Quinta-feira, Fevereiro 23, 2012

Sk8 Longboard – Porque a vida pode ser completa


     Basta uma breve session, breve apenas na contagem dos minutos, que a nossa sanidade contra a loucura e pressão da metrópole está preservada. Mas madrugar é preciso. Para fugir do crowd de carros, no longboard em ladeira, acordar cedo (não tanto como no surfe, por exemplo) é fundamental. Só assim conseguimos uma descida limpa, sem carros querendo nos ultrapassar. 
     Só assim a avenida torna-se uma imensa e imaculada tela de asfalto pronta para receber as linhas de nossa pintura viva em ação. Cedinho é só chegar lá em cima e apertar o play mais vivo e real que existe, aquele disparado com os pés. 
     Logo é descer-voar. É dançar no balanço das curvas ou tornar-se um homem-bala em linhas retas supersônicas. É chegar lá embaixo leve, pássaro humano que fugiu das gaiolas da rotina urbana ou das drogas tecnológicas que fazem muitos passarem horas com a cabeça e olhos baixos, enfiados em celulares, notebooks, redes sociais virtuais, joguinhos e outros aparelhinhos viciantes. 
     Logo é subir morro acima até o pico de novo. Subir-sonhar tranquilão, mente esvaziada das impurezas e durezas da urbe opressiva. Subir com o brinquedo debaixo do braço, olhando pro céu, cumprimentando os cachorros das casas, os poucos caminhantes (em geral, pessoas mais vividas, experientes, sábias) e alguns seres vitais para nossa super tela de asfalto - muito melhor que a tv de plasma, lcd, super hd ou sei lá o quê estar sempre limpinha e lisa: os garis que varrem a sujeira da pista dos sonhos. 
     O que pode ser mais completo que poder descer e subir com tamanha simbiose entre a adrenalina da queda livre e a paz da ascensão de volta ao pico ou plataforma de lançamento? Sim, alguns carros nos lembram da insanidade da vida (?) moderna. Mas eles passam. Os longboarders ficam. 
     Subiremos de novo. 
     E desceremos de novo a nossa maravilhosa e paradoxal ladeira que é, no peito e na alma, uma elevação. 
     Amém.
     
     * Foto afanada do bacana site Skateweb

Sexta-feira, Fevereiro 10, 2012

Requiém para o bar de nossas vidas

Não é a alegria que é inspirada pelos bares. É o contrário. O bar certo - sem frescuras, sem pose, sem excessos na decoração e monetários - o bar dos nossos afetos é que produz a alegria. Porque o bar certo é um aconchego de cadeiras, mesas e o nosso canto, lanche e bebida preferida. E, claro, os amigos do peito que adoram o mesmo lugar. E o que fazemos quando baixamos no nosso bar e ele fechou?
Lembro que o amigo irmão já tinha me falado que ele ia fechar. Mas a gente não acredita, ou pensa que vai demorar. Como pode o nosso bar fechar? Como um lar pode ser cerrado? A dor piora porque há alguns anos passei a frequentá-lo muito pouco, talvez machucado porque a vida seguia sofrida enquanto as pessoas pareciam tão felizes ali. Talvez porque há muito tempo que de ponto de encontro de amigos o bar tinha virado um mero esquenta pré-balada para os cada vez mais novos frequentadores. Talvez porque eu não tinha uma grande alegria pra contar, e grande alegria só pode ser um coração completado com o amor, que enfim, reencontrei. Talvez porque fosse difícil até saborear uma das mágicas deste bar: a sensação de que o tempo não passava, e de que as amizades não morriam, continuavam firmes e eternas. Sim, o tempo passava, e muitos de nós continuavam na mesma, sem ainda conquistar alguns dos grandes sonhos que um dia sonhamos juntos neste bar. Por isso, a alegria de frequentar esse templo da amizade do peito foi se tornando nostalgia. E nostalgia, a saudade da época mais louca e dos sonhos jovens mais reais, não faz bem numa mesa de bar, numa sagrada mesa de bar dos melhores amigos.
Besteira, devia ter passado lá mais vezes. Devia ter erguido mais brindes. Devia ter dado mais risadas por ali. Devia ter aceitado os convites seguidos do rei deste bar, Fernando Baccari e sua côrte de loucos nobres, no coração e caráter, Salim, Gus, Kiko e Gutão. Côrte, não, pois essa turma mais se assemelhava aos mosqueteiros do romance de Alexandre Dumas, loucos e destemidos espadachins da vida, em busca de um pouco de aventura, encontrada até num simples, idiota mas doido jogo da moedinha... Encontrada nas conversas debiloides e alegres, ou nos breves mas marcantes interlúdios em que discutíamos a vida e nossos problemas. Momentos em que um simples olhar já bastava, um olhar de compreensão que surge com mais força na nossa taberna, na nossa casa no meio da rua. No estação de parada em que esperávamos o mais importante: os amigos que amamos.
Os amigos que não nos deixaram na mão nos momentos mais duros.
Os amigos com que celebramos as maiores conquistas de nosso Tricolor. O vazio aumenta, pois além de tudo, o bar ainda era um conhecido reduto Tricolor.
Os amigos com que celebramos de forma insana a conquista da Copa de 2002. Um deles, grande Nunes, que ainda era o maior devorador dos ótimos lanches, raros em um botecão, do lugar.
Os amigos que eu fiz quando comecei a aulas, e, irresponsável que eu era, os amigos a quem eu apresentei esse bar. Talvez eu tenha errado, mas aquele bar ajudou a forjar amizades eternas, e minha falha talvez tenha virado virtude.
Porque aquele tornou-se o bar da esperança, o bar das risadas, dos brindes cheios de sentido ou sacanagem, dos apertos de mãos firmes, das conversas cúmplices e, claro, das mais variadas cenas antológicas de bagunça e comemoração, de brigas e reencontros, de uivos para a lua e gritos, quantos gritos!, de gol ou amizade.
Por isso grito, com o peito apertado e a face molhada, toda a saudade e história do bar de nossas vidas, o inesquecível bar de Seu Leo, dos garçons Sousa, Bigode, daquele outro simpático pacas, desse pessoal que nos atendia falando o nosso nome.
Obrigado por tudo, meu grande amigo, meu irmão, Samaro!!!!!

Terça-feira, Janeiro 17, 2012

O homem de braços abertos

Um iluminado que é a antítese do sombrio personagem de Jack Nicholson naquele antigo filme de suspense-terror. Um cara transparente, solar, sempre de braços abertos como aquele amigo do peito que está pronto para nos dar uma força. Um cara que mesmo quem o conhece há pouco tempo, parece amigo antigo, porque tempo de convivência não importa pra ele, o que vale é a sinceridade e a vibe.
Vibe, palavrinha gringa que remete a um clássico solar dos Beach Boys e associamos às boas vibrações é a cara desse maluco do bem. Maluco beleza não por ser louco irresponsável, não é, mas por parecer estar sempre de bem com a vida, deixando ela rolar no rumo de seus sonhos que ele ainda não consegue definir direito. Sonhos de trabalhar com o esporte (é jornalista), por isso ele, que deixou Sampa há alguns anos para viver em Barcelona agora está de malas prontas pra terra da próxima Olimpíada, Londres.
Maluco contraditório, como um cara gente fina desse (apesar de ser palmeirense fanático, chato pacas, rs) pode ser torcedor lá fora dos esnobes e milionários Real Madrid e Manchester City? E ainda admira o máscara maior da bola mundial, Cristiano Ronaldo? Aliás, esse maluco simples - humilde e amigo no trato com as pessoas como um figura típico do interior – é uma contradição de novo ao se vestir feito um David Beckham tupiniquim, sempre com roupinha de marca, justa e até com sapatinho longo e fino de magnata. Bota metrossexual nisso!, dizem que ele leva mais tempo pra se arrumar que a elétrica e simpática namorada espanhola que acompanha o doido mundo e sonhos afora.
Bom, vai ver na verdade ele é apenas uma versão moderna do malandro do bem, os velhos sambistas sempre bem vestidos, roupas sociais feitas sob encomenda, sapato brilhando. Malandros lisos no viver, sempre passando aperto mas se virando bem pela graça de terem um coração enorme e alma musical como se fossem um sambinha que alegra. Como se fossem um batuque que pede uma cervejinha, uma dançadinha e uma musa pra acompanhar.
Sim, malandro que é malandro apenas parece malandro, pois o cara é fiel à musa, a Maria, e faz com ela o romance mais difícil, o namoro cotidiano, o amor temperado dia a dia. O amor cozinhado com afeto como o alimento mais caseiro e fundamental da panela da vó.
Bom, o caso é que o malandro, depois de uma breve volta de férias ao Brasil, ao país que tem sua cara e coração, tá voltando, na real, tá indo embora de novo e deixando seis amigos e família pra voltar ao sonho europeu. Sonho de uma vida melhor, mais tranquila, sem tanto trânsito, sem o stress que passa o rapa na gente todo dia como aquela canção do Rappa, Rodo Cotidiano. Lá vai então pro velho mundo um pedaço do brasileiro mais legítimo, e isso nos deixa mais pobre, porque a nossa verdadeira riqueza é essa: o caráter, astral e coração de ser um brazuca do bem, alegre, pra cima, um brazuca que vive nos zoando e sacaneando mas apenas pra quebrar o clima, pra quebrar as pedras da megalópole e rotina que asfixia. Zoando, sim, mas com respeito, camaradagem e bom humor.
Mesmo que não é fã de samba sente então desde já a falta que esse moleque-bloco de carnaval - porta-bandeira da alegria e das amizades sinceras – nos fará.
Mas tenho certeza que a neblina, frio e chuvinha constante de Londres vão receber nosso mais verdadeiro representante. 110% brasileiro, lá vai então Serginho Terrin(ha) mostrar ao antigo Império o valor de nossa gente mais necessária e real.
Boa sorte, garoto, e não esquece da família que sentirá muito a sua falta, e vê se para com essa frescura e frieza de whats up e de vez em quando dá umas telefonadas pra sua mana, que parece gêmea de tanto que sente sua falta.
Boa estadia na terra dos Beatles, Rolling Stones, Iron Maiden e Queen, pena que você, matuto que é, não gosta e prefere suas bandas e artistas tão ruins como o seu Palmeiras, rs. E fica tranquilo, que não vai perder nada do seu time, porque ele seguirá sem ganhar nada mais um ano hehe
Aquele abraço, irmão, mas lembra que um Brasileiro maiúsculo como você um dia precisa voltar. Tanto jogadorzinho de meia tigela voltando pro Brasil, e você, craque dos melhores valores humanos, vai embora. Tá, difícil trocar o velho mundo por essa Sampa infernal, mas vê se fica rico por aí e volta pra viver em algum refúgio próximo da gente.
See you, jovem Bezerrinho da Silva! E desde já erguemos um brinde da sorte com uma boa Guiness a você, cheers! E pode deixar que eu cuido bem da sua mana, a moça que iluminou minha vida.

Quinta-feira, Janeiro 12, 2012

Marcos - O herói mais real

Mesmo goleiro campeão do mundo com a seleção (2002) e campeão de quase tudo com o Palmeiras que se tornou maior graças aos seus milagres; e mesmo sendo um ídolo até dos torcedores rivais - fato raríssimo, talvez até inédito no futebol paulista (*) - Marcos foi humilde até o fim. Diferente de outros ídolos, que têm essa condição quase que exclusivamente dentro do campo, e pouco fora - na vida, nas atitudes que denunciam o tipo de caráter que carregam – Marcos mostrou sua imensa humildade até em sua coletiva de despedida. A humildade rara de quem sempre admitiu suas falhas. De quem jamais se julgou perfeito ou “o cara”.
Perguntado sobre qual a sua maior tristeza no futebol, ele não se escondeu: “A tristeza foi o Mundial (contra o Manchester). Cacei borboleta e deixei o torcedor triste.”
Que outro ídolo admitiria e lembraria de uma falha no momento em que todos só querem reverenciá-lo e homenageá-lo?
A humildade (desculpem a repetição, mas não há um sinônimo para essa palavra em Marcos, pensei em modéstia, mas penso ser um sentimento sem a mesma força e verdade do que representa o goleiro de todos nós) que descobri ser ainda maior ao ler hoje outra das que Marcos aprontou. Deu no JT de hoje: “Às vésperas da Copa do Mundo de 2002, Marcos chamou Felipão para uma conversa reservada e fez um pedido: “Não me coloque como titular. O Rogério Ceni e o Dida estão voando, e eu estou sendo cornetado por todo mundo. É melhor você escolher um dos dois para ser o seu camisa 1.” O treinador não deu bola para ele, e o final da história todos sabem: a Seleção conquistou o quinto título mundial com atuações importantíssimas do palmeirense, sobretudo nas oitavas de final contra a Bélgica e na decisão diante da Alemanha.”
Quantos ídolos pensaram em ceder seu posto de titular para um companheiro que julgaram em fase melhor? Pensar é pouco, Marcão pediu para ir para o banco ao seu treinador!
A atitude de Marcos pouco antes da Copa de 2002 revela outro lado raro num jogador de futebol. O falar o que pensa. O não ser cordeirinho amestrado de empresários que controlam carreiras e só pensam em obter lucros. Mais um depoimento que veio na coletiva de ontem: “Eu dava boas entrevistas. E que davam problemas pra mim, mas sempre dormi tranquilo. É difícil mudar a personalidade de uma pessoa. Hoje sempre tem alguém que diz o que você deve falar, vestir… Jogador um pouco mais antigo tinha personalidade pra falar. Hoje tem marketing daqui, manager dali. É por isso que estou aqui hoje e tenho respeito de todos. Me identifiquei muito pela torcida por ela reconhecer o torcedor que estava em campo. Muitas vezes falei muita bobagem, devia ter ficado quieto, mas sempre falei o que o coração mandava.”
Coração. Quantos ídolos tiveram ou têm o coração de Marcos? Num universo boleiro em que não se pensa duas vezes na hora de deixar um clube só porque o outro ofereceu um pouco mais, Marcos é, ao lado de Rogério Ceni, ainda mais raro, pois sempre exalou uma expressão e sentimento praticamente extinto hoje, “amor à camisa”. Toda promessa ou nova estrelinha do futebol brasileiro deveria prestar atenção no que o goleiro disse sobre isso: “Sempre tentei focar que eu gosto daqui, que ganho bem, mas que dinheiro não era a maior prioridade. Queria estar ao lado de quem eu gostava, criar uma raiz e me tornar ídolo aqui. Quem pula de time em time talvez ganhe mais, mas não será tão lembrado. Seria legal que mais jogadores pensassem assim, que dinheiro nem sempre é tudo. Não sei quando me tornei diferente. Achei injusto sair do time quando caiu para a Série B. Resolvi ficar e, sem querer, foi uma das melhores coisas que fiz na vida.”
Falo em Marcos como goleiro, e não ex-goleiro, porque o Brasil não pode perder esta liderança e exemplo tão belos e essenciais. Sim, ele não estará mais nos gramados, não disparará verdades pelos microfones a cada derrota, mas esperamos que o santo mais humano não desapareça do futebol. Do futebol que elevou à vida. Vida decente, bonita, exemplar, farta em bons exemplos para as crianças, jovens e todos nós.
Parou o maior de todos, dentro e fora dos campos. O que foi sempre o mais sincero e decente, e por isso o mais humano. No mundo boleiro, e não só, com tanta pose e intrigas, ele sempre foi o mais simples, transparente e direto possível. Não há ninguém com a sua estatura moral em ação no futebol brasileiro. Por isso o futebol brasileiro sem Marcos ficará ainda mais feio.
Insubstituível é pouco. Deixou os gramados o mais real dos heróis. Torçamos para que ele não deixe a sociedade atuante. Que o Palmeiras ou outras instituições deem a oportunidade para São Marcos semear nos jovens os nobres valores e defesas maravilhosas, de bolas e sentimentos, que espalhou pelos campos do mundo todo.

(*) Pelé foi um ídolo de todas as torcidas, mas o foi só como jogador, não como homem. Talvez Sócrates tenha sido admirado por todas as cores, mas penso que amado mesmo, só o Marcão. 

Terça-feira, Dezembro 27, 2011

A canção do vento


  Sábado ou domingo cedo. Enquanto subo a pé a avenida, armado com meu skate longboard, sinto mais uma vez a inesgotável fonte de sentimentos e significados que meu único mas poderoso brinquedo urbano me proporciona.
   Sinto a arma de brincar como meu violão ou guitarra, meu instrumento musical que carrego com as mãos até o pico, antes de descarregá-lo e tocá-lo com os pés. Mas não é qualquer violão, pois a eletricidade de uma queda de longboard é tão grande e intensa que me sinto como aquele mariacchi pistoleiro do filme de Robert Rodriguez, interpretado pelo Banderas.
    Sim, um mariacchi pistoleiro do bem, caminhando tranquilo, alma lavada, e pronto para mais um duelo ladeira abaixa. Só que esse duelo é na verdade parceria, pois o chão duro da descida é liso e, portanto, é onda perfeita. E voar ladeira abaixo é música e dança.
   Voo. Enquanto desço a suave e longa montanha de asfalto, ouço a canção do vento, componho minha própria música. Cada acorde, um movimento. Movimentos que são dança. Apeno desço e faço curvas abertas, amplas, o corpo brincando de estilo. Sim, às vezes é preciso virar mariacchi pistoleiro ao desafiar os carros que vem de trás. Em geral há respeito, mas sempre há uma besta de mal com a vida ou que ainda traz o velho e estúpido preconceito de que skate é coisa de vagabundo. Mais um infeliz vai ter que esperar, coloco a mão, “espera”, não mudo meu caminho, ele que espere alguns segundos (é pedir muito?) antes de eu terminar a descida e desaparecer entrando na avenida ao lado.
   Minha raiva contra a estupidez humana termina logo. Mais um idiota vai embora acelerando enquanto eu desço de meu violão mágico e caminho de novo, subindo a tranquila avenida paralela. Um último pensamento para o imbecil sobre rodas: Quem é mais rápido? Um motorista escondido dentro de uma máquina ou um homem voando em plena avenida que para a maioria é apenas uma via de passagem? Só sei que minha passagem é grátis. Não gasto gasolina. Não fico preso. E ainda bebo vento, adrenalina e liberdade.
    Subo tranquilo, há verde, passarinhos de todos os tipos e raros carros por onde subo. Há algumas pessoas que cumprimento, como o professor, o passeador de cães, os garis, o empregado de uma mansão que chega no casão e o cão explode de alegria ao vê-lo. Há os cães a quem dou bom dia. Tem um que tá sempre sentado com cara brava e triste, será que o dono passeia com ele? Há o cão malucão que faz a maior festa, esse eu sei que passeia, já o vi felizão andando com o dono.
   Sim, essa subida é longa e cansa, mas prefiro o esforço do que pedir carona na outra avenida que desço. Deve ser minha aversão à máquina e seus motoristas. Deve ser essa subidona a pé dura mas relaxante espiritualmente. Toda subida é uma ascensão. É preciso ter fé. Fé na brincadeira que devemos injetar em nossas vidas. Fé na liberdade de caminhar com os próprios pés.
   Fé na vida.
   Fé na canção do vento que anima os mariacchis do asfalto, os longboarders.

Quinta-feira, Dezembro 22, 2011

Barça, a deusa-bruxa fatal

Tenho o hábito de assistir partidas de futebol na TV com um jornal ou revista na mão. O hábito nasceu nas tardes de domingo, pela mediocridade das partidas do Campeonato Brasileiro. Pela pobreza de treinadores covardes que enchem seus times de volantes brucutus - matando a arte no espaço vital de um time, o meio de campo – e ainda instruem seus laterais e alas a chuveirar na área. O problema é que esses últimos simplesmente não sabem cruzar, como os volantes brucutus são incapazes de dar um passe preciso mais alongado.
O jornalzinho ou revista na mão nunca resiste aos cinco minutos do 1º tempo quando o jogo é do Barça. O fenômeno se repetiu no último domingo. Se podemos ler e ver um jogo do Brasileirão ao mesmo tempo - tamanha a ausência de belas jogadas e um estilo (falta de) truncado, feio – quando aquelas camisas azuis e grenás movem-se flutuando pelo gramado e pincelando jogadas como Michelangelos da bola, é impossível não largar tudo e ficar fascinado.
A hipnose é tão grande que até os jogadores santistas sucumbiram a ela. Tive a nítida impressão, mesmo de tão longe, que os camisas brancas estavam abobalhados como um adolescente que de repente vê a musa da sua vida desfilando a sua frente, sorrindo, belíssima e, “desgraça” ainda maior, nua. Desgraça porque um time de futebol não pode ser um adolescente, ainda mais na máxima decisão do planeta. Mas os santistas ficaram assim: tontos, babões, enfeitiçados pelas sereias catalãs.
Sereias, sim, porque o futebol do Barça é venenosamente feminino. Os toques e passes são tão sutis e perfeitos, e os jogadores movimentam-se com tanta fluidez e leveza que somos envolvidos pela mesma sensualidade hipnótica de um menino ou homem que perde a fala e fica paralisado diante de uma belíssima mulher com toneladas de sex appeal.
O maravilhamento é ainda mais forte porque esse time-deusa-sereia nos apaixona, nos faz querer que suas partidas-recitais nunca acabem.
Sim, os santistas, mesmo disputando o jogo de suas vidas, se apaixonaram loucamente como um adolescente pela musa da escola. Até o treinador Muricy, depois de dar alguns ataques iniciais de raiva, caiu no torpor do seduzido que sabe que não há mais o que fazer, a não ser adorar a deusa que brilha a sua frente.
Pena, para os santistas – e dádiva para os amantes do futebol como deveria sempre ser, arte - que a deusa catalã (com atributos também argentinos e brasileiros) é bipolar: é também bruxa. Uma bruxa impiedosa, carrasca, que entra em ação quando a deusa não está com a bola. O bote acontece quando o Barça não está com a bola, e seus jogadores pressionam o rival de forma insuportável até tomarem a pelota e iniciarem de novo um tão belo quanto sinistro espetáculo de jogadas sensuais que só param num beijo motal chamado gol.
Quanta crueldade, em plena competição futebolística, um time de futebol finge-se sereia e atropela sem dó o rival como a mulher fatal que é. Se nem o maligno Mourinho, seus jogadores galácticos e capangas conseguiram aprisionar a deusa maior do futebol mundial, não seria Muricy e sua equipe inexperiente que retiraria o poder mágico do Barcelona. Inexperiente, sim, porque o massacre de Yokohama provou o que poucos jornalistas brasileiros diziam: que o futebol não só santista, mas brasileiro, está em um nível bem mais baixo que o europeu, e infinitamnte mais baixo que o do Barcelona. O "sensacional e disputadíssimo campeonato brasileiro" é na verdade um torneio de baixo nível técnico nivelado por baixo, com um monte de equipes medrosas jogando no erro do adversário. E o que dizer da “empolgante” seleção brasileira do Mano, que conseguiu ser desclassificado da Copa América pelo Paraguai? E o time de guerreiros cavalos do Dunga?
A real é que o futebol brasileiro virou hoje uma maioria de grossos ignorantes que distribui pontapés e malvadezas a mando de treinadores medrosos. Por isso que um de nossos poucos tesouros, o garoto Neymar, não resistiu e com uma sinceridade possível só num menino inteligente, não cansou de demonstrar ao final da hipnose toda sua admiração pela deusa Barça. Depois de abordar o feiticeiro-chefe da musa, o treinador-mestre-mago Pep Guardiola, dizendo (segundo um jornal espanhol) que queria jogar no Barcelona, nosso menino de ouro ainda teve a coragem de não inventar desculpas esfarrapadas. “Hoje a gente aprendeu o que é jogar futebol”.
Pena que Neymar é apenas um jogador. Pena que não poderá mudar o medo de nosso técnicos e dirigentes que preocupam-se em montar equipes “competitivas”, desde as categorias de base, em vez de montar equipes que joguem futebol. Que joguem com a arte que um dia marcou o futebol brasileiro.
Por isso que, apesar dos nobres esforços do presidente do Santos, um raro dirigente que gosta de futebol e não só de vitórias, logo Neymar irá embora.
Sempre louvei a coragem de Luís Álvaro em manter Neymar no Brasil, mas depois do massacre no Japão, acho agora que é um desperdício permanecer no Brasil. Pra que continuar jogando nesse deserto de talentos? Pra que seguir driblando um monte de pernas de pau?
Enquanto os clubes brasileiros não voltarem a amar o futebol arte que um dia foi nosso DNA, não há mais sentido em ficar.
Vai embora, Neymar, vá brilhar onde merece. Vista, por favor, a camisa azul e grená. Junte-se à deusa-bruxa. Só ali poderá desenvolver todo o seu potencial.
O espetáculo, a magia, a paixão e emoção do Barça se tornarão ainda maior quando você se juntar ao melhor time de todos os tempos.

Segunda-feira, Dezembro 05, 2011

Sócrates - O gênio mais valente

Ele não foi apenas um dos maiores artistas da história do esporte. Foi também um líder, na bola e na vida e, coisa rara na pobreza intelectual dominante no futebol, foi um pensador articulado, original e combativo. Mais que isso, Sócrates era um raro homem fundamental. Vital para o povo brasileiro por ser um raro famoso preocupado com  a justiça, honestidade e um país melhor.
Vital por ser, de novo, um raro famoso a criticar os poderosos e corruptos que mandam nesse bilionário negócio chamado futebol profissional. Enquanto a maioria das nossas estrelas da bola preferem associar-se, por puro interesse pessoal, aos dirigentes e projetos mais duvidosos e obscuros - como sempre fez Pelé, e hoje faz Ronaldo ao unir-se ao antes desafeto Ricardo Teixeira e à Copa da vergonha, de 2014 - Sócrates sempre fez questão de fugir do mal. E revelar quem faz o mal.
O mal que Sócrates combateu desde jovem, quando, aos 20 e poucos anos, combateu a concentração e as ordens ditatoriais dos chefes do futebol em plena ditadura no Brasil. Foi ele o grande articulador e líder da Democracia Corinthiana, movimento que comandou no clube, liberando os jogadores de obrigações escravocratas como ficar trancado numa concentração às vésperas dos jogos. Será uma coincidência que aquele Corinthians livre, de Sócrates, Zenon, Biro-Biro, Casagrande e cia. foi a equipe que jogou o mais belo futebol da história alvinegra? Não será a liberdade lutada por Sócrates uma das razões daquele futebol de toques refinados, tabelinhas e lindos gols?
E a luta dele não ficou nos gramados. Sócrates participou ativamente pela campanha das Diretas Já, e pediu em históricos comícios a volta da eleição direta para presidente nas ruas de São Paulo. Imaginem o que era num meio tão alienado quanto o dos jogadores de futebol um craque mostrar suas convicções políticas e brigar por elas.
A mesma liberdade Sócrates liderou com a, para muitos, mais bela seleção brasileira da história, o Brasil da Copa de 82. O Brasil do treinador-mestre Telê Santana. O Telê que escolheu um grupo de artistas excepcionais para praticar o mais belo estilo de jogo que vi na história. Um jogo muito mais bonito que até o do maravilhoso Barcelona de hoje, porque o Brasil de Sócrates, Cerezzo, Falcão, Zico, Leandro, Júnior, Éder e Telê, diferente do Barça, atacava de todos os lados do campo. Porque o Brasil de Telê tinha quase 11 craques.

Mas voltemos ao Doutor. A injustiça histórica não deixou que ele fosse campeão do mundo em 82, nem em 86 (quando foi o melhor de nossos já veteranos mitos de 82). Depois, o corpo maltratado pelo cigarro e talvez já pelo álcool, foi afetando sua genialidade nos gramados, até encerrar a carreira sem o brilho do passado.
O gênio teve que sair de campo, mas o Brasil ganhou uma voz crítica fora dos gramados.
Pena que o Doutor não foi muito ouvido. Como nunca fez pacto com os poderosos - do futebol, das empresas ligadas a esse mundo, ou da mídia brasileira - a voz fundamental e as ideias de Sócrates não se espalharam pelo país. Enquanto muitas estrelas da bola e seus discursos vazios tomaram a grande mídia brasileira - craques dando declarações exclusivas banais ao maior conglomerado de comunicação do país, Sócrates ficou sempre meio escondido, combatendo moinhos no canal aberto menos visto do país, a TV Cultura, ou na revista Carta Capital, nossa menos vendida (nos dois sentidos...) publicação semanal.
Foi na Carta Capital que o Doutor escreveu um de seus últimos textos incisivos. Começou sua crônica falando de homens que sonharam e lutaram por um mundo melhor (e eu lia pensando, onde ele quer chegar com isso?), de repente Sócrates, em sua rica e poderosa argumentação, começa a detonar o capo maior do futebol mundial, Joseph Blatter, e seu comentário mentiroso de que “não há racismo no futebol”. Só depois entendi onde o Doutor queria chegar e reproduzo o trecho esclarecedor de quem nunca temeu nada, por falar à service da verdade:

Certamente os negros de todo o planeta se sentiram agredidos, menos um: Pelé. Que de preto parece ter somente a cor da pele. Ele não só corroborou com a tese de Blatter como acrescentou outras bobagens nascidas de seu pseudointelecto. De uma coisa sabemos de há muito: Pelé jamais sonhou com o que quer que seja.”

Pelé jamais sonhou, muito menos agiu por um mundo melhor, quis dizer o Doutor. Pobre Brasil, então, que perde Sócrates e vê hoje, além do “atleta do século”, um outro ex-ídolo tão importante dentro de campo, e tão amado em sua carreira, Ronaldo, virar parceiro de Ricardo Teixeira no Comitê Organizador da Copa de 2014. O que Sócrates terá pensado do jeito debochado com que Ronaldo deu sua entrevista coletiva ao ser empossado no cargo? O que o valente Doutor terá pensado da declaração de Ronadlo, de que a Copa não tem nada a ver com nossa necessidade de mais hospitais e saúde para o povo? O que o velho Magrão terá pensado de Ronaldo, um empresário do esporte, dizer que não existe nenhum conflito em ter negócios nesse setor com seu trabalho pela Copa de 2014?
Mais que um gênio - para quem não o viu jogar, um artista tão criativo quanto Zidane, tão frio na cara do gol quanto um Romário, tão cerebral quanto um Xavi e Iniesta juntos, tão líder como um Lugano (e um líder e capitão muito mais exemplar e inspirador que um certo Dunga...), tão elegante e cerebral quanto Ganso - Sócrates era um daqueles raros homens essenciais.
Por isso sua despedida deixa um vazio tão grande quanto o deixado por Ayrton Senna, outro Brasileiro maiúsculo que nos deixa saudades até hoje.
Mas como Senna, uma feliz coincidência (ou talvez uma simples questão de bom caráter e criação familiar, além de ótima formação educacional) faz as ideias e lutas de Sócrates permanecerem vivas de outra forma. Se Ayrton teve na irmã Viviane a executora de seus sonhos de um país melhor, com a criação do Instituto Ayrton Senna, Sócrates tem no nobre trabalho de seu irmão, Raí, a disseminação de parte de seus sonhos.
Raí, junto de outro homem exemplar, Leonardo, toca a Fundação Gol de Letra, e ajuda a dar uma chance de vida para muitas crianças carentes.
Oposto do irmão como atleta, pois se cuidava e tinha um físico excepcional, Raí continua, porém, a luta do Doutor de uma outra forma.
Mas continua.
Pena, no entanto, que as pedradas de Sócrates, perderam para sua dependência do álcool, que fragilizou demais seu organismo.
Pena que não o ouviremos mais, nós, os que não somos reféns da grande mídia e de sua reverência a falsos ídolos com quem tem negócios.
Pena que não teremos mais o Doutor para detonar e cobrar muitos pilantras que mandam no futebol brasileiro e mundial.
Pena que Sócrates, que defendeu o Corinthians com tanta arte, coragem e beleza , era persona non grata na atual administração do clube, porque ele era contra o Itaquerão:

“Não precisa construir outro estádio em São Paulo. Os Estados Unidos não fizeram nenhum. A Alemanha fez um. Será um carnaval de um mês com uma bela conta para pagar depois. Que o Corinthians precisa de um estádio, é óbvio. Mas não precisa ser agora, nem com a gente pagando. Para que? Vai levar o que, além do estádio? É uma área para onde nunca se deu valor. Não tem hospital público de boa qualidade, educação de boa qualidade. Estádio de futebol não leva isso. Vai ter especulação imobiliária. Aí, o corinthianos que mora lá vai ser expulso. Isso não é avanço”, declarou Sócrates em uma de suas últimas entrevistas, na revista da ESPN ainda nas bancas.
Pena que um Homem fora de série como esse nos deixou. No meio dessa série de homens, famosos e ídolos tão pequenos, Doutor Sócrates é uma perda irreparável.
Mas a luta continua nas vozes de jornalistas corajosos como um Juca Kfouri (grande amigo de Sócrates), um Mauro Cezar Pereira, um Lúcio de Castro, e algumas poucas estrelas do esporte que arregaçam as mangas por um Brasil mais igual e decente. Em especial, destaco aquela que sempre teve a mesma coragem do Doutor, Magic Paula.
Que as ideias de Sócrates sejam conhecidas pelas novas gerações de profissionais do esporte que trabalharão na Copa e na Olimpíada. Que eles e elas tenham coragem de trazer algo de bom para o país e povo, e não só as dívidas astronômicas que virão. Isso, claro, se conseguirem espaço entre os muitos chefes de quadrilhas que dominam o esporte nacional... Uma das raras exceções parece ser o presidente do Santos, Luís Álvaro, um cara que faz tudo para preservar suas estrelas e com isso deixa tesouros no país em vez de só pensar em faturar mais.
Do resto, poucos se salvam.
Que saudade, Doutor!

Terça-feira, Novembro 01, 2011

Palhaços escondem lágrimas e ensinam a viver


   Pangaré é um jovem palhaço em crise de vocação. Sujeitão tranquilo, pacato e simples demais, pensa que talvez poderia ter outra vida, longe da rotina dura do pequeno circo que comanda interiorzão de Minas Gerais afora. E ele ainda precisa encontrar ânimo e forças para fazer os outros rirem.
O Palhaço, obra tão delicada quanto profunda do diretor e ator principal do filme, Selton Melo, é uma lição de resistência e amor do velho circo. Do circo que praticamente não existe mais neste terceiro milênio em que o respeitável público foi substituído pelo público tecnológico-consumidor, refém das grandes produções cheias de pirotecnias e aparatos modernos como um Cirque du Soleil ou um megashow do U2.
Assistir a esse filme é um reencontro e resgate de uma infância e mundo antigo, que existiram até a última década não escrava dos aparelhinhos eletrônicos, computadores e megaproduções. Ver a trupe de Pangaré rodando estrada, montando a lona e apresentando suas poucas mas intensas personagens, entre palhaços, seres um pouco bizarros e uma belíssima e sedutora bailarina que cospe fogo é deixar entrar a beleza da simplicidade e da ingenuidade perdidas hoje. Numa realidade de hoje em que tantos humoristas – esses falsos palhaços - invadem as TVs e internet com suas piadas debochadas, sujas, agressivas e até mórbidas, os velhos seres de perucas, roupas coloridas e nariz vermelho deste filme são um sopro de pureza e uma viagem no tempo.
Uma viagem profunda pelo coração de Pangaré e todos aqueles que escondem a dor e a tristeza atrás das brincadeiras, essas máscaras contra o rodo e front cotidiano que precisamos encarar.
Sem o riso a vida seria um desperdício, já ensinava o palhaço maior da história, Charles Chaplin e seu inesquecível vagabundo Carlitos. Mas Chaplin mascarava sua dor profunda pessoal com seu mago de chapeuzinho, roupas largas e bengala.
Pangaré não é tão triste como o mito maior, mas deixará a magia e o sacrifício do circo para sondar outras oportunidades da vida. Fora das lonas, das cores e dos artistas que driblam as poucas condições e grana para oferecer um pouquinho de alegria e arte às pessoas humildes, ele perceberá como o circo é um refúgio.
Um belo e amoroso refúgio cheio de amigos guerreiros e sábios simples, e onde está o mestre maior, seu velho pai, também palhaço, um gigantesco Paulo José num daqueles papéis da vida. Herói da arte e da vida, incrível como Paulo consegue domar sua própria doença real, o Mal de Parkinson, para dar a delicada, ampla e justa medida do velho palhaço que nunca titubeou em sua vocação: fazer as crianças e pessoas puras rirem. Esta talvez a lição maior deste filme: a coragem de quem não foge da missão que aprendeu com a única verdade que deveríamos seguir, aquela que arde em nosso coração.
A coragem dos palhaços. O mundo seria muito melhor com a valentia de Pangaré e seu pai, tão distante da covardia dos que apelam, por fama e dinheiro, para fazer os outros rirem apelando aos piores e mais invasivos sentimentos (des)humanos. 
Que saudade já do Pangaré, seus companheiros e do sensacional delegado feito por Moacir Franco, do qual não revelarei detalhes para não estragar a surpresa.
Que saudade dos palhaços de verdade como Pangaré e sua trupe, que não precisavam ridicularizar e invadir os outros para semearem o riso e a alegria.

Quinta-feira, Outubro 27, 2011

Maurren Maggi - A mais bela campeã

Poucas atletas na história do esporte brasileiro foram e são tão belas quanto Maurren Maggi.
Bela por esse fantástico e escancarado sorriso de quem realmente ama o que faz e a bandeira que carrega com tanta verdade e paixão. Bandeira e país que ficam ainda mais bonitos grudados às suas formas esculturais - longilíneas e esguias como uma onça pintada. Pintada de ouro, três vezes na história dos Jogos Panamericanos.
Bela por essa fera ser também dona de uma voz delicada e emocionada a cada conquista.
Bela por sempre lembrar da pequena Sofia, sua filha, a cada triunfo.
Bela porque essa super mulher ainda vibra com a graça de menina que nunca deixou de ser. A menina Maurren que nunca esquece de seu talismã de pelúcia, o simpático cachorrinho Leão.
Bela porque Maurren é, talvez mais que tudo, o exemplo da guerreira que venceu o doping injusto (*), uma precoce despedida - desencantada - do atletismo e um casamento desfeito para voltar aos saltos e lugares mais altos do pódio.
Bela porque numa das mais simples e bonitas provas do atletismo - o salto em distância - a prova fica ainda mais plástica e sedutora quando é ela, Maurren, quem salta.
Bela porque ali, naquela pequena pista de corrida e tanque de areia, Maurren Maggi faz da brincadeira tão antiga e gostosa de correr e saltar uma aula de velocidade, força, explosão e arte.
Uma aula que ela continua dando aos 35 anos, extendendo sua vida de atleta e paixão de menina.

Campeã olímpica e agora tricampeã panamericana (saltando ontem 6m94 no Pan de Guadalajara), poucas atletas brasileiras voaram tão longe, e com tanta beleza, dentro e fora de seu esporte como essa eterna namoradinha do Brasil. Namoradinha no diminutivo apenas para corresponder ao carinho que ela sempre nos inspirou. Ela, a que nós, os legítimos amantes dos esportes e do Brasil, sempre amamos como uma das mulheres-exemplos de nossas vidas.
Que sua voz doce vitoriosa ainda siga ouvida nas grandes competições, explodindo de alegria, até pelo menos Londres 2012, querida Maurren.
Querida campeã do coração e fibra ainda mais belos que sua fantástica coleção de medalhas de ouro.

(*) Maurren doi suspensa do atletismo em 2003 por um suposto doping. Ela descobriu pouco depois que a substância proibida vinha de uma pomada que passava contra celulite. Pomada receitada, irresponsavelmente, por sua dermatologista, uma badaladíssima médica paulistana. Testes com a pomada, feitos pelo jornalista Moacir Ciro Martins, no antigo Diário Popular, mostraram que a pomada continha mesmo, em altas doses, a substância dopante. Quanto à falta de cuidado da médica, atestei o mesmo em minha própria pele quando adolescente, quando ela me deu o mais poderoso e ofensivo remédio contra espinhas sem ter o cuidado de me pedir exames gerais. O remédio chamava-se Roaccutane, até hoje uma droga muito perigosa para o nosso organismo.

Gente que quer mudar o mundo

De Tahrir a Zuccotti, o poder do lugar
por Michael Kimmelman (New York Times)
O movimento "Ocupe Wall Street", que surgiu no mês passado em Manhattan e chegou a mais de 900 cidades do mundo no fim de semana retrasado, prova entre outras coisas que, por mais importantes que sejam as novas mídias na difusão dos protestos hoje em dia, nada substitui o fato de as pessoas saírem às ruas.
Tendemos a subestimar o poder político dos lugares físicos. Aí aparece a praça Tahrir. E agora o Zuccotti Park, que até 17 de setembro era uma praça totalmente obscura no centro da cidade, a dois quarteirões de Wall Street. Algumas centenas de pessoas com ponchos e sacos de dormir o colocaram no mapa.
A Universidade Estadual de Kent, a praça Tiananmen, o Muro de Berlim: claramente usamos os lugares e a arquitetura para abrigar nossas lembranças e nossa energia política. A política perturba nossas consciências. Mas os lugares assombram nossa imaginação.
Por isso, entramos no Facebook e no Twitter, mas fazemos peregrinações a Antietam, a Auschwitz e à Acrópole, para fitar entulhos da época de Péricles.
Morando há alguns anos na Europa, costumo topar com parques e praças - seja em Barcelona ou Madri, em Atenas ou Milão, em Paris ou Roma - tomados por barracas de manifestantes acampados. Protestos e aglomerações são parte do pacto social europeu.
Talvez a diferença na América tenha algo a ver com a tradicional obsessão dos americanos por automóveis e autonomia, com a sua predileção pelo isolacionismo, ou pela preferência por apenas assistir ao invés de participar.
Na Europa, os protestos eram relativos a empregos, aos cortes nos gastos públicos e à dívida. No caso do Zuccotti Park, a mensagem está no acampamento propriamente dito.
Em sua "Política", Aristóteles argumentou que o tamanho ideal da pólis é dado pelo alcance do grito de um arauto.
Ele acreditava que a voz humana estava ligada à ordem cívica. Uma cidadania saudável exigia uma conversa cara a cara.
Quando a polícia proibiu os megafones no Zuccotti Park, ela obrigou os manifestantes a buscarem uma alternativa. O "teste de microfone" se tornou o método consensual, no qual a multidão repete, frase por frase, o que o orador disse, exigindo na prática que todos falem em uníssono. É algo lento e trabalhoso.
"Mas assim é a democracia"
, disse Jay Gaussoin, 46, marceneiro e ator desempregado. "Andamos tão distraídos hoje em dia que as pessoas se esqueceram de como ter foco. Mas o 'teste de microfone' exige não só que escutemos as opiniões dos outros, mas também que ouçamos realmente o que eles estão dizendo, porque temos de repetir suas palavras exatamente."
"Isso exige uma arquitetura de consciência"
, foi o adequado termo que Gaussoin usou.
O Zuccotti Park na verdade se tornou uma pólis (cidade) em miniatura. O fato de ele por acaso também ser um parque particular é um dos subtextos mais reveladores dessa história. Uma exceção aberta há alguns anos na lei de zoneamento exige que o parque, ao contrário dos espaços municipais, permaneça aberto dia e noite.
Isso jogou um inesperado holofote sobre a falência de grande parte dos espaços que são tidos como públicos nos EUA. A maioria deles são gestos simbólicos de incorporadores imobiliários em troca da construção de prédios maiores e mais altos. O Zuccotti está sujeito às regras do proprietário, que proíbem lonas, sacos de dormir e a guarda de objetos pessoais no local.
Toda essa situação ilustra até que ponto permitimos que o antigo ideal de espaço público virasse uma concessão comercial.
"Viemos aqui para ter a sensação de ser parte de uma comunidade", disse Brian Pickett, 33, professor de teatro e oratória na City University, de Nova York. "É importante ver isto no contexto da alienação de hoje. Ficamos sozinhos no Facebook. Mas as pessoas não estão sozinhas aqui."
E, dessa forma, os manifestantes também se revelam uns aos outros. Os egípcios descreveram esse fenômeno na praça Tahrir. Os manifestantes não só exibem ao mundo uma massa de pessoas. Eles descobrem pessoas com preocupações semelhantes ou mesmo idênticas. O parque é literalmente um terreno comum. O processo de gestão escolhido já é por si só uma mensagem fundamental de protesto.
Ele oferece os contornos de uma cidade, como eu já disse. Os manifestantes montaram uma cozinha para servir alimentos, uma secretaria jurídica, um departamento de saneamento, uma biblioteca com livros doados, uma área para as assembleias gerais, um posto médico, um centro de mídia onde é possível recarregar laptops usando geradores portáteis, e até uma loja abastecida com doações de roupas, lençóis, creme dental e desodorante -tudo de graça, assim como os mais diversos tipos de alimentos.
A produtora rural orgânica Sophie Theriault, 21, atua como voluntária no parque. "Nós nos reunimos todas as noites para falar sobre como manter este lugar limpo e sóbrio, mantê-lo como um lugar emocional e fisicamente seguro para todos", disse. "O consenso constrói a comunidade."
O compositor e engenheiro de som Patrick Metzger, 23, ecoou esse pensamento: "Pelas mensagens na internet, você nunca obtém informações sobre raça, classe, idade - quem as pessoas realmente são. A Fox News fala de turbas e gente esquisita.
Mas dá para ver como a mistura é realmente complicada: estudantes e pessoas mais velhas, pais com famílias, operários da construção na hora do almoço, executivos desempregados de Wall Street".
Metzger tem razão. A diversidade dos manifestantes, pelo menos durante o dia, é intrínseca à perseverança do protesto. Desde o 11 de Setembro não havia tanta gente perguntando "Você esteve lá?" e "Você viu?" a respeito de algum lugar em Manhattan.
É claro que a ocupação do mundo virtual juntamente com o Zuccotti Park está impulsionando o "Ocupe Wall Street", e uma coisa não seria tão eficaz sem a outra.
Só que é no terreno que os manifestantes estão construindo uma arquitetura da consciência.