quinta-feira, novembro 29, 2012

Pra Frente, Brasil! (ou a “brilhante” operação dos que recusaram o Maestro Guardiola)



“Respeitamos o passado e as conquistas de Felipão e Parreira, mas precisamos pensar no presente e no futuro”, foram mais ou menos essas as palavras do jornalista Lucio de Castro hoje na ESPN Brasil. Exato. Felipão foi o comandante do Penta, é uma figura querida, um grande motivador e fez também um belo trabalho em Portugal. Tornou uma seleção de quem ninguém tinha medo em uma das potências europeias e mundiais na metade dos anos 2000. Parreira orquestrou o Tetra e também teve um currículo notável. Mas ambos há muito que deixaram de ser sinônimo de bons trabalhos.

A escolha dos vitoriosos mas ultrapassados treinadores de nossos dois últimos títulos mundiais matou uma chance única do futebol brasileiro reencontrar-se consigo mesmo. Perdemos a chance não só de resgatar a essência da bola brasilis – a arte do toque de bola com posse, tabelinhas, dribles, passes verticais, arriscados e pressão pra cima do adversário que estava no DNA, por exemplo, dos tricampeões de 70 ou nos artistas de 82 – como de recuperar o amor de encarnar a amarelinha.

Como um estrangeiro iria recuperar esse amor? Apaixonado pelo futebol bem jogado e pelos maiores da história do jogo bonito, Guardiola é também um mestre forjador de homens sérios, dedicados e dignos. Não é possível, por exemplo, lembrar de um só barraco, caso de estrelismo, orgia, falta de esportividade, violência ou qualquer outro tipo de jogo sujo nas versões do Barcelona que ele dirigiu. Aliás, foi por alguns desses vícios que logo que ele assumiu o Barça se livrou de Deco e Ronaldinho Gaúcho. O máximo de problemas do treinador foram rusgas com Eto´ e Ibrahimovic, mas ambos são egos enormes e não criaram problema só com Pep.

Fala-se tanto na talvez qualidade maior de Felipão – a tal família que criou em 2002 – mas por que não se pensou que Pep poderia criar o mesmo, e com ainda mais força e comprometimento por várias qualidades que ele exibiu como a de ser um mago do vestiário cheio de craques para poucas vagas no Camp Nou? E a estatura humana e profissional de Pep, elegante, articulado, determinado a conquistar e ganhar tudo, como ganhou? E a sua rara qualidade de valorizar tanto as pratas da casa? Aqui uma das críticas mais sem fundamento dos que não o queriam no Brasil: que ele não conhece os jogadores e o futebol brasileiro. Erro crasso. Em primeiro lugar, ele já enfrentou como treinador ou teve ao lado a maioria dos selecionáveis de hoje. Em segundo lugar, como um maníaco garimpeiro, um apaixonado em descobrir novos talentos que ele sempre foi, por que ele não poderia fazer o que fez o argentino Rubem Magnano com o nosso basquete?

Para quem não sabe, Magnano viajou o Brasil todo para conhecer os destaques das categorias de base (os nomes mais famosos, Varejão, Leandrinho, Nenê, Splitter ele já conhecia da NBA ou por tê-los enfrentado com a Argentina) de nossa bola laranja. Meu aluno, seleção sub-17 e sub-20, Gabriel Zanini, cansou de me contar, olhos brilhando, que o argentino tinha aparecido no treino ou jogo dele. Eu mesmo vi o bigode hermano nas arquibancadas do ginásio do Pinheiros observando a molecada das inferiores ou os já adultos, mas novatos do NBB.

Guardiola visitaria a base de nossas seleções e maiores clubes com prazer, com garra, com sua paixão e olho clínico para descobrir o jovem realmente talentoso. Alguém viu algum grosso jogar com ele no Barça? “Ah, mas ele tinha a fábrica de La Masía, a escolinha do Barça, ao seu dispor”. Ué, mas por que foi com Guardiola que os meninos da escolinha mais subiram para o time principal? E por que foi com ele que Xavi e Iniesta se transformaram em monstros da bola? E alguém viu o Dunga, o Mano visitando a base de nossos clubes ou passando um bom tempo em Teresópolis com nossas seleções-sub? Alguém acha que o Felipão vai botar o pé na estrada Brasil afora? Aliás, quantos jovens o Felipão lançou nas equipes que comandou? Raríssimos, pois sempre preferiu os medalhões aos “guris”. E lembremos que os melhores do Brasil hoje são todos muito jovens, mas claro que o presidente da CBF não pensou nisso.

O caso é que a retrógrada, conservadora e ditatorial CBF jamais aceitaria conviver com um treinador moderno e ainda afeito a “essas bobagens” de ensinar não só futebol mas valores. Valores para esse pessoal que manda e desmanda no futebol brasileiro são apenas monetários. Calma, sei que alguns vão falar que “valores é besteira, que jogador tem que ser malandro, que bom caráter não ganha título e sim bola no pé etc etc”. Uhn, quantos malandros jogavam no Barça de Guardiola? Quantos jogam na Espanha campeã de tudo?

Outro erro é o velho imediatismo de achar que deve-se pensar apenas na próxima Copa em vez de mudar e melhorar o modelo técnico do futebol brasileiro. Que jogar bonito que nada, Marin e Del Nero querem é vencer a Copa com um treinador pragmático como eles. Querem é um time amarradinho lá atrás, que vença sempre de 1x0 e pronto. Só esquecem que não há mais o fenômeno Ronaldo e o gênio, sim, Rivaldo, nem os superatletas Cafu e Roberto Carlos, nem Ronaldinho antes do desbunde, nem a segurança e carisma inigualável de São Marcos.

Só esquecem que Felipão e especialmente Parreira venceram Copas com níveis técnicos dos mais baixos da história. Simplesmente não havia grandes seleções rivais em 94 e 2002, tampouco nenhum grande craque estrangeiro em forma. Bastou, por exemplo, um Zidane de novo em forma, em 2006, que ele sozinho acabou com o Brasil de Parreira num dos maiores bailes da história das Copas. A quantidade de dribles desconcertantes e humilhantes que o já veterano Zizou aplicou em nossos jogadores é coisa sem igual na história do futebol. Nem Garrincha entortou tanta gente num só jogo de Copa.

“Ah, mas Felipão é um vencedor, ganhou a Copa e depois foi brilhar em Portugal”. Sim, até o mesmo Zizou acabar com os patrícios em 2006, depois de despachar o Brasil. E lembremos da belíssima campanha na Euro 2004 em que uniu a terrinha toda, mas depois perdeu a final em casa, para a... a Grécia... E depois só vieram fiascos históricos como enfiar o Palmeiras na 2ª divisão (Copa do Brasil, torneio disputado sem os melhores times do Brasil, não é parâmetro; assim como não é parâmetro técnico elevado vencer uma  Copa Sul-Americana, também sem boa parte dos melhores times não só do Brasil, mas da Argentina, Uruguai etc).

Pra piorar, Felipão já disse mais de uma vez não gostar do “joguinho chato” dos espanhóis.

Pior para ele, que deverá engolir o mesmo veneno que afogou Muricy.

Pior para a gente, que engoliremos não só Felipão mas Parreira. Nada contra a experiência (Don Vicente Del Bosque a provar que a rodagem pode ser bela e sábia na maravilhosa Espanha que ganha tudo há anos), mas tudo contra ela quando é sinônimo de dois homens acomodados na fama e no passado.

Não serão os ridículos e hipócritas apelos patrióticos de um filhote da ditadura militar e eterno fantasma obscuro da política nacional, o presidente Marin, proferidos hoje na coletiva de apresentação, que tornarão Felipão e Parreira vencedores de novo. Além do mais porque futebol não é guerra e o brasileiro - que se distanciou muito da amarelinha desde os fiascos dos desbundados e farristas de 2006 e dos guerreiros destemperados ou mal humorados de 2010 – tem o direito, sim, de não torcer por uma seleção que não representa mais o que ele acredita.

Guardiola poderia nos fazer acreditar de novo. Saberia escolher os nomes certos e, sobretudo, priorizaria os jogadores mais hábeis e virtuosos e, claro, um estilo ultra ofensivo e tomando conta da bola como era o nosso futebol do passado.

Felipão? PVC, na ESPN, ontem, fez uma projeção sinistra de como poderia ficar do meio para a frente com ele: Ralf, Felipe Melo, Paulinho e Ramires. Neymar e um centroavante alto e/ou forte (Hulk ou o já bem mediano em 2010, Luis Fabiano). Quatro volantes. Meias talentosos, criadores e verticais?, fora. Lucas fora (um novo Denilson, arma só pro 2º tempo?). Pobre Neymar, isolado ao Deus dará. Claro que Paulinho e Ramires poderiam ser titulares com Guardiola, mas eles teriam mais cérebro e muito mais criação ao lado deles.

Pobre também da descuidada avaliação dos que torceram contra Guardiola, entre outros motivos por acharem que era apenas um lobby de parte da mídia esportiva como o jornal Lance. O lobby veio é da sempre nefasta CBF e de outra mídia historicamente parceira dos cappos do futebol brasileiro.
O que os apaixonados jornalistas do Lance – uma das raras mídia independentes deste país – queriam era apenas o futebol e o futuro muito melhor que viria com o cidadão catalão, espanhol e mundial á frente de tudo.

Finalmente, outro descuido e falta de reflexão: “Ganhamos cinco Copas com brasileiros no comando”. Ora, perdemos outras várias com brasileiros no comando também. Não querer um estrangeiro, em tempos mais que globalizados é bairrismo, medo, ignorância ou o tal do patriotismo guerreiro do Dunga ou, mais enviesado e autoritário, do Marin?“Se quisermos hoje evoluir tecnicamente e, principalmente, taticamente, já que ficamos para trás, o negócio não é investir para trazer jogadores estrangeiros (nos clubes brasileiros), e sim treinadores para os nossos clubes! O caminho hoje é inverso e temos de ter a humildade de reconhecer que não somos mais os melhores do mundo”, escreveu Benjamin Back hoje no Lance. 

A humildade reconhecida com grandeza por Neymar assim que acabou o jogo em seu time foi humilhado por Messi, pela máquina espanhola e pelo maestro Pep. Já esqueceram o que o santista disse? “Hoje eu aprendi o que é futebol. Levamos um baile.”

O baile que deverá prosseguir em 2014, pois a Espanha está anos luz a nossa frente, a Argentina tem Messi e uma seleção cada vez mais acertada, a Alemanha é forte (e joga com arte, até ela, a antes sisuda senhora germânica!) e, incrível, temos ainda uma Itália em que o corajoso Cesare Prandellli sacou os brucutus e colocou só homens que sabem jogar no meio-campo. O Brasil? Ora, “o Brasil parou no tempo e joga o mesmo futebol pragmático de dez, quinze anos atrás, que não funciona mais”, afirmou uma das lendas da bola mundial, o alemão Paul Breitner.

Perdemos a chance de trazer o melhor treinador do planeta e um dos maiores da história do futebol. E, santa burrice, Batman!, perdemos o mestre que estava, vejam só, louco para trabalhar com a gente! PVC de novo, preciso: “É inadmissível que a CBF não tenha nem conversado com Guardiola, nem discutido suas ideias, nada.” 

Ah, desculpem, esqueci, “precisamos ser patriotas!”, berrou Marin hoje, deixando o próprio Felipão, que brilhou tanto em Portugal, visivelmente constrangido. Aliás, aos que veementemente lançaram a grita de que não precisamos de estrangeiros, o contrário pode? Felipão ter treinado a seleção portuguesa pode, mas Guardiola treinar a nossa, não pode? Qual a lógica desse patriotismo? Simplesmente não há. Esse patriotismo é apenas falta de humildade para reconhecer que não temos os melhores treinadores e jogadores do mundo faz tempo. Falta de humildade que não rendeu nenhum convite, por exemplo, ao ótimo e outro defensor do toque de bola, o chileno Jorge Sanpaioli, da La U, para treinar um clube brasileiro.

Mais um dia triste para o futebol brasileiro, que terá repercussões negativas por anos e anos.
Sim, Felipão, pode até trazer o hexa (difícil, não teremos mais as babas de 2002), mas não trará o futebol brasileiro de volta.

Mas “vamo que vamo!” que a nossa patriótica cerveja preferida, depois do “somos guerreiros!”, agora revela e grita que “vai ser tudo festa!, não importa que tá tudo atrasado e super faturado!, o importante é a festa!”. E vamo que vamo, Marin!, “Pra frente, Brasil!, Salve a Seleção!”.

quinta-feira, outubro 18, 2012

Não deixem o JT morrer



Se eu pudesse sintetizar toda a minha vida, entre ideais, paixões, sonhos e pequenas realizações em uma única foto, esta seria a imagem. Uma imagem, captada pelo fotógrafo Reginaldo Manente, ligada a um fato. Um fato que só poderia ter sido descrito dessa forma – e foi – pelo jornal mais ousado e belo que conheci, o Jornal da Tarde. Ou simplesmente JT para os íntimos. Somente o JT soube expressar toda a dor genuína, profunda, dos brasileiros naquele 5 de julho de 1982 quando a mais bela seleção brasileira de futebol da história perdeu da Itália em uma partida tão maravilhosa quanto cruel. Estava ali nesse menino chorando também as lágrimas e, mais do que isso, o desamparo do sonho desfeito, dos meninos que eu era e dos homens feitos que também choraram feito meninos. Sonho desfeito, sim, porque eram tempos em que os brasileiros amavam de verdade seus ídolos e craques da bola. Porque seus heróis de camisa amarela e muito talento no pé – Leandro, Junior, Falcão, Sócrates, Cerezzo, Zico, Éder e cia eram também grandes seres humanos, quase todos eles dotados de um bom caráter inspirador e pensamentos articulados, inteligentes. E esses heróis ainda eram guiados por um mestre, Telê Santana.

O caso é que o JT parece que vai deixar de existir segundo boatos que vazam cada vez com mais força de dentro do Grupo Estado, que dirige o jornal.

Como pode desaparecer um jornal que foi uma ideia e um compromisso, lá nos anos 60 quando nasceu, com um jornalismo tão inteligente quanto bem escrito e combativo? Como pode desaparecer um jornal que foi o companheiro de quem sonhava com um Brasil melhor mostrando o melhor de nosso país? Como pode morrer um jornal que, diferente de tantos outros que baseiam suas páginas no pior do brasileiro, mostrou sempre o valor de nossa gente (e isso sem deixar de atacar e descobrir muitas de nossas mazelas?) Como pode ir embora o jornal que, mesmo sem ser um circo de horrores, foi o primeiro a perceber as mentiras e falta de caráter de um certo Paulo Maluf, estampado naquela histórica sequência de capas com o nariz crescendo a cada dia por conta das mentiras que dizia sobre a Paulipetro, companhia petrolífera que torrou bilhões perfurando o solo paulista sem achar uma única gota de petróleo? Como pode morrer um bastião de cultura que nos ensinava tanto com aquele fantástico suplemento de cultura, o Sábado?

Sim, o JT mudou muito ao longo das décadas, em especial a partir do final do século XX, quando tentaram transformá-lo num jornal mais popular e quase que exclusivamente paulistano. O suplemento de cultura, por exemplo, foi assassinado. Mas o JT sempre teve uma essência tão boa, tão rara, que mesmo essa tentativa dos donos de torna-lo popular e rasteiro não vingou, porque seus jornalistas, mesmos os mais novos, eram e são amantes do bom texto, da história valiosa, das analogias ricas, do jornalismo que não é o mero jornalismo noticioso da maioria dos outros jornais. Não, Ivy Faria, Felipe Machado, Julio Maria, Gilberto Amendola, Alessandro Lucchetti, Luiz Antonio Prosperi, entre outros inúmeros nomes, que passaram recentemente por lá ou ainda estão no jornal, nunca deixaram a bola e a qualidade cair. E olha que nem falei dos gênios e grandes homens e mulheres que brilharam no JT mais antigo.

O desejo dos donos do Estadão de fechar o JT será uma enorme mostra de incompetência da direção do grupo. Em um país com tantos jovens, por que não ampliam o espírito sempre jovem, belo e combativo do JT? E não confundam juventude com superficialidade e inexperiência, pois os jornalistas do JT, mesmo quando jovens, sempre souberam destacar , por exemplo, nas famosas entrevistas das 2as feiras, as personalidades mais importantes do país. Nesta última segunda, por exemplo, estava lá uma certa Fernanda Montenegro...

O Grupo Estado deveria é recuperar a essência do JT, voltar a valorizar mais a cultura, mergulhar mais fundo na cidade (não só São Paulo), valorizar mais o bom texto, mais trabalhado como na grande reportagem e nos belos “abres” das entrevistas (lead é coisa de medíocres, os bons jornalistas do JT fizeram sempre é grandes aberturas!). “Ah, os computadores, tablets e aplicativos de celular fazem o pessoal ler menos no papel”? Ora, por que os chefões do Estadão não investiram então no site do JT? Por que sempre deixaram o site do jornal abandonado, feio, incompleto e quase nada interativo e multimídia? Por que sempre só deram atenção ao cada vez mais chato e conservador Estadão?

Porque eles sempre quiseram matar o JT. Porque os mandatários do Estadão de hoje parecem não ter coragem nem criatividade nem ideais para recuperar o JT do passado.

Esta será uma das perdas irreparáveis para muitos brasileiros.
De mim e muitos hoje quarentões e cinquentões, vocês vão tirar parte da infância, parte enorme dos sonhos de futebol, esporte, cidadania e cultura que o JT nos ensinou. Parte de nossa indignação com políticos corruptos como Maluf que seguem soltos.

O JT, tanto quanto um inesquecível professor de escola, o Chico Moura, me ensinou a escrever. Mais que isso, me ensinou a pensar e também a prezar as belas e profundas palavras. Ajudou demais na minha formação. Ajudou a me formar como sonhador, lutador, cidadão, professor, jornalista e escritor.

Estão matando não um jornal, mas um ideal e uma escola de vida e brasilidade.
Que os grandes jornalistas e, mais que isso, grandes espíritos, cabeças e corações que escreveram e escrevem no JT consigam deter esse processo. Ou recriem, em outro lugar, com outro nome mas com a mesma essência, um dos mais importantes jornais que esse país já teve.

Que outro jornal brasileiro conseguiu traduzir em uma única capa uma vida toda como a capa do menino chorando em 1982? O quê da vida foi revelada naquela capa? A capacidade de sonhar, se apaixonar, amar, vibrar, celebrar, sofrer e perder com a fantástica seleção de 82. Aquela era uma época rara em que nossos jogadores representavam o melhor dos brasileiros naquele jeito de jogar que era uma música tão alegre quanto bela e contagiante; e naquele jeito de ser, pensar e falar profundo de quando um Sócrates, Zico ou Telê abria a boca. E essa capa também foi profética, porque a dor do menino, a dor de todos nós que vivemos aquela partida, prenunciava a tristeza e falta de alegria que as seleções do futuro nos trariam.

Tomara que em algum canto desse Brasil que tem hoje tantas pessoas notáveis e inspiradoras como os nosso craques da bola e da vida de 82, algum grande grupo de jornalistas, cidadãos e empresários que não pensem somente em lucros imediatos tenham a coragem de reinventar o JT. “Ah, mas o JT só cair em circulação, cada vez mais vende menos”, devem dizer os frios empresários que comandam o Grupo Estado. Mas claro, vocês desprezaram o JT por décadas, a culpa é de vocês, que foram obrigando o jornal a minguar e se esvaziar. Por que, por exemplo, não deram ao JT o mesmo cuidado e tempo que deram a essa brilhante rádio Estadão ESPN ou a rádio Eldorado, ambas do mesmo grupo de vocês? Por que não viabilizaram e pensaram em parcerias para o JT? Por que não modernizaram de fato, em vez de apenas enxugar, o jornal?

Porque vocês não tiveram cuidado com o jornal que foi a minha vida, e de tantos outros paulistanos e brasileiros. E, sim, aqui admito que o jornal sempre teve uma essência paulistana, mas até aqui a incompetência e desleixo de vocês é grave: como é que pode a cidade mais rica do país perder o seu jornal-símbolo? E não me venham falar que ficará o Estadão, pois o jornalão para mim é muito mais um órgão voltado a Brasília que para São Paulo. E isso, vocês podem ter certeza: quem assina o JT não assinará o Estadão. Sei que muitos jornalistas navegam entre os dois jornais (na verdade, me parece que o Estadão roubava os melhores nomes do JT), mas será fácil continuar lendo esses: irei numa padaria e procurarei a única parte do Estadão que tem um pouco, na verdade, um pouquinho só do espírito do JT: o Caderno 2. Em especial, da edição de sábado. Mas só queria saber onde é que vocês vão enfiar o brilhante pessoal do caderno de esportes, este sim o pedaço que ainda mantém a alma do JT dos anos 60.

Façam alguma coisa, leitores e jornalistas do JT, não deixem o nosso jornal (mais que isso)  morrer.

segunda-feira, setembro 10, 2012

Juntos na longa estrada

    Brothers de surfe em geral não nos acompanham a vida toda. Às vezes o cara casa e some (nunca sabemos se ele larga o surfe pela pressão da mulher ou porque não teve mais força mesmo para prosseguir a árdua tarefa de madrugar num fim de semana depois de dormir tarde pela exigência, será?, da esposa). Em outras o cara muda de brothers, porque a amizade não é regada como se deve e ele conhece outros surfistas em sua rede de convivência. E tem também a nossa culpa de não tentar resgatar as velhas parcerias. Talvez porque os momentos de vida de cada um mudem muito, ou mesmo porque sabemos que aquelas antes deliciosas reflexões no outside de outrora já não tenham o mesmo sabor pra gente ou pro antigo brother. Bom, isso quando a gente ou o brother muda seu jeito de ser e viver.

Triste o brother que se foi, mas ficam as histórias, os perrengues, as sacaneadas de um só não atropelando o outro no último segundo (bom, às vezes o outro precisava mergulhar mesmo hehe), as risadas das vacas, e os incentivos - os Úh! Úh! gritados com uma emoção e verdade só possível nos brothers de muitos anos juntos.

Bacana demais, por outro lado, o brother que fica. Que permanece junto na viagem da onda mais longa chamada Vida. Não importa o momento e a rotina de cada um - se tá de namorada nova, se casou, descasou, se vai casar, se virou pai, se tá alegre ou deprê - o cara tá sempre junto. Pronto pra te zoar no pico e também incentivar e trocar aquela ideia profunda que só é possível na maior mesa de bar do planeta, o outside, lá onde sempre chamamos mais uma, onda.

Já são 15 anos surfando junto do irmão de surfe e vida, do raro cara que jamais desistiu de um bate-volta na hora, e que está sempre pronto pra outra. Esse textinho surge também pra tentar resgatar esse blogzinho que era meu espaço de reflexões e memórias pessoais. E surge com a força e brodagem em escala máxima porque o brother me salvou o bate –volta, domingo retrasado, e isso depois dele ter feito um bate-volta no dia anterior com outro surfista. Isso que é estar ali para o que der e vier. E surfar. Mas só podia esperar isso mesmo do brou que não vê problemas em nos acompanhar nos maiores trampos. Porque o cara sempre responde a mesma coisa quando inventamos a maior roubada aqui na Babilônia infernal: “Ae velho, preciso ir na PQP, fazer isso, aquilo e mais aquilo”. Ele sempre responde, “blza, vambora!” e ainda é o único cara que comete a insanidade de se oferecer para pegar os amigos no aeroporto de Guarulhos, tendo que enfrentar o caos chamado Marginal Tietê inteirinha.

Talvez seja o astral do cara, que topa qualquer coisa, e ainda ajuda a atrair as ondas, que quase sempre rolam de gala em nossas quedas. Tá aí a longa linha de ondas que vocês podem ver ao longe nesse videozinho logo abaixo, desta última session. Ondas pequenas mas perfeitas, bom, pelo menos pra gente. E mesmo quando o mar está insurfável, só a risada diabólica do cara lá dentro já faz valer a pena.

Valeu, brou! Ex-aluno (entramos no grande Zontes no mesmo ano!), eterno amigo, futuro padrinho (é, fica sabendo por aqui hehe), que o surfe siga vivo como essa brodagem, sempre.

PS – Os velhos brothers a gente não esquece, um dia a gente cai de novo juntos. Um dia quem sabe vocês assistem ao melhor filme de surfe de todos os tempos, Big Wednesday, e não terá como não armamos aquela trip revival.
PS 2 - Um grande salve aos brothers virtuais Maurio Borges e Gustavo Otto, caras que nunca vi na vida real, mas sempre me ensinaram um pouco sobre a longa estrada azul e sobre uma rara camaradagem que extrapola uma telinha de computador. E um salve ao brotherzinho que não pôde ir, mas também tá mesma estrada há mais de dez anos.

segunda-feira, junho 18, 2012

20 anos do sonho da América


Ainda hoje aquele pôster - amassado, rasgado e envelhecido pelo tempo - está pendurado no velho quarto de um garoto que virou quarentão mas não o esqueceu. Nele vemos um raro caso de guerreiro elegante. A camisa está manchada de terra, na verdade enobrecida da terra e do chão do qual ele não tinha medo. O chão no qual ele se atirava numa jogada típica, o carrinho que dava para recuperar a bola nas laterais do campo, lugares que ele sabia que resultariam em contra-ataques mortais. Este era o lado guerreiro, de quem dividia sem medo e enfrentava no peito os mais duros marcadores rivais, em qualquer pedaço do campo. Havia também a elegância, o porte altivo, corpo e mente ereta, de quem jogava o fino e com inteligência, com toques refinados, passes precisos e solidários, chutes tão violentos quanto precisos, e cabeçadas que eram tiros de canhão. Até hoje, 20 anos depois, Raí segue dependurado na parede da velha casa dos meus pais e não cai. Porque aquele São Paulo era derrubador, brigador, vencedor. Conquistador da primeira Libertadores tricolor. A até hoje talvez mais bela taça que conquistamos, por seu significado e dificuldade.
    Eram 105 mil são-paulinos no Morumbi lotado e duvido desse número, pois passei o jogo todo espremido em um dos últimos lances da arquibancada, o que fez muito jornalista falar em pelo menos 120 mil torcedores naquela noite. A mãe de todas as noites gloriosas do São Paulo de Raí, outros fantásticos jogadores e, claro, mestre Telê. Resgatando hoje a escalação, o esquadrão é monumental: O seguríssimo e heroico Zétti (e ainda um ser humano sensacional), o multihomem em campo, Cafu, o clássico e raçudo Antonio Carlos, a muralha Ronaldão e o vigoroso mas inconstante Ivan (não naquela final), típico caso de jogador que só brilhava e arrebentava sob o comando e orientação de mestre Telê. No meio-campo, o cão de guarda mas bom no primeiro ou segundo passe (diferente dos meros brucutus de hoje) e uma das almas do time, o sempre enlouquecidamente mais que raçudo, Pintado. Ao seu lado na proteção da zaga e início dos contra-ataques infernais tricolores, o clássico e nobre zagueiro central, deslocado por Telê, Adílson, quase um líbero, pois Telê era, sim, bom em tática também, como não acreditavam seus críticos. Um pouco mais à frente, capitão, líder e matador Raí comandando as ações ofensivas com o homem de papel, fluído, quase etéreo, mas ilusionista, rapidíssimo e inteligente nos toques rápidos, além de goleador, Palhinha. Já no ataque, mas volta e meia recuando um pouco para armarem tabelinhas sensacionais, o genial Müller, tão flecha quanto arco de boa parte dos gols tricolores. Junto dele, do outro lado, o veloz e não tão inteligente Elivélton, mas hábil e de chute forte. E se Müller, coisa rara, não estava bem, houve o amalucado mas habilidoso e supersônico Macedo no banco para entrar e sofrer o pênalti que nos daria a vitória necessária para levarmos o jogo aos pênaltis.
Pênalti que Raí encarou com a frieza de valente dos valentes, caixa, 1 a 0 igual ao placar da derrota na Argentina contra esse lutador Newell´s Old Boys comandando por um certo Marcelo Bielsa...
Veio então a decisão por pênaltis e aí brilhou não só o heroísmo e técnica de Zétti mas um dos diferenciais daquele São Paulo de outros tempos: o trabalho bem feito nos bastidores e preparação da equipe. Zétti sabia para onde pular porque seu treinador, e observador de todos os adversários do time naquela Libertadores, já tinha mapeado a cobrança dos jogadores do Newell´s. Falo de Valdir de  Moraes, ele mesmo, aquele que depois ainda formaria um certo Marcos no rival alviverde. E ainda havia na comissão técnica tricolor Moraci Santana e Turíbio de Barros, comandantes de toda a preparação física e fisiológica dos jogadores naquela Libertadores.
Falta ainda o Mestre Telê Santana. E o que eu posso dizer de um treinador que montou um time sensacional desse, como mostra a escalação? O que dizer de um treinador que baseou seu time em pegada, sim (Ronaldão e Pintado na chefia do jogo duro mas na bola), mas também nas maravilhosas tabelinhas entre Raí, Palhinha, Müller e Elivélton? O que dizer de um treinador que morava no CT do São Paulo e investigava todos os dias os gramados para quem nenhum buraco machucasse seus atletas ou prejudicasse o toque de bola conduzido por Raí e cia? O que dizer de um mestre sem frescuras e vaidades, que só se importava em treinar e treinar, bem diferente dos treinadores pop stars que infestariam o futebol brasileiro e mundial em pouco tempo? O que dizer de um perfeccionista e raro treinador formador de jogadores completos, que exigia a repetição dos fundamentos básicos do passe, cruzamento, tabela e chutes? O que dizer de um mestre amado para sempre, até hoje cantado com saudade no seu templo e imensa sala de aula do Morumbi?
Bonita ontem (antes da pelada de mau gosto contra o Atlético...), a homenagem aos homens e heróis que começaram duas décadas atrás o sonho de nos tornarmos o melhor time do mundo. Só não concordei com os jogadores de hoje estamparem em suas camisas os nomes dos nossos heróis.  
Nunca vi, por exemplo, o Maestro Raí maltratar a bola, não dar o sangue ou reclamar de uma marcação do árbitro... Nunca vi o maior jogador de nossa história nos deixar na mão.
Raí só nos deixava nas nuvens. No topo do mundo.

* Textinho do Maestro sobre a Libertadores de 1992 aqui

sexta-feira, maio 25, 2012

A busca de verdade não aparece no Google (ou as lições de vida do cineasta Walter Salles)


Uma lição sobre onde está a vida que perdermos ao não sair de casa, dos mesmos lugares de sempre, do micro, do celular e outros hábitos alienantes. É isso o que oferece a bela entrevista com o cineasta Walter Salles - sobre o filme On the road (Na Estrada) - na revista Época. Como não está disponível no site da revista, reproduzo alguns trechos e uma mentira. O título da entrevista é uma frase que Salles não disse: “Os jovens não são mais conformistas”. A seguir, a pergunta e resposta sobre isso:

ÉPOCA - Os jovens hoje são mais conformistas ou estamos entrando numa outra onda de contestação?
W. SALLES - Experimentar tudo na primeira pessoa colide com a ideia de experimentar por procuração, em frente à tela de um computador ou em frente à televisão, assistindo a um programa de teleirrealidade. O livro (On the road, saga de liberdade e experimentações dos poetas e escritores beat nos anos 50) é um pouco uma vacina contra esse imobilismo. Movimentos recentes, como a Primavera Árabe, os indignados na Espanha e as manifestações como Ocupem Wall Street revelam um desejo de transformação da sociedade. Hoje o clima é bem diferente dos anos 1980 e 1990...

Ou Seja, o que Salles disse é o que os jovens estão menos conformistas que as gerações dos anos 80 e 90, mas ainda há muita apatia e alienação, como ele revelou ao falar dos jovens que ficam em frente das telinhas, sem experimentar e vivenciar a vida real. Sobre isso, Salles revela em uma de suas repostas que “experimentar é a única forma de desenvolver uma experiência crítica. E afinar sua visão de mundo”. Esta frase é uma paulada na juventude que não sai de casa, do quarto, do carrinho do pai e mãe e do shopping, e ainda passa horas mergulhada em seus aparatos tecnológicos sem olhar ao redor e perceber as pessoas e o mundo.
A vida sentida na pele é a essência do livro e filme On the road, e Salles caiu na estrada também com sua equipe e atores para fazer o filme (antes ele ainda fez um documentário sobre o mesmo tema) e ele revela como essa experiência foi decisiva em sua carreira de cineasta:

ÉPOCA – O senhor fez Central do Brasil, Diários de Motocicleta, sobre Che Guevara, e agora Na estrada, sobre Jack Kerouac e a cultura beatnik. Todos road-movies. O senhor se considera mais um cineasta ou um viajante?
W. SALLES – (...) Toda vez que você se distancia do ponto de origem, você ganha maior perspectiva sobre quem é, de onde veio e eventualmente quem você quer vir a ser...

Ou seja, galera, quem ficar preso aos mesmos lugares, hábitos e imobilidades; quem não viaja e não sai de sua cidade, nunca vai ganhar uma dimensão e entendimento maior de seu país, mundo e da própria vida. Portanto, pé na estrada, ou na rua. Um bom começo para um paulistano é pegar o metrô, dar uma caminhada pelo entorno das estações e as exposições riquíssimas que rolam em várias estações. Sai da net, sai de casa, a vida não é um programa de busca de notícias. 

A busca real é outra coisa, bem mais gostosa, rica e verdadeiramente viajante.

sexta-feira, abril 27, 2012

O mais apaixonado dos mestres


Com ele, artistas viraram magos. Craques viraram super craques; e guerreiros, deuses.
Com ele, o futebol recuperou a poesia em prosa do jogo de toques com classe e passes perfeitos e incisivos.
Com ele todas as grandes equipes do passado voltaram a ser emuladas. Porque ele nos lembrou que um dia o futebol também foi belo em outras cidades e países.
Com ele, algumas palavras essenciais às equipes inesquecíveis foram resgatadas: fidelidade a um estilo e coragem de atacar sempre.
Com ele veio a revolução do jogo de toque vir acompanhado de  uma colossal entrega física para recuperar a bola e seguir atacando.
Com ele os gols voltaram a ser maravilhosas jogadas coletivas, e os gols de placa individuais ficaram ainda mais belos, por ele ter feito seus artistas treinarem tanto.
Com ele o futebol arte renasceu e evoluiu ainda mais, fazendo de cada jogo do seu time um espetáculo tão belo quanto o mais belo espetáculo artístico e cultural.
Com ele o futebol virou uma música e outras artes tão belas quanto rápidas e envolventes, como se fosse possível um time ser múltiplo – música, dança moderna, ballet, ópera, cinema etc – e também mover-se em ritmo alucinado do bom e velho mas veloz fliperama dos anos 70/80.
Com ele seus jogadores admiráveis mostraram-se também homens valorosos, raríssimas estrelas humildes e homens de bem que não aparecem na mídia traindo esposas, fazendo farras homéricas, empunhando metralhadoras, brigando ou fazendo todo tipo de coisa vulgar.
Com ele meninos viraram homens e campeões juntos. Com ele, as divisões de bases, as canteras, viraram celeiro.
Com ele o mundo do futebol, sempre ávido em gastar fortunas em contratações, redescobriu as categorias de base e a necessidade de se valorizar os meninos.
Com ele, um dos últimos treinadores românticos, o futebol voltou a ser um romance de craques com a bola e o gol.
Com ele nós voltamos a perceber como o futebol e o esporte podem ser bonitos.
Com ele, aprendemos que devemos ouvir os mestres antigos para nos enriquecermos e aprendermos, porque antes de brilhar no Barça ele procurou para conversas sem fim os treinadores que ele mais admirava.
Porque ele não é um treinador boleiro, desses que viveram a vida nos gramados e não aprenderam nada fora dos campos.
Porque ele trouxe ao futebol um pouco de sua vasta cultura, do seu amor pelo cinema e poesia por exemplo.
Porque ele só queria fazer uma coisa: implantar no time de seu coração a utopia de um time jogando exclusivamente por amor ao futebol arte.
A dor em Barcelona hoje é grande demais, mas em breve, algum lugar abençoado deste mundo receberá o mestre e será mais feliz que nunca. E podem ter certeza que ele vai escolher um lugar e uma camisa sinônimos de magia, mesmo que uma magia meio esquecida no passado. Quem sabe por aqui...