Quarta-feira, Dezembro 16, 2009

Homens que desabam de montanhas


Greg Long, vencedor do histórico Eddie. Waimea.9/12/09
“... no mar que não nos dá coisa alguma a não ser pancadas e por vezes uma oportunidade de sentirmos nossa própria força”, assim escreveu Joseph Conrad no clássico "Juventude". Sim, ele só sabia do mar como marinheiro e escritor a enfrentar o alto mar, não como surfista. Não compreendia tudo que o oceano poderia oferecer na arrebentação. Mas sobre a força ele tinha razão pois, quando o mar cresce, é atrás de algo maior que encaramos o grito do oceano.
A sexta-feira chuvosa de duas semanas atrás não convidava. Mas sabíamos que elas estariam lá. Elas, as ondas. Mais que isso, algo maior, não só fisicamente falando. Algo chamado Ondas Grandes. Havia desistido, mas no último momento disse ao brother, “vamo lá, se estiver insurfável (nosso pico costuma virar uma maçaroca gigante sem boa formação logo que entram as frentes frias) pelo menos a gente toma umas vacas enormes”, falei. Mal sabia que a brincadeira das vacas seria profética...
Sabadão. Choveu a viagem toda mas ventava fraco, bom sinal para a formação de nossa praia, muito aberta, desprotegida dos ventos fortes. Chegando lá, a chuva também havia parado. Uma leve olhada e, coisa rara, a arrebentação não parecia muito complicada.
Não parecia... A remada foi longa, sem parar, braços, ombros e costas no limite. O brother que tenta voltar à velha forma toma uma série toda na cabeça, mas chega lá.
Chega lá atrás. E tem a visão mágica maior para qualquer amante das ondas e do mar: vê as morras, as montanhas. Sim, para surfistas profissionais seria apenas um bom dia de ondas médias, no máximo dois metros. Para nós era o Himalaia. A cadeia montanhosa toda, pois as séries não paravam de rugir, e cada onda despencava como poucas vezes havia visto em nossa praia: desabava de repente, triângulos projetando-se como a mandíbula de um tubarão dando o bote. As presas eram nós... Mas antes de sermos atacados, fizemos o que qualquer privilegiado duma session poderosa dessa faz: rimos, maravilhados com a fúria e altura das bestas líquidas; rimos especialmente da imensa cortina-spray de água que nos lavava a cabeça das morras arrebentando enquanto escapávamos delas remando mais para o fundo. Ríamos como se orássemos ao grande deus dos mares, ao grande Deus que fez tudo isso. Ríamos em comunhão com o máximo em emoção e beleza que a vida e a natureza podem oferecer. Ríamos de alegria por estarmos lá. Ríamos porque éramos loucos caçadores de uma caça aquém de nossas pranchas. Loucos porque aqueles “rifles” 6´2 mostravam-se pequenos para a magnitude da caça e nossas habilidades de poucos recursos.
Logo um ria do outro...
A primeira montanha me atirou feito faca, horizontalmente, fisgando as costas de um jeito que achei que a session tinha acabado. Sorte que logo a dor passou, só um susto.
A segunda montanha eu descia bem, na emoção do drop vertical, o possível com aquela pranchinha pequena, até que paguei o preço. A pequenina não aguentou a fúria da vaca que logo veio, sendo catapultada feito estilingue comigo, e isso ainda arrebentou a cordinha.
Poderia ter ficado nervoso, mas o amor do surfista por sua prancha faz milagres. Só pensava em como estaria minha menina, minha prancha, que desaparecera e devia estar sendo devorada pela série que explodiu na sequência, sobre ela e minha cabeça. Mas logo passou e pude nadar forte. Em poucos minutos os pés já tatearam a areia, mas ainda não a via.
Mais um pouco e vi a pequena lá na areia, quase fincada na areia.
Mais um pouco e apanhei-a nos braços e, sorte, sem ferimentos em sua face e contornos de fibra.
Caminhando na areia, voltei os olhos para o mar e vi os dois amigos sendo engolidos pela série explodindo forte, mais risadas...
Não tinha alternativa, corri pro carro e bora comprar outra cordinha. Correria e em menos de 20 minutos tava de volta na praia. Passar a arrebentação dura pela segunda vez foi mole, pois a sede de aproveitar aquele marzão de gala torna tudo possível.
Bora então para alguns drops bem-sucedidos e outras série de caldos nervosos pra alegria do brother que ria sem parar.
Rimos mais um bocado, mas não só de sacanagem. Era a alegria pura que as ondas grandes nos proporcionavam. A alegria de experimentar a magnitude da natureza. A alegria de, na grande festa, sermos convidados de honra. Sim, de honra, porque a praia de nosso coração nos prega peças mas sabe também nos oferecer presentes inesquecíveis como algumas ondas que valem semanas todas longe do mar.
Que todos nós lembremos, fora do mar, do desenho mais bonito, o sorriso escancarado em nossas almas quando em sessions de gala.
PS – Enquanto experimentávamos nosso big saturday modesto, Waimea quebrava histórico... Quem sabe surfávamos o último grãozinho do swell havaiano... (risos!)

Terça-feira, Dezembro 15, 2009

Imperdível

Não dá para perder o Profissão Repórter de hoje, 3a. feira, 15/12, na Globo. A equipe de Caco Barcellos, reforçada pela melhor jornalista (de texto) do país, Eliane Brum, entra na Enfermaria de Cuidados Paliativos do Hospital do Servidor Estadual, em São Paulo. Ali, médicos e enfermeiros lutam para tornar menos sofridos – e mais felizes – aqueles que podem ser os últimos dias de pacientes terminais.

Terça-feira, Dezembro 08, 2009

Big Monday. A besta acordou


O swell da década atingiu o Hawaii ontem, 7 de dezembro, especialmente na mítica baía de Waimea. O local Shane Dorian, um dos maiores big riders da história, disse que foram as maiores ondas que pegou na remada na vida, cerca de 25 pés havaianos (muito mais pés na nossa medida). O ex-tricampeão mundial, o australiano Tom Carroll, tomou uma bomba que quebrou sua perna e cotovelo. Com muita valentia ele conseguiu nadar até a areia. Confiram as bestas desse dia histórico. E hoje está rolando o Eddie Aikau, na mesma Waimea.

Mãos e Corações Pinheirenses


Como vencer o favorito Osasco – dez vezes campeão paulista - e suas sete jogadoras de seleção brasileira, quatro delas campeãs olímpicas? A resposta foram as mãos cheias de coração das guerreiras do vôlei feminino do Pinheiros/Mackenzie. Guerreiras vibrantes e explosivas a cada jogada. Guerreiras conscientes, tão bem armadas e lideradas pelo talento e equilíbrio da capitã e levantadora Fabíola*, grande regente do Pinheiros campeão paulista de vôlei de 2009. Guerreiras tão bem treinadas e motivadas pelo treinador Paulo Coco, que soube marcar para suas atletas as principais ações ofensivas do Osasco, como as quase indefensáveis pancadas violentíssimas de Natália, as cortadas de força e técnica de Jaqueline e Sassá e o ataque de meio lá do alto de Thaísa e Adenízia.
Indefensáveis se não estivesse do outro lado o corajoso e eficiente bloqueio azul puxado pela garra da central Bárbara.
Indefensáveis não estivesse do outro lado os mergulhos e verdadeiros salvamentos da líbero Verê.
Indefensáveis se a maioria dos bombardeios do Osasco não fossem amortecidos pelas mãos azuis. Amortecimento que dava chances de um bom passe e tempo para a maestria e visão de Fabíola para servir com perfeição suas atacantes.
Atacantes que arrebentaram o sólido bloqueio e marcação do Osasco como a tão rápida quanto furiosa ponteira Fernanda Garay, grande destaque das finais.
Atacantes como a porradaria enfiada pela ponteira Ju Costa (substituída por Cibele no último jogo) e as bolas precisas atacadas sem medo pela oposta Lia nos momentos mais difíceis.
E houve ainda os ataques de meio de rede de Bárbara, que cresceu muito no último e decisivo jogo, e Lígia.
Foram três jogos duríssimos que deram o segundo título paulista ao Pinheiros (1999 e 2009) e elevaram as mulheres do Pinheiros/Mackenzie à condição de uma das forças maiores na próxima Superliga. A sofrida derrota inicial em casa (3 sets a 2, perdendo de virada) foi compensada pelos impecáveis 3 a 0 aplicados em plena quadra do Osasco, na 2ª partida. Finalmente, na noite de 2ª feira, as pinheirenses ficaram muitas vezes atrás no placar mas viraram na raça (como no 15 a 20 no quatro e decisivo set) e fecharam em 3 sets a 1 (21-25, 25-23, 27-25 e 25-22) para delírio da torcida que lotou o ginásio do clube da capital.
A raça que foi tão bem destacada pelo treinador adversário, Luizomar Moura e pelos comentaristas da Sportv, que passou ao vivo as finais.
A raça que orgulhou o Pinheiros nessa inesquecível noite de 6 de dezembro.
Que seja o começo de uma história ainda maior, como uma sonhada conquista do Brasil...

* MOMENTO MÁGICO
O símbolo do Pinheiros/Mackenzie campeão foi uma genial jogada executada pela bela Fabíola na 2ª partida da decisão. Após receber um passe complicadíssimo, os dedos mágicos e a incrível visão e serenidade dessa levantadora-pianista, conseguiram fazer um levantamento de costas para um ataque e ponto decisivo da equipe azul. Ali ficou claro que o Pinheiros possuía uma qualidade vital para um grande campeão: a superação e o talento de uma levantadora - posição-chave e cérebro de uma equipe de vôlei – excepcional.
PS - Não entendo porque a Globo sabota a própria Globo. As finais do Paulista de vôlei foram transmitidas pelo Sportv e hoje o Globo Esporte exibiu uma "incrível e longa" reportagem de 30 segundos sobre o título do Pinheiros... E na sequência, reportagem sobre s Superliga, com entrevistas de treinos, falando da Superliga, com... as derrotadas do Osasco. Nadinha de entrevistas com as campeãs do Pinheiros... É brincadeira!!!

Segunda-feira, Dezembro 07, 2009

O poder rubro-negro


O Flamengo deve o Hexa à três peças mais poderosas. A primeira, como bem destacou o grande ídolo da equipe, Petkovic, é Andrade. No meio da festa, quando poderia se autovangloriar como o nome maior do hexa, o ainda genial Pet (37 anos!) foi grande e digno: “Andrade é o herói maior”, disse aos microfones das rádios e redes de TV. Sim, um herói pacato, que superou a desconfiança de ser um mero treinador interino para armar uma equipe que jogou o futebol mais bem jogado e vistoso desse Brasileirão (*). Sim, Andrade, o homem calado, o como o bom mineiro que sempre foi, sem a pose e/ou prepotência de nomes mais badalados como Luxemburgo ou Muricy, conduziu o Flamengo à uma incrível recuperação no 2º turno. E fez sua equipe vacilar pouco, menos que Palmeiras e São Paulo, passando ao seus comandados o equilíbrio que sempre teve. Será que agora seu bom goleiro mas arrogante e desconhecedor da própria história do clube, Bruno, terá coragem de ofender seu treinador, como fez no início de trabalho de Andrade? (Bruno disse para ele, “Quem é você? Nunca ganhou nada”. O “nada” do ignorante goleiro era na verdade tudo: estaduais, brasileiros, Libertadores e Mundial). E agora, acrescente-se ao currículo de Andrade o fato de ser o primeiro negro a ser campeão brasileiro como treinador.
Depois de Andrade, temos Adriano. O baladeiro, faltador de treinos e artilheiro mimado foi tolerado por Andrade para ser o nome mais temido do ataque rubro-negro, com seus gols e marcadores dominados, deixando companheiros livres.
Finalmente, mais que Adriano quem brilhou foi o sérvio mais carioca do planeta, Petkovic, autor de gols decisivos como na vitória contra o Palmeiras em pleno parque Antártica, e de inúmeros escanteios que resultaram em gols como na própria decisão de ontem, contra o Grêmio, em que os dois gols saíram de suas cobranças venenosas. Mais que isso, Pet foi a certeza de que ainda é possível vencer com um futebol refinado, de habilidade, dribles e tapas precisos na bola. Grande craque do campeonato, o sérvio foi, dentro de campo, um verdadeiro alívio para quem preza o futebol bem jogado, com arte. Uma arte que os cegos viram no futebol de breves repentes mas mais para a força de Diego Souza, que muitos jornalistas pró-Palmeiras tentaram vender como o craque do campeonato antes dos verdes despencarem ladeira abaixo.
Há outras qualidades no Fla Hexa, claro, como o meio-campo que rola a bola de pé em pé, alas que apoiam bem (mas marcam mal) e uma zaga segura, mas o peso de Andrade, Pet e Adriano é bem superior.
Hexa merecido.
* Quem jogou o futebol mais belo do Brasileirão, mas apenas em sua reta final, foi o inacreditável Fluminense de Coca, Maicon e Fred; basta rever suas belas tabelas e gols.
PS – Não poderia ser mais justo o fiasco verde: perdeu a vaga na Libertadores com a apatia costumeira de seus falsos craques contra o Botafogo, Vagner Love e Diego Souza e pelo gol de Kleber, do Cruzeiro, contra o Santos. Justo Kleber, seu ex-jogador e fiel amigo da Mancha Verde. Será que Kleber vai dedicar esse gol ao Palmeiras, como fez na Libertadores, após marcar contra o São Paulo? E queria saber também o que seu presidente metido a intelectual, mas na verdade um ignorante passional da pior espécie, vai gritar de novo ofensas aos sãopaulinos, já quem morreu, de fato, foram seus porcos amestrados e subjugados. Finalmente, será que Muricy ainda acha que no Palmeiras o ambiente “é mais tranquilo e os caras são mais parceiros que no São Paulo”, como ele afirmou várias vezes quando estava na liderança?

Quarta-feira, Dezembro 02, 2009

Aprende com ele, Hernanes


Sim, ele é grosso, lento, espirra na canela e raramente acerta uma tabela, mas Washington sabe fazer gols e é um lutador. E, na hora em que a coisa apertou, nas duas últimas decisões, contra Botafogo e Goiás, foi um dos raros que realmente deu o sangue e cumpriu o seu papel. Enquanto aquele que se acha craque, Hernanes, se escondeu, não correu, não deu o sangue nem brilhou, o Coração Valente enfrentou as pedreiras na raça, perdeu alguns gols, mas enfiou três. Mais que isso, foi o único jogador tricolor realmente abatido após o papelão em Goiânia. O guerreiro, visivelmente emocionado, mal conseguiu falar aos repórteres ao final do jogo do Serra Dourada. Imagino em que situação estaria o São Paulo se Ricardo Gomes, que é bom treinador, não tivesse insistido em seu grande vacilo nesse campeonato: a alternância entre o Matador e o Cara de Bunda Dormida (me recuso a citar o nome do notadamente traíra, pipoqueiro e ainda protagonista de expulsão ridícula em Porto Alegre, que deu início ao festival de expulsões e depois festa do STJD em cima da gente). Caso Washington tivesse tido tranquilidade para jogar sem ser sacado a cada início de 2º tempo, o hepta já estaria no nosso peito. Esse foi, sim, o erro maior de Ricardo, e não outras bobagens, como insistir com o valente e incansável Jean na ala direita.
Que o Cara de Bunda Dormida prometa o que disse o ano todo: que queria ir embora. Vai logo, Morto!
Outros que não podem ser titulares são Renato Silva (falhou demais nas 2 decisões) e Avenida Vai Que A Casa é Sua Junior César (mas FICA, JC, se a solução “brilhante” for o (a) desgraçado (a) maior, Rick, o (a) cara que mais entrega entre todo o elenco). E, claro, arrumem um parceiro decente para Washington, pois Dagoberto Cabecinha de Azeitona, que fazia bom campeonato, também voltou ao Maternal contra o Grêmio e nos prejudicou demais.
Finalmente, como ninguém consegue tirar a máscara da Bailarina, que mandem-o logo pra Europa, porque não sei o que é pior: aguentar o sumiço do Hernanes quando a coisa aperta (brilhar contra o Vitória no Morumbi até eu) ou o seu discurso ridículo de frases feitas com pitadas pretensamente intelectuais que os idiotas do Globo Esporte têm a coragem de chamar de Filosofia. E Hernanes adora o mimo, reparem como ele força (espremendo o cérebro diminuto) para tentar formar frases “mais inteligentes” a cada entrevista. Claro que ele é um grande talento, mas o problema é que pensa que é o Zidane (só esqueceu da alma, garra e um “pouquinho” a mais de talento que o francês tinha).
Sujou geral, Juvenal, e quero ver algum trouxa pagar o preço absurdo que o senhor colocou para o jogo contra o Sport antes dos desastres carioca e goiano.
O trouxa aqui vai, mas só pra gritar o nome do injustiçado Washington, aquele que foi xingado e vaiado o ano todo por nossa própria torcida, que preferia o cruzamento de Bunda Dormida com Poste de Estrada de Terra Sem iluminação. Isso mesmo, "fantástica" Torcida Independente, vocês têm parte da culpa de bancar e apoiar o Morto o campeonato todo. Só perceberam a burrice no final do jogo contra o Vitória, quando finalmente apoiaram o jogador que realmente veste a camisa.

Segunda-feira, Novembro 30, 2009

A Tempestade


Foi no meio de Let There Be Rock, quando ele começou a solar com o vigor e paixão de um moleque. Perdão, acho que um moleque de hoje, seduzido por bobagens comerciais como falsas guitarras de videogame, demorará a entender como Angus Young, 54 anos, ainda faz de sua guitarra uma tempestade juvenil sonora avassaladora. Uma tempestade apaixonada, bela e furiosa. Toneladas de TNT em forma de acordes, riffs ou esse solo muito mais que endiabrado que o menino de 54 anos ofereceu nesta histórica noite de sexta-feira. Foi no meio de Let There Be Rock que os antigos amigos de escola forjados em rock and roll de verdade, hoje quarentões, sentiram os olhos lacrimejarem. Porque Angus e seu AC-DC, mais que oferecer uma maravilhosa volta ao passado de tudo o que já fizeram pelo rock, nos deu a certeza de que o rock é eterno. Que a emoção é eterna. Ou não foi isso o que eles provaram quando ele elevou-se aos céus junto do palco móvel e simplesmente arrebatou como nunca antes um estádio do Morumbi lotado?
Sim, não vi Freddie, Brian e seu Queen em 1980, mas estive em muitos shows ali, e ninguém antes fez um metaleiro quase chorar no meio de um solo de guitarra. Ninguém antes, munido de uma guitarra e um espírito juvenil alucinado (mesmo com 54 anos...) fez o público entrar em transe como Angus. Sim, já o vira em pleno Rock In Rio I, em 1985, e ali estava no auge, mas o que a paixão dele fez na sexta-feira entra direto para uma das maiores entregas de um artista na história da música. E olha que falo de apenas um momento, dos minutos de solo durante uma canção-hino. E olha que ainda houve muito mais nesta noite em que o vendaval que ameaçava cair no Morumbi enfiou o rabo entre as pernas para permitir que a verdadeira tempestade – de eletricidade roqueira genuína – prevalecesse.
Foi assim que Angus e o AC-DC desabaram seu temporal inesquecível de rock pesado que jamais será esquecido pelos privilegiados desta noite de 27 de novembro de 2009. Desta noite em que a maior chuva do mundo desabou das cordas de Angus e Malcom, da batera de Rudd e da voz de Johnson.
Vai chover assim na p... !!!!! e quanta verdade nas palavras de outro hino, “TNT, I´m Dynamite!!!!!”
E quem quiser ler um excepcional artigo sobre outros segredos do sucesso eterno da banda, leia o texto do grande crítico Jotabê Medeiros, do Estadão, no link abaixo
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091130/not_imp474058,0.php


PS - Se um tal de Hernanes tivesse um décimo da garra do AC-DC, meu time era hepta com sobra... Só que ele desconhece isso e prefere acreditar que é craque. Craques de verdade têm alma, como Angus. Craques não fazem frescuras, apenas tocam sua guitarra e bola como se o mundo fosse acabar amanhã, no meio de um solo ou grito de gol. E, sobretudo, craques de verdade arrebentam na hora da verdade, do grande show ou grandes decisões.

Sexta-feira, Novembro 20, 2009

O segredo de Alfie


Ele conquista a mulher que quiser. Melhor: tem todas as mulheres que quiser. Experimenta todo tipo delas, dá-lhes sexo, um pouco de atenção e carinho. Elas usufruem de seu charme, beleza e poder de sedução único. Alfie é tudo o que elas querem. Mas não podem tê-lo de verdade, pois Alfie não assume compromissos. É apenas um rosto perfeito, um sorriso malicioso, olhos penetrantes e um corpo que sabe ser viril ou delicado. É apenas um caçador que faz o que suas vítimas desejam: a caçada rápida, imediata, devoradora. Sem joguinhos ou hesitações. Sem papo cabeça. Só que a vida não é um episódio de Sex and the city. Por isso que depois de noites selvagens, elas desejarão algo mais. Por isso confundirão Alfie com um mestre do amor. Não sabem que é um mestre apenas do sexo. Não sabem que ele pode preenchê-las seus desejos mais explosivos mas não pode preencher o espaço mais importante. Porque Alfie jamais lhes entrega seu coração. Boa parte deste filme é uma exibição engraçadinha de um Don Juan moderno atraindo e devorando as mulheres enquanto conta todos seus planos e conquistas para a câmera, tentando atrair a intimidade do espectador. Alfie poderia ser mais um filminho sexy de Hollywood não fosse o carisma de seu protagonista, Jude Law, um dos maiores de seu tempo. Não fossem suas presas as estonteantes e maravilhosas atrizes de três gerações: a sempre solar, passional delicada morena ítaloamericana, Marisa Tomei, dona do sorriso e olhar mais belos, verdadeiros e meigos do cinema americano; o vulcão doentio ultra-sexy louro que atende por Siena Miller e os anos que só acrescentam charme e profundidade à sempre intensa Susan Surandon. Não fosse o corpo magistral, suingue e simpatia da jovem diva negra Nia Long.

Alfie seria só sexo e belos corpos não fosse o momento em que o garanhão põe tudo a perder porque macula o imaculável: a amizade do melhor amigo. No momento em que o predador irresponsável percebe que ter todas as mulheres é não ter nenhuma, levanta-se um Jude Law magistral. Um Jude Law cujos olhos antes apenas conquistadores tornam-se um mapa abissal de sentimentos e perdas. Um mapa do vazio existencial do garanhão que descobre a dor da solidão. Pior, a dor de perder aquela que realmente o amava.
Aguente a sacanagem refinada e estilosa de Alfie arrastada por mais da metade do filme, porque depois receberão o melhor do cinema: atuações poderosas e mensagens que nos envolvem e derrubam como diretos no fundo do peito.
Por isso alguns passearão junto da solidão de Alfie, lembrando das raras mulheres que não perceberam serem perfeitas que passaram em nossas vidas.
Lembrando e sentindo cada fissura interior que acomete a estátua de deus grego que um dia julgaram ser.
Como não sentir, se Alfie, suas mulheres e histórias ainda nos são entregues embaladas por canções viscerais de Mick Jagger, feitas especialmente para o filme? Incrível como o velho Mick ainda consegue, às vezes em uma só palavra ou verso, entregar toda a beleza e dor do amor. Cantar toda a cegueira de desejos e sentimentos fugazes que escondem o amor verdadeiro. Que escondem a lição tão simples, cliché e vital mas que nos esquecemos. A lição dada por um velhinho só, viúvo, a Alfie em outra bela cena da metade final do filme: “ame sua mulher todos os dias antes que ela vá embora”. Ou antes que a deixemos ir. Canta e ensina então o velho Mick de guerra mais uma canção essencial:
Old habits die hard
hard enough to feel the pain

Hábitos antigos são difíceis de morrer, difíceis o suficiente para sentir doerem.



Terça-feira, Novembro 17, 2009

O anjo de Los Angeles


O que pode existir de especial num homem das ruas que toca um violino com apenas duas cordas ao lado do Skid Row (majestoso palco de concertos), em Los Angeles? Muito se quem ouvi-lo for um homem que sabe ouvir. Muito se quem percebê-lo for um jornalista de verdade, aquele que sai às ruas, que vive, que não se esconde em uma profissão facilitada pelos emails e telefonemas, que são a única base, insípida, de muitas matérias.
Mais que um jornalista, Steve Lopez é um caçador de histórias. Por isso ele percebe algo maior naquele homem aparentemente louco de vestes estranhas, que fecha os olhos enquanto toca com alma para quase ninguém. Ou toca talvez para os pássaros ou para os seres alados que são os guardiães da cidade dos anjos.
Steve descobrirá que o louco do violino é um ex-aluno brilhante da prestigiadíssima escola de música clássica Juilliard. Por isso tornará o estranho Nathaniel, na verdade um artista de outro instrumento, o violoncelo, personagem de sua coluna, no L.A. Times. Por isso acabará se envolvendo com ele, tentando ajudá-lo a ser o músico que poderia ter sido. Tentando fazer algo praticamente esquecido na mídia predominantemente informativa de hoje: praticar uma missão e dever esquecido do bom jornalismo do passado: praticar cidadania e, por que não?, humanidade.
O filme O Solista fica longe da perfeição de obras-primas que retratam o mundo da música - como Johnny e June, Ray ou Apenas Uma Vez – mas oferece cenas inesquecíveis. Cenas como o momento em que Nathaniel consegue um violoncelo em ótimo estado, com todas as cordas. Na beira da calçada de um lugar tão cinza e barulhento, vizinho de um túnel e às margens de uma avenida movimentada, o músico voltará a usufruir de um instrumento completo. Isso só poderá resultar em uma coisa: uma música tocada com uma beleza, paixão e necessidade incomparáveis de um homem que não tem quase nada, exceto ela, o único alimento que o mantém vivo: a música. O único alimento que o faz sobreviver à sua doença: a esquizofrenia, mesmo sofrimento já retratado no cinema em Uma mente brilhante, em que Russell Crowe faz o gênio atormentado da Matemática, John Naish.
A bela e triste história de Nathaniel ganha força no único lugar em que ele pode tocar sem medo de ser roubado: um centro de assistência social em que homeless (sem teto) com problemas mentais ou com as drogas vão se alimentar e fazer pequenas terapias; um lugar raro em que ainda podem, com a ajuda de voluntários, lembrar que são seres humanos. É ali que o anjo de asas partidas Nathaniel pega o celo (fica guardado ali, para não ser roubado nas ruas) e leva-os ao alto de novo, ao sonho e alegria que um dia tiveram.
O Solista é importante também para lembrar-nos que a arte que amamos é, muitas vezes, uma arma poderosa contra a solidão, depressão, desencanto e outros problemas. Sim, a arte que salva é talvez a lição maior deste filme. Mais que isso, a paixão pela arte e humanidade que deve ter um grande artista, explode no filme na grande performance de O Solista: o Nathaniel feito com um realismo, alegria e dor tão genuínas por Jamie Foxx, o monstro que já havia brilhado na história de Ray Charles.
Procurem logo esse filme, envolvam-se com ele. Reencontrem, talvez, o lugar e momento em que deixaram as asas para trás. As asas do amor que um dia tiveram por algo essencial, algo feito de arte e amor.

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

O retorno do herói


Assis e Washington nos anos de glória
Ele foi um dos maiores ídolos, artilheiros (118 gols em 301 jogos) e campeões da história do Fluminense. Formou junto de Assis uma dupla inesquecível, tão marcante que foi uma das raras duplas da história da bola mundial a merecer um apelido: Casal 20, nome de um antigo seriado que mostrava um casal inseparável. Washington fez gols maravilhosos, foi bicampeão carioca com o Flu em decisões sensacionais contra o Flamengo nos anos 80 e ainda campeão brasileiro (1994) num Flu inesquecível, talvez o melhor tricolor carioca de todos os tempos. Hoje, o matador habilidoso do passado enfrenta uma grave doença degenerativa nos músculos que pode causar a sua morte, se a doença atingir o diafragma, o que impedirá a respiração.
Washington já precisa de uma cadeira de rodas. E precisa, sobretudo, de amigos e de tricolores com memória para ajudar a custear seu caríssimo tratamento. Nos últimos dias, a diretoria do clube que tanto honrou, finalmente (com atraso, segundo os críticos) abriu as portas das Laranjeiras (sede do clube) para homenageá-lo. E ontem, no Maracanã, o antigo herói foi saudado pela torcida que tanto o amou no "Washington Day"*, uma tarde em que urnas espalhadas pelo Maraca angariaram fundos para ajudar o ídolo eterno.
Mais detalhes estão nesta bela matéria do Globo Esporte carioca. Uma matéria bonita, coisa que o GE paulista não faz desde que ficou refém da vulgaridade das piadinhas de mau gosto de seu manda-chuva, o apresentador e editor Thiago Leifert.
* A campanha para ajudar Washington a se tratar não partiu da diretoria do Flu. Partiu de um torcedor, triste e chocado com a situação de seu ídolo do passado que é ídolo para sempre.