Mostrando postagens com marcador viajar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador viajar. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, agosto 08, 2011

Colômbia (1) – O povo é a viagem

   A Colômbia é um grande jardim. Não só das pequenas praças, jardins e parques em todo canto, mas de pessoas. Raros lugares e países possuem sintonia tão grande entre lugar e pessoas. Entre um povo e a natureza da qual cuidam com um capricho que é amor.
Um capricho quase inacreditável, porque muitos dos jardins são pequenos canteiros de grama verdinha aparada e flores na rua, ao lado das casas ou pequenos predinhos. Tradução? Os jardins não são escondidos dentro das residências mas sim oferecidos a todos.
Enquanto tantos, nesse mundo egoísta e individualista, guardam a beleza para si, os colombianos semeiam-na, compartilham. Porque assim é o coração desse povo: com fragrâncias variadas, múltiplas, colorido como sua bandeira.
Uma bandeira que ficaria mais exata se mostrasse nela o sorriso, indescritível (é preciso ir lá e perceber a dimensão dele) desse povo que acolhe com a alegria sincera de uma criança que deseja mostrar ou oferecer seu desenho para o pai ou mãe.
Oferecer, este um dos verbos que mais traduz a alma do colombiano, pois eles sempre estão nos oferecendo um sorriso e algumas palavras com uma simpatia genuína. Um simpatia que traduz a alma de um dos povos mais educados que conheci na vida. Ou não é educado um povo em que até os policiais e soldados, quando pedimos uma informação, nos atendem com um “a su merced, caballero” (a sua mercê, cavalheiro). Igualzinho aos oficiais brasileiros... 
Ou não é educado um povo que, em qualquer comércio, é amabilidade pura, com raras exceções como uma das únicas vendedoras secas que encontrei, no único dia em que fui a um shopping... Talvez porque shoppings se assemelham em qualquer lugar do mundo ao esconder e matar  a essência de um lugar, povo e país. Se bem que o shopping que visitei em Medellín tem até um belíssimo jardim e atividades culturais...
Mas volto às flores, onipresentes no bairro onde fiquei, em Bogotá. Quando o verde e os jardins acabavam, encontrava uma área esportiva, com quadras e barras para exercícios. Então as flores viravam pistas de patinação e quadras poliesportivas. E as cores e verde vinham é das crianças e jovens que praticavam esportes orientadas por treinadores. Treinadores na maioria voluntários. Esporte e cidadania, ao lado da rua.
Ou cultura e cidadania, como no incrível evento educacional que presenciei (graças à dica da mocinha da recepção de meu hotelzinho, em Medellín) no Jardim Botânico. Eram dezenas de oficinas de texto, argila, desenho, música, circo etc etc lotadas de crianças aprendendo brincando. 
   Jardim Botânico, Medellín
   Aí lembro do belíssimo Jardim Botânico, do Rio de Janeiro, por exemplo, e nunca soube de um evento para crianças lá. Incrível como os parques brasileiros são subutilizados. O nosso Ibirapuera, aqui em São Paulo, por exemplo, tem eventos incríveis, mas em geral dentro do Pavilhão da Bienal ou da Oca, quase sempre em eventos pagos. Só os shows de música são grátis ou uma ou outra atividade esporádica.
Ainda na cultura, a Colômbia é tão inovadora e bela que construiu bibliotecas enormes dentro das favelas e parques, e podemos ler enquanto olhamos a paisagem, pois não são bibliotecas como as nossas, verdadeiros sarcófagos, mas isso é assunto para outro post.
    Biblioteca Pública ao lado da favela, no morro, em Medellín
   Volto aos sorrisos, e lembro com saudade da incrível hospitalidade do pessoal do pequeno hotel com jeito de casa de família onde fiquei em Bogotá. Toda hora em que saía do quarto recebia sorrisos e palavras calorosas. Bem diferente da simpatia falsa, por obrigação, de muitos hotéis, ali o Juan, o Diego e a inacreditavelmente atenciosa Paulina fazem cada hóspede sentir-se mesmo em casa.
Uma grande casa e lar chamada Colômbia.
Não preciso de paisagens de cartão postal, ou imagens de National Geographic, de tirar o fôlego, para ganhar a beleza, com que sonha qualquer viajante.
Preciso apenas de belezas simples de lugares bem cuidados e de um povo incomparável.
Preciso apenas conhecer um lugar em que o destaque é o calor humano, e não monumentos ou dádivas monumentais da natureza.
Os maiores tesouros deste planeta, para mim, não são lugares. São pessoas. E o que as pessoas fazem desses lugares.
* Dedico esse texto a uma querida aluna que anda meio distante, mas que um dia escreveu um maravilhoso texto revelando o tipo de viagem com que ela sonha: a viagem para lugares e países não tão badalados, porque ela sabe que nesses lugares e povos ela encontrará sentimentos e belezas mais genuínas e secretas. Vá um dia pra Colômbia, Victória, um lugar igualzinho aos seus sonhos.
    Parque Simón Bolívar, Bogotá

quinta-feira, abril 28, 2011

O coração da verdadeira América

Existem pessoas que basta vermos a primeira vez que já suspeitamos que estamos diante de alguém raro, destinado a fazer algo especial. Algumas conversas e a suspeita estava confirmada: Marta Elena Sanchez, uma argentina de coração e consciência, e praticamente também uma brasileira - na simpatia pura e calor humano – é uma daquelas pessoas que a maioria das pessoas costuma “conhecer” apenas na pele de um personagem do cinema.
Marta é quase um sinônimo de juventude, não muito a de hoje, mas a daquela que realmente sonhava e lutava por um mundo melhor. Ela é uma canção de protesto, sentimos o vento soprar mais forte que nunca quando ela fala; na verdade, brada, por dentro grita com um coração e humanidade do tamanho da verdadeira América, a Latina.
Marta condena os poderosos egoístas, os que querem perpetuar-se no poder mantendo seus privilégios e mantendo o povo enfraquecido na pobreza. 
Marta está sempre, e tão claramente, do lado da procura da verdade. Por isso ela busca esta verdade na fonte: lá fora, nas ruas e nas mesas dos pequenos bares e cafeterias; e lá dentro, nas conversas amigas em sua cozinha ou na poderosa consciência política que herdou de seus pais.
Por isso que a palavra mais importante para ela é humildade. A humildade de querer conhecer as pessoas, os povos e suas culturas e história.
A humildade, essencial mas tão esquecida hoje, de aprender com os outros, com o diferente.
Sim, Marta é mesmo uma canção, Bob Dylan deve ter imaginado uma moça como ela, buscando um mundo melhor, ao compor Blowin´the Wind.
How many roads must a man walk down,
Before you call him a man?
Quantas estradas um homem deve percorrer
Antes que possam chamá-lo de um homem?
Herdeira do espírito do jovem Che e/ou da juventude que sonhava (não apenas) dos anos 60, por isso ela resolveu mergulhar numa das palavras vitais desta canção: estrada.
Sim, tantos anos depois, Marta atravessará a América para conhecer, de verdade, o que é um latinoamericano.
Muda apenas o veículo, e aqui sacamos ainda mais a dimensão da jornada desta moça com sonhos de menina e coragem e ideais de guerreira: ela cruzará a América não com uma moto – como a lendária La Poderosa de Ernesto e Alberto.
Ela atravessará os pampas, cordilheira e planaltos; cidades, montanhas e praias de bicicleta...
Marta seguirá o vento mais poderoso, o sopro desse imenso coração do tamanho da sua Buenos Aires, Argentina e América Latina.
Marta seguirá suas palavras, que zumbem no ar feito uma pancada nas mentes anestesiadas. Lembro uma frase marcante dela, dita numa noite de verão na amizade acolhedora da cozinha de sua casa-pousada:
“Eu pergunto às pessoas se elas leem jornal, se conhecem o que estão falando ou se apenas repetem o que viram na TV”.
A frase, o questionamento dela, é ainda mais necessário se pensarmos nos que se informam ainda menos, dando apenas leves olhadelas nas páginas iniciais dos portais da internet.
Marta lê jornal, todos os dias, sobretudo o Página 12, o grande jornal humano, honesto e ético de seus país, mas lê também o Clarín, porque sabe que precisa ler o outro lado, o dos poderosos e muitas vezes, mentirosos.
Mas Marta lê-decifra mais ainda as pessoas e o mundo. Talvez por isso ela tenha decidido botar o pé na estrada e fazer a viagem da vida.
Talvez por isso ela tenha desejado transformar seu coração e consciência em memória viva.
A memória viva de quem vai poder contar para a gente o que ela viu nas esquinas e entranhas da América.
Boa sorte, guerreira, um brinde a sua garra e à sua viagem quase inacreditável nestes tempos em que muitos acham que viajar é navegar pela internet.
Saludos desde Brasil, que venham então os Diários de Bicicleta!
Aguardaremos ansiosos pelos relatos de seu olhar e coração profundos.
Boa estrada da vida, moça, pra você, seu companheiro também valente, o Julián, e o fiel e inseparável cachorro que salvou das ruas!
Que essa canção te acompanhe nessa maravilhosa aventura dentro dos corações da América, e mando ela na voz de dentro da terra do maior cantor desse planeta, o grande Bruce:

terça-feira, janeiro 25, 2011

O homem de papel

Margens do Rio Paraná, Rosário, Argentina, janeiro. O rio segue belo, amplo, verde, silenciosamente valente correndo em direção ao mar. Belo porque é a grande vista da cidade, seu respiro. O problema é esse: Rosário antes não precisava deste respiro, desse alívio. Porque esta era a “ciudad para se vivir”, pela excepcional qualidade de vida que suas amplas áreas para o lazer e esporte proporcionam, às margens do rio. Não me parece mais se inserirmos na equação do viver algo vital para mim: o calor humano do povo . Os rosarinos já me parecem não ter a simpatia de antes, ou eu é que não percebia isso pela paz que o Paraná me dava. O caso é que o rosarino típico está mais apressado, dá informações tão rapidamente como se quisesse se livrar logo de quem lhe pergunta. Outro indicador de simpatia em queda é o tratamento frio no comércio, em especial na hora das refeições e nas lojas de qualquer coisa.
Assim, desanimado, estava meu estado de espírito, enquanto olhava para o rio (como um surfista pode ficar em paz num rio se o temor maior desta espécie é justamente uma água tranqüila? Bom, isso já expliquei num post antigo). Eis que aproxima-se um pescador e sua sacolinha de tralhas úteis para a sobrevivência.
Sabe como é a desconfiança típica de um paulistano, né, ainda mais quando o cara perguntou se eu tinha cigarro ou um baseado. Eu já me preparava para sair dali quando o cara começou a perguntar de eu onde era e percebi sinceridade quando ele disse do parente que tinha ido pro Rio, “deve ser muito bonito lá, né?”, me perguntou.
Foi então que troquei ideias com o pescador que na verdade era cartonero (catador de papelão e coisas, o nosso carroceiro). Foi então que ele sacou o seu maior tesouro, que começou a me mostrar todo entusiasmado: uma revista das mais caras, mas com belíssimas fotos e dicas de lugares especiais na Argentina e Chile.
Foi bacana ver a alegria genuína deste legítimo representante do povo argentino mais carente, da massa mesmo, ao revelar que já estivera em alguns desses lugares, ou perceber o sonho dele em conhecer esses lugares bonitos. E bacana foi ver como tratava aquela revista como uma jóia, muy rica, como ele afirmava.
Aqui divago um pouco sobre a joia e a sensação que só o papel provoca. Em tempos de internet, i-de-todo-tipo e livros eletrônicos, só o papel tem esse feitiço e portabilidade democrática e segura de ser levada a qualquer canto. E como alguém pode se dizer um leitor sem ler no papel um jornal ou revista importante (elas ainda existem entre o lixo fascista ou vazio das vejas e caras que se proliferam)? Não pode, porque a leitura no papel é muito mais ampla do que a na internet. Eu digo a leitura de um jornal ou revista por vez. O jornal em que lemos um caderno de cada vez, e não os poucos links de algum caderno que lemos na net. É fato: quem lê no papel, lê muito mais, porque ninguém consegue ler muito sentado desconfortavelmente na mesa de um computador e olhando para uma tela cansativa. E façam um teste: quantos compradores de i-Pads leem mais uma edição virtual que o leitor da boa e velha edição em papel?
Ali, em Rosario, do pequeno tesouro daquela revista que o cartonero achou no lixo, o papel - que muito moderninho e/ou hiper consumista quer matar porque prefere gastar muito dinheiro em aparelhos novos – voltou a mostrar seu valor.
Mas valor maior mostrou esse homem do povo, que me ofereceu um papo profundo sobre a economia e sociedade argentina, as mulheres (que o deixaram e a de hoje), Brasil e lugares para se conhecer. Ah, só me lembrei de fazer a pergunta fundamental entre homens da maior parte do mundo no final. Uma pergunta tola em se tratando de Argentina, porque para a esmagadora maioria dos homens do povo de lá, a resposta é a mesma:
- Qual o seu time do coração?
Ele dá uma risada, a resposta só poderia ser uma:
- Boca, por supuesto!
- La mitad mais uno!, devolvo para a satisfação imensa dele com o lema do clube mais popular de nossos hermanos.
Despedi-me do homem de papel mas antes de ir ele ainda me surpreenderia com sua consciência e conhecimento político. Ele diz que está com a presidenta Cristina – “os Kirchner foram os melhores para o povão”, sabe do complô dos grandes produtores agrícolas com a extrema direita argentina. Sabe até que o maior jornal do país, o Clarín, é da direita, e que sua dona tem como filhos duas ex-bebês arrancados de seus pais, porque seus pais desapareceram na mãos da ditadura militar. Pior, esses dois filhos foram comprados pela empresária. Pior ainda: esses filhos não querem saber quem foram seus pais. Preferem a fortuna e o conforto que têm hoje em vez de descobrir qual o sangue e classe social que lhes deu a vida.
Depois disso, parti, e lá ficou o homem de papel, um dos poucos seres humanos que salvaram a simpatia em baixa deste lugar que já foi maravilhoso, Rosário.
* Além do homem papel, teve a moça da loja de roupas e os três figuras da livraria mais humana da cidade, bem diferente dos mal educados e antipáticos atendentes da rede Ateneo, mas isso é assunto para outro post. E claro, os taxistas apaixonados por futebol.
PS - Quem quiser ler outro texto, mais antigo, sobre a dignidade de um catador de papelão argentino, leia o segundo texto do link abaixo:
Sobre a dignidade

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Viajando na praça

Buenos Aires, meio da tarde. O sol reina no meio das torres da catedral. O sol queima. Não só ele. Na praça diante da catedral é a vida que é acendida em suas chamas tão fortes quanto simples. Porque aqui, nessa praça, tudo parece mais vivo.
Ouvem-se vozes conversando. Charlando, como dizem os argentinos. Ouvem-se crianças gritando, porque estão brincando de verdade: com bolas, no parquinho, com carrinhos etc.
Ouve-se a batida seca dos skates queimando energia e obstáculos porque garotos inquietos têm The Doors nos pés, come on baby, light my fire.
Ouve-se o silêncio dos que leem compenetrados, porque barulhos externos não invadem a mágica da leitura de obras que fazem imaginar, pensar, sonhar.
Volto ao calor, nítido nas belas moças tomando sorvete, passeando, namorando. O fogo não se apaga nem na senhora que ao me ver pegar uma parte do jornal, sobre a mesa do café, corre a me dar o resto, porque não queria que eu ficasse sem ler tudo. E as páginas que ela me entrega são justo sobre Clint Eastwood, “o último dos clássicos” segundo este jornal, que aborda seu último filme, que narra, ao que me parece, a vida dos que chegaram perto do fim e sobreviveram.
Fim? Um viajante, mesmo na Buenos Aires trágica dos tangos e do habitual pessimismo portenho, é sempre um dos mais vivos dos seres.
Muitos podem achar esse relato distante de uma viagem emocionante, mas a alma humana não precisa de grandes aventuras para sentir-se maior. Há várias formas de viajar. Mas viajar é sempre mudar o tempo, é colocá-lo em uma outra dimensão. Nada de horários, rotinas e hábitos que teríamos em nossas casas.
Casa? Poderia ser apenas este ritual natural de caminhar, observar, sentir, sentar num banco, pensar, e depois chegar na pousada e bater papos profundos sobre a humanidade com essas guerreiras Martas, mãe e filha, argentinas-brasileiras. Mais precisamente talvez, latinoamericanas. E há ainda o "jovem Evo", o boliviano cheio de atitude e orgulho que trabalha ali sempre com um sorriso e palavras calorosas para os hóspedes que sentem-se irmãos desta imensa América.
Volto à praça, já é de noite, e um ambiente sempre meio pomposo de uma grande igreja é quebrado pela boa e velha maior paixão mundial, o futebol. Só mesmo essa molecada doida por entoar um grito de gol para transformar o hall de entrada desta igreja com jeito de catedral em arco, traves. Sim, os dois “times”, num clássico dois contra dois, driblam e lutam até que um consegue enfiar o pé para fazer o gol na porta da catedral. A blasfêmia para alguma beata carola é apenas a louca e mágica benção da infância.
A infância que parece mais genuína aqui nessa pracinha de classe média também frequentada por pessoas mais humildes que entregam-se a jogar bola em frente ao "campo do Senhor".
Sim, a praça me parece até mais sagrada com seu brincar, sorrir, gritar, namorar, charlar.
A vida deveria ser simples como uma tarde na praça Güemes diante da Iglesia de Nuestra Señora de Guadalupe, uma santa mexicana em terras argentinas. Isto é a América, Marta, a América mais genuína, atrás dos muros dos ianques...

quarta-feira, janeiro 19, 2011

A pureza de viver

   (Montevidéu 2011)

Tudo ali parece, a este morador da tão moderna quanto opressiva São Paulo, coisa de outro tempo. De um tempo em que mesmo o dia-a-dia transcorria num ritmo mais calmo e com mais sabor e alegria. Tudo na Montevidéu que conheço me remete à minha inesquecível infância e adolescência dos anos 80, de futebol e brincadeiras na rua e pracinhas; conversas intermináveis à beira das calçadas dos amigos e amigas; e dos passeios de bicicleta atrás das nossas meninas-musas.
Não sei se os montevideanos sabem do privilégio e vida de verdade que usufruem. Não sei se talvez muitos deles não prefeririam ter mais grana e poder em vez de curtir as delícias e astral desta cidade e tempo de outros tempos.
Espero que não, espero que tenham a consciência do valor de sua cidade e capital que parece preservada da agressividade, estupidez, trânsito e poluição infernal de megalópoles como São Paulo. Espero que valorizem até seus muitos prédios velhos, que espantam a pior espécie de turistas, os endinheirados e fúteis demais. Deixem-os ir para Miami ou Dubai...
Preservem sua vida, hermanos charruas. Não são muitas capitais do mundo que têm o que vocês possuem:
As pessoas curtindo tranquilas a caminhada, a corrida e sol na beira do rio que é o mar, o Plata.
A tão simples quanto genial arquitetura debruçada sobre o rio – quilômetros e quilômetros de bancos, com vários pontos para se apoiar as costas (acho uma sacanagem lugares que só têm bancos sem apoio para as costas, ninguém aguenta). Essas muradas são um convite à uma bela relaxada ou uma boa conversa (a charla, como dizem os uruguaios e argentinos).
Tanta gente, de todas as idades, tomando e compartilhando o mate, a toda hora e lugar. Esse mate compartilhado que sai muito mais barato e é muito mais solidário e amigável que o famoso ritual do cafezinho brasileiro.
Os parques admiráveis e tranquilos como o Rodó e o imenso, verdadeiro paraíso para um esportista, o Battle, ao lado do Centenário.
As exposições fotográficas do Rodó, ao ar livre, não sabem como isso é melhor que ter que se enfiar dentro de um museu!
Suas ruas com árvores dos dois lados, formando imensos e gostosos tubos verdes de sombras que confortam e envolvem o pedestre.
Sim, o pedestre que é tratado como cidadão. Não queiram saber como o pedestre é tratado em São Paulo. E pergunto se os estadunidenses acham que civilização é ter que pegar o carro pra tudo, em suas cidades-freeways. Civilização, como disse uma vez aqui nesse blog, é uma cidade que pode ser percorrida a pé, como podem fazer os europeus, os argentinos e vocês.
Não é só um ritmo de vida e o prazer que vocês parecem ter em se encontrar e aproveitar o melhor da sua cidade.
Há algo maior, ainda mais belo.
Há algo quase absurdo nesse mundo em que as pessoas são cada vez mais consumidoras e menos gente.
Num mundo em que cada vez mais só se pensa em vender e consumir, num mundo cheio de vendedores exibindo uma falsa simpatia para atrair os clientes (e muito louco mal educado também, que trata o cliente com frieza e/ou agressividade porque sabe que o cara vai comprar mesmo), os (as) funcionários (as) do comércio montevideano mostram uma simpatia e educação de verdade.
Por isso que mesmo sozinho em Montevidéu, nunca me senti sozinho.
Os responsáveis?
O cara de quem comprei duas laranjas e disse, “que ricas elas estão né, senhor?”.
A moça da lotérica Abitat que me atendeu com todos os detalhes, sem pressa e com um sorriso que queria levar pra casa, me dizendo tudo sobre o jogo que eu queria ver, Nacional e Peñarol.
Os senhores e senhoras das bancas de jornal (kioscos) em que eu ia pegar meu exemplar do melhor jornal do mundo, o (me perdoem, uruguaios), meu fiel Página 12 argentino. Mas saibam, hermanos, que os caras do seu conservador El País, têm o feeling pra falar de futebol no caderno Ovación.
As moças dos restaurantes mais simples ali do Bairro Sur.
Os torcedores do Nacional, que ao me verem com a camisa do São Paulo, vinham falar como se nossos times fossem irmãos pelo passado comum de Lugano (e a mesma história continuará, se Deus quiser, com esse fantástico Sebastian Coates).
O torcedor do Peñarol que tem uma sensacional lojinha de discos, camisetas pop de filmes e séries (remeras) e livros de rock numa galeria da 18 de Julio, pertinho da Plaza Caganchas.
E até, coisa quase surreal, os caras da casa de câmbio, que ao me verem com uma camisa do Rosario Central da Argentina, e ao perceberem meu sotaque de brasileiro, começaram um papo de minutos sobre o futebol brasileiro, argentino e uruguaio. Caraca, amigos, alguém já viu atendente de câmbio simpático em algum lugar do mundo????? Só mesmo em Montevidéu! Falamos de Lugano, Forlán, pai e filho, Pedro Rocha, Dario Pereyra, Coates, papo de amigos antigos de boteco.
E nem falei no clima fantástico dos arredores do Estádio Centenário (a reforma está deixando-o belo de novo!) e de suas arquibancadas, mas isso é assunto pra outro post.
E nem falei da beleza de suas moças, de um charme incrível e sem pose. Um charme do interior antigo do Brasil, das nossas morenas cativantes e autênticas que estão desaparecendo pelo avanço da estúpida incultura dos BBBs (Gran Hermanos) e outros reality shows.
Ponto negativo? Só encontrei no antipático vidro dentro dos táxis que isola e sufoca os passageiros e na atendente de informações turísticas (logo ela???) do terminal de ônibus de Tres Cruces.
Mas fico com a educação, os sorrisos e o tratamento maravilhoso que recebi de seu povo que não me deixou sozinho, que não me deixou acuado.
Fico com o calor humano de um povo que não sei se sabe o tesouro de viver (e não apenas sobreviver) que guardam. E dou risada da ignorância dos idiotas que dizem que criticam Montevidéu como “uma cidade que parece de 50 anos atrás”. Ainda bem que Montevidéu é assim! Mas digo que o 50 anos atrás vale mais para o coração deste povo, um coração de uma época em que as pessoas se tratavam com mais civilidade, interesse e amizade.
PS - Este post é dedicado também à atenção e simpatia da Ele, da Federação Uruguaia de Futebol, que tentou me ajudar numas entrevistas (não deu, moça, mas obrigado pelos esforços!) e do casal Eliza e Miguel, que volta e meia me enviam palavras amigas e cultas por email.

terça-feira, julho 27, 2010

As montanhas que olham por nós


São Francisco Xavier. Uma pequena aldeia ao pé da Mantiqueira. O mar verde onipresente em qualquer canto para o qual olhamos. A beleza que não se move mas que permanecerá, sempre. Montanhas não se movem. Estão sempre lá, como a nos proteger. O verde grandioso traz calma ao olhar como a mulher que nos acolhe e entende. Que nos acolhe com aquele silêncio belo do estar juntos conversando com os olhos.
O silêncio predomina, com breves acordes do vento, grilos e pássaros. E do riozinho pequeno mas vivo e corrente que passa atrás da janela da pousada, tornando o sono um sonho líquido.
 Para chegar lá, bem fácil (de carro desde São José dos Campos), a experiência torna-se completa quando os pés começam a escalar. Há algo na escalada (e não falo de alpinismo, mas de uma simples caminhada morro acima sem grandes dificuldades, na estradinha de terra, sem trilhas), há algo espiritual, que eleva. Aconteceu no entardecer em que subia sem uma alma como companhia a pequena estradinha que vai ladeando as montanhas. Acompanhado da lua, do silêncio e daquela luz tênue dourada que percebi de novo o valor de ir para o alto, pertinho de algo maior. Uma caminhada que pareceu uma lembrança de que ir para cima é preciso. Pra cima da montanha, pra cima dos sonhos e da vida nova e melhor que devemos buscar.
Chega de sonhar alto, pés à obra, subindo e subindo amparado por essas montanhas mágicas. E estimulado de alguma forma pela calma daquela gata branca, ainda filhote, que deitou-se no meio da estrada, me olhando curiosa e sem medo enquanto eu subia. Branca, pura, 7 vidas, muitas vidas, como se a filhotinha dissesse “vai, caminhante, vai buscar o topo, o cume que pode alcançar com seus sonhos e talentos mais puros”.
Vai, caminhante, viaje, escreva, canalize tudo isso e quem sabe o mundo não abraçará suas palavras e sentimentos como essas montanhas amigas de conforto, sossego e paz. Como essas montanhas e esse viajante que compartilham o mesmo olhar de romance. Sim, elas olham por nós, com seus olhos verdes na cor e no espírito, como se fossem as montanhas uma doce mulher a entregar seu olhar mais puro e verdadeiro. A mirada de quem gosta de ser olhada com os sentimentos mais sinceros, e nos devolve isso.
Que as pessoas que esquecem desse olhar redescubram isso lá na Mantiqueira, lá nessa encantadora e delicada São Chico, lá na pousada onde corre o rio atrás da janela e onde tomamos café da manhã defronte à vista das montanhas, das árvores e desses cachorros e gatos pidões dessa pousada em que fiquei, realmente um lugar que nos deixa pousar a alma.
A alma, a verdade dentro dos olhos.  

sábado, julho 24, 2010

O povo que é rio e mar (*)


Uma cidade civilizada não se mede por grandes avenidas, inúmeros prédios altíssimos sendo erguidos, carros último tipo e número de shopping centers, todos acabando com qualquer harmonia urbanística, ambiental e humana. Não se mede com obras voltadas mais para os carros - e seus donos egoístas usufruírem dos confortos da modernidade – do que para os pedestres. Não, uma cidade, para mim, é feita de pessoas. Pessoas que caminham. Pessoas que podemos ver e com quem podemos conversar a qualquer momento. Civilização é esta velha, sofrida mas viva Montevidéu. A capital uruguaia onde crianças ainda brincam nas ruas, adultos sentam-se às portas ou sacada de suas casas para papear, olhar ou tomar um mate.
O mate que é um costume sem nada parecido no Brasil (com exceção dos gaúchos, que ainda o praticam, mas em menor frequência): uma cuia com a erva, uma térmica com água quente e a bombinha para sugar o chá que é passada de mão e mão, boca em boca. Mais que isso, o mate convida ao papo, convida à reflexão, é até um verdadeiro manifesto cotidiano pelo encontro e pela amizade.
A Montevidéu onde as moças sentam-se para tomar sol no gramado de seus prédios de frente para a grande Rambla que acompanha o magnífico rio que também é mar, o rio da Prata.
Civilização é sentar-se apoiado no encosto do banco ao fim de tarde, defronte ao rio com vida que funde-se ao mar, aos nossos sonhos e esperanças sem fim. É observar e deixar-se envolver por um dos mais belos entardeceres, o cair do sol de Montevidéu dentro do rio oceânico. Um crepúsculo multicolorido sobre águas profundamente azuis. Um pôr-do-sol que tranquiliza, tonifica e nos recarrega para a vida.
A vida que é completa nessa velha capital com alma de cidade do interior feita de água doce- salgada do rio que é mar e também verde. O verde onipresente de seus grandes parques e em quase toda ruazinha, como se as ruas fossem tubos verdes de árvores dos dois lados com o rio ao fundo. Como se os sábios caminhantes, fossem surfistas urbanos. Talvez sejam, sim, surfistas, todos os que preferem os pés, olhos e alma aos carros que nada veem e sentem. Todos os que surfam cada pedra e pedaço de chão em vez da comodidade em 4 rodas. Comodidade que torna-se cara em um dos únicos traços ruins dessa velha Europa ao sul do Rio Grande do Sul: os caríssimos táxis da cidade.
Mas voltemos às águas do Prata, que carregam em sua doçura ou tempero de sal o próprio povo uruguaio: educado, respeitoso, simpático, tranquilo.
Um povo que me pareceu desprovido do xenofobismo e aversão aos estrangeiros comuns em tantos outros. Uma prova disso é uma característica uruguaia bem parecida ao nosso Brasil: o país é o outra rara nação da da América do Sul que integrou os negros ex-escravos. Acho que não os perseguiu ou colocou no pelotão de frente de guerras como fizeram os argentinos, que exterminaram os negros na Guerra do Paraguai. Em que outro país senão o Brasil podem-se ver negros nas ruas ensinando percussão, soando os tambores, como nos grupos de Candomblé deles, que são versões parecidas com o nosso Olodum?

Montevidéu e seu povo de alma charrua são uma oportunidade única de conhecer uma gente que é exatamente igual à sua bandeira: azul, profundo, sensível; e branco, calmo e com um sol a brilhar. O pacífico ganha raça e vontade guerreira apenas quando a bola rola e vemos a garra e entrega dos uruguaios. Que talvez precisem escapar de um país de dimensões e economia pequena pelo sucesso que só pode ser alcançado brilhando e ganhando melhor em países mais ricos.
Mas a riqueza da bola é apenas parte da riqueza maior: a bela, nobre, fiel e amorosa alma charrua.
A alma de um pequeno grande povo e país.
(*Escrevi e publiquei esse texto em janeiro, na minha única visita ao Uruguai. Foram poucos mas inesquecíveis dias. Posto aqui de novo para homenagear o carinho enorme que tenho recebido de todo o Uruguai pelos textos sobre a seleção de Forlán, Lugano e outros heróis ).

sexta-feira, julho 16, 2010

No coração das montanhas


Segunda-feira, o sol de inverno leve era gostoso e acolhedor como as férias devem ser. Mas fazia frio aqui dentro. A única solução era a estrada, era o calor humano, era a amizade. Nunca precisei de convites nem tive orgulho para isso. Por isso liguei pra ela e logo estava a caminho. Procurando novos caminhos, para a minha vida, e para chegar lá onde ela e seu pai se escondem (na verdade, se refugiam). Óbvio que me perdi em tudo quanto é acesso e, sorte grande, quando estava totalmente perdido na estradinha de terra sem uma alma, já de noite, um motoqueiro sem nada a ver com os psicopatas paulistanos, me indicou o rumo certo.
Enfim cheguei, só via o telhado da casa e não entendia bem, cadê a casa? Abro a porta e um cachorro me recebe com uma alegria inacreditável para com um estranho. O maluco enorme, ainda filhote, mas já grande, viralata parrudo de algum pastor alemão misturado, chegou rebolando, abanando o rabo e já dando lambidas e dando a pata. Logo o figura já deitava de costas e se estrebuchava todo brincalhão. Sim, eu estava em casa, que melhor recepção que essa? Um cachorro amigo e carinhoso, a melhor espécie que o Barbudão lá de cima colocou nesse mundo se dúvida nenhuma. Ando um pouco com o anfitrião de 4 patas e um enorme coração e grito pelos donos da casa. Nada. Ai percebo uma construção mais para baixo, chamo de novo e eis que surge ele, o velho lobo dos mares paulistanos e já legítimo senhor dessas pequenas montanhas escondidas e protegidas perto de Atibaia. Logo surge sua filha, a moça que cura, uma das filhas que a vida me deu (não fica com ciúmes, grande lobo, você sabe que o coração dela é tão grande que ajuda a muitos). Logo vem ela em seu jeito desengoçado e brincalhão, logo vem ela já tirando um sarro, já arrancando um sorriso e a vontade gostosa de lhe dar um tapa na orelha simbólico.
O cachorro, que ela batizara de Téo? Não era deles, mas vinha regularmente visitá-los. Por quê? Porque os cães sentem os lares que possuem o bem e o amor sincero.
Descemos e entramos. A casa que eu não descobrira lá de cima é um amplo espaço mágico feito com as próprias mãos do grande lobo. Uma casa com andares que se olham, em que vemos todos os ambientes, em que as pessoas só podem é ficar próximas, uma casa sem barreiras, como o outside marinho, como o horizonte para o qual olhamos e nos sentimos tão livres e amplos. Uma casa de tijolos e madeiras, quente, poderosamente acolhedora. Uma casa com história, com milhares de objetos, com a história de muitos objetos antigos imortais, um verdadeiro centro cultural e antiquário, obra do velho lobo que é um refinado restaurador de aparelhos antigos.
O que ele talvez não saiba é que é um restaurador também de gente, de corações partidos. Pouco a pouco o velho lobo vai dando conselhos, e como bom pescador, indica as linhas que os outros nos dão e as linhas que devemos lançar para buscar os peixes-sonhos de nossas vidas.
Sim, o lobo já viveu e também sofreu demais, talvez por isso sabe tanto da vida. E seus olhos fundos também revelam as suas perdas e alguns vazios profundos. Mas eis que tudo se ilumina e ele parece esquecer de tudo quando sua filha surge e mesmo ela também tão sofrida, a moça é uma fortaleza de sorrisos e brincadeiras. Isso é valentia, o resto é a fraqueza dos covardes: mesmo precisando matar vários leões por dia quando em São Paulo, essa moça dá porrada nas barreiras com suas tiradas, sarros e abraços. E ela tem uma mágica capacidade de nos deixar felizes mesmo quando nos sacaneia, mesmo quando tira a maior onda com a nossa cara.
Ei, velho lobo, grande guru, sim, as perdas são duras demais, mas pode existir alegria maior que ter uma filha como ela? Pode ter alegria maior saber que tem uma filha tão boa que é querida e amada por tanta gente? Pode ter alegria maior que saber que tem uma menina que cura os outros?
Só sei que sentia os caminhos fechados, meio que sem saída antes de chegar ali, mas depois de passar dois dias nesse refúgio espiritual divertido muita coisa mudou, e até foi clareando sozinha. Como se a energia sem fim desse lugar e de vocês dois tivessem me atraído coisas boas. E, sim, atraíram.
Vocês me mostraram novos rumos que posso tomar nas pequenas e grandes coisas. Já me ajudaram profissionalmente (ao praticarem me obrigarem a jogar fora meu celular sem recurso nenhum, para arrumar um aparelho em que eu possa criar notícias, imagens e vídeos de onde eu estiver, além de não apanhar para mandar mensagens hehe) e sobretudo aqui dentro.
Só peço desculpas a você, querida fada humorista sacana, por ter me ausentado nos últimos meses. E peço também que não ligue pra rabugice do Lobo com nosso amigo fundamental, o Grande Téo hehe, e bota ele naquele sofazinho, porque o Lobo diz que não mas adora a cara de bobão amigo do bicho.
Obrigado meus amigos. Quase não vi as montanhas, mas senti a elevação dessa casa e coração lá nas alturas de vocês dois. Mas vê se dá um tempo nas broncas na cozinha, mestre cuca sênior, porque a menina tá fazendo altos pratos deliciosos, que macarrão sensacional (no ponto!), que canapés incríveis antes do churras!
Obrigado até por me mostrarem o valor de um jornalismo que eu mal conhecia e tinha preconceitos errados, como essas denúncias sem medo do CQC e as amplas e completas reportagens de A Liga (bom, aquela repórter “pouco” gata e charmosa,  e ainda gaúcha!, ajuda né hehe)
Grande abraço e valeu por aceitarem esse hóspede que se convidou na maior cara de pau.
PS – Quando encerro esse texto, o youtube bomba na minha lista aleatória uma gaita mágica e espiritual, e uma voz doce e confortante, uma energia parecida com a que eu recebi dessa casa encantada das montanhas de seus corações.

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Os segredos de Anchorena


Redescubro esse lugar quase por acaso, paro aqui porque vi da janela do trem belas árvores e aquilo que tanto me tranquiliza: um rio vivo. Desço aqui e percebo que já estive antes, anos atrás, junto da menina tão sinônima de vida.
O calor pesado me faz procurar abrigo na cafeteria e percebo que estive lá com ela, num inverno. Dessa vez, troco o café irlandês (com whisky) por um cortadito (cafezinho com pingada de leite). Cai bem, e melhor ainda caem as belas canções que tocam numa estação de rádio clássica. Rola R. E. M, “If you believe” (se você acredita). Perfeito, pois esse lugar me faz acreditar numa vida melhor.
Uma boa canção, céu azul-mergulho, verde com sombras, um rio povoado de estrelas brancas – veleirinhos ou como diria minha sábia mãe, um nome mais afetuoso: barquinhos à vela; pessoas largadas a “charlar” (conversar), tomando sol, fazendo piquenique, lendo. Ou gente apenas olhando o rio com ganas de mar, pensando na vida ou esquecendo dela. Aqui diante dessa natureza tão bem integrada à cidade (“igualzinho” a São Paulo...), pois cuidada pelo homem, só posso dizer que toda essa gente é gente vivendo.
Gente das mais diferentes vidas, porque aqui na estação de trem Anchorena, no caminho de Buenos Aires ao Tigre, a elite e o povo convivem em harmonia, sem medo, ódio ou rancor. Talvez porque falo de um domingo de sol neste lugar-parada de trem especial. Mais que isso, trata-se de um refúgio contra o stress e labuta cotidiana ou contra a raiva. Porque amanhã, segundona, o povo será povo de novo e a elite mandará e os oprimirá de novo. Mas ficará um pouco da placidez e sabedoria desses caminhos verdes debruçados sobre o rio da Prata.
Ficará o conforto desse banco de madeira protegido por uma sombra aconchegante.
Ficará a possibilidade de mais um próximo domingo de paz regado a verde, água e “conversas jogadas fora” mas dentro da alma. Dentro da alma porque vejo homens e mulheres se falando com vontade e afeto, sem outros interesses que não seja o debruçar-se sobre o outro como esse rio vivo que nos alivia.
Segundos após acabar esse texto, toca The Doors (o alto falante leva o som também para fora da cafeteria), Riders on the storm, para nos lembrar das batalhas e tempestades que virão e, como não, dos amigos e amigas distantes que um dia compartilharam com a gente simples mas mágicas viagens.
Anchorena, anos e anos atrás. Essa sempre soube viver.

sexta-feira, janeiro 22, 2010

O povo que é rio e mar


Uma cidade civilizada não se mede por grandes avenidas, inúmeros prédios altíssimos sendo erguidos, carros último tipo e número de shopping centers, todos acabando com qualquer harmonia urbanística, ambiental e humana. Não se mede com obras voltadas mais para os carros - e seus donos egoístas usufruírem dos confortos da modernidade – do que para os pedestres. Não, uma cidade, para mim, é feita de pessoas. Pessoas que caminham. Pessoas que podemos ver e com quem podemos conversar a qualquer momento.
Civilização é esta velha, sofrida mas viva Montevidéu. A capital uruguaia onde crianças ainda brincam nas ruas, adultos sentam-se às portas ou sacada de suas casas para papear, olhar ou tomar um mate. O mate que é um costume sem nada parecido no Brasil (com exceção dos gaúchos, que ainda o praticam, mas em menor frequência): uma cuia com a erva, uma térmica com água quente e a bombinha para sugar o chá que é passada de mão e mão, boca em boca. Mais que isso, o mate convida ao papo, convida à reflexão, é até um verdadeiro manifesto cotidiano pelo encontro e pela amizade.
A Montevidéu onde as moças sentam-se para tomar sol no gramado de seus prédios de frente para a grande Rambla que acompanha o magnífico rio que também é mar, o rio da Prata.
Civilização é sentar-se apoiado no encosto do banco ao fim de tarde, defronte ao rio com vida que funde-se ao mar, aos nossos sonhos e esperanças sem fim. É observar e deixar-se envolver por um dos mais belos entardeceres, o cair do sol de Montevidéu dentro do rio oceânico. Um crepúsculo multicolorido sobre águas profundamente azuis. Um pôr-do-sol que tranquiliza, tonifica e nos recarrega para a vida.

A vida que é completa nessa velha capital com alma de cidade do interior feita de água doce- salgada do rio que é mar e também verde. O verde onipresente de seus grandes parques e em quase toda ruazinha, como se as ruas fossem tubos verdes de árvores dos dois lados com o rio ao fundo. Como se os sábios caminhantes, fossem surfistas urbanos. Talvez sejam, sim, surfistas, todos os que preferem os pés, olhos e alma aos carros que nada veem e sentem. Todos os que surfam cada pedra e pedaço de chão em vez da comodidade em 4 rodas. Comodidade que torna-se cara em um dos únicos traços desonestos dessa velha Europa ao sul do Rio Grande do Sul: os caríssimos táxis da cidade.
Mas voltemos às águas do Prata, que carregam em sua doçura ou tempero de sal o próprio povo uruguaio: educado, respeitoso, simpático, tranquilo.

Um povo que me pareceu desprovido do xenofobismo e aversão aos estrangeiros comuns em tantos outros. Uma prova disso é uma característica uruguaia bem parecida ao nosso Brasil: o país é o outra único da América do Sul que integrou os negros ex-escravos. Não os perseguiu ou colocou no pelotão de frente de guerras como fizeram os argentinos, que exterminaram os negros na Guerra do Paraguai. Em que outro país senão o Brasil podem-se ver negros nas ruas ensinando percussão, soando os tambores, como nos grupos de Candomblé deles, que são versões parecidas com o nosso Olodum.

Montevidéu e seu povo charrua são uma oportunidade única de conhecer uma gente que é exatamente igual à sua bandeira: azul, profundo, sensível; e branco, calmo e com um sol a brilhar. O pacífico ganha raça e vontade guerreira apenas quando a bola rola e vemos a garra e entrega dos uruguaios. Que talvez precisem escapar de um país de dimensões e economia pequena pelo sucesso que só pode ser alcançado brilhando e ganhando melhor em países mais ricos.
Mas a riqueza da bola é outra.
A riqueza maior é a bela, nobre, fiel e amorosa alma charrua.
A alma de um pequeno grande povo e país.
(*O blog está voltando das férias e contará algumas histórias dessa viagem que fiz nessas primeiras semanas de 2010, além de falar um pouco das vivências aqui no Brasa).

sábado, julho 25, 2009

A capital e seus pecados


Nunca quis conhecer Brasília pelo que ela representa, o Palácio da Bandidagem de terno e gravata que manda e desmanda no país. Mas como estava pertinho, dei uma chegada. E valeu a pena, para confirmar alguns de meus pré-conceitos e também para derrubá-los. Porque há beleza em Brasília em meio à sacanagem e ostentação latente.
Pra começar, a chegada, surreal e tão real, de ônibus vindo de Goiás. Choque foi pouco, pois saí da minúscula Pirenópolis - com sua paz, beleza natural e construções históricas – direto para a jovem e ultra moderna capital do país. Só que essa modernidade, como suspeitava, só é acessível aos ricos. Entra-se em Brasília por uma área nobre cercada de muros: um monte de condomínios luxuosos com mansões mirabolantes. Pouco depois chega-se na Rodoferroviária, ampla mas um pouco descuidada. Só que ali é longe do centro. Preciso tomar um outro ônibus para atingir a Rodoviária do centro, perto de onde ficarei hospedado, no setor hoteleiro norte. 15 minutos e estou na Rodoviária do centro, pois não há trânsito em Brasília graças às suas enormes avenidas com jeito de estradas. Só que chegando lá parece que estamos em pleno Largo da Batata de Sampa: um lugar sujo, cheio de pontos de ônibus com filas imensas. Tradução? Os espaços amplos são apenas para quem tem carro e dinheiro.
Meu hotel é quase uma piada, um dos mais antigos da cidade, dois andares só, parece uma caixinha de fósforo, mas é uma caixinha honesta, quarto pequeno mas limpinho, bom café da manhã e serviço. Ao redor dele, dezenas e dezenas de megahotéis de mais de 20 andares, todos com nomes estrangeiros, muitos de cadeias gringas. Calor humano: zero. Mas o pessoal abastado deve adorar os setores hoteleiros sul e norte (são colados um no outro), pois devem sentir-se em plena Miami, sem mar. Há muitos shoppings vizinhos também, mais um ponto para o padrão e estilo de vida de quem tem grana. E ali pertinho – dá pra ir a pé se você não for preguiçoso ou magnata a preferir os caríssimos táxis da cidade – está a Esplanada dos Ministérios.

Congresso, ministérios e a catedral (direita)
A Esplanada, além, obviamente, de todos os ministérios, traz a catedral (é arte moderna aquele prédio horroroso?), belos museus e pontos culturais no estilo do grande arquiteto Niemeyer e lá no fim dela o dito cujo, o caramunhão, o coisa ruim chamado Congresso Nacional. Um prédio maravilhoso, sim, mas que dá ânsia por saber quem lá habita e trabalha...
Isso tudo é o centro de Brasília, todo feito de coisas enormes, não há pequenos comércios e bares de rua (no máximo, lojas de conveniência de postos e um ou outro boteco), não há ruazinhas pequenas acolhedoras, tudo ali é mega.
Mas cadê a beleza, Zé? Tirando as linhas incríveis criadas por Niemeyer, beleza mesmo eu sabia que só podia estar nas margens do imenso lago Paranoá, artificial mas com vida. Ia chegar até lá pela magnífica ponte JK, mas a vendedora de sorvetes (sim, tava um calor gostoso lá, 28 graus em pleno inverno) disse que ao anoitecer o negócio fica perigoso.
No dia seguinte, como eu não queria pagar um city tour que me levaria aos mesmos lugares em que cheguei a pé, fora o lago, me deu o estalo de conhecer a UnB, a universidade federal de Brasília, que alguém, não sei quem, tinha me dito que era bonita.
Na mosca. Cheguei na UnB por 2 reais (o táxi queria 25 pilas) e conheci uma belíssima cidade universitária muito maior que a nossa USP e com prédios muito mais bonitos e modernos. Diferente do concreto puro da USP, os prédios ali permitem a interação com a natureza com jardins internos colados às salas de aula. E o verde se faz presente entre cada faculdade com uma conservação e lugares para se ficar morgando em grande variedade. Melhor ainda foi descobrir que algumas faculdades, como a de Educação Física, fica nas margens do lago Paranoá, e cheguei então até ele, após passar pelo amplo mas detonado centro esportivo e centro olímpico. O lago encanta, mas fiquei revoltado com o abandono das instalações esportivas, o que é assunto para outro post futuro.

Instituto de Ciências, UnB
Antes de voltar pro hotel, saltei de um ônibus, do qual desisti da viagem, depois de discutir com a pior espécie da cidade, os cobradores, escrotíssimos quase todos, conheci o amplo restaurante universitário em que comi um belo arroz, feijão, farofão, carne de panela e purê delicioso de abóbora (mais suco e sobremesa de frutas) pela bagatela de 5 pilas, preço de um café com leite no shopping ao lado de meu hotel. Ah, e ainda tomei um café na gostosa cafeteria dando pra área verde ao lado da livraria da universidade.
Duro foi voltar pro centro fake modernete e ostensivo e fazer a bobagem de ir embora no dia seguinte, pois não podia mais mudar minha passagem de avião até Belo Horizonte, onde cometeria a máxima estupidez de chegar no dia em que o Atlético massacrou o São Paulo... Mas pelo menos pude curtir na TV como Verón e Cia engoliram o Cruzeiro com a velha manha e toque de bola argentino.
Não percam Brasília, ainda volto lá pra curtir melhor a UnB, o Parque da Cidade e a Colina (esse lugar, vi um pouco, bairro vizinho à universidade, residencial, predinhos baixos com áreas verdes, aqui um certo Renato Russo reinventou o rock brasileiro...).

Fac. de Educação Física. Pista de atletismo detonada (uma das duas), lago ao fundo

terça-feira, julho 21, 2009

Um lugar de outro tempo


Certos lugares precisam “ser chegados” de noite. Foi assim que cheguei nessa pequena cidadezinha encravada no meio das montanhas Pireneus, em Goiás. Cheguei no escuro, silêncio e pacatez da mini rodoviária, pequenina mas limpa, bem cuidada e pintada. Andei um pouquinho e encontrei a dois quarteirões uma aldeiazinha suspendida nas alturas e no tempo, bela como a lua cheia que quase encostava no teto das casinhas todas coloridas. Romântica e dourada como as iluminação amarelada - tênue, suave – que envolve toda a cidade em uma rede tão diferente do clarão ofuscante das cidades grandes. Como se Pirenópolis – esse o nome do tesouro - fosse uma grande rede de luzes de velas a embalar nossas noites e trechos de vidas que passam por lá. Mais um pouco de caminhada e descobre-se o valor de suas ruas de pedras, suas árvores, da igreja no topo da cidade, do rio limpo lá embaixo, das pracinhas sem nenhum papel no chão, das ruazinhas estreitas com cantinhos gastronômicos deliciosos - simples ou mais requintados – e muros de pedras que nos fazem achar até que estamos num pedacinho do maravilhoso bairro de ruazinhas íngremes de Monastirak, em Atenas, Grécia. Talvez também porque Pirenópolis é tão bem cuidada e preservada como as mais belas belas cidades europeias. Com a diferença de que uma pousada com hospedagem digna de cinco estrelas custe ali por volta de 80, 100 reais o quarto. Como a belíssima pousada Vila Isabel, quase em frente da Rodoviária, com uma ampla área de piscina, jardins, quartos-suítes enormes e ainda com varanda com rede dando pros jardins e piscina e uma tranquilidade de acalmar o espírito mais machucado ou estressado.

Grécia em Pirenópolis
Além da beleza única da cidadezinha, há ainda os passeios para as cachoeiras e montanhas para os mais caminhantes e radicais (as trilhas não são nada fáceis).

Uma das cachoeiras do Bonsucesso
Dá até para ver umas vaquinhas no caminho e sentir o cheirinho do mata. Depois, na hora da boia, para a pança dos de grana mais curta, um achado raro e saborosíssimo: um megasalgadão de forno que vale por 3 big qualquer coisa dessas fast foods insossas e caríssimas. O famoso empadão goiano, uma empanada muito melhor e maior que aquela da Vila Madalena e que geralmente traz recheio de frango, legumes e palmito. O preço? 5, 6 pilas!

Pirenópolis foi o melhor calmante para minhas férias meio atrapalhadas e cansativas (ainda passei por Goiânia, Brasília e Belo Horizonte), devia ter ficado mais por lá. Um lugar tão paz e belo que até os contratempos sonoros a gente até superava e nem sentia.
Contratempos como a pergunta que fiz ao chegar na pousada chique, bela, ultraconfortável, com café da manhã especial e preço camarada:
- É tranquilo aqui?
- Opa, um silêncio de dar gosto, um sossego só e só temos dois casais hospedados; respondeu o cara da recepção.
O cara só esqueceu de dizer que além dos casais a pousada hospedava também as seleções francesas de futebol de todas as categorias... Honrando o símbolo da camisa da França, havia galos, galinhas e filhos de todas as idades. Resultado? No meio da madruga, seu Zidane e Cia, começam a tentar acordar Goiás inteiro. E como se tratava do invocado Zidane, o negócio parecia um duelo de matar ou morrer de final de Copa do Mundo. Pensei até em sair do quarto e dar um chega pra lá no rei do pedaço, mas aí lembrei do Matterazzi e achei melhor deixar quieto, ainda mais porque Zidane, Thuram, Ribery e amigos traziam as famílias de filas de “japoneses” junto, se é que me entendem...
Mas o lugar era tão astral e bem cuidado que nas outras noites o campeonato mundial de cocoricós turbinados só dava uma leve quebradinha no ronco, uma leve risada, “porra, Zidane, de novo?!” e o sono voltava pra depois ser abençoado com o leite, pão de queijo e outras iguarias mais gostosas que tomei e comi nos últimos anos.

Zidane preparando mais uma cabeçada
Não percam a magia de Pirenópolis, e tentem ir acompanhados, o lugar é perfeito pra isso! E aproveitem que menos de duas horas dali fica uma tal de Brasília, a capital da corrupção que eu não queria conhecer mas que acabei curtindo e onde descobri belezas formidáveis, que contarei depois.

Eita vida dura...

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Viagem sem fim


“A vida é muito curta pra gente ficar repetindo os caminhos” (Amyr Klink, falando direto da Antártida - rodeado de gelo e gelo, sozinho, com seu barco e seus sonhos de nunca parar de explorar o mundo - no magnífico documentário Mar sem fim, exibido pelo GNT).
Como podemos nos intitular viajantes quando nos deparamos com um explorador chamado Amyr Klink, o brasileiro que atravessou o Atlântico num barco a remo e depois o mundo, pela terrível rota mais sul possível, farta em tempestades, ondas de até 15 metros e um frio extremo, no círculo polar?
Se não podemos correr o mundo como Amyr, por faltar coragem (e dinheiro), nada nos impede de empreender outra viagem, tão maravilhosa e árdua: a travessia dos corações humanos.
Amyr vai longe, em jornadas incomparáveis, fartas em experiências fantásticas. Mas e os que ficam e tentam conhecer, profundamente, um lugarzinho ou as outras pessoas?
Amyr se entrega ao oceano infinito, aos mistérios mais desconhecidos da Terra. Outros, cada vez mais raros, entregam-se à descoberta do coração humano. Pena que muitos não entendam e não permitam serem navegados pelos corações azuis desses marinheiros da vida.
Talvez as montanhas brancas, de geleiras e icebergs, que Amyr descobriu sejam menos inóspitas que algumas pessoas que estimamos e com quem tentamos nos relacionar. Não dá para entender, por exemplo, a frieza dos que partem de nosso porto-amizade para nunca mais voltar.
Ou será que eles é que têm razão, em suas eternas viagens sem olhar para trás, tocando a vida e novos portos?
Sim, precisamos nos contentar um pouco em sermos apenas boas lembranças para esses viajantes que nunca regressarão. Pois sabemos que em algum momento, fomos nós o mar sem fim que inspirou esses corajosos exploradores que olham a vida e o mundo como a próxima viagem.
Mas quem sabe um dia não olhem uma velha fotografia
descubram uma carta antiga
ou escutem, em um lugar distante,
aquela velha canção,
chamada amizade ou amor verdadeiro.
(30/03/2004)