quinta-feira, outubro 18, 2012

Não deixem o JT morrer



Se eu pudesse sintetizar toda a minha vida, entre ideais, paixões, sonhos e pequenas realizações em uma única foto, esta seria a imagem. Uma imagem, captada pelo fotógrafo Reginaldo Manente, ligada a um fato. Um fato que só poderia ter sido descrito dessa forma – e foi – pelo jornal mais ousado e belo que conheci, o Jornal da Tarde. Ou simplesmente JT para os íntimos. Somente o JT soube expressar toda a dor genuína, profunda, dos brasileiros naquele 5 de julho de 1982 quando a mais bela seleção brasileira de futebol da história perdeu da Itália em uma partida tão maravilhosa quanto cruel. Estava ali nesse menino chorando também as lágrimas e, mais do que isso, o desamparo do sonho desfeito, dos meninos que eu era e dos homens feitos que também choraram feito meninos. Sonho desfeito, sim, porque eram tempos em que os brasileiros amavam de verdade seus ídolos e craques da bola. Porque seus heróis de camisa amarela e muito talento no pé – Leandro, Junior, Falcão, Sócrates, Cerezzo, Zico, Éder e cia eram também grandes seres humanos, quase todos eles dotados de um bom caráter inspirador e pensamentos articulados, inteligentes. E esses heróis ainda eram guiados por um mestre, Telê Santana.

O caso é que o JT parece que vai deixar de existir segundo boatos que vazam cada vez com mais força de dentro do Grupo Estado, que dirige o jornal.

Como pode desaparecer um jornal que foi uma ideia e um compromisso, lá nos anos 60 quando nasceu, com um jornalismo tão inteligente quanto bem escrito e combativo? Como pode desaparecer um jornal que foi o companheiro de quem sonhava com um Brasil melhor mostrando o melhor de nosso país? Como pode morrer um jornal que, diferente de tantos outros que baseiam suas páginas no pior do brasileiro, mostrou sempre o valor de nossa gente (e isso sem deixar de atacar e descobrir muitas de nossas mazelas?) Como pode ir embora o jornal que, mesmo sem ser um circo de horrores, foi o primeiro a perceber as mentiras e falta de caráter de um certo Paulo Maluf, estampado naquela histórica sequência de capas com o nariz crescendo a cada dia por conta das mentiras que dizia sobre a Paulipetro, companhia petrolífera que torrou bilhões perfurando o solo paulista sem achar uma única gota de petróleo? Como pode morrer um bastião de cultura que nos ensinava tanto com aquele fantástico suplemento de cultura, o Sábado?

Sim, o JT mudou muito ao longo das décadas, em especial a partir do final do século XX, quando tentaram transformá-lo num jornal mais popular e quase que exclusivamente paulistano. O suplemento de cultura, por exemplo, foi assassinado. Mas o JT sempre teve uma essência tão boa, tão rara, que mesmo essa tentativa dos donos de torna-lo popular e rasteiro não vingou, porque seus jornalistas, mesmos os mais novos, eram e são amantes do bom texto, da história valiosa, das analogias ricas, do jornalismo que não é o mero jornalismo noticioso da maioria dos outros jornais. Não, Ivy Faria, Felipe Machado, Julio Maria, Gilberto Amendola, Alessandro Lucchetti, Luiz Antonio Prosperi, entre outros inúmeros nomes, que passaram recentemente por lá ou ainda estão no jornal, nunca deixaram a bola e a qualidade cair. E olha que nem falei dos gênios e grandes homens e mulheres que brilharam no JT mais antigo.

O desejo dos donos do Estadão de fechar o JT será uma enorme mostra de incompetência da direção do grupo. Em um país com tantos jovens, por que não ampliam o espírito sempre jovem, belo e combativo do JT? E não confundam juventude com superficialidade e inexperiência, pois os jornalistas do JT, mesmo quando jovens, sempre souberam destacar , por exemplo, nas famosas entrevistas das 2as feiras, as personalidades mais importantes do país. Nesta última segunda, por exemplo, estava lá uma certa Fernanda Montenegro...

O Grupo Estado deveria é recuperar a essência do JT, voltar a valorizar mais a cultura, mergulhar mais fundo na cidade (não só São Paulo), valorizar mais o bom texto, mais trabalhado como na grande reportagem e nos belos “abres” das entrevistas (lead é coisa de medíocres, os bons jornalistas do JT fizeram sempre é grandes aberturas!). “Ah, os computadores, tablets e aplicativos de celular fazem o pessoal ler menos no papel”? Ora, por que os chefões do Estadão não investiram então no site do JT? Por que sempre deixaram o site do jornal abandonado, feio, incompleto e quase nada interativo e multimídia? Por que sempre só deram atenção ao cada vez mais chato e conservador Estadão?

Porque eles sempre quiseram matar o JT. Porque os mandatários do Estadão de hoje parecem não ter coragem nem criatividade nem ideais para recuperar o JT do passado.

Esta será uma das perdas irreparáveis para muitos brasileiros.
De mim e muitos hoje quarentões e cinquentões, vocês vão tirar parte da infância, parte enorme dos sonhos de futebol, esporte, cidadania e cultura que o JT nos ensinou. Parte de nossa indignação com políticos corruptos como Maluf que seguem soltos.

O JT, tanto quanto um inesquecível professor de escola, o Chico Moura, me ensinou a escrever. Mais que isso, me ensinou a pensar e também a prezar as belas e profundas palavras. Ajudou demais na minha formação. Ajudou a me formar como sonhador, lutador, cidadão, professor, jornalista e escritor.

Estão matando não um jornal, mas um ideal e uma escola de vida e brasilidade.
Que os grandes jornalistas e, mais que isso, grandes espíritos, cabeças e corações que escreveram e escrevem no JT consigam deter esse processo. Ou recriem, em outro lugar, com outro nome mas com a mesma essência, um dos mais importantes jornais que esse país já teve.

Que outro jornal brasileiro conseguiu traduzir em uma única capa uma vida toda como a capa do menino chorando em 1982? O quê da vida foi revelada naquela capa? A capacidade de sonhar, se apaixonar, amar, vibrar, celebrar, sofrer e perder com a fantástica seleção de 82. Aquela era uma época rara em que nossos jogadores representavam o melhor dos brasileiros naquele jeito de jogar que era uma música tão alegre quanto bela e contagiante; e naquele jeito de ser, pensar e falar profundo de quando um Sócrates, Zico ou Telê abria a boca. E essa capa também foi profética, porque a dor do menino, a dor de todos nós que vivemos aquela partida, prenunciava a tristeza e falta de alegria que as seleções do futuro nos trariam.

Tomara que em algum canto desse Brasil que tem hoje tantas pessoas notáveis e inspiradoras como os nosso craques da bola e da vida de 82, algum grande grupo de jornalistas, cidadãos e empresários que não pensem somente em lucros imediatos tenham a coragem de reinventar o JT. “Ah, mas o JT só cair em circulação, cada vez mais vende menos”, devem dizer os frios empresários que comandam o Grupo Estado. Mas claro, vocês desprezaram o JT por décadas, a culpa é de vocês, que foram obrigando o jornal a minguar e se esvaziar. Por que, por exemplo, não deram ao JT o mesmo cuidado e tempo que deram a essa brilhante rádio Estadão ESPN ou a rádio Eldorado, ambas do mesmo grupo de vocês? Por que não viabilizaram e pensaram em parcerias para o JT? Por que não modernizaram de fato, em vez de apenas enxugar, o jornal?

Porque vocês não tiveram cuidado com o jornal que foi a minha vida, e de tantos outros paulistanos e brasileiros. E, sim, aqui admito que o jornal sempre teve uma essência paulistana, mas até aqui a incompetência e desleixo de vocês é grave: como é que pode a cidade mais rica do país perder o seu jornal-símbolo? E não me venham falar que ficará o Estadão, pois o jornalão para mim é muito mais um órgão voltado a Brasília que para São Paulo. E isso, vocês podem ter certeza: quem assina o JT não assinará o Estadão. Sei que muitos jornalistas navegam entre os dois jornais (na verdade, me parece que o Estadão roubava os melhores nomes do JT), mas será fácil continuar lendo esses: irei numa padaria e procurarei a única parte do Estadão que tem um pouco, na verdade, um pouquinho só do espírito do JT: o Caderno 2. Em especial, da edição de sábado. Mas só queria saber onde é que vocês vão enfiar o brilhante pessoal do caderno de esportes, este sim o pedaço que ainda mantém a alma do JT dos anos 60.

Façam alguma coisa, leitores e jornalistas do JT, não deixem o nosso jornal (mais que isso)  morrer.

segunda-feira, setembro 10, 2012

Juntos na longa estrada

    Brothers de surfe em geral não nos acompanham a vida toda. Às vezes o cara casa e some (nunca sabemos se ele larga o surfe pela pressão da mulher ou porque não teve mais força mesmo para prosseguir a árdua tarefa de madrugar num fim de semana depois de dormir tarde pela exigência, será?, da esposa). Em outras o cara muda de brothers, porque a amizade não é regada como se deve e ele conhece outros surfistas em sua rede de convivência. E tem também a nossa culpa de não tentar resgatar as velhas parcerias. Talvez porque os momentos de vida de cada um mudem muito, ou mesmo porque sabemos que aquelas antes deliciosas reflexões no outside de outrora já não tenham o mesmo sabor pra gente ou pro antigo brother. Bom, isso quando a gente ou o brother muda seu jeito de ser e viver.

Triste o brother que se foi, mas ficam as histórias, os perrengues, as sacaneadas de um só não atropelando o outro no último segundo (bom, às vezes o outro precisava mergulhar mesmo hehe), as risadas das vacas, e os incentivos - os Úh! Úh! gritados com uma emoção e verdade só possível nos brothers de muitos anos juntos.

Bacana demais, por outro lado, o brother que fica. Que permanece junto na viagem da onda mais longa chamada Vida. Não importa o momento e a rotina de cada um - se tá de namorada nova, se casou, descasou, se vai casar, se virou pai, se tá alegre ou deprê - o cara tá sempre junto. Pronto pra te zoar no pico e também incentivar e trocar aquela ideia profunda que só é possível na maior mesa de bar do planeta, o outside, lá onde sempre chamamos mais uma, onda.

Já são 15 anos surfando junto do irmão de surfe e vida, do raro cara que jamais desistiu de um bate-volta na hora, e que está sempre pronto pra outra. Esse textinho surge também pra tentar resgatar esse blogzinho que era meu espaço de reflexões e memórias pessoais. E surge com a força e brodagem em escala máxima porque o brother me salvou o bate –volta, domingo retrasado, e isso depois dele ter feito um bate-volta no dia anterior com outro surfista. Isso que é estar ali para o que der e vier. E surfar. Mas só podia esperar isso mesmo do brou que não vê problemas em nos acompanhar nos maiores trampos. Porque o cara sempre responde a mesma coisa quando inventamos a maior roubada aqui na Babilônia infernal: “Ae velho, preciso ir na PQP, fazer isso, aquilo e mais aquilo”. Ele sempre responde, “blza, vambora!” e ainda é o único cara que comete a insanidade de se oferecer para pegar os amigos no aeroporto de Guarulhos, tendo que enfrentar o caos chamado Marginal Tietê inteirinha.

Talvez seja o astral do cara, que topa qualquer coisa, e ainda ajuda a atrair as ondas, que quase sempre rolam de gala em nossas quedas. Tá aí a longa linha de ondas que vocês podem ver ao longe nesse videozinho logo abaixo, desta última session. Ondas pequenas mas perfeitas, bom, pelo menos pra gente. E mesmo quando o mar está insurfável, só a risada diabólica do cara lá dentro já faz valer a pena.

Valeu, brou! Ex-aluno (entramos no grande Zontes no mesmo ano!), eterno amigo, futuro padrinho (é, fica sabendo por aqui hehe), que o surfe siga vivo como essa brodagem, sempre.

PS – Os velhos brothers a gente não esquece, um dia a gente cai de novo juntos. Um dia quem sabe vocês assistem ao melhor filme de surfe de todos os tempos, Big Wednesday, e não terá como não armamos aquela trip revival.
PS 2 - Um grande salve aos brothers virtuais Maurio Borges e Gustavo Otto, caras que nunca vi na vida real, mas sempre me ensinaram um pouco sobre a longa estrada azul e sobre uma rara camaradagem que extrapola uma telinha de computador. E um salve ao brotherzinho que não pôde ir, mas também tá mesma estrada há mais de dez anos.

segunda-feira, junho 18, 2012

20 anos do sonho da América


Ainda hoje aquele pôster - amassado, rasgado e envelhecido pelo tempo - está pendurado no velho quarto de um garoto que virou quarentão mas não o esqueceu. Nele vemos um raro caso de guerreiro elegante. A camisa está manchada de terra, na verdade enobrecida da terra e do chão do qual ele não tinha medo. O chão no qual ele se atirava numa jogada típica, o carrinho que dava para recuperar a bola nas laterais do campo, lugares que ele sabia que resultariam em contra-ataques mortais. Este era o lado guerreiro, de quem dividia sem medo e enfrentava no peito os mais duros marcadores rivais, em qualquer pedaço do campo. Havia também a elegância, o porte altivo, corpo e mente ereta, de quem jogava o fino e com inteligência, com toques refinados, passes precisos e solidários, chutes tão violentos quanto precisos, e cabeçadas que eram tiros de canhão. Até hoje, 20 anos depois, Raí segue dependurado na parede da velha casa dos meus pais e não cai. Porque aquele São Paulo era derrubador, brigador, vencedor. Conquistador da primeira Libertadores tricolor. A até hoje talvez mais bela taça que conquistamos, por seu significado e dificuldade.
    Eram 105 mil são-paulinos no Morumbi lotado e duvido desse número, pois passei o jogo todo espremido em um dos últimos lances da arquibancada, o que fez muito jornalista falar em pelo menos 120 mil torcedores naquela noite. A mãe de todas as noites gloriosas do São Paulo de Raí, outros fantásticos jogadores e, claro, mestre Telê. Resgatando hoje a escalação, o esquadrão é monumental: O seguríssimo e heroico Zétti (e ainda um ser humano sensacional), o multihomem em campo, Cafu, o clássico e raçudo Antonio Carlos, a muralha Ronaldão e o vigoroso mas inconstante Ivan (não naquela final), típico caso de jogador que só brilhava e arrebentava sob o comando e orientação de mestre Telê. No meio-campo, o cão de guarda mas bom no primeiro ou segundo passe (diferente dos meros brucutus de hoje) e uma das almas do time, o sempre enlouquecidamente mais que raçudo, Pintado. Ao seu lado na proteção da zaga e início dos contra-ataques infernais tricolores, o clássico e nobre zagueiro central, deslocado por Telê, Adílson, quase um líbero, pois Telê era, sim, bom em tática também, como não acreditavam seus críticos. Um pouco mais à frente, capitão, líder e matador Raí comandando as ações ofensivas com o homem de papel, fluído, quase etéreo, mas ilusionista, rapidíssimo e inteligente nos toques rápidos, além de goleador, Palhinha. Já no ataque, mas volta e meia recuando um pouco para armarem tabelinhas sensacionais, o genial Müller, tão flecha quanto arco de boa parte dos gols tricolores. Junto dele, do outro lado, o veloz e não tão inteligente Elivélton, mas hábil e de chute forte. E se Müller, coisa rara, não estava bem, houve o amalucado mas habilidoso e supersônico Macedo no banco para entrar e sofrer o pênalti que nos daria a vitória necessária para levarmos o jogo aos pênaltis.
Pênalti que Raí encarou com a frieza de valente dos valentes, caixa, 1 a 0 igual ao placar da derrota na Argentina contra esse lutador Newell´s Old Boys comandando por um certo Marcelo Bielsa...
Veio então a decisão por pênaltis e aí brilhou não só o heroísmo e técnica de Zétti mas um dos diferenciais daquele São Paulo de outros tempos: o trabalho bem feito nos bastidores e preparação da equipe. Zétti sabia para onde pular porque seu treinador, e observador de todos os adversários do time naquela Libertadores, já tinha mapeado a cobrança dos jogadores do Newell´s. Falo de Valdir de  Moraes, ele mesmo, aquele que depois ainda formaria um certo Marcos no rival alviverde. E ainda havia na comissão técnica tricolor Moraci Santana e Turíbio de Barros, comandantes de toda a preparação física e fisiológica dos jogadores naquela Libertadores.
Falta ainda o Mestre Telê Santana. E o que eu posso dizer de um treinador que montou um time sensacional desse, como mostra a escalação? O que dizer de um treinador que baseou seu time em pegada, sim (Ronaldão e Pintado na chefia do jogo duro mas na bola), mas também nas maravilhosas tabelinhas entre Raí, Palhinha, Müller e Elivélton? O que dizer de um treinador que morava no CT do São Paulo e investigava todos os dias os gramados para quem nenhum buraco machucasse seus atletas ou prejudicasse o toque de bola conduzido por Raí e cia? O que dizer de um mestre sem frescuras e vaidades, que só se importava em treinar e treinar, bem diferente dos treinadores pop stars que infestariam o futebol brasileiro e mundial em pouco tempo? O que dizer de um perfeccionista e raro treinador formador de jogadores completos, que exigia a repetição dos fundamentos básicos do passe, cruzamento, tabela e chutes? O que dizer de um mestre amado para sempre, até hoje cantado com saudade no seu templo e imensa sala de aula do Morumbi?
Bonita ontem (antes da pelada de mau gosto contra o Atlético...), a homenagem aos homens e heróis que começaram duas décadas atrás o sonho de nos tornarmos o melhor time do mundo. Só não concordei com os jogadores de hoje estamparem em suas camisas os nomes dos nossos heróis.  
Nunca vi, por exemplo, o Maestro Raí maltratar a bola, não dar o sangue ou reclamar de uma marcação do árbitro... Nunca vi o maior jogador de nossa história nos deixar na mão.
Raí só nos deixava nas nuvens. No topo do mundo.

* Textinho do Maestro sobre a Libertadores de 1992 aqui

sexta-feira, maio 25, 2012

A busca de verdade não aparece no Google (ou as lições de vida do cineasta Walter Salles)


Uma lição sobre onde está a vida que perdermos ao não sair de casa, dos mesmos lugares de sempre, do micro, do celular e outros hábitos alienantes. É isso o que oferece a bela entrevista com o cineasta Walter Salles - sobre o filme On the road (Na Estrada) - na revista Época. Como não está disponível no site da revista, reproduzo alguns trechos e uma mentira. O título da entrevista é uma frase que Salles não disse: “Os jovens não são mais conformistas”. A seguir, a pergunta e resposta sobre isso:

ÉPOCA - Os jovens hoje são mais conformistas ou estamos entrando numa outra onda de contestação?
W. SALLES - Experimentar tudo na primeira pessoa colide com a ideia de experimentar por procuração, em frente à tela de um computador ou em frente à televisão, assistindo a um programa de teleirrealidade. O livro (On the road, saga de liberdade e experimentações dos poetas e escritores beat nos anos 50) é um pouco uma vacina contra esse imobilismo. Movimentos recentes, como a Primavera Árabe, os indignados na Espanha e as manifestações como Ocupem Wall Street revelam um desejo de transformação da sociedade. Hoje o clima é bem diferente dos anos 1980 e 1990...

Ou Seja, o que Salles disse é o que os jovens estão menos conformistas que as gerações dos anos 80 e 90, mas ainda há muita apatia e alienação, como ele revelou ao falar dos jovens que ficam em frente das telinhas, sem experimentar e vivenciar a vida real. Sobre isso, Salles revela em uma de suas repostas que “experimentar é a única forma de desenvolver uma experiência crítica. E afinar sua visão de mundo”. Esta frase é uma paulada na juventude que não sai de casa, do quarto, do carrinho do pai e mãe e do shopping, e ainda passa horas mergulhada em seus aparatos tecnológicos sem olhar ao redor e perceber as pessoas e o mundo.
A vida sentida na pele é a essência do livro e filme On the road, e Salles caiu na estrada também com sua equipe e atores para fazer o filme (antes ele ainda fez um documentário sobre o mesmo tema) e ele revela como essa experiência foi decisiva em sua carreira de cineasta:

ÉPOCA – O senhor fez Central do Brasil, Diários de Motocicleta, sobre Che Guevara, e agora Na estrada, sobre Jack Kerouac e a cultura beatnik. Todos road-movies. O senhor se considera mais um cineasta ou um viajante?
W. SALLES – (...) Toda vez que você se distancia do ponto de origem, você ganha maior perspectiva sobre quem é, de onde veio e eventualmente quem você quer vir a ser...

Ou seja, galera, quem ficar preso aos mesmos lugares, hábitos e imobilidades; quem não viaja e não sai de sua cidade, nunca vai ganhar uma dimensão e entendimento maior de seu país, mundo e da própria vida. Portanto, pé na estrada, ou na rua. Um bom começo para um paulistano é pegar o metrô, dar uma caminhada pelo entorno das estações e as exposições riquíssimas que rolam em várias estações. Sai da net, sai de casa, a vida não é um programa de busca de notícias. 

A busca real é outra coisa, bem mais gostosa, rica e verdadeiramente viajante.

sexta-feira, abril 27, 2012

O mais apaixonado dos mestres


Com ele, artistas viraram magos. Craques viraram super craques; e guerreiros, deuses.
Com ele, o futebol recuperou a poesia em prosa do jogo de toques com classe e passes perfeitos e incisivos.
Com ele todas as grandes equipes do passado voltaram a ser emuladas. Porque ele nos lembrou que um dia o futebol também foi belo em outras cidades e países.
Com ele, algumas palavras essenciais às equipes inesquecíveis foram resgatadas: fidelidade a um estilo e coragem de atacar sempre.
Com ele veio a revolução do jogo de toque vir acompanhado de  uma colossal entrega física para recuperar a bola e seguir atacando.
Com ele os gols voltaram a ser maravilhosas jogadas coletivas, e os gols de placa individuais ficaram ainda mais belos, por ele ter feito seus artistas treinarem tanto.
Com ele o futebol arte renasceu e evoluiu ainda mais, fazendo de cada jogo do seu time um espetáculo tão belo quanto o mais belo espetáculo artístico e cultural.
Com ele o futebol virou uma música e outras artes tão belas quanto rápidas e envolventes, como se fosse possível um time ser múltiplo – música, dança moderna, ballet, ópera, cinema etc – e também mover-se em ritmo alucinado do bom e velho mas veloz fliperama dos anos 70/80.
Com ele seus jogadores admiráveis mostraram-se também homens valorosos, raríssimas estrelas humildes e homens de bem que não aparecem na mídia traindo esposas, fazendo farras homéricas, empunhando metralhadoras, brigando ou fazendo todo tipo de coisa vulgar.
Com ele meninos viraram homens e campeões juntos. Com ele, as divisões de bases, as canteras, viraram celeiro.
Com ele o mundo do futebol, sempre ávido em gastar fortunas em contratações, redescobriu as categorias de base e a necessidade de se valorizar os meninos.
Com ele, um dos últimos treinadores românticos, o futebol voltou a ser um romance de craques com a bola e o gol.
Com ele nós voltamos a perceber como o futebol e o esporte podem ser bonitos.
Com ele, aprendemos que devemos ouvir os mestres antigos para nos enriquecermos e aprendermos, porque antes de brilhar no Barça ele procurou para conversas sem fim os treinadores que ele mais admirava.
Porque ele não é um treinador boleiro, desses que viveram a vida nos gramados e não aprenderam nada fora dos campos.
Porque ele trouxe ao futebol um pouco de sua vasta cultura, do seu amor pelo cinema e poesia por exemplo.
Porque ele só queria fazer uma coisa: implantar no time de seu coração a utopia de um time jogando exclusivamente por amor ao futebol arte.
A dor em Barcelona hoje é grande demais, mas em breve, algum lugar abençoado deste mundo receberá o mestre e será mais feliz que nunca. E podem ter certeza que ele vai escolher um lugar e uma camisa sinônimos de magia, mesmo que uma magia meio esquecida no passado. Quem sabe por aqui...

sexta-feira, março 23, 2012

Os primeiros anos do resto de nossas vidas


Uma das canções da vida. Ou melhor, que nos faz lembrar de pedaços essenciais mas soterrados, até interrompidos, dela. Música-tema de St. Elmo´s Fire (O Primeiro anos do resto de nossas vidas, com Demi Moore ainda menina e cia juvenil estrelada). Os instrumentos iniciais (violino?) são um passaporte para o passado. O tecladinho soa como velhas fotografias de rostos e corações que não devíamos ter esquecido, jamais. A bateriazinha de leve nos lembra de abraços, sorrisos, do jeito iluminado com que olhávamos os amigos e vice versa.
Por que a vida nos separou? “Ah, o tempo, os caminhos, as famílias...” que cada um criou ou ainda tenta criar. Ou a dureza dos que mudam demais e esquecem de como eram melhores, mais humanos, quando garotos e meninas.
A profundidade do piano e a o sax expandem a canção e nos levam de volta às fotografias de momentos inesquecíveis, da pureza de amigos e amigas que um dia foram nossos irmãos de sonhos, viajando juntos nos sonhos fundamentais dos 15 anos: as musas impossíveis, os pequenos grandes feitos, as pequenas  partidas de colégio que transformávamos em finais de Copa do Mundo (quem não lembra de uma grande vitória na quadra da escola onde um dia você sonhou, viveu, sorriu e sofreu, esquece algumas das maiores emoções da vida). As viagens com a turma, as festinhas, as piscinas, o mar, o lago, as águas que corriam mais puras e inocentes. As águas que corriam intensas e emocionantes como o sangue da juventude de atitude.
Volta o tecladinho, a dedilhar com suavidade o menino ou menina quem um dia fomos, jovens em tempos mais reais, onde festas era marcadas de boca em boca, em que conversas eram anunciadas com um toque na campainha de nossas casas ou um grito nos chamando.
Eram tempos em que o amigo, em vez de mandar mensagens via computador ou celular, surgia do nada (do tudo, de seus corações) batendo em nossa porta, sem avisar mas sendo bem recebido.
Eram tempos de papos intermináveis à beira da calçada de frente para ruas tranquilas, livres de tantos carros ou da gente nervosa, apressada e mal educada de hoje. Eram rolês de bike sem capacetes, com as orelhas mais livres para escutar o mundo imenso que sentíamos e imaginávamos quando moleques, e sem roupinhas especiais. Pedalávamos com a mesma roupa com que jogávamos bola ou taco na rua. Pedalávamos por ruas e tempos menos consumistas e neuróticos, mais calmos e humanos.
Eram tempos de ligações mais simples e profundas. Não lembro de falar ou ouvir a palavra “conexão” quando garoto, mas tenho certeza que os amigos eram muito mais conectados na era dos gritos na porta de casa e nos rolês a pé ou de bicicleta em pleno fim de semana (é, acho que tínhamos muito menos lições de casa no passado, talvez os professores e as direções de escolas soubessem ensinar o essencial em vez do massacre conteudista cada vez maior de hoje).
Tínhamos tempo livre de verdade. Éramos mais livres para sonhar e viver. Vivíamos na rua. E não me venham falar de que hoje há muita violência, mais carros etc. Sim, é verdade, mas ainda existem muitas ruas, praças e parques onde se pode crescer e viver sem medo. Pena que a paranoia dos pais ou o excesso de atividades em que enfiem seus filhos acabe com a adolescência hoje.
A adolescência e juventude que parece ter ficado no passado, como no maravilhoso filme St. Elmo´s Fire, em que os amigos, sonhavam, ajudavam-se e, sobretudo, ficavam juntos.
Eram outros tempos.
Eram outros humanos.
Mas graças que alguns resistentes ainda lembram de filmes e canções como essa, como a velha amiga dos anos incríveis que postou essa canção hoje cedo no Facebook.
E graças que ainda existem, nos corações de quem sabe encontrar a companhia e amor certo, romances como o desse filme que marcou os românticos dos anos 80.
Graças que, mesmo se a mágica dos 15 anos não volta, ainda é possível cultivar uma pessoa como cultivávamos os jardins incomparáveis dos amigos dos 15 anos.
Se os amigos desapareceram na cinza poeira do tempo, ou no poço sem fundo (sem volta?) dos que mudaram por questões de grana e status, cuide de sua parceira ou do seu companheiro com o mesmo cuidado, alegria e entusiasmo com que regavam os moleques e meninas dos anos mais mágicos da sua vida.
Quem sabe, fazendo isso, e exercendo a arte esquecida do romance no amor, você não lembrará do amor tão belo quanto: o amor que se irradiava dos amigos e amigas do peito que não apenas se curtiam, mas celebravam a vida juntos.
Texto dedicado aos que se sentem bem demais quando a esposa ou namorada encosta a cabeça nos nossos ombros no cinema vendo um filme que celebra o amor ou a parcela diminuta, mas combativa, da humanidade que ainda luta por um mundo melhor.

PS – Quem vai agitar uma festinha pelos bons tempos??? Ou quem é que vai começar a bater um fio, telefonar para os velhos amigos, em vez da frieza e fugacidade dos posts virtuais?
Nunca é tarde para resgatar a pessoa sensacional que você um dia foi.

quinta-feira, março 22, 2012

Big Sunday – Ondas iguais à vida


As grandes ondas são parecidas com os relacionamentos ou a solidão humana em seu lado mais triste: a falta de companhia. Às vezes não conseguimos chegar até elas  sozinhos. Falta algo essencial em uma boa aventura marinha: os amigos.
Sábado o mar rugia anunciando o finalzinho do verão e a chegada do outono, o início da temporada de ondas grandes. O oceano chamava para uma daquelas sessions épicas, mas faltou braço e estímulo para varar a arrebentação distante numa maçaroca de ondas já arrebentadas uma atrás da outra. O jeito foi desistir, e com sorte, pegar uma boa e única parede na zona intermediária. Solitária onda que me deixou, porém, frustrado. Sempre ficamos quando não chegamos na porta de entrada da catedral marinha, o outside.
Só o longo passeio, de mãos dadas com a mulher amada, de frente para o mar e sob um pôr-do-sol suave e de belos tons do outono próximo, amenizou um pouco a falta de ondas. Mas o déficit de surfe sempre deixa nosso tanque de vida menos cheio.
De noite, a boa notícia chega pelo celular. Era a mensagem só possível em um amigo fiel, aquele que não precisa conversar antes de anunciar: “amanhã cedo estamos colando aí pra dar uma queda.”
Bem aventurados os que têm um brother assim. Não é preciso combinar nada, não é preciso marcar, ligar pra acertar as coisas. O brother de fé apenas anuncia que está a caminho. E eles sabem que surfar sozinho sempre deixa um vazio e muitas vezes, arruína uma session como a minha do sábado.
E pra melhorar ainda mais, o brother fiel não embaça: ele madruga e chega cedinho. Tava ainda na cama quando o telefone tocou, ele já tava na praia, só pegaria a prancha do outro brother ali num apê próximo.
Ainda com um copo de leite quente na mão escutei a buzina. O irmão, o velho parceiro chegou. Logo estamos passando parafina nas meninas. Logo estamos na praia.
Sim, a cena é furiosa. Netuno ruge firme. O liquidificado gigante do sabadão deu uma diminuída, o mar deu uma acertada, mas a arrebentação segue distante pacas. Sabemos que a remada vai ser insana, até pensamos que não conseguiremos chegar lá atrás, mas não sentimos isso. Porque brothers juntos, de alguma forma, por alguma ligação poderosa, sabem que conseguirão.
A entrada já é dura, a temperatura da água já é a fria da próxima estação. A paisagem toda branca, de um mar de ondas grandes estouradas, é uma dura barreira. A remada é uma odisseia para meu ombro esquerdo lesionado há meses e para a lombar direita também machucada há tempos.
O sal é remédio, a água é terapêutica, os amigos são os guias a me estimular. Eis então que o amigo tranquilo dispara lá na frente, parece ter descoberto uma brecha numa breve pausa da fúria marinha. Percebo a chance, dou um gás. A dificuldade para mergulhar debaixo das bombas estourando vai amainando. Pouco depois encontro a segurança do outside, a zona mágica antes das ondas quebrarem.
Ficamos lá, eu e o amigo tranquilo, quase zen, à espera das séries e do velho brother. Nem sinal dele. Deve estar na zona cega das ondas estourando na cabeça e forçando um recuo natural.
Alguns minutos depois o velho amigo desponta. Rema devagarzinho como se caminhasse num caminho santo com um cajado na mão. O ritmo vagaroso era exaustão e então eu e o brother sossegado demos aquela boa risada meio aliviada e meio sacana, “olha lá o Velho, tá mortinho, remando feito um velhinho”.
Logo éramos os três amigos juntos de novo. Juntos, felizes e orgulhosos de terem vencido a famosa remada-estrada sem fim de nossa praia local, famosa por sempre cobrar um preço caro para nos entregar o paraíso do outside.
Bom, o paraíso pode ter suspiros de inferno: a primeira série cavernosa se aproxima. Em vez de botarmos pra baixo, deixamos as morras passarem e damos risada do tamanho delas e de nossa falta de coragem.
As condições estão difíceis de entrar, perdemos outras séries mas não o bom humor, um sacaneando a remada sem sucesso do outro, encerrando a frase com “ainda bem que você não entrou, ia tomar uma vaca...”
Os amigos juntos logo espantam a apreensão e o receio. Nos dão confiança e a certeza de que olharão por nós.
Logo conseguimos pegar algumas bombas e ficamos mais tranquilos também ao descobrirmos que as ondas não estão desabando, mas sim quebrando aos poucos, permitindo nossos erros sem que nos engulam.
Logo estamos todos renovados e logo esquecemos o tempo. As horas passam e curtimos uma das mais longas sessões dos últimos tempos. E curtimos esse aumento dos laços de amizade que uma session inesquecível sempre produz.
Graças às morras desse fantástico Big Sunday.
Graças à vontade de surfar e viver, juntos, dos Brothers.