segunda-feira, junho 18, 2012

20 anos do sonho da América


Ainda hoje aquele pôster - amassado, rasgado e envelhecido pelo tempo - está pendurado no velho quarto de um garoto que virou quarentão mas não o esqueceu. Nele vemos um raro caso de guerreiro elegante. A camisa está manchada de terra, na verdade enobrecida da terra e do chão do qual ele não tinha medo. O chão no qual ele se atirava numa jogada típica, o carrinho que dava para recuperar a bola nas laterais do campo, lugares que ele sabia que resultariam em contra-ataques mortais. Este era o lado guerreiro, de quem dividia sem medo e enfrentava no peito os mais duros marcadores rivais, em qualquer pedaço do campo. Havia também a elegância, o porte altivo, corpo e mente ereta, de quem jogava o fino e com inteligência, com toques refinados, passes precisos e solidários, chutes tão violentos quanto precisos, e cabeçadas que eram tiros de canhão. Até hoje, 20 anos depois, Raí segue dependurado na parede da velha casa dos meus pais e não cai. Porque aquele São Paulo era derrubador, brigador, vencedor. Conquistador da primeira Libertadores tricolor. A até hoje talvez mais bela taça que conquistamos, por seu significado e dificuldade.
    Eram 105 mil são-paulinos no Morumbi lotado e duvido desse número, pois passei o jogo todo espremido em um dos últimos lances da arquibancada, o que fez muito jornalista falar em pelo menos 120 mil torcedores naquela noite. A mãe de todas as noites gloriosas do São Paulo de Raí, outros fantásticos jogadores e, claro, mestre Telê. Resgatando hoje a escalação, o esquadrão é monumental: O seguríssimo e heroico Zétti (e ainda um ser humano sensacional), o multihomem em campo, Cafu, o clássico e raçudo Antonio Carlos, a muralha Ronaldão e o vigoroso mas inconstante Ivan (não naquela final), típico caso de jogador que só brilhava e arrebentava sob o comando e orientação de mestre Telê. No meio-campo, o cão de guarda mas bom no primeiro ou segundo passe (diferente dos meros brucutus de hoje) e uma das almas do time, o sempre enlouquecidamente mais que raçudo, Pintado. Ao seu lado na proteção da zaga e início dos contra-ataques infernais tricolores, o clássico e nobre zagueiro central, deslocado por Telê, Adílson, quase um líbero, pois Telê era, sim, bom em tática também, como não acreditavam seus críticos. Um pouco mais à frente, capitão, líder e matador Raí comandando as ações ofensivas com o homem de papel, fluído, quase etéreo, mas ilusionista, rapidíssimo e inteligente nos toques rápidos, além de goleador, Palhinha. Já no ataque, mas volta e meia recuando um pouco para armarem tabelinhas sensacionais, o genial Müller, tão flecha quanto arco de boa parte dos gols tricolores. Junto dele, do outro lado, o veloz e não tão inteligente Elivélton, mas hábil e de chute forte. E se Müller, coisa rara, não estava bem, houve o amalucado mas habilidoso e supersônico Macedo no banco para entrar e sofrer o pênalti que nos daria a vitória necessária para levarmos o jogo aos pênaltis.
Pênalti que Raí encarou com a frieza de valente dos valentes, caixa, 1 a 0 igual ao placar da derrota na Argentina contra esse lutador Newell´s Old Boys comandando por um certo Marcelo Bielsa...
Veio então a decisão por pênaltis e aí brilhou não só o heroísmo e técnica de Zétti mas um dos diferenciais daquele São Paulo de outros tempos: o trabalho bem feito nos bastidores e preparação da equipe. Zétti sabia para onde pular porque seu treinador, e observador de todos os adversários do time naquela Libertadores, já tinha mapeado a cobrança dos jogadores do Newell´s. Falo de Valdir de  Moraes, ele mesmo, aquele que depois ainda formaria um certo Marcos no rival alviverde. E ainda havia na comissão técnica tricolor Moraci Santana e Turíbio de Barros, comandantes de toda a preparação física e fisiológica dos jogadores naquela Libertadores.
Falta ainda o Mestre Telê Santana. E o que eu posso dizer de um treinador que montou um time sensacional desse, como mostra a escalação? O que dizer de um treinador que baseou seu time em pegada, sim (Ronaldão e Pintado na chefia do jogo duro mas na bola), mas também nas maravilhosas tabelinhas entre Raí, Palhinha, Müller e Elivélton? O que dizer de um treinador que morava no CT do São Paulo e investigava todos os dias os gramados para quem nenhum buraco machucasse seus atletas ou prejudicasse o toque de bola conduzido por Raí e cia? O que dizer de um mestre sem frescuras e vaidades, que só se importava em treinar e treinar, bem diferente dos treinadores pop stars que infestariam o futebol brasileiro e mundial em pouco tempo? O que dizer de um perfeccionista e raro treinador formador de jogadores completos, que exigia a repetição dos fundamentos básicos do passe, cruzamento, tabela e chutes? O que dizer de um mestre amado para sempre, até hoje cantado com saudade no seu templo e imensa sala de aula do Morumbi?
Bonita ontem (antes da pelada de mau gosto contra o Atlético...), a homenagem aos homens e heróis que começaram duas décadas atrás o sonho de nos tornarmos o melhor time do mundo. Só não concordei com os jogadores de hoje estamparem em suas camisas os nomes dos nossos heróis.  
Nunca vi, por exemplo, o Maestro Raí maltratar a bola, não dar o sangue ou reclamar de uma marcação do árbitro... Nunca vi o maior jogador de nossa história nos deixar na mão.
Raí só nos deixava nas nuvens. No topo do mundo.

* Textinho do Maestro sobre a Libertadores de 1992 aqui

sexta-feira, maio 25, 2012

A busca de verdade não aparece no Google (ou as lições de vida do cineasta Walter Salles)


Uma lição sobre onde está a vida que perdermos ao não sair de casa, dos mesmos lugares de sempre, do micro, do celular e outros hábitos alienantes. É isso o que oferece a bela entrevista com o cineasta Walter Salles - sobre o filme On the road (Na Estrada) - na revista Época. Como não está disponível no site da revista, reproduzo alguns trechos e uma mentira. O título da entrevista é uma frase que Salles não disse: “Os jovens não são mais conformistas”. A seguir, a pergunta e resposta sobre isso:

ÉPOCA - Os jovens hoje são mais conformistas ou estamos entrando numa outra onda de contestação?
W. SALLES - Experimentar tudo na primeira pessoa colide com a ideia de experimentar por procuração, em frente à tela de um computador ou em frente à televisão, assistindo a um programa de teleirrealidade. O livro (On the road, saga de liberdade e experimentações dos poetas e escritores beat nos anos 50) é um pouco uma vacina contra esse imobilismo. Movimentos recentes, como a Primavera Árabe, os indignados na Espanha e as manifestações como Ocupem Wall Street revelam um desejo de transformação da sociedade. Hoje o clima é bem diferente dos anos 1980 e 1990...

Ou Seja, o que Salles disse é o que os jovens estão menos conformistas que as gerações dos anos 80 e 90, mas ainda há muita apatia e alienação, como ele revelou ao falar dos jovens que ficam em frente das telinhas, sem experimentar e vivenciar a vida real. Sobre isso, Salles revela em uma de suas repostas que “experimentar é a única forma de desenvolver uma experiência crítica. E afinar sua visão de mundo”. Esta frase é uma paulada na juventude que não sai de casa, do quarto, do carrinho do pai e mãe e do shopping, e ainda passa horas mergulhada em seus aparatos tecnológicos sem olhar ao redor e perceber as pessoas e o mundo.
A vida sentida na pele é a essência do livro e filme On the road, e Salles caiu na estrada também com sua equipe e atores para fazer o filme (antes ele ainda fez um documentário sobre o mesmo tema) e ele revela como essa experiência foi decisiva em sua carreira de cineasta:

ÉPOCA – O senhor fez Central do Brasil, Diários de Motocicleta, sobre Che Guevara, e agora Na estrada, sobre Jack Kerouac e a cultura beatnik. Todos road-movies. O senhor se considera mais um cineasta ou um viajante?
W. SALLES – (...) Toda vez que você se distancia do ponto de origem, você ganha maior perspectiva sobre quem é, de onde veio e eventualmente quem você quer vir a ser...

Ou seja, galera, quem ficar preso aos mesmos lugares, hábitos e imobilidades; quem não viaja e não sai de sua cidade, nunca vai ganhar uma dimensão e entendimento maior de seu país, mundo e da própria vida. Portanto, pé na estrada, ou na rua. Um bom começo para um paulistano é pegar o metrô, dar uma caminhada pelo entorno das estações e as exposições riquíssimas que rolam em várias estações. Sai da net, sai de casa, a vida não é um programa de busca de notícias. 

A busca real é outra coisa, bem mais gostosa, rica e verdadeiramente viajante.

sexta-feira, abril 27, 2012

O mais apaixonado dos mestres


Com ele, artistas viraram magos. Craques viraram super craques; e guerreiros, deuses.
Com ele, o futebol recuperou a poesia em prosa do jogo de toques com classe e passes perfeitos e incisivos.
Com ele todas as grandes equipes do passado voltaram a ser emuladas. Porque ele nos lembrou que um dia o futebol também foi belo em outras cidades e países.
Com ele, algumas palavras essenciais às equipes inesquecíveis foram resgatadas: fidelidade a um estilo e coragem de atacar sempre.
Com ele veio a revolução do jogo de toque vir acompanhado de  uma colossal entrega física para recuperar a bola e seguir atacando.
Com ele os gols voltaram a ser maravilhosas jogadas coletivas, e os gols de placa individuais ficaram ainda mais belos, por ele ter feito seus artistas treinarem tanto.
Com ele o futebol arte renasceu e evoluiu ainda mais, fazendo de cada jogo do seu time um espetáculo tão belo quanto o mais belo espetáculo artístico e cultural.
Com ele o futebol virou uma música e outras artes tão belas quanto rápidas e envolventes, como se fosse possível um time ser múltiplo – música, dança moderna, ballet, ópera, cinema etc – e também mover-se em ritmo alucinado do bom e velho mas veloz fliperama dos anos 70/80.
Com ele seus jogadores admiráveis mostraram-se também homens valorosos, raríssimas estrelas humildes e homens de bem que não aparecem na mídia traindo esposas, fazendo farras homéricas, empunhando metralhadoras, brigando ou fazendo todo tipo de coisa vulgar.
Com ele meninos viraram homens e campeões juntos. Com ele, as divisões de bases, as canteras, viraram celeiro.
Com ele o mundo do futebol, sempre ávido em gastar fortunas em contratações, redescobriu as categorias de base e a necessidade de se valorizar os meninos.
Com ele, um dos últimos treinadores românticos, o futebol voltou a ser um romance de craques com a bola e o gol.
Com ele nós voltamos a perceber como o futebol e o esporte podem ser bonitos.
Com ele, aprendemos que devemos ouvir os mestres antigos para nos enriquecermos e aprendermos, porque antes de brilhar no Barça ele procurou para conversas sem fim os treinadores que ele mais admirava.
Porque ele não é um treinador boleiro, desses que viveram a vida nos gramados e não aprenderam nada fora dos campos.
Porque ele trouxe ao futebol um pouco de sua vasta cultura, do seu amor pelo cinema e poesia por exemplo.
Porque ele só queria fazer uma coisa: implantar no time de seu coração a utopia de um time jogando exclusivamente por amor ao futebol arte.
A dor em Barcelona hoje é grande demais, mas em breve, algum lugar abençoado deste mundo receberá o mestre e será mais feliz que nunca. E podem ter certeza que ele vai escolher um lugar e uma camisa sinônimos de magia, mesmo que uma magia meio esquecida no passado. Quem sabe por aqui...

sexta-feira, março 23, 2012

Os primeiros anos do resto de nossas vidas


Uma das canções da vida. Ou melhor, que nos faz lembrar de pedaços essenciais mas soterrados, até interrompidos, dela. Música-tema de St. Elmo´s Fire (O Primeiro anos do resto de nossas vidas, com Demi Moore ainda menina e cia juvenil estrelada). Os instrumentos iniciais (violino?) são um passaporte para o passado. O tecladinho soa como velhas fotografias de rostos e corações que não devíamos ter esquecido, jamais. A bateriazinha de leve nos lembra de abraços, sorrisos, do jeito iluminado com que olhávamos os amigos e vice versa.
Por que a vida nos separou? “Ah, o tempo, os caminhos, as famílias...” que cada um criou ou ainda tenta criar. Ou a dureza dos que mudam demais e esquecem de como eram melhores, mais humanos, quando garotos e meninas.
A profundidade do piano e a o sax expandem a canção e nos levam de volta às fotografias de momentos inesquecíveis, da pureza de amigos e amigas que um dia foram nossos irmãos de sonhos, viajando juntos nos sonhos fundamentais dos 15 anos: as musas impossíveis, os pequenos grandes feitos, as pequenas  partidas de colégio que transformávamos em finais de Copa do Mundo (quem não lembra de uma grande vitória na quadra da escola onde um dia você sonhou, viveu, sorriu e sofreu, esquece algumas das maiores emoções da vida). As viagens com a turma, as festinhas, as piscinas, o mar, o lago, as águas que corriam mais puras e inocentes. As águas que corriam intensas e emocionantes como o sangue da juventude de atitude.
Volta o tecladinho, a dedilhar com suavidade o menino ou menina quem um dia fomos, jovens em tempos mais reais, onde festas era marcadas de boca em boca, em que conversas eram anunciadas com um toque na campainha de nossas casas ou um grito nos chamando.
Eram tempos em que o amigo, em vez de mandar mensagens via computador ou celular, surgia do nada (do tudo, de seus corações) batendo em nossa porta, sem avisar mas sendo bem recebido.
Eram tempos de papos intermináveis à beira da calçada de frente para ruas tranquilas, livres de tantos carros ou da gente nervosa, apressada e mal educada de hoje. Eram rolês de bike sem capacetes, com as orelhas mais livres para escutar o mundo imenso que sentíamos e imaginávamos quando moleques, e sem roupinhas especiais. Pedalávamos com a mesma roupa com que jogávamos bola ou taco na rua. Pedalávamos por ruas e tempos menos consumistas e neuróticos, mais calmos e humanos.
Eram tempos de ligações mais simples e profundas. Não lembro de falar ou ouvir a palavra “conexão” quando garoto, mas tenho certeza que os amigos eram muito mais conectados na era dos gritos na porta de casa e nos rolês a pé ou de bicicleta em pleno fim de semana (é, acho que tínhamos muito menos lições de casa no passado, talvez os professores e as direções de escolas soubessem ensinar o essencial em vez do massacre conteudista cada vez maior de hoje).
Tínhamos tempo livre de verdade. Éramos mais livres para sonhar e viver. Vivíamos na rua. E não me venham falar de que hoje há muita violência, mais carros etc. Sim, é verdade, mas ainda existem muitas ruas, praças e parques onde se pode crescer e viver sem medo. Pena que a paranoia dos pais ou o excesso de atividades em que enfiem seus filhos acabe com a adolescência hoje.
A adolescência e juventude que parece ter ficado no passado, como no maravilhoso filme St. Elmo´s Fire, em que os amigos, sonhavam, ajudavam-se e, sobretudo, ficavam juntos.
Eram outros tempos.
Eram outros humanos.
Mas graças que alguns resistentes ainda lembram de filmes e canções como essa, como a velha amiga dos anos incríveis que postou essa canção hoje cedo no Facebook.
E graças que ainda existem, nos corações de quem sabe encontrar a companhia e amor certo, romances como o desse filme que marcou os românticos dos anos 80.
Graças que, mesmo se a mágica dos 15 anos não volta, ainda é possível cultivar uma pessoa como cultivávamos os jardins incomparáveis dos amigos dos 15 anos.
Se os amigos desapareceram na cinza poeira do tempo, ou no poço sem fundo (sem volta?) dos que mudaram por questões de grana e status, cuide de sua parceira ou do seu companheiro com o mesmo cuidado, alegria e entusiasmo com que regavam os moleques e meninas dos anos mais mágicos da sua vida.
Quem sabe, fazendo isso, e exercendo a arte esquecida do romance no amor, você não lembrará do amor tão belo quanto: o amor que se irradiava dos amigos e amigas do peito que não apenas se curtiam, mas celebravam a vida juntos.
Texto dedicado aos que se sentem bem demais quando a esposa ou namorada encosta a cabeça nos nossos ombros no cinema vendo um filme que celebra o amor ou a parcela diminuta, mas combativa, da humanidade que ainda luta por um mundo melhor.

PS – Quem vai agitar uma festinha pelos bons tempos??? Ou quem é que vai começar a bater um fio, telefonar para os velhos amigos, em vez da frieza e fugacidade dos posts virtuais?
Nunca é tarde para resgatar a pessoa sensacional que você um dia foi.

quinta-feira, março 22, 2012

Big Sunday – Ondas iguais à vida


As grandes ondas são parecidas com os relacionamentos ou a solidão humana em seu lado mais triste: a falta de companhia. Às vezes não conseguimos chegar até elas  sozinhos. Falta algo essencial em uma boa aventura marinha: os amigos.
Sábado o mar rugia anunciando o finalzinho do verão e a chegada do outono, o início da temporada de ondas grandes. O oceano chamava para uma daquelas sessions épicas, mas faltou braço e estímulo para varar a arrebentação distante numa maçaroca de ondas já arrebentadas uma atrás da outra. O jeito foi desistir, e com sorte, pegar uma boa e única parede na zona intermediária. Solitária onda que me deixou, porém, frustrado. Sempre ficamos quando não chegamos na porta de entrada da catedral marinha, o outside.
Só o longo passeio, de mãos dadas com a mulher amada, de frente para o mar e sob um pôr-do-sol suave e de belos tons do outono próximo, amenizou um pouco a falta de ondas. Mas o déficit de surfe sempre deixa nosso tanque de vida menos cheio.
De noite, a boa notícia chega pelo celular. Era a mensagem só possível em um amigo fiel, aquele que não precisa conversar antes de anunciar: “amanhã cedo estamos colando aí pra dar uma queda.”
Bem aventurados os que têm um brother assim. Não é preciso combinar nada, não é preciso marcar, ligar pra acertar as coisas. O brother de fé apenas anuncia que está a caminho. E eles sabem que surfar sozinho sempre deixa um vazio e muitas vezes, arruína uma session como a minha do sábado.
E pra melhorar ainda mais, o brother fiel não embaça: ele madruga e chega cedinho. Tava ainda na cama quando o telefone tocou, ele já tava na praia, só pegaria a prancha do outro brother ali num apê próximo.
Ainda com um copo de leite quente na mão escutei a buzina. O irmão, o velho parceiro chegou. Logo estamos passando parafina nas meninas. Logo estamos na praia.
Sim, a cena é furiosa. Netuno ruge firme. O liquidificado gigante do sabadão deu uma diminuída, o mar deu uma acertada, mas a arrebentação segue distante pacas. Sabemos que a remada vai ser insana, até pensamos que não conseguiremos chegar lá atrás, mas não sentimos isso. Porque brothers juntos, de alguma forma, por alguma ligação poderosa, sabem que conseguirão.
A entrada já é dura, a temperatura da água já é a fria da próxima estação. A paisagem toda branca, de um mar de ondas grandes estouradas, é uma dura barreira. A remada é uma odisseia para meu ombro esquerdo lesionado há meses e para a lombar direita também machucada há tempos.
O sal é remédio, a água é terapêutica, os amigos são os guias a me estimular. Eis então que o amigo tranquilo dispara lá na frente, parece ter descoberto uma brecha numa breve pausa da fúria marinha. Percebo a chance, dou um gás. A dificuldade para mergulhar debaixo das bombas estourando vai amainando. Pouco depois encontro a segurança do outside, a zona mágica antes das ondas quebrarem.
Ficamos lá, eu e o amigo tranquilo, quase zen, à espera das séries e do velho brother. Nem sinal dele. Deve estar na zona cega das ondas estourando na cabeça e forçando um recuo natural.
Alguns minutos depois o velho amigo desponta. Rema devagarzinho como se caminhasse num caminho santo com um cajado na mão. O ritmo vagaroso era exaustão e então eu e o brother sossegado demos aquela boa risada meio aliviada e meio sacana, “olha lá o Velho, tá mortinho, remando feito um velhinho”.
Logo éramos os três amigos juntos de novo. Juntos, felizes e orgulhosos de terem vencido a famosa remada-estrada sem fim de nossa praia local, famosa por sempre cobrar um preço caro para nos entregar o paraíso do outside.
Bom, o paraíso pode ter suspiros de inferno: a primeira série cavernosa se aproxima. Em vez de botarmos pra baixo, deixamos as morras passarem e damos risada do tamanho delas e de nossa falta de coragem.
As condições estão difíceis de entrar, perdemos outras séries mas não o bom humor, um sacaneando a remada sem sucesso do outro, encerrando a frase com “ainda bem que você não entrou, ia tomar uma vaca...”
Os amigos juntos logo espantam a apreensão e o receio. Nos dão confiança e a certeza de que olharão por nós.
Logo conseguimos pegar algumas bombas e ficamos mais tranquilos também ao descobrirmos que as ondas não estão desabando, mas sim quebrando aos poucos, permitindo nossos erros sem que nos engulam.
Logo estamos todos renovados e logo esquecemos o tempo. As horas passam e curtimos uma das mais longas sessões dos últimos tempos. E curtimos esse aumento dos laços de amizade que uma session inesquecível sempre produz.
Graças às morras desse fantástico Big Sunday.
Graças à vontade de surfar e viver, juntos, dos Brothers.

sexta-feira, março 09, 2012

Messi e Neymar - As crianças da revolução


     A melhor explicação para as inexplicáveis jogadas e gols espetaculares que Messi (se cuida, Pelé!) e Neymar (legítimo sucessor de Garrincha) fizeram 4ª feira veio de um velho artista da bola, o francês Eric Cantona, um dos maiores ídolos da história do Manchester United. Disse Cantona sobre Messi e suas palavras cabem direitinho em Neymar: “Messi tem um entusiasmo quase infantil pelo jogo. Os grandes jogadores são os que têm a espontaneidade da criança.”
     LEIAM MAIS NO MEU BLOG SÓ DE ESPORTE, cliquem aqui: Paixão Esporte Clube

sexta-feira, março 02, 2012

O artista - Por uma vida mais real

Houve um tempo em que a vida parecia acontecer em preto e branco.  As opções em produtos e atividades eram poucas. Nos anos 60 e 70, o único aparelhinho tecnológico que seduzia os homens por muito tempo era a televisão. Só que essa tv tinha poucos canais e poucos programas. E não passava qualquer jogo que você quisesse ver. Quem tinha um time do coração precisava ir ao estádio para vê-lo. Precisava viver a emoção real do jogo ao vivo. 
Eram tempos ainda sem tanto curso disso e daquilo pra ocupar o “tempo livre”, muitas vezes sem um interesse real e profundo. Eram tempos em que as pessoas viviam o tempo livre mergulhados num livro ou brincando, jogando e vivendo ao ar livre. 

Até uma paixão universal como a música oferecia um processo mais bonito e humano: para ouvirmos um artista tínhamos que colocar o LP num aparelhinho que vários escutavam ao mesmo tempo. E era preciso esperar meses, como se aguardássemos a chegada de um grande amigo ou paixão que viajara, para ouvirmos o novo álbum de nossa banda preferida. E que gostoso e que experiência muito mais rica era escutarmos pela primeira vez os belos bolachões de vinil (depois de namorarmos e tocarmos aquela capa enorme) junto dos amigos, com o som se expandindo das velhas mas comunitárias vitrolas. E como era bacana também quando uma modernidade como a pequenina fita cassete virava presente para alguém querido. A gente dava o máximo de nosso bem querer para fazer uma coletânea dos sonhos. E escrevíamos de próprio punho o nome das canções, com algo que necessitava de capricho, cuidado e carinho chamado caligrafia.

A vida era em preto e branco, pelas poucas opções em produtos, mas paradoxalmente, pareciam muito maiores as opções para se viver. Ou alguém aí acha que ter à disposição milhares de joguinhos é um cardápio maior que o oferecido pelas antigas brincadeiras de rua? E os cursos? Hoje podemos fazer curso de qualquer coisa e qualquer idioma, mas será que isso nos enriquece mais que o antigo hábito de lermos muitos livros, sem distrações? Será que as inúmeras opções não acabam fragmentando nossa capacidade e formação?
Todo esse longo preâmbulo, realista e não saudosista, trago para manifestar minha tristeza pelos comentários dos adolescentes e jovens sobre essa obra-prima que acaba de ganhar o Oscar, o filme francês O artista. “Ah, é em preto e branco”, “ah, o cara fica dançando e fazendo careta”, “não tem fala”, “é uma coisa velha”, e o pobre blá blá blá multiplica-se.  O pior é que a maioria dos comentários vieram de moleques que não viram o filme, presos que estão aos seus pré-conceitos e à ditadura do novo e do moderno vendida pela mídia.
Não sabem o que estão perdendo. Não sabem que perdem a interpretação máxima que um ator e atriz precisam ter devido à ausência de cor. Como minha sábia mãe professora e amante do cinema e da vida sempre disse, o preto e branco obriga o ator a ser muito expressivo e dizer muito com “meros” olhares. Não há o recurso da cor e suas milhares de tonalidades e nuances para disfarçar uma expressão facial pobre. O preto e branco é um farol que ilumina apenas os grandes mestres da interpretação como este fabuloso Jean Dujardin, protagonista do filme que vai do tom debochado e engraçado à paixão, amor e dor de uma cena para a outra. O mesmo faz sua eletrizante parceira em cena, Berenice Béjo.
E se os jovens querem uma ação vertiginosa – oferecida pelos joguinhos e pelos vazios filmes blockbusters de aventura - O artista ainda oferece o ritmo alucinante da rápida queda de uma grande estrela do cinema, o George Valentim feito por Du Jardin, da fama ao esquecimento, solidão e pobreza em pouco tempo.
E se os jovens querem diversão, ela está mais que garantida por esse adorável e engraçadíssimo cãozinho que é o companheiro fiel do astro do cinema na glória e no fracasso.
O problema é que nem ao cinema os adolescentes e muitos jovens vão mais. Como bem escreveu na Folha de ontem o jornalista Marcelo Coelho, ir ao cinema decresceu tanto na molecada que os professores agora inventam passeios para o cinema para garantir um mínimo de formação cultural e arte aos seus alunos. Coelho mostra que a ida ao cinema parece a velha ida ao teatro com a escola. Ah, mas e o DVD e a tv a cabo? Preciso dizer que tipo de filmes e canais a meninada assiste?
Graças aos raros pais que ainda mantém o saudável e belo costume de levar os filhos ao cinema, guiando-os em filmes-caminhos desconhecidos, em vez de apenas levá-los para ver o novo blockbuster que a grande mídia tenta nos enfiar goela abaixo.
Graças aos professores que arrumam um tempinho e uma brecha no conteúdo das apostilas para exibir um filme rico aos seus alunos. Obras que eu denomino de “filmes de formação” por apresentarem e discutirem os mais importantes fatos e valores de nosso mundo, de ontem e hoje.
Não viu ainda O artista? Dê uma chance à verdade do preto e branco e descubra ainda como é possível se emocionar num filme mudo, no tipo de filme que nos legou o talvez gênio maior da história do cinema, Charles Chaplin.
Parabéns ao Oscar por valorizar não um filme ao estilo antigo – como críticos superficiais insistem em classificá-lo – mas um filme super atual, para quem defende uma vida mais bela, por resgatar a interpretação e poesia perdida pelos excessos dos efeitos especiais mirabolantes.
Parabéns ao Oscar por valorizarem a perfeita definição do cinema dada pelo cineasta Nicholas: “O cinema é a melodia do olhar”.
Mas como fazer os jovens olhares e se concentrarem num simples olhar se são cada vez mais bombardeados por aparelhinhos, aplicativos, softwares, joguinhos, fones de ouvido ultramega potentes (para delírio dos médicos otorrinos...)?
Como resgatar a poesia sufocada pela fúria da velocidade, barulho e alienação?
PS – Não se convenceu? Tente então dois outros filmes primeiro, coloridos e falados... Em Os Descendentes, o destaque é a jovem Shailene Woodley que faz a filha mais velha de George Clooney. Em seu primeiro papel no cinema, a adolescente produz mais efeitos e eletricidade com seus pequenos, ligeiramente puxados e ultraexpressivos olhos que todo o elenco reunido dos canais adolescentes que infestam a tv a cabo. Da ternura à raiva, da rebeldia sem causa à atitude para defender a honra de seu pai, ela é um soco na cara na apatia ou afetação de jovens atorzinhos e atrizes sem o mínimo talento.
Já em O homem que roubou o jogo, Brad Pitt faz um dos mais belos trabalhos de sua carreira como um homem que arrisca tudo por uma ideia jamais tentada antes. Há uma cena dele acelerando o carro enquanto escuta uma canção da filha que Pitt simplesmente condensa todos os sentimentos mais fortes possíveis no ser humano em segundos. E detalhe: ele faz isso  mal mostrando os olhos, apenas deixando cada linha e ruga de seu rosto falar-explodir sem falar. Coisa de grande artista, coisa do antigo bonitão que virou um grande, e a cena ainda conta com uma fotografia deslumbrante, com pouca luz e sombras sendo incendiadas pela atuação do marido de Angelina Jolie.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Sk8 Longboard – Porque a vida pode ser completa


     Basta uma breve session, breve apenas na contagem dos minutos, que a nossa sanidade contra a loucura e pressão da metrópole está preservada. Mas madrugar é preciso. Para fugir do crowd de carros, no longboard em ladeira, acordar cedo (não tanto como no surfe, por exemplo) é fundamental. Só assim conseguimos uma descida limpa, sem carros querendo nos ultrapassar. 
     Só assim a avenida torna-se uma imensa e imaculada tela de asfalto pronta para receber as linhas de nossa pintura viva em ação. Cedinho é só chegar lá em cima e apertar o play mais vivo e real que existe, aquele disparado com os pés. 
     Logo é descer-voar. É dançar no balanço das curvas ou tornar-se um homem-bala em linhas retas supersônicas. É chegar lá embaixo leve, pássaro humano que fugiu das gaiolas da rotina urbana ou das drogas tecnológicas que fazem muitos passarem horas com a cabeça e olhos baixos, enfiados em celulares, notebooks, redes sociais virtuais, joguinhos e outros aparelhinhos viciantes. 
     Logo é subir morro acima até o pico de novo. Subir-sonhar tranquilão, mente esvaziada das impurezas e durezas da urbe opressiva. Subir com o brinquedo debaixo do braço, olhando pro céu, cumprimentando os cachorros das casas, os poucos caminhantes (em geral, pessoas mais vividas, experientes, sábias) e alguns seres vitais para nossa super tela de asfalto - muito melhor que a tv de plasma, lcd, super hd ou sei lá o quê estar sempre limpinha e lisa: os garis que varrem a sujeira da pista dos sonhos. 
     O que pode ser mais completo que poder descer e subir com tamanha simbiose entre a adrenalina da queda livre e a paz da ascensão de volta ao pico ou plataforma de lançamento? Sim, alguns carros nos lembram da insanidade da vida (?) moderna. Mas eles passam. Os longboarders ficam. 
     Subiremos de novo. 
     E desceremos de novo a nossa maravilhosa e paradoxal ladeira que é, no peito e na alma, uma elevação. 
     Amém.
     
     * Foto afanada do bacana site Skateweb

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

Requiém para o bar de nossas vidas

Não é a alegria que é inspirada pelos bares. É o contrário. O bar certo - sem frescuras, sem pose, sem excessos na decoração e monetários - o bar dos nossos afetos é que produz a alegria. Porque o bar certo é um aconchego de cadeiras, mesas e o nosso canto, lanche e bebida preferida. E, claro, os amigos do peito que adoram o mesmo lugar. E o que fazemos quando baixamos no nosso bar e ele fechou?
Lembro que o amigo irmão já tinha me falado que ele ia fechar. Mas a gente não acredita, ou pensa que vai demorar. Como pode o nosso bar fechar? Como um lar pode ser cerrado? A dor piora porque há alguns anos passei a frequentá-lo muito pouco, talvez machucado porque a vida seguia sofrida enquanto as pessoas pareciam tão felizes ali. Talvez porque há muito tempo que de ponto de encontro de amigos o bar tinha virado um mero esquenta pré-balada para os cada vez mais novos frequentadores. Talvez porque eu não tinha uma grande alegria pra contar, e grande alegria só pode ser um coração completado com o amor, que enfim, reencontrei. Talvez porque fosse difícil até saborear uma das mágicas deste bar: a sensação de que o tempo não passava, e de que as amizades não morriam, continuavam firmes e eternas. Sim, o tempo passava, e muitos de nós continuavam na mesma, sem ainda conquistar alguns dos grandes sonhos que um dia sonhamos juntos neste bar. Por isso, a alegria de frequentar esse templo da amizade do peito foi se tornando nostalgia. E nostalgia, a saudade da época mais louca e dos sonhos jovens mais reais, não faz bem numa mesa de bar, numa sagrada mesa de bar dos melhores amigos.
Besteira, devia ter passado lá mais vezes. Devia ter erguido mais brindes. Devia ter dado mais risadas por ali. Devia ter aceitado os convites seguidos do rei deste bar, Fernando Baccari e sua côrte de loucos nobres, no coração e caráter, Salim, Gus, Kiko e Gutão. Côrte, não, pois essa turma mais se assemelhava aos mosqueteiros do romance de Alexandre Dumas, loucos e destemidos espadachins da vida, em busca de um pouco de aventura, encontrada até num simples, idiota mas doido jogo da moedinha... Encontrada nas conversas debiloides e alegres, ou nos breves mas marcantes interlúdios em que discutíamos a vida e nossos problemas. Momentos em que um simples olhar já bastava, um olhar de compreensão que surge com mais força na nossa taberna, na nossa casa no meio da rua. No estação de parada em que esperávamos o mais importante: os amigos que amamos.
Os amigos que não nos deixaram na mão nos momentos mais duros.
Os amigos com que celebramos as maiores conquistas de nosso Tricolor. O vazio aumenta, pois além de tudo, o bar ainda era um conhecido reduto Tricolor.
Os amigos com que celebramos de forma insana a conquista da Copa de 2002. Um deles, grande Nunes, que ainda era o maior devorador dos ótimos lanches, raros em um botecão, do lugar.
Os amigos que eu fiz quando comecei a aulas, e, irresponsável que eu era, os amigos a quem eu apresentei esse bar. Talvez eu tenha errado, mas aquele bar ajudou a forjar amizades eternas, e minha falha talvez tenha virado virtude.
Porque aquele tornou-se o bar da esperança, o bar das risadas, dos brindes cheios de sentido ou sacanagem, dos apertos de mãos firmes, das conversas cúmplices e, claro, das mais variadas cenas antológicas de bagunça e comemoração, de brigas e reencontros, de uivos para a lua e gritos, quantos gritos!, de gol ou amizade.
Por isso grito, com o peito apertado e a face molhada, toda a saudade e história do bar de nossas vidas, o inesquecível bar de Seu Leo, dos garçons Sousa, Bigode, daquele outro simpático pacas, desse pessoal que nos atendia falando o nosso nome.
Obrigado por tudo, meu grande amigo, meu irmão, Samaro!!!!!

terça-feira, janeiro 17, 2012

O homem de braços abertos

Um iluminado que é a antítese do sombrio personagem de Jack Nicholson naquele antigo filme de suspense-terror. Um cara transparente, solar, sempre de braços abertos como aquele amigo do peito que está pronto para nos dar uma força. Um cara que mesmo quem o conhece há pouco tempo, parece amigo antigo, porque tempo de convivência não importa pra ele, o que vale é a sinceridade e a vibe.
Vibe, palavrinha gringa que remete a um clássico solar dos Beach Boys e associamos às boas vibrações é a cara desse maluco do bem. Maluco beleza não por ser louco irresponsável, não é, mas por parecer estar sempre de bem com a vida, deixando ela rolar no rumo de seus sonhos que ele ainda não consegue definir direito. Sonhos de trabalhar com o esporte (é jornalista), por isso ele, que deixou Sampa há alguns anos para viver em Barcelona agora está de malas prontas pra terra da próxima Olimpíada, Londres.
Maluco contraditório, como um cara gente fina desse (apesar de ser palmeirense fanático, chato pacas, rs) pode ser torcedor lá fora dos esnobes e milionários Real Madrid e Manchester City? E ainda admira o máscara maior da bola mundial, Cristiano Ronaldo? Aliás, esse maluco simples - humilde e amigo no trato com as pessoas como um figura típico do interior – é uma contradição de novo ao se vestir feito um David Beckham tupiniquim, sempre com roupinha de marca, justa e até com sapatinho longo e fino de magnata. Bota metrossexual nisso!, dizem que ele leva mais tempo pra se arrumar que a elétrica e simpática namorada espanhola que acompanha o doido mundo e sonhos afora.
Bom, vai ver na verdade ele é apenas uma versão moderna do malandro do bem, os velhos sambistas sempre bem vestidos, roupas sociais feitas sob encomenda, sapato brilhando. Malandros lisos no viver, sempre passando aperto mas se virando bem pela graça de terem um coração enorme e alma musical como se fossem um sambinha que alegra. Como se fossem um batuque que pede uma cervejinha, uma dançadinha e uma musa pra acompanhar.
Sim, malandro que é malandro apenas parece malandro, pois o cara é fiel à musa, a Maria, e faz com ela o romance mais difícil, o namoro cotidiano, o amor temperado dia a dia. O amor cozinhado com afeto como o alimento mais caseiro e fundamental da panela da vó.
Bom, o caso é que o malandro, depois de uma breve volta de férias ao Brasil, ao país que tem sua cara e coração, tá voltando, na real, tá indo embora de novo e deixando seis amigos e família pra voltar ao sonho europeu. Sonho de uma vida melhor, mais tranquila, sem tanto trânsito, sem o stress que passa o rapa na gente todo dia como aquela canção do Rappa, Rodo Cotidiano. Lá vai então pro velho mundo um pedaço do brasileiro mais legítimo, e isso nos deixa mais pobre, porque a nossa verdadeira riqueza é essa: o caráter, astral e coração de ser um brazuca do bem, alegre, pra cima, um brazuca que vive nos zoando e sacaneando mas apenas pra quebrar o clima, pra quebrar as pedras da megalópole e rotina que asfixia. Zoando, sim, mas com respeito, camaradagem e bom humor.
Mesmo que não é fã de samba sente então desde já a falta que esse moleque-bloco de carnaval - porta-bandeira da alegria e das amizades sinceras – nos fará.
Mas tenho certeza que a neblina, frio e chuvinha constante de Londres vão receber nosso mais verdadeiro representante. 110% brasileiro, lá vai então Serginho Terrin(ha) mostrar ao antigo Império o valor de nossa gente mais necessária e real.
Boa sorte, garoto, e não esquece da família que sentirá muito a sua falta, e vê se para com essa frescura e frieza de whats up e de vez em quando dá umas telefonadas pra sua mana, que parece gêmea de tanto que sente sua falta.
Boa estadia na terra dos Beatles, Rolling Stones, Iron Maiden e Queen, pena que você, matuto que é, não gosta e prefere suas bandas e artistas tão ruins como o seu Palmeiras, rs. E fica tranquilo, que não vai perder nada do seu time, porque ele seguirá sem ganhar nada mais um ano hehe
Aquele abraço, irmão, mas lembra que um Brasileiro maiúsculo como você um dia precisa voltar. Tanto jogadorzinho de meia tigela voltando pro Brasil, e você, craque dos melhores valores humanos, vai embora. Tá, difícil trocar o velho mundo por essa Sampa infernal, mas vê se fica rico por aí e volta pra viver em algum refúgio próximo da gente.
See you, jovem Bezerrinho da Silva! E desde já erguemos um brinde da sorte com uma boa Guiness a você, cheers! E pode deixar que eu cuido bem da sua mana, a moça que iluminou minha vida.