A primeira montanha me atirou feito faca, horizontalmente, fisgando as costas de um jeito que achei que a session tinha acabado. Sorte que logo a dor passou, só um susto.
A segunda montanha eu descia bem, na emoção do drop vertical, o possível com aquela pranchinha pequena, até que paguei o preço. A pequenina não aguentou a fúria da vaca que logo veio, sendo catapultada feito estilingue comigo, e isso ainda arrebentou a cordinha.
Poderia ter ficado nervoso, mas o amor do surfista por sua prancha faz milagres. Só pensava em como estaria minha menina, minha prancha, que desaparecera e devia estar sendo devorada pela série que explodiu na sequência, sobre ela e minha cabeça. Mas logo passou e pude nadar forte. Em poucos minutos os pés já tatearam a areia, mas ainda não a via.
Mais um pouco e vi a pequena lá na areia, quase fincada na areia.
Mais um pouco e apanhei-a nos braços e, sorte, sem ferimentos em sua face e contornos de fibra.
Caminhando na areia, voltei os olhos para o mar e vi os dois amigos sendo engolidos pela série explodindo forte, mais risadas...
Não tinha alternativa, corri pro carro e bora comprar outra cordinha. Correria e em menos de 20 minutos tava de volta na praia. Passar a arrebentação dura pela segunda vez foi mole, pois a sede de aproveitar aquele marzão de gala torna tudo possível.
Bora então para alguns drops bem-sucedidos e outras série de caldos nervosos pra alegria do brother que ria sem parar.
Rimos mais um bocado, mas não só de sacanagem. Era a alegria pura que as ondas grandes nos proporcionavam. A alegria de experimentar a magnitude da natureza. A alegria de, na grande festa, sermos convidados de honra. Sim, de honra, porque a praia de nosso coração nos prega peças mas sabe também nos oferecer presentes inesquecíveis como algumas ondas que valem semanas todas longe do mar.
Que todos nós lembremos, fora do mar, do desenho mais bonito, o sorriso escancarado em nossas almas quando em sessions de gala.
PS – Enquanto experimentávamos nosso big saturday modesto, Waimea quebrava histórico... Quem sabe surfávamos o último grãozinho do swell havaiano... (risos!)

terça-feira, dezembro 15, 2009

Imperdível

Não dá para perder o Profissão Repórter de hoje, 3a. feira, 15/12, na Globo. A equipe de Caco Barcellos, reforçada pela melhor jornalista (de texto) do país, Eliane Brum, entra na Enfermaria de Cuidados Paliativos do Hospital do Servidor Estadual, em São Paulo. Ali, médicos e enfermeiros lutam para tornar menos sofridos – e mais felizes – aqueles que podem ser os últimos dias de pacientes terminais.

terça-feira, dezembro 08, 2009

Big Monday. A besta acordou


O swell da década atingiu o Hawaii ontem, 7 de dezembro, especialmente na mítica baía de Waimea. O local Shane Dorian, um dos maiores big riders da história, disse que foram as maiores ondas que pegou na remada na vida, cerca de 25 pés havaianos (muito mais pés na nossa medida). O ex-tricampeão mundial, o australiano Tom Carroll, tomou uma bomba que quebrou sua perna e cotovelo. Com muita valentia ele conseguiu nadar até a areia. Confiram as bestas desse dia histórico. E hoje está rolando o Eddie Aikau, na mesma Waimea.

Mãos e Corações Pinheirenses


Como vencer o favorito Osasco – dez vezes campeão paulista - e suas sete jogadoras de seleção brasileira, quatro delas campeãs olímpicas? A resposta foram as mãos cheias de coração das guerreiras do vôlei feminino do Pinheiros/Mackenzie. Guerreiras vibrantes e explosivas a cada jogada. Guerreiras conscientes, tão bem armadas e lideradas pelo talento e equilíbrio da capitã e levantadora Fabíola*, grande regente do Pinheiros campeão paulista de vôlei de 2009. Guerreiras tão bem treinadas e motivadas pelo treinador Paulo Coco, que soube marcar para suas atletas as principais ações ofensivas do Osasco, como as quase indefensáveis pancadas violentíssimas de Natália, as cortadas de força e técnica de Jaqueline e Sassá e o ataque de meio lá do alto de Thaísa e Adenízia.
Indefensáveis se não estivesse do outro lado o corajoso e eficiente bloqueio azul puxado pela garra da central Bárbara.
Indefensáveis não estivesse do outro lado os mergulhos e verdadeiros salvamentos da líbero Verê.
Indefensáveis se a maioria dos bombardeios do Osasco não fossem amortecidos pelas mãos azuis. Amortecimento que dava chances de um bom passe e tempo para a maestria e visão de Fabíola para servir com perfeição suas atacantes.
Atacantes que arrebentaram o sólido bloqueio e marcação do Osasco como a tão rápida quanto furiosa ponteira Fernanda Garay, grande destaque das finais.
Atacantes como a porradaria enfiada pela ponteira Ju Costa (substituída por Cibele no último jogo) e as bolas precisas atacadas sem medo pela oposta Lia nos momentos mais difíceis.
E houve ainda os ataques de meio de rede de Bárbara, que cresceu muito no último e decisivo jogo, e Lígia.
Foram três jogos duríssimos que deram o segundo título paulista ao Pinheiros (1999 e 2009) e elevaram as mulheres do Pinheiros/Mackenzie à condição de uma das forças maiores na próxima Superliga. A sofrida derrota inicial em casa (3 sets a 2, perdendo de virada) foi compensada pelos impecáveis 3 a 0 aplicados em plena quadra do Osasco, na 2ª partida. Finalmente, na noite de 2ª feira, as pinheirenses ficaram muitas vezes atrás no placar mas viraram na raça (como no 15 a 20 no quatro e decisivo set) e fecharam em 3 sets a 1 (21-25, 25-23, 27-25 e 25-22) para delírio da torcida que lotou o ginásio do clube da capital.
A raça que foi tão bem destacada pelo treinador adversário, Luizomar Moura e pelos comentaristas da Sportv, que passou ao vivo as finais.
A raça que orgulhou o Pinheiros nessa inesquecível noite de 6 de dezembro.
Que seja o começo de uma história ainda maior, como uma sonhada conquista do Brasil...

* MOMENTO MÁGICO
O símbolo do Pinheiros/Mackenzie campeão foi uma genial jogada executada pela bela Fabíola na 2ª partida da decisão. Após receber um passe complicadíssimo, os dedos mágicos e a incrível visão e serenidade dessa levantadora-pianista, conseguiram fazer um levantamento de costas para um ataque e ponto decisivo da equipe azul. Ali ficou claro que o Pinheiros possuía uma qualidade vital para um grande campeão: a superação e o talento de uma levantadora - posição-chave e cérebro de uma equipe de vôlei – excepcional.
PS - Não entendo porque a Globo sabota a própria Globo. As finais do Paulista de vôlei foram transmitidas pelo Sportv e hoje o Globo Esporte exibiu uma "incrível e longa" reportagem de 30 segundos sobre o título do Pinheiros... E na sequência, reportagem sobre s Superliga, com entrevistas de treinos, falando da Superliga, com... as derrotadas do Osasco. Nadinha de entrevistas com as campeãs do Pinheiros... É brincadeira!!!

segunda-feira, dezembro 07, 2009

O poder rubro-negro


O Flamengo deve o Hexa à três peças mais poderosas. A primeira, como bem destacou o grande ídolo da equipe, Petkovic, é Andrade. No meio da festa, quando poderia se autovangloriar como o nome maior do hexa, o ainda genial Pet (37 anos!) foi grande e digno: “Andrade é o herói maior”, disse aos microfones das rádios e redes de TV. Sim, um herói pacato, que superou a desconfiança de ser um mero treinador interino para armar uma equipe que jogou o futebol mais bem jogado e vistoso desse Brasileirão (*). Sim, Andrade, o homem calado, o como o bom mineiro que sempre foi, sem a pose e/ou prepotência de nomes mais badalados como Luxemburgo ou Muricy, conduziu o Flamengo à uma incrível recuperação no 2º turno. E fez sua equipe vacilar pouco, menos que Palmeiras e São Paulo, passando ao seus comandados o equilíbrio que sempre teve. Será que agora seu bom goleiro mas arrogante e desconhecedor da própria história do clube, Bruno, terá coragem de ofender seu treinador, como fez no início de trabalho de Andrade? (Bruno disse para ele, “Quem é você? Nunca ganhou nada”. O “nada” do ignorante goleiro era na verdade tudo: estaduais, brasileiros, Libertadores e Mundial). E agora, acrescente-se ao currículo de Andrade o fato de ser o primeiro negro a ser campeão brasileiro como treinador.
Depois de Andrade, temos Adriano. O baladeiro, faltador de treinos e artilheiro mimado foi tolerado por Andrade para ser o nome mais temido do ataque rubro-negro, com seus gols e marcadores dominados, deixando companheiros livres.
Finalmente, mais que Adriano quem brilhou foi o sérvio mais carioca do planeta, Petkovic, autor de gols decisivos como na vitória contra o Palmeiras em pleno parque Antártica, e de inúmeros escanteios que resultaram em gols como na própria decisão de ontem, contra o Grêmio, em que os dois gols saíram de suas cobranças venenosas. Mais que isso, Pet foi a certeza de que ainda é possível vencer com um futebol refinado, de habilidade, dribles e tapas precisos na bola. Grande craque do campeonato, o sérvio foi, dentro de campo, um verdadeiro alívio para quem preza o futebol bem jogado, com arte. Uma arte que os cegos viram no futebol de breves repentes mas mais para a força de Diego Souza, que muitos jornalistas pró-Palmeiras tentaram vender como o craque do campeonato antes dos verdes despencarem ladeira abaixo.
Há outras qualidades no Fla Hexa, claro, como o meio-campo que rola a bola de pé em pé, alas que apoiam bem (mas marcam mal) e uma zaga segura, mas o peso de Andrade, Pet e Adriano é bem superior.
Hexa merecido.
* Quem jogou o futebol mais belo do Brasileirão, mas apenas em sua reta final, foi o inacreditável Fluminense de Coca, Maicon e Fred; basta rever suas belas tabelas e gols.
PS – Não poderia ser mais justo o fiasco verde: perdeu a vaga na Libertadores com a apatia costumeira de seus falsos craques contra o Botafogo, Vagner Love e Diego Souza e pelo gol de Kleber, do Cruzeiro, contra o Santos. Justo Kleber, seu ex-jogador e fiel amigo da Mancha Verde. Será que Kleber vai dedicar esse gol ao Palmeiras, como fez na Libertadores, após marcar contra o São Paulo? E queria saber também o que seu presidente metido a intelectual, mas na verdade um ignorante passional da pior espécie, vai gritar de novo ofensas aos sãopaulinos, já quem morreu, de fato, foram seus porcos amestrados e subjugados. Finalmente, será que Muricy ainda acha que no Palmeiras o ambiente “é mais tranquilo e os caras são mais parceiros que no São Paulo”, como ele afirmou várias vezes quando estava na liderança?

quarta-feira, dezembro 02, 2009

Aprende com ele, Hernanes


Sim, ele é grosso, lento, espirra na canela e raramente acerta uma tabela, mas Washington sabe fazer gols e é um lutador. E, na hora em que a coisa apertou, nas duas últimas decisões, contra Botafogo e Goiás, foi um dos raros que realmente deu o sangue e cumpriu o seu papel. Enquanto aquele que se acha craque, Hernanes, se escondeu, não correu, não deu o sangue nem brilhou, o Coração Valente enfrentou as pedreiras na raça, perdeu alguns gols, mas enfiou três. Mais que isso, foi o único jogador tricolor realmente abatido após o papelão em Goiânia. O guerreiro, visivelmente emocionado, mal conseguiu falar aos repórteres ao final do jogo do Serra Dourada. Imagino em que situação estaria o São Paulo se Ricardo Gomes, que é bom treinador, não tivesse insistido em seu grande vacilo nesse campeonato: a alternância entre o Matador e o Cara de Bunda Dormida (me recuso a citar o nome do notadamente traíra, pipoqueiro e ainda protagonista de expulsão ridícula em Porto Alegre, que deu início ao festival de expulsões e depois festa do STJD em cima da gente). Caso Washington tivesse tido tranquilidade para jogar sem ser sacado a cada início de 2º tempo, o hepta já estaria no nosso peito. Esse foi, sim, o erro maior de Ricardo, e não outras bobagens, como insistir com o valente e incansável Jean na ala direita.
Que o Cara de Bunda Dormida prometa o que disse o ano todo: que queria ir embora. Vai logo, Morto!
Outros que não podem ser titulares são Renato Silva (falhou demais nas 2 decisões) e Avenida Vai Que A Casa é Sua Junior César (mas FICA, JC, se a solução “brilhante” for o (a) desgraçado (a) maior, Rick, o (a) cara que mais entrega entre todo o elenco). E, claro, arrumem um parceiro decente para Washington, pois Dagoberto Cabecinha de Azeitona, que fazia bom campeonato, também voltou ao Maternal contra o Grêmio e nos prejudicou demais.
Finalmente, como ninguém consegue tirar a máscara da Bailarina, que mandem-o logo pra Europa, porque não sei o que é pior: aguentar o sumiço do Hernanes quando a coisa aperta (brilhar contra o Vitória no Morumbi até eu) ou o seu discurso ridículo de frases feitas com pitadas pretensamente intelectuais que os idiotas do Globo Esporte têm a coragem de chamar de Filosofia. E Hernanes adora o mimo, reparem como ele força (espremendo o cérebro diminuto) para tentar formar frases “mais inteligentes” a cada entrevista. Claro que ele é um grande talento, mas o problema é que pensa que é o Zidane (só esqueceu da alma, garra e um “pouquinho” a mais de talento que o francês tinha).
Sujou geral, Juvenal, e quero ver algum trouxa pagar o preço absurdo que o senhor colocou para o jogo contra o Sport antes dos desastres carioca e goiano.
O trouxa aqui vai, mas só pra gritar o nome do injustiçado Washington, aquele que foi xingado e vaiado o ano todo por nossa própria torcida, que preferia o cruzamento de Bunda Dormida com Poste de Estrada de Terra Sem iluminação. Isso mesmo, "fantástica" Torcida Independente, vocês têm parte da culpa de bancar e apoiar o Morto o campeonato todo. Só perceberam a burrice no final do jogo contra o Vitória, quando finalmente apoiaram o jogador que realmente veste a camisa.

segunda-feira, novembro 30, 2009

A Tempestade


Foi no meio de Let There Be Rock, quando ele começou a solar com o vigor e paixão de um moleque. Perdão, acho que um moleque de hoje, seduzido por bobagens comerciais como falsas guitarras de videogame, demorará a entender como Angus Young, 54 anos, ainda faz de sua guitarra uma tempestade juvenil sonora avassaladora. Uma tempestade apaixonada, bela e furiosa. Toneladas de TNT em forma de acordes, riffs ou esse solo muito mais que endiabrado que o menino de 54 anos ofereceu nesta histórica noite de sexta-feira. Foi no meio de Let There Be Rock que os antigos amigos de escola forjados em rock and roll de verdade, hoje quarentões, sentiram os olhos lacrimejarem. Porque Angus e seu AC-DC, mais que oferecer uma maravilhosa volta ao passado de tudo o que já fizeram pelo rock, nos deu a certeza de que o rock é eterno. Que a emoção é eterna. Ou não foi isso o que eles provaram quando ele elevou-se aos céus junto do palco móvel e simplesmente arrebatou como nunca antes um estádio do Morumbi lotado?
Sim, não vi Freddie, Brian e seu Queen em 1980, mas estive em muitos shows ali, e ninguém antes fez um metaleiro quase chorar no meio de um solo de guitarra. Ninguém antes, munido de uma guitarra e um espírito juvenil alucinado (mesmo com 54 anos...) fez o público entrar em transe como Angus. Sim, já o vira em pleno Rock In Rio I, em 1985, e ali estava no auge, mas o que a paixão dele fez na sexta-feira entra direto para uma das maiores entregas de um artista na história da música. E olha que falo de apenas um momento, dos minutos de solo durante uma canção-hino. E olha que ainda houve muito mais nesta noite em que o vendaval que ameaçava cair no Morumbi enfiou o rabo entre as pernas para permitir que a verdadeira tempestade – de eletricidade roqueira genuína – prevalecesse.
Foi assim que Angus e o AC-DC desabaram seu temporal inesquecível de rock pesado que jamais será esquecido pelos privilegiados desta noite de 27 de novembro de 2009. Desta noite em que a maior chuva do mundo desabou das cordas de Angus e Malcom, da batera de Rudd e da voz de Johnson.
Vai chover assim na p... !!!!! e quanta verdade nas palavras de outro hino, “TNT, I´m Dynamite!!!!!”
E quem quiser ler um excepcional artigo sobre outros segredos do sucesso eterno da banda, leia o texto do grande crítico Jotabê Medeiros, do Estadão, no link abaixo
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091130/not_imp474058,0.php


PS - Se um tal de Hernanes tivesse um décimo da garra do AC-DC, meu time era hepta com sobra... Só que ele desconhece isso e prefere acreditar que é craque. Craques de verdade têm alma, como Angus. Craques não fazem frescuras, apenas tocam sua guitarra e bola como se o mundo fosse acabar amanhã, no meio de um solo ou grito de gol. E, sobretudo, craques de verdade arrebentam na hora da verdade, do grande show ou grandes decisões.

sexta-feira, novembro 20, 2009

O segredo de Alfie


Ele conquista a mulher que quiser. Melhor: tem todas as mulheres que quiser. Experimenta todo tipo delas, dá-lhes sexo, um pouco de atenção e carinho. Elas usufruem de seu charme, beleza e poder de sedução único. Alfie é tudo o que elas querem. Mas não podem tê-lo de verdade, pois Alfie não assume compromissos. É apenas um rosto perfeito, um sorriso malicioso, olhos penetrantes e um corpo que sabe ser viril ou delicado. É apenas um caçador que faz o que suas vítimas desejam: a caçada rápida, imediata, devoradora. Sem joguinhos ou hesitações. Sem papo cabeça. Só que a vida não é um episódio de Sex and the city. Por isso que depois de noites selvagens, elas desejarão algo mais. Por isso confundirão Alfie com um mestre do amor. Não sabem que é um mestre apenas do sexo. Não sabem que ele pode preenchê-las seus desejos mais explosivos mas não pode preencher o espaço mais importante. Porque Alfie jamais lhes entrega seu coração. Boa parte deste filme é uma exibição engraçadinha de um Don Juan moderno atraindo e devorando as mulheres enquanto conta todos seus planos e conquistas para a câmera, tentando atrair a intimidade do espectador. Alfie poderia ser mais um filminho sexy de Hollywood não fosse o carisma de seu protagonista, Jude Law, um dos maiores de seu tempo. Não fossem suas presas as estonteantes e maravilhosas atrizes de três gerações: a sempre solar, passional delicada morena ítaloamericana, Marisa Tomei, dona do sorriso e olhar mais belos, verdadeiros e meigos do cinema americano; o vulcão doentio ultra-sexy louro que atende por Siena Miller e os anos que só acrescentam charme e profundidade à sempre intensa Susan Surandon. Não fosse o corpo magistral, suingue e simpatia da jovem diva negra Nia Long.

Alfie seria só sexo e belos corpos não fosse o momento em que o garanhão põe tudo a perder porque macula o imaculável: a amizade do melhor amigo. No momento em que o predador irresponsável percebe que ter todas as mulheres é não ter nenhuma, levanta-se um Jude Law magistral. Um Jude Law cujos olhos antes apenas conquistadores tornam-se um mapa abissal de sentimentos e perdas. Um mapa do vazio existencial do garanhão que descobre a dor da solidão. Pior, a dor de perder aquela que realmente o amava.
Aguente a sacanagem refinada e estilosa de Alfie arrastada por mais da metade do filme, porque depois receberão o melhor do cinema: atuações poderosas e mensagens que nos envolvem e derrubam como diretos no fundo do peito.
Por isso alguns passearão junto da solidão de Alfie, lembrando das raras mulheres que não perceberam serem perfeitas que passaram em nossas vidas.
Lembrando e sentindo cada fissura interior que acomete a estátua de deus grego que um dia julgaram ser.
Como não sentir, se Alfie, suas mulheres e histórias ainda nos são entregues embaladas por canções viscerais de Mick Jagger, feitas especialmente para o filme? Incrível como o velho Mick ainda consegue, às vezes em uma só palavra ou verso, entregar toda a beleza e dor do amor. Cantar toda a cegueira de desejos e sentimentos fugazes que escondem o amor verdadeiro. Que escondem a lição tão simples, cliché e vital mas que nos esquecemos. A lição dada por um velhinho só, viúvo, a Alfie em outra bela cena da metade final do filme: “ame sua mulher todos os dias antes que ela vá embora”. Ou antes que a deixemos ir. Canta e ensina então o velho Mick de guerra mais uma canção essencial:
Old habits die hard
hard enough to feel the pain

Hábitos antigos são difíceis de morrer, difíceis o suficiente para sentir doerem.



terça-feira, novembro 17, 2009

O anjo de Los Angeles


O que pode existir de especial num homem das ruas que toca um violino com apenas duas cordas ao lado do Skid Row (majestoso palco de concertos), em Los Angeles? Muito se quem ouvi-lo for um homem que sabe ouvir. Muito se quem percebê-lo for um jornalista de verdade, aquele que sai às ruas, que vive, que não se esconde em uma profissão facilitada pelos emails e telefonemas, que são a única base, insípida, de muitas matérias.
Mais que um jornalista, Steve Lopez é um caçador de histórias. Por isso ele percebe algo maior naquele homem aparentemente louco de vestes estranhas, que fecha os olhos enquanto toca com alma para quase ninguém. Ou toca talvez para os pássaros ou para os seres alados que são os guardiães da cidade dos anjos.
Steve descobrirá que o louco do violino é um ex-aluno brilhante da prestigiadíssima escola de música clássica Juilliard. Por isso tornará o estranho Nathaniel, na verdade um artista de outro instrumento, o violoncelo, personagem de sua coluna, no L.A. Times. Por isso acabará se envolvendo com ele, tentando ajudá-lo a ser o músico que poderia ter sido. Tentando fazer algo praticamente esquecido na mídia predominantemente informativa de hoje: praticar uma missão e dever esquecido do bom jornalismo do passado: praticar cidadania e, por que não?, humanidade.
O filme O Solista fica longe da perfeição de obras-primas que retratam o mundo da música - como Johnny e June, Ray ou Apenas Uma Vez – mas oferece cenas inesquecíveis. Cenas como o momento em que Nathaniel consegue um violoncelo em ótimo estado, com todas as cordas. Na beira da calçada de um lugar tão cinza e barulhento, vizinho de um túnel e às margens de uma avenida movimentada, o músico voltará a usufruir de um instrumento completo. Isso só poderá resultar em uma coisa: uma música tocada com uma beleza, paixão e necessidade incomparáveis de um homem que não tem quase nada, exceto ela, o único alimento que o mantém vivo: a música. O único alimento que o faz sobreviver à sua doença: a esquizofrenia, mesmo sofrimento já retratado no cinema em Uma mente brilhante, em que Russell Crowe faz o gênio atormentado da Matemática, John Naish.
A bela e triste história de Nathaniel ganha força no único lugar em que ele pode tocar sem medo de ser roubado: um centro de assistência social em que homeless (sem teto) com problemas mentais ou com as drogas vão se alimentar e fazer pequenas terapias; um lugar raro em que ainda podem, com a ajuda de voluntários, lembrar que são seres humanos. É ali que o anjo de asas partidas Nathaniel pega o celo (fica guardado ali, para não ser roubado nas ruas) e leva-os ao alto de novo, ao sonho e alegria que um dia tiveram.
O Solista é importante também para lembrar-nos que a arte que amamos é, muitas vezes, uma arma poderosa contra a solidão, depressão, desencanto e outros problemas. Sim, a arte que salva é talvez a lição maior deste filme. Mais que isso, a paixão pela arte e humanidade que deve ter um grande artista, explode no filme na grande performance de O Solista: o Nathaniel feito com um realismo, alegria e dor tão genuínas por Jamie Foxx, o monstro que já havia brilhado na história de Ray Charles.
Procurem logo esse filme, envolvam-se com ele. Reencontrem, talvez, o lugar e momento em que deixaram as asas para trás. As asas do amor que um dia tiveram por algo essencial, algo feito de arte e amor.

segunda-feira, novembro 16, 2009

O retorno do herói


Assis e Washington nos anos de glória
Ele foi um dos maiores ídolos, artilheiros (118 gols em 301 jogos) e campeões da história do Fluminense. Formou junto de Assis uma dupla inesquecível, tão marcante que foi uma das raras duplas da história da bola mundial a merecer um apelido: Casal 20, nome de um antigo seriado que mostrava um casal inseparável. Washington fez gols maravilhosos, foi bicampeão carioca com o Flu em decisões sensacionais contra o Flamengo nos anos 80 e ainda campeão brasileiro (1994) num Flu inesquecível, talvez o melhor tricolor carioca de todos os tempos. Hoje, o matador habilidoso do passado enfrenta uma grave doença degenerativa nos músculos que pode causar a sua morte, se a doença atingir o diafragma, o que impedirá a respiração.
Washington já precisa de uma cadeira de rodas. E precisa, sobretudo, de amigos e de tricolores com memória para ajudar a custear seu caríssimo tratamento. Nos últimos dias, a diretoria do clube que tanto honrou, finalmente (com atraso, segundo os críticos) abriu as portas das Laranjeiras (sede do clube) para homenageá-lo. E ontem, no Maracanã, o antigo herói foi saudado pela torcida que tanto o amou no "Washington Day"*, uma tarde em que urnas espalhadas pelo Maraca angariaram fundos para ajudar o ídolo eterno.
Mais detalhes estão nesta bela matéria do Globo Esporte carioca. Uma matéria bonita, coisa que o GE paulista não faz desde que ficou refém da vulgaridade das piadinhas de mau gosto de seu manda-chuva, o apresentador e editor Thiago Leifert.
* A campanha para ajudar Washington a se tratar não partiu da diretoria do Flu. Partiu de um torcedor, triste e chocado com a situação de seu ídolo do passado que é ídolo para sempre.

sexta-feira, novembro 13, 2009

Um pouquinho de honestidade


Bacana descobrir bandas que ainda fazem rock simples, sincero, honesto e sem apelação (sem emolices...). Tá, os caras estão na praia faz tempo, mas só resolvi procurá-los ao folhear uma velha revista de skate, a sempre inspiradora 100%. A canção chama-se Amateur (Amador). Começa só na guitarra, acordes belos a nos acordar ou transportar a algum lugar ou estado de espírito, a voz que entra lenta, cantando na medida certa, sentindo na medida certa, a batera exata, a voz que torna bonito e vital até um ú, ú, ú de coro. Versos que têm o que dizer. A história de alguém meio perdido contada-cantada com astral, como se a solução estivesse no próprio ritmo e alegria paradoxal da melodia. E a gostosa catarse final, no rolê do personagem por uma cidade vazia, com o cara finalmente descobrindo o incrível poder dos dias que temos pela frente e o desperdício de quando não percebemos ou aproveitamos isso:
Every day is new year's eve, every night is the last night (Todo dia é ano novo, toda noite é a última noite)
Every day is new year's eve, every time is the last time (Todo dia é ano novo, cada tempo é a última vez).

Quanta concisão num só verso, quanta vida!: Every time is the last time.

segunda-feira, novembro 09, 2009

E os outros muros?


20 anos depois da queda do Muro de Berlim, muitos outros muros continuam de pé ou sendo erguidos pela vontade de opressão, controle e poder de governos e/ou de seus aliados econômicos. Mais sobre isso na bela cobertura do Jornal do Brasil:

“(...) a Queda do Muro foi tanto um símbolo do que estava ocorrendo no mundo, quanto uma realidade para a população que o atingiu. E que símbolo! A euforia inicial levou muitos a comemorarem o suposto fato de que nunca mais haveria muros para separá-los de novo... Foi um mal entendido.
Hoje, vemos que a Queda do Muro não simboliza o fim de todos os muros e divisões, mas um indício de que todos os muros podem ser destruídos. Isso foi o que aconteceu depois de 1989 na África do Sul. Mas muitos muros – tanto visíveis quanto invisíveis – foram erguidos desde 1989 e ainda estão sendo erguidos.
Os muros que mantêm oprimidas a população de Cuba e Coreia do Norte, de Burma e Irã mostram rachaduras, e vão cair. Os muros nas fronteiras dos EUA e ao redor de Israel para manter as pessoas afastadas também vão desaparecer no tempo devido. As divisões ideológicas e físicas do mundo são instáveis e mudam à medida que interesses pragmáticos também mudam.
O mundo depois da Queda do Muro tornou-se um lugar muito mais desorganizado e desorientador. Mas também é um lugar onde mais pessoas são capazes de buscar o que consideram a felicidade delas. Isso é motivo para comemorar.”
(Peter C. Pfeiffer, Diretor do Centro de Estudos Europeus da Universidade de Georgetown, EUA)

“Demolido o Muro de Berlim, seria bom recrutar os amantes da liberdade do homem, que saudaram o fim da barreira, para que outras muralhas também fossem destruídas. Podemos começar pela grande muralha que separa os Estados Unidos da América Latina, na fronteira do México. Segundo cálculos das entidades que combatem o grande muro, mais de 7 mil pessoas morreram, tentando atravessá-la. Alguns pereceram de fome, de frio ou de calor, no deserto.
Outros foram abatidos a tiros, não só pelas forças norte-americanas que patrulham a fronteira mas, também, por assassinos “voluntários”, que possuem propriedades nas proximidades da linha divisória e usam rifles com mira telescópica infravermelha.
Quando os americanos propuseram ao México a associação ao Nafta, um dos argumentos era o de que o país se desenvolveria, a ponto de absorver a mão de obra desempregada que, assim, não iria disputar empregos com os norte-americanos ao Norte. Quase todas as semanas há novos mortos ao tentar o eldorado norte-americano. A imprensa já deixou de noticiar a rotina dos que tombam ao longo da muralha, feita de alambrados, de pontões de concreto, de luzes estonteantes, de câmaras infravermelhas, de helicópteros que voam, dia e noite, caçando os migrantes, como se caçam animais.
Temos também o grande muro que separa os israelenses de palestinos. Esperemos que ele também seja destruído, para que a paz retorne aos caminhos que Cristo trilhou.
(...)
Um longo muro separa o México dos Estados Unidos, e a sua construção, queiram ou não, obedece às mesmas razões pelas quais os alemães do Leste erigiram o seu. No Rio, pretendem levantar cercas, a fim de controlar as favelas. Os novos e ricos condomínios urbanos brasileiros se fazem cercar de muralhas, protegidas eletronicamente, com sentinelas atentas e armadas, de trecho a trecho, imitando a famosa Linha Maginot, que os alemães desdenharam, ao invadir a França pela Bélgica. Estamos todos cercados de muros, circulamos nas cidades dentro de veículos – que são muralhas de aço blindado. No alto dos edifícios, em seus corredores, nos elevadores, as câmaras vigiam, como as seteiras das antigas muralhas. As muralhas mais sólidas e impenetráveis são as ocultas, que separam os homens ricos dos homens pobres.
Um longo e invisível muro – semelhante à Linha de Leibniz – passa pelas ruas, penetra as igrejas e ladeia os pontos, ou seja, as pessoas, deixando, em campos separados, por mais próximos pareçam estar, uns homens e os outros.
Recentes estudos do Ipea dividem a sociedade brasileira em três classes de renda. As duas classes inferiores são tão inferiores que é um absurdo considerá-las estatisticamente.
A terceira – que segundo o Ipea é a de renda individual mais alta – começa com o salário mínimo atual. Assim, de acordo com esse critério, uma família de quatro membros com a renda total de dois mil reais se encontra na faixa mais alta de renda. Mas, não obstante a conclusão estatística, altíssimo muro as separa da minoria de renda realmente alta no país."
(Mauro Santayana, colunista do JB).

domingo, novembro 08, 2009

A moça da Uniban


Não bastou a estupidez de muitos alunos e alguns funcionários da Uniban, que perseguiram, xingaram e encurralaram a estudante de turismo que portava um minivestido na semana passada. O crime dela? Querer assistir aula com peça tão curta. Não bastou porque hoje saiu nos jornais a “brilhante” decisão da diretoria da Uniban: decidiu expulsar a jovem porque ela teria provocado a situação, por se comportar inadequadamente e por não ter acatado instruções da faculdade por vestir, em outras vezes, peças também insinuantes. Tradução? Foi dada razão a um bando de selvagens imbecis que gritavam “puta! puta!” enquanto a moça teve que se esconder numa sala e ir embora com escolta policial.
O episódio mereceu um artigo preciso de Álvaro Pereira Junior, no caderno juvenil da Folha, o Folhateen, 2ª feira passada. Álvaro ataca, além da demência dos alunos, a falência de muitas faculdades particulares que são exemplos do que NÃO é Educação. E olha que o jornalista escreveu antes do julgamento machista e fascista da Uniban:

“Não foi o vestido, afinal nem tão curto. Foi o tamanho da multidão o que mais me impressionou nos vídeos do YouTube sobre a aluna hostilizada numa universidade paulista na semana passada. Enquanto a estudante de turismo sai da faculdade escoltada por PMs, a câmera sobe e mostra uma cena dantesca: como numa arena romana, milhares de alunos berram e gesticulam.
O mundo do ensino "universitário" privado brasileiro, especialmente à noite, é um amálgama triste de circo com zoológico.
Estão lá filhinhos de papai que poderiam estudar numa faculdade melhor, mas por burrice e/ou preguiça acabaram em alguma boca de porco, período noturno. Estão lá as pessoas de classe média/média baixa que fizeram com sacrifício os ensinos básico e médio, ganharam uma formação cheia de falhas e agora veem numa faculdade de quinta categoria e chance de um diploma superior.
Estão lá também as exceções das exceções, alunos com bom potencial, que sentam na frente, estudam, tentam se motivar -mas são solapados pela mediocridade geral do ambiente e pelas necessidades imediatas da vida real.
Eu podia arriscar aqui comentários rasos sobre psicologia de massa, podia tentar falar de moralismo e de falso moralismo. Podia tentar entender por que uma aluna de vestido mais ou menos curto fez disparar tamanha reação de ódio em cadeia.
Mas prefiro focar na cena da multidão, naquele momento animalesco. Como uma universidade pode ter tantos alunos assim? Que tipo de ensino esses caras recebem? Será que dá para chamar de ensino? Um diploma obtido desse jeito, e num lugar desses, vale tanto assim?
Perto de casa, há uma universidade desse naipe. No começo e no fim das aulas, as ruas são tomadas pela horda de estudantes. Não há, literalmente, espaço para os carros passarem. Nessa universidade, minha vizinha, existe até curso de medicina. Como dizem no Twitter: #medo.”


PS – O vestidinho da moça é inadequado para uma sala de aula? Sim, cairia melhor numa festa noturna, mas o problema maior, bem captado pelo Álvaro, não é esse. O problema é o comportamento demencial e violento dos alunos. O problema é agora também essa expulsão inacreditável.

terça-feira, novembro 03, 2009

O homem do leme


É preciso perceber e querer a beleza vida com a vontade de fotografá-la na alma. Assim faz o brother que pira na varanda da praia com aquelas linhas perfeitas de ondas além dos coqueiros. Ele dispara cliques com a mesma vontade com que remará depois ao encontro das ondas.
É preciso querer a beleza. Desejar intensamente. Acordar cedo e sonhar ver pela janela as ondas de seus sonhos. O corpo cansado da lida, agito ou sessions do dia anterior não pode te impedir de querer mais.
O leito do mar será sempre mais relaxante e inspirador que a cama e sono mais gostoso. O que é a dor muscular perto da benção marinha da missa das seis?
É preciso madrugar. Pescador de vida tem que chegar cedinho no embarcadouro. Tem que embarcar. Tem que partir.
Por isso cedinho ele olha pela janela e vê o que sonhou. Mais que isso, ele enxerga.
"Deus ajuda quem cedo madruga", o provérbio é exato, por isso só havia um único surfista lá fora tão cedo. Por isso ele pôde pintar aquelas ondas inesquecíveis com os desenhos e movimentos que há um bom tempo não conseguia rabiscar. Por isso, mesmo num dia pequenino, o vento certo da primeira hora do dia ajudou a levantar paredes maiores, mais longas e mais fortes. As paredes dos horários ideais da praia que ele conhece tão bem.
É preciso encontrar a menina dos nossos sonhos na hora em que sabemos que teremos mais chance de encontrá-la. É preciso correr atrás do encontro.
A vida e as ondas não esperam.
Mas temos as canções, sempre prontas para nos guiar, na vida e na próxima queda.
Canções como a balada do rock português que nos impele ao mar, “O Homem do Leme”:
... E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...


Um perder que é ganhar, quando estamos lá fora.
Ao leme, homens da vida, homens do mar!

quinta-feira, outubro 29, 2009

1


Número 1
São Bosco, o goleiro mais gente fina do Brasil, salvou. Lembrou um pouquinho o épico Rodolfo Rodriguez.
Coração Valente Washington, sempre perseguido por muitos estúpidos sãopaulinos de araque (que preferem o morto, traíra, pipoca e cara de paisagem morta do Borges), fez o gol mais importante do ano. O gol que nos levou para o lugar mais alto. E acreditam que os idiotas ainda xingaram o matador o segundo tempo todo?!
Multi Homen Jorge Wagner preencheu todos os espaços do campo.
A zaga foi impecável, sobretudo porque seu inventor Miranda resolveu não fazer graça, tirando aquela jogada que nos congelou a espinha ao tirar a bola de Bosco...
Rick saiu. Um minuto depois Júnior César, que o substituiu, já fez uma boa jogada. Três minutos depois, saiu o nosso gol, em jogada iniciada por JC, que resultou no escanteio que originaria o gol. Preciso dizer algo sobre o que acontece quando Rick não joga?
A contusão de Rick salvou Ricardo Gomes, que precisou tirar Jorge Wagner da lateral esquerda e com isso, Salve Jorge pôde armar o time (já que Hernanes jogava bem menos do que os jornais mostram hoje).
Como já disse o Neto na Band, deixar o São Paulo chegar é mortal.
Líder. Por algumas horas, talvez, mas líder. E o hexa líder faz os rivais tremerem.
Nada como reencontrar o sorriso e um pouco de beleza e muita emoção nesse enorme lar chamado Morumbi.

segunda-feira, outubro 26, 2009

A música que nos desperta


Qual o som que você procura em sua vida? Qual o ritmo? Qual o estilo? Por que você precisa de música para viver? Por que a música nos ajuda a viver? Por que nos sentimos tão bem com quem compartilha os estilos que mais amamos? Por que canções são trilhas perfeitas para o amor e a amizade? Por que lembramos das pessoas que um dia amamos (algumas, seguimos amando, mesmo tanto tempo depois) e lembramos delas e de exatos momentos que as amamos embalados por uma canção em especial?
Por que a música une?
Porque há grandes artistas ou amadores com um coração enorme tentando expressar os sentimentos, mensagens e sonhos mais verdadeiros em notas, batidas e palavras tão belas quanto poderosas.
O filme “O Visitante” conta a história de Walter, um professor solitário e farsante, que dá sem a menor paixão o mesmo curso e aulas há 20 anos. Um homem incapaz de se comunicar de verdade depois de perder a esposa. A esposa artista que tocava magistralmente piano. O piano que ele tenta aprender, mesmo velho, cansado e descrente de tudo. A música que ele tenta expressar, para lembrar da alegria perdida. A música que é a única paixão que lhe restou. Por isso ele tenta, desesperadamente, aprender a tocar.
Não consegue, mas porque falta alguém certo para ensiná-lo, bem diferente dos professores de piano frios que lhe dão aulas.
A oportunidade de Walter será uma conferência que o obriga a deixar a cidade em que vive e leciona, Connecticut, para voltar à Nova York que não visita há anos. Então ele volta para lá, mas encontrará seu velho apartamento de Manhattan ocupado por imigrantes clandestinos. Após o choque inicial e a partida dos ilegais, Walter perceberá no imigrante sírio Tarek algo maior que um invasor. Logo descobrirá que Tarek é um genial tocador de tambor africano. Mais que isso, descobrirá a amizade sem preço de um homem que lhe ensinará, apenas por gratidão e pureza de espírito, como tocar um outro instrumento. E aprendendo a tocar o tambor, Walter voltará a tocar sua própria vida. Talvez uma outra vida.
O Visitante não é só uma história sobre o poder curativo da música. É também um drama sobre os imigrantes ilegais e como são tratados com frieza brutal pelas leis dos EUA. Leis ainda mais duras depois do 11 de setembro. Mas pelo menos os sonhos de Tarek e seu tambor mostram como a música e a amizade pura podem ainda salvar esse mundo tão intolerante.
Peguem esse filme (DVD) e vejam como a amizade e a arte podem superar diferenças culturais tão grandes através das iluminadas interpretações de Richard Jenkins (Walter), Haaz Sleiman (Tarek) e Hiam Abbas, que faz a valente mãe de Tarek, Mouna.
Jenkins é aquele raro ator que consegue expressar os sentimentos mais profundos com um simples inclinar da cabeça, com um rápido movimento com as mãos, com um leve abrir os olhos, quando seus olhos se abrem novamente para pessoas simples que entram de repente em sua vida. Haaz nos faz acreditar em cada sorriso, palavra e canção que toca. Nos faz acreditar até as veias no poder da música. E sua mãe, com uma força e amor sem pieguices monumental em seu desejo de ficar perto do filho, é outra atriz que faz desse filme algo tão real e inspirador.
Não contarei mais respeitando a sábia lição de um dos mais humanos críticos de cinema, o americano Roger Ebert. Vejam o filme para a descobrir a mais valiosa qualidade de uma obra de ficção séria: “mostrar as personagens mudando e como elas mudam”. E aprendam também com o grande crítico brasileiro do Estadão, Luiz Carlos Merten: "Adoro quando sou atropelado por esses pequenos filmes, que me desvendam novas janelas para a realidade."
Mais que isso, O Visitante pode mudar um pouquinho nós mesmos. Quem sabe colocando mais música e amizade em nossas vidas. E quem sabe você entenderá um dos lemas desse filme: "Em um mundo com 6 bilhões de pessoas, basta uma para mudar a sua vida".


PS - Está dando um defeito na barra de Cineminha desse blog. Sempre aparecem uns vídeos de rap. Pra sair disso, cliquem no botão atualizar (as setinhas verdes do seu navegador de internet) ou deem o enter no endereço do blog de novo. Só assim verão os vídeos que realment selecionei, que em geral tem a ver com o último post.

sexta-feira, outubro 23, 2009

Twitter faz mal para o cérebro

Um bom texto - com mais de 140 caracteres, graças a Deus e para alívio de meu cérebro - bastou para cair a ficha. Um professor universitário dos EUA matou a charada ao escrever o livro The Dumbest Generation (a geração mais burra) sobre as crianças que gastam horas na internet. Na fragmentação da internet em que elas acabam não tendo contato com o que nos faz desenvolver o pensamento: o conhecimento linear. Um conhecimento que só pode ser conquistado, por exemplos, em livros.
São tantas as informações, links, sites, bobagens e baixarias na internet ao alcance da molecada que as qualidades da grande web perdem feio para a inutilidade.
O grande vilão para o professor Mark Bauerlein é a fragmentação, esse monte de caquinhos de informação e opções que a internet traz e embaralha a mente de qualquer um.
Mas o que o Twitter tem a ver com isso? Tudo, pois traz um monte de gente postando banalidades (maioria) ou dicas legais. O problema é que se formos clicar em várias dicas, vamos ficar pingando de site em site e aí nosso tempo e leitura de qualidade, linear (do começo a fim de um texto), estimulando a reflexão (do começo ao fim), vai pro saco.
Podem ter certeza: pegar um bom jornal, revista ou livro ou ver um bom filme vai fazer muito melhor ao seu cérebro do que o massacre twitteiro.
Um massacre que só faz bem aos donos do Twitter e aos marketeiros que usam esse site para aparecerem ainda mais.
Ou você acha que um dia vai dizer para alguém: - Putz, um dia entrei num link que postaram no Twitter e aquilo contribui demais com minha vida, aprendi isso..., aquilo, mudou minha vida...
Acorda, moçada.
PS - Sim, tenho Twitter e quase nunca atualizo. E não lembro de nada do que li ali. Mas lembrarei muito tempo do texto sobre a geração digital: "Conectados, multitarefa, radicais, isolados e burros". O texto, do caderno LINK, do Estadão, está aqui:
http://www.estadao.com.br/tecnologia/link/not_tec3049,0.shtm

quarta-feira, outubro 21, 2009

O melhor e o pior do Brasil


Não admiro quem apenas critica seu país e não faz nada para melhorá-lo. Piores são os que debocham do Brasil, valorizam tudo o que é estrangeiro e menosprezam o que é nosso. Acho corajosos os que vão embora tentar a vida, por oportunidades de carreira, em outro país. Só que mais bravos ainda são os que ficam e tentam a grandiosa tarefa de trabalhar por esse país e sua gente. O país e sua cidade estão cheios de problemas? Essa gente valente não quer saber. Quer é valorizar o que há de bom. Quer é semear esperança. Quer é arregaçar as mangas e fazer alguma coisa que não seja apenas para si mesmo. Quer é ficar e lutar.
Antes de me acusarem de pequeno, nesse mundo em que muitos atacam antes de esperar o raciocínio completo, afirmo que poucas coisas me ensinaram mais que viajar. Só que tudo o que aprendi e conheci de outros povos e culturas quero é utilizar aqui. Tento utilizar aqui. Tento, por exemplo, mostrar o que vi, li, escutei e senti para meus alunos. Muitos escutam. Outros muitos preferem não sair de seus mundinhos em que não cabe nem o seu país.
Pena que muitos achem a luta em casa uma perda de tempo, pois muitos jovens valorizam mais quem consegue uma bela carreira no exterior e ganha uma bolada ao invés de quem permanece no Brasa ganhando menos e sofrendo mais.
Por isso admiro tanto os que vão e voltam. Os que voltam e trazem o que aprenderam lá fora para melhorar sua pátria, seu povo, seu lar. Assim fez Raí, que poderia, após 5 anos de Paris, ter ficado lá mesmo, assumindo um belo cargo no Paris Saint-Germain e dando uma vida segura e farta em cultura e oportunidades para suas filhas. Mas ele preferiu voltar e criar uma Fundação para dar uma chance para os que não têm quase nada. Raí, que trocou Paris por São Paulo, cabe direitinho num poema em prosa de um escritor mexicano, José Emilio Pacheco: “Não entendo suas razões para amar um lugar desesperador e sem esperança. Ou talvez exista a esperança porque você está aqui mais uma vez e enche de luz outra estação sombria.”
É muito fácil meter o pau em nossa selva neurótica, agressiva, estressante e barulhenta. Mais difícil é ajudar a humanizar São Paulo.
Muito mais fácil é meter o pau na escolha do Rio para a próxima Olimpíada e dizer que só vão roubar (como se não fossem seguir roubando sem a Olimpíada).
Mais difícil é pensar em projetos e ações para aproveitar a excepcional oportunidade de nos tornamos uma nação esportiva. Uma nação com mais atletas e, isso é quase inversamente proporcional: menos jovens marginais.
Não sei cantar o hino nacional nem admiro a maioria dos brasileiros famosos de hoje. Mas fico emocionado e feliz a cada cumprimento educado e sorriso que ganho da gente humilde que anda e luta pelas ruas. A cada pobre morador de barraco que guarda um atleta abnegado, como o Jornal Nacional mostrou hoje na bela matéria sobre o menino pernambucano de 14 anos que faz lançamento de martelo, uma prova em que o Brasil não tem nenhuma tradição. Incrível a raça, vontade, paixão e esperança desse menino e seus companheiros que treinam com tênis rasgados que precisam ser preenchidos com papelão para não rasgarem nos seus pés enquanto giram o corpo violentamente para lançar o martelo.
Esse é o Brasil de verdade. Os super-heróis do povo. Pena que sejam considerados gente menor por muitos. “Você gosta de contar essas histórias de gente humilde que sofre, dá duro e chega lá, né?”, me perguntou há pouco tempo um senhor sobre os personagens de meu livro de esportes. Na hora pensei ser um elogio mas logo percebi que ele na verdade desprezava esses que ralaram tanto. Talvez por achar o esporte e o nosso povo coisas pequenas.
Errado. A verdade é que temos um povo enorme, que só precisa é ter oportunidades. Que só precisa do apoio de brasileiros de verdade. De brasileiros que podem conhecer o mundo mas não caem nessa bobagem globalizante e consumista de que somos cidadãos globais. Somos o nosso país. Depois somos mundo. E devíamos ter consciência e orgulho disso.
Quem não tem que vá pra Miami ou não nos atrapalhe com seu derrotismo ou egoísmo.
* Rainha Marta ilustra esse texto por ser uma rara estrela bem-sucedida no exterior que veste com amor e entrega a camisa de seu país e de um clube brasileiro. E ainda luta para suas companheiras de futebol feminino terem mais chances na carreira.

domingo, outubro 18, 2009

Craque é isso


Hernanes e Diego Souza nunca foram craques como a mídia que cobre o Brasileirão ou seus empresários tentam vender. O primeiro, após um ou dois jogos depois de voltar de contusão, voltou a ser o mesmo jogador que joga muito menos do que acha. Ontem, contra o Atlético, não acertou uma jogada sequer e passou a partida toda com aquele irritante e inútil efeito que tenta dar em todas as bolas, mesmo quando o passe é para o cara ao seu lado. Parece uma bailarina, sem a garra das bailarinas...
Diego Souza vinha, sim, fazendo um belo campeonato, mas é outro que pensa ser muito mais do que é. Seu forte são os chutes, a garra e a eficiência, mas quando precisa inventar espaços ou driblar, não consegue. Quando o jogo pede um craque, ele não corresponde, pois não tem capacidade para isso. Por isso, não fez nada hoje contra o Flamengo, aliás, essa é outra característica sua, a irregularidade e os jogos em que desaparece.
O único craque do Brasileirão tem 37 anos e lidera o surpreendente Flamengo. Petkovic fez um golaço hoje. Mesmo sem velocidade, seu domínio de bola, habilidade e técnica são tão grandes ele invadiu a área do Palmeiras parecendo voar. Não estava, mas como é craque, penetrou na área, driblou e chutou rapidamente para fazer 1 a 0. Quem voa com Pet é apenas a bola... E como ela voou, cheia de veneno, no gol olímpico que Pet aprontou em cima de terrível falha da zaga verde e não de Marcos.
Falando em falha, ela surgiu também no Morumbi, ontem, quando o falso craque da zaga, Miranda, foi iludido por Diego Tardelli, logo a um minuto de jogo e deu uma voadora no excepcional atacante do Atlético. Falta que originou o gol do próprio Tardelli, em nova falha de Miranda!, e isso a um minuto de jogo! E Tardelli, que joga mais que todos os atacantes do São Paulo juntos, podia ter feito outros. Talvez tenha ficado com dó do time que o vendeu a preço de banana (1 milhão...). Santa estupidez: vender um jovem talento (rebelde, mas craque!) e ainda pedir tão pouco.
Falando em estupidez, Ricardo Gomes ouviu os pedidos da lamentável torcida sãopaulina e trocou no intervalo o grosso, mas valente Washington (que tinha chutado uma na trave e criado e perdido outras chances) pelo indolente, covarde e inútil Borges. Ele mesmo, o Borges que se esconde sempre entre os zagueiros adversários, para fugir do pau e da missão de jogar futebol, coisa que ele simplesmente não sabe fazer.
Que inveja do Flamengo e seu craque! Que inveja do futebol moderno de Tardelli!
Acorda, São Paulo, a Libertadores logo virará sonho enquanto Borges continuar a ter mais chances que o Grosso que não pipoca. Enquanto Miranda continuar a achar que é o Beckenbauer. Enquanto Rick continuar a semear seu jogo cheio de passes errados bisonhos. Enquanto Hernanes se achar Falcão, o que não é nem em sonho. Tá mais, com a sua filosofia ridícula (só o idiota do Globo Esporte pra dar moral pras besteiras que o Hernanes fala) para personagem de comédia de mau gosto.
Jason is dead. E perdão, Jason, sei que é um desrespeito tentar assustar alguém com um morto enterrado de costas como o Borges.

domingo, outubro 11, 2009

Por Amor


Não há, no mundo todo, um povo que ame mais o futebol que o argentino. Por isso, para eles, ficar fora da Copa do Mundo seria uma tragédia tão dolorosa e amarga. O argentino respira futebol todos os dias, nas charlas (conversas) apaixonadas nos cafés; nos jornais que devoram nos mesmos cafés, nos balcões; nos meninos que ainda encontram muitos campinhos mesmo em uma grande metrópole como Buenos Aires; e, claro, nos estádios que eles transformam em arenas e espetáculos arrepiantes através de seus cânticos criativos, belos e emocionados. Cânticos de apoio e amor aos seus clubes que duram toda a duração das partidas.
Voltando ao tema Copa do Mundo, o que aconteceu ontem em Buenos Aires só não emocionou aqueles que não amam, de verdade, o futebol. A sofrida Argentina, mal escalada e treinada, sim, por Maradona, em toda as Eliminatórias para a Copa, sofria com um pobre 1 a 0 em cima do último colocado, o Peru. Sofria até essa vitória parcial virar drama quando, debaixo de uma tempestade de filme de terror, os peruanos empataram o jogo aos 45 minutos do 2º tempo. O empate deixava os donos da casa em situação terrível na luta para classificar-se à Copa. Mas eis que no último minutos dos três de desconto, aos 48 minutos, na pressão pelo gol salvador, a bola espirrada sobra justo nos pés de um centroavante veterano, folclórico, ridicularizado por muitos (um dia perdeu três pênaltis num jogo só) e amado por outros tantos. Amado por mais da metade do país, pois é ídolo histórico do time do povo, o Boca Juniors. A bola bateu em todo mundo e sobrou para o grandalhão grosso mas valente, corajoso, bravo, e desde ontem, imortal, Martin Palermo.
Imortal porque Palermo estava no lugar certo para empurrar a bola ao fundo das redes, fazendo o talvez gol mais dramático e esperado da história do futebol argentino. Na sequência, estádio e país inteiro vindo abaixo, o também ridicularizado Maradona (até por seu próprio povo, quanta ingratidão), saiu correndo feito louco e mergulhou num peixinho sensacional no gramado inundado, deslizando metros e metros de amor àquela camisa que ele tornou mítica em seus tempos de jogador.
Podem falar o que quiserem de Diego, acusá-lo de tudo, menos de falta de sinceridade, paixão e emoções verdadeiras. A explosão daquele que já foi Diós parecia selar a épica vitória argentina mas, incrível!, na retomada do jogo, um peruano chutou do meio de campo e acertou o travessão dos argentinos!, após um leve desvio do arqueiro. Escanteio e só depois dele a seleção da casa se salvou.
Salvou-se por ontem, porque ainda virá uma batalha muito maior, na Montevidéu do único povo que tem motivos fortes para odiarem os argentinos: os uruguaios, que sempre foram tão sacaneados e desprezados pelo país de Diego. O Uruguai de outros dois monumentais Diegos, o zagueiro Lugano, ex-São Paulo e o atacante Forlán, que realizou o outro milagre de ontem: a vitória celeste, fora de casa, contra o Equador, de virada, com gol decisivo convertido de pênalti aos 47 do 2o tempo...
Diferente dos uruguaios, nós, brasileiros, não temos motivos para entrar na onda dos tolos ou ignorantes que falam mal dos argentinos sem jamais terem colocado os pés na terra dos nossos, sim, hermanos. Sem jamais terem sentido e percebido como é profunda a loucura do argentino pelo futebol. Sem jamais terem conhecido um povo que, diferente de nós, luta por seus direitos, pressiona governos e enfrenta a polícia para defenderem preços justos e condições de vida decentes. Sem jamais terem percebido como, sim, os argentinos gostam dos brasileiros e de nossa cultura. Basta um dia na terra deles para percebermos, seja num banco de táxi, num café ou numa balada, como eles adoram elogiar nossos craques, praias, música e, claro, mulheres.
E, diferente de muitas estrelas do futebol brasileiro - que vestem a camisa da seleção sem entrega, comprometimento e raça (Robinho?) – os argentinos defendem sua camisa celeste e branca com uma dedicação e amor sinceros. Porque os jogadores argentinos bem-sucedidos não esquecem suas origens humildes. Não esquecem que um dia foram um pibe (menino) torcendo por um ídolo, um clube e um país.
Por isso tudo, por amor ao futebol de toque e alma; à maravilhosa cultura (o tango, a literatura e jornalismo riquíssimos, o cinema do cotidiano emocionante, por J.J. Campanella e Darín), culinária (carne, alfajores!), vinhos e até cerveja (Quilmes, leve, gostosa, a única que não m dá ressaca!); por respeito à garra e consciência política e social dos hermanos, pude dormir ontem com um sorrisão enorme e coração feliz porque o amor ao futebol venceu ontem uma das partidas mais dramáticas já realizadas. Fiquem então com a narração dos gols de ontem, na voz apaixonada de um locutor local.
PS - Engole essa, Thiago Leifert!, mala que vive debochando dos argentinos, não entende nada de futebol, muito menos de amor ao futebol, e por isso acabou com o ex-melhor noticiário esportivo da TV brasileira, o Globo Esporte.


terça-feira, outubro 06, 2009

Adeus, Voz da América


Calou-se anteontem a grande voz da América Latina, a argentina Mercedes Sosa. Calou-se seu canto de protesto, tão importante nos anos das ditaduras em seu país e quase toda a América. Calou-se também seu canto pelos desfavorecidos e oprimidos. Mas viverá sempre a voz que era uma força irrefreável pela vida, justiça, beleza e liberdade, pois Mercedes é parte fundamental da alma de tantos povos e lutas. Ela era o coração que cantava. E seguirá cantando enquanto resistir algo encantado e vital chamado memória.

domingo, outubro 04, 2009

A grande chance


A Olimpíada no Rio de Janeiro é uma oportunidade fantástica e única para o Brasil se transformar não apenas esportivamente mas social e economicamente também. Mas isso só acontecerá se os homens do Rio 2016 pensarem nos Jogos não apenas como um evento impecável, de instalações esportivas maravilhosas, mas depois abandonadas e em soluções viárias meia-boca – como ocorreu no Pan 2007, em que tiveram a coragem de chamar uma linha especial de ônibus com poucas paradas de “metrô de superfície”.
É hora do Rio realmente transformar-se e não apenas ganhar uma maquiagem, como ocorreu no Pan. É hora de lutar mesmo pela diminuição da poluição na Baía da Guanabara; revitalizar toda a zona deteriorada do Porto, ganhando-a para o Turismo e serviços – como fez Barcelona´92 - e mudar o pobre sistema viário e de tráfego da cidade com, no mínimo, a sempre prometida e nunca executada ampliação do metrô da zona sul até a Barra. Só assim o Rio será pujante de novo e deixará de viver apenas de suas paisagens maravilhosas, carnaval e turismo.
Quanto ao esporte, o governo brasileiro, que injetará a maioria dos bilhões em obras de infra-estrutura dos Jogos, precisa também perceber que só investindo na base - no esporte desde a escola e em projetos esportivo-sociais – é que poderemos nos tornar uma potência olímpica e fazer bonito em 2016. Torcemos para que os erros de Pequim (gastamos uma fortuna na preparação de nossos atletas de ponta e fizemos uma campanha fraquíssima) não se repitam. Só botando grana lá embaixo, nas crianças e adolescentes que praticam esportes, poderemos dar nosso salto esportivo. Só assim poderemos escapar da sina de país de poucas modalidades de sucesso em Olimpíadas, como o vôlei, judô e iatismo, e outros brilhos isolados graças a raros fenômenos como um César Cielo.
Não podemos seguir apostando no fracassado modelo (em número de medalhas) do COB (Comitê Olímpico Brasileiro), que recebe uma bolada das loterias do governo e repassa essa fortuna para as confederações esportivas, em vez do dinheiro chegar a quem realmente revela e apoia atletas nesse país, os clubes formadores.
É hora de Nuzman, presidente do COB - grande responsável pela vinda da Olimpíada ao Rio, junto do empenhado governo brasileiro – repassar um pouco de seu poder e recursos para os clubes e, por que não, para programas de iniciação esportiva.
Lula emocionou o país em sua brilhante e apaixonada defesa do Rio 2016 em Copenhague. Que agora trabalhe para realmente merecermos o maior evento do planeta, que não merecemos por nossa falta de uma política esportiva ampla e, sobretudo, falta de transparência dessa política, como ficou provado no escandaloso aumento de orçamento em cinco vezes (custo final de 5 bilhões) do Pan 2007, além de inúmeras denúncias de irregularidades nas licitações.
O duro será conter esses caminhos nebulosos do dinheiro que entrará visto que os cabeças da Olimpíada são os mesmos do Pan...
Rezemos então, para não perdermos a chance de mudar o Rio e o Brasil com algo tão grandioso e promissor chamado Jogos Olímpicos. E há ainda algo talvez ainda mais belo e humano, os Jogos Paraolímpicos, que são outra oportunidade: de propiciarmos uma inclusão decente de nossos portadores de necessidades especiais, coisa de que também estamos muito distantes.
PS – Já é notório que a maior parte dos bilhões necessários para as obras do Rio 2016 virá do governo. Me pergunto onde está a iniciativa privada nesse caso? Os empresários brasileiros não se interessam em melhorar o país? Que eles também abracem essa oportunidade apoiando nossos atletas, desde a infância, e ajudando a fomentar um país esportivo, coisa que não existe num Brasil onde apenas 16% de nossas escolas públicas possuem uma quadra poliesportiva.

quinta-feira, outubro 01, 2009

O mestre dos instantes


Ele caçava as imagens mais difíceis de serem capturadas, as do cotidiano. As fotografias que precisavam ser percebidas e clicadas com a velocidade e serenidade (como é possível aliar coisas tão díspares?) de quem olha e enxerga toda a vida dos pequenos atos e gestos. Pequenos flashes simples do dia-a-dia urbano pacato ou da loucura da guerra. A guerra onde foi vizinho e testemunha, tantas vezes, da morte.
O francês Henri Cartier-Bresson foi o mestre maior dos instantes decisivos. Fotografava como um arqueiro zen a lançar suas flechas precisas e por isso, sua receita da foto perfeita era “colocar na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração”, como ele mesmo afirmou. O coração que derramava-se de cada simples e mágica imagem que ele perseguia nas ruas de sua Paris e mundo todo. Mundo porque, mais que fotografar, Bresson tinha sede de viver e defender seus ideais. Por isso serviu o exército de seu país na II Guerra Mundial, foi capturado, fugiu e então lutou na Resistência contra os nazistas que ocupavam a França. Por isso, finda a guerra, rodou o planeta fazendo excepcionais trabalhos de fotorreportagem em diversos conflitos. Depois criou, em 1947, junto de outros jovens e geniais colegas, como Robert Capa, a inesquecível agência Magnum, nome mágico, verdadeiro ícone do jornalismo, humanismo, arte e fotografia mundial.
Uma imperdível mostra-restrospectiva de Bresson - com retratos que fez de artistas e intelectuais famosos do passado e as poesias do instante que citei aqui - está sendo realizada no SESC Pinheiros até 20 de novembro.
Oportunidade imperdível para amantes da fotografia e da humanidade. E aprendizes talentosas e sensíveis como minha ex-aluna querida, Rafinha. Ela um dia registrou, numa praia paulista, esse instante poderoso que é a síntese de seu próprio país:

terça-feira, setembro 29, 2009

Miniprograminha de música


Brincadeira nova que eu divido com vocês. Fiz um curso rápido (e de graça) de podcast no SESC e aprendi a fazer um pouco de rádio para a net. Desculpem o amadorismo, mas deem uma escutada e sugiram outras boas canções sobre esse primeiro programa em que tentarei falar da vida através de canções.
É só apertar o play.

O fim do passeio


Quantos ainda passeiam de verdade nas grandes cidades, a pé ou de bicicleta, pensando na vida ou conversando com um amigo ou cara metade?
Passear não é ir no shopping, ver lojas ou caminhar ultra-acelerado para manter a forma, o que transforma esse ato em obrigação ou malhação.
Passear não é colocar um headphone nos ouvidos e sair por aí sem prestar atenção ou pensar em nada.
Passear é permitir-se jogar tempo e conversa fora contra a ditadura opressora do time is money. É um ato de rebeldia contra o “tempo é dinheiro” com que seu chefe tira seu sangue e horas extras (ou você, que não respeita o horário de seus funcionários...)
Pena que passear, para muitos escravos ou carrascos do trabalho e lucro a qualquer preço com prazos cada vez mais “pra ontem”, é coisa de vagabundos.
Pena que dar uma volta com alguém importante é ato cada vez mais raro, a não ser nos esporádicos encontros de domingo em algum parque ultra-lotado de São Paulo nesses dias.
Pena que uma das maravilhas propiciadas pelo caminhar tranquilo cidade afora - a dedicação e atenção que damos ao outro - é soterrada pela pressa, trênsito, neurose e competitividade exacerbada. Assim a vida cotidiana não nos deixa ver que “as horas que não se podem dedicar ao passeio ou à amizade são horas que já não se dedicam ao amor próprio”, afirmou o escritor espanhol Rafael Argullo. Sim, não passear também joga contra nós porque deixamos de ficar um tempo essencial com o melhor de nós mesmos, que aflora muito enquanto passeamos.
O espanhol Argullo dá um belo exemplo, de uma habitual volta a pé por sua Barcelona:

“Esta manhã estava passeando com um amigo debaixo deste sol magnífico e estávamos a uma hora conversando, passeando tranquilamente, por uma das poucas ruas que isso é possível no centro de Barcelona, porque ainda não teve êxito comercial... Encontramos um terceiro amigo, que há muito tempo não nos via. Se aproximou de nós e disse: “Vocês ainda têm tempo de ir caminhando tranquilamente pela cidade". Eu lhe respondi que no momento em que não tem mais tempo para fazer isso, é melhor deixar de viver, porque já abandonou previamente a vida... Há algo nestes momentos de calma caminhada que é profundamente revolucionário: a dedicação, por exemplo, que damos à comida, quando tem tempo para saborear o alimento em vez de enguli-lo. Essa dedicação que significa a sensualidade e o erotismo contra o fast food da pornografía. A dedicação que significa a cultura frente à falsa religião dos bestsellers ... A atenção que significa um filme de estrutura clássica frente aos jogos artificiais dos efeitos especiais. A atenção que significa uma conversa com um amigo frente a uma espécie de comunicação com símbolos, puramente utilitária, em que degeneramos (MSN? Orkut, eu pergunto). Passear, mesmo sendo difícil, segue sendo algo reivindicável porque é a base de nossa capacidade de pensar e se expressar para os outros. Portanto, creio que o ritmo mais lento é profundamente revolucionário... Poderíamos exaltar a lentidão, a dedicação, a capacidade de atravessar a complexidade da vida, acossados como estamos por todos os lados pelo fast-food.”
Claro que passear é difícil demais em megalópolis mega-apinhadas de gente e carros como São Paulo, mas ainda é possível. Tenho procurado pessoas importantes para isso, na hora do almoço ou depois do fim do expediente, e passeamos pela Vida Madalena ou calçadas largas da Av. Paulista. Mas tenho saudade mesmo é da adolescência em que tinha tempo para visitar os amigos pedalando com minha bicicleta. E, sobretudo, das horas em que passava com o maior amigo pensando na vida, nos sonhos e nas nossas musas. Bom, mas a gente adapta isso, e há pouco tempo costumava fazer reuniões de pauta com meu editor na revista de surfe dando um longo rolê por ruas pacatas de um bairro ainda especial chamado Vila Mariana. A Vila Mariana que não tem a pose da Madalena. Andando, pensando, trocando ideias e sendo iluminados por belas moças ou senhores educados e simpáticos, planejamos várias resportagens. Incrível como naquelas ruas a arquitetura das matérias saía prontinha, nem precisávamos passar para o papel depois, é ou não é, Edu?
E claro, é preciso celebrar e abrir uma champanhe se você ainda passeia, de mãos dadas, com sua namorada ou esposa. De mãos dadas e sem a agressão do celular no bolso. Ou sua companheira não merece sua atenção total e exclusiva?
E então, alguém aí quer passear de verdade? Alguém aí quer fazer um saudável balanço da vida ou planos para o futuro? Chega mais que sei rotas perfeitas para isso, e temperadas ainda com paradinhas em cafés e padarias sem frescura e pagação. Vai passear, moçada!
PS – Não falei dos passeios com os cães, não dá pra pensar muito com o que eles aprontam, né, mas a loucura que eles têm para dar uma volta explica um pouco a importância de passear para nós também.

segunda-feira, setembro 28, 2009

Isso é atacante


Pra variar ele acabou com a gente. Fez um ("obrigado", Papai Noel André Dias e Coelhinho da Páscoa Jean, que perdeu a bola que originou o contrataque alvinegro), fez a jogada do gol injustamente anulado de Dentinho (lance normal com Renato Silva, que perdeu pra força de Ronaldo) e só não fez o gol da vitória deles porque Rick conseguiu consertar a burrada que ele mesmo causou, perdendo a bola ao sair jogando. Aliás, se fizermos as contas de quantos gols o São Paulo já tomou em saídas de bola erradas de Rick e Jorge Wagner, seria uma barbaridade de pontos perdidos só por culpa desses dois. E agora o Jean entra na lista.
Ronaldo é atacante.
Bórges é o bobo de uma jogada só, o pivô de costas. Ops, perdão, João Bobo, porque você não cai à toa como o Borges. E quem vai explicar pra esse cara que não joga futsal, onde o pivô costuma funcionar bem porque o campo é menor, o jogo é mais rápido e os companheiros estão mais próximos? E perfeito o comentário sobre a atuação de Borges no Jornal da Tarde: "deve ter batido o recorde mundial de impedimentos". É isso, além de ter uma jogada só, o cara ainda fica largado na banheira, típico de jogador sem garra.
Washington é atacante. Grosso, sim, mas matador também. E tem garra, algo que simplesmente não existe em Borges. Foi expulso por rigor demais do juiz fraco querendo aparecer.
Dagoberto voltou, de novo, ao seu jogo pipoca inofensivo. E quem garante que ele faria o gol naquele impedimento mal anulado? E tomou, pra variar amarelo bobo e desfalcará o time contra o Naútico.
O São Paulo cada vez mais manda o hepta pra longe. Porque tem uma defesa que vacila na hora h, um meio-campo que não cria (exceto Hernanes, que fez grande partida ontem antes de cansar), um ala direito incapaz de acertar um cruzamento e um atacante titular inofensivo. E Ricardo está acovardando o time sem Marlos.
Título cada vez mais verde. Ainda mais porque Borges será o único atacante na próxima rodada. Se Ricardo nao entrar com Marlos para ajudá-lo, não ganhamos nunca. Se entrar com o Hugo, mostrará de vez a covardia cada vez mais exposta.

sexta-feira, setembro 25, 2009

Tatuagens na pele e alma



Um livro sobre os efeitos que o surf produz em quem tem o privilégio de deslizar sobre as águas. É isto o que oferece “O Sal na Terra”, do cientista político e surfista português (colunista da Surf Portugal e do blog Ondas), Pedro Adão e Silva. “O sal da água do surf dá sabor à vida mas é também, o sal que trazemos da experiência concreta de surfar que nos ajuda a olhar para as coisas quotidianas de um outro modo”. Aqui surge a beleza e profundidade deste livro: o “outro modo” de Pedro olhar para as coisas é ver – sobretudo, sentir - conexões entre cinema, música, literatura, HQ, pesca, futebol e outras artes com o surf e o mar. Um exemplo é a semelhança que encontra entre cowboys e surfistas, “na vontade de busca nos confundimos com os heróis dos westerns: procuramos uma mitificada onda perfeita e vivemos uma insatisfação permanente quando parece que estamos prestes a encontrá-la...”
Na cultura, em que mergulha com a sede do privilégio dos dias ao mar, Pedro vê inspirações para o surf ou para aguentar os dias sem ondas: ´Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto ao mar´, escreveu um dia Sophia (de Mello Breyner Andresen, poeta portuguesa). A mim, a sua beleza pura serve-me também para suportar os momentos que não vivo junto ao mar e em que não posso usufruir da ´felicidade máxima de tomar banho entre rochedos´. Nas ondas do mar. A poesia não muda o mundo, nem muito menos faz de nós pessoas melhores. Serve apenas para ajudar a viver. E isso, como as ondas que apanhamos no surf, é tudo.”
As palavras de Pedro Adão são sprays de mar e cultura banhando os surfistas que sabem também surfar a vida. Um livro perfeito para imaginarmos a próxima session e uma vida melhor - mais próxima das alegrias, liberdades e purificação que as ondas nos proporcionam: “Quando visto o fato (roupa de neoprene) e pego na prancha já dentro de água, mas ainda não deitado na prancha, dou os primeiros passos antes das primeiras espumas... costumo sentir um desligar cujo primeiro sinal é ouvir um eco da minha voz. Nada disto é misticismo, pelo contrário, é a razão que fica pura, compartimentada apenas por água. Em poucos sítios se pensa com uma clareza tão absoluta e tão pouco censurada.”

* O livro pode ser comprado no site http://www.bertrand.pt/catalogo/detalhes_produto.php?id=185830