segunda-feira, junho 20, 2011

Marcos e Rogério - O Santo e o Milagreiro Profissional


Não existe ídolo mais humano que Marcos. Mais humano porque decente, digno, nobre, raro. Para os que amam o futebol, mas amam ainda mais o ser humano, o que ele fez ontem foi mais uma atitude que só ele parece capaz de ter no futebol brasileiro de hoje. Seu time goleava e quando surge um pênalti, o estádio inteiro, como uma homenagem ao seu ídolo máximo, pede que ele faça a cobrança para. Quase toda a nação palmeirense quer que ele faça o gol. Os torcedores querem explodir de alegria com o gol de seu Santo goleiro. Querem lhe dar um presente, sentimento também compartilhado com os próprios jogadores do Palmeiras, que vão chamar Marcos para dar o chute da glória.
Numa sociedade e mundo cada vez mais midiático e sedento de fama, o lógico seria o ídolo, anestesiado pelo clamor da massa, ir lá e chutar.
Só que a única lógica que Marcos segue é a do seu caráter e coração, dois elementos poderosos que parecem ser a mesma coisa em sua imensa dignidade. Por isso ele pensou que ir lá fazer o gol seria uma ofensa ao novo e jovem goleiro do Avaí. Tomar gol de goleiro seria duro demais para um companheiro de profissão e um time modesto que já apanhava feio.
Assim é Marcos, sinônimo de respeito e de uma das raras estrelas capaz de ter compaixão no mundo das super estrelas do esporte. Perdão, eu erro. O Marcos de tantos títulos colossais com seu Palmeiras e com a Seleção Brasileira é estrela só no currículo. Pois na verdade é um dos sujeitos mais simples que já passou pelos gramados e história desse planeta.
Simples, justo e sempre decente também é o técnico Felipão, que ficou transtornado quando seus jogadores pediram para Marcos bater o pênalti. O treinador também foi totalmente contra uma homenagem que sua sabedoria e experiência sabiam que eram uma humilhação.

O outro personagem desta bela rodada foi um amigo de Marcos, Rogério Ceni. O Rogério goleador do qual Marcos nunca teve inveja por fazer gols e ele não. Mas o mito sãopaulino é notícia de novo não por balançar as redes mas sim pela espetacular atuação de ontem. 38 anos e ele segue pegando pênaltis, fazendo grandes defesas e pelo menos um milagre: o voo inacreditável e a espalmada, braços esticados, no chute de Diguinho que ia, violentamente, para o ângulo.
Mais que as defesas, porém, Rogério brilha também pela incrível força de vontade: mesmo tendo machucado o tornozelo há algumas rodadas, ele segue atuando sem ter se recuperado totalmente. Tem jogado com uma botinha no tornozelo, por isso tem evitado bater faltas. Sim, Rogério tem sede de recordes, está buscando a marca de maior número de partidas consecutivas com a camisa tricolor (107). Já tem 102. Mas a obsessão por recordes não diminui sua raça e raríssimo amor à camisa que o faz jogar com dor, com muita dor. E ele ainda sente-se na obrigação de dar o exemplo e liderar esse São Paulo cheio de garotos.
Com um mito tão guerreiro e exemplar, os garotos têm dado o sangue por seu ídolo e capitão. Essa é uma da razões desse São Paulo líder do Brasileiro e suas 5 vitórias seguidas.
Porque Rogério é um Profissional inacreditável, que se mata em campo pelas cores do time de sua vida (assim como faz Marcos no Palmeiras, ainda jogando depois de tantas contusões, e enfrentando suas inúmeras dores todo jogo).
Por isso é tão amado pelos sãopaulinos.
Por isso que este sãopaulino que aqui escreve não aceita mais uma desculpa de um jogador que alegou dores abdominais para não encarar a longa viagem até o Ceará e depois encarar o calor e pressão infernal em Fortaleza. Gozado, né, por que será que Dagoberto se machuca ou toma o terceiro cartão amarelo sempre antes de jogos disputados nos lugares mais longínquos?
Dores abdominais??? Precaução contra uma distensão? Mas alguém aí conhece alguém que já teve uma distensão no músculo mais forte de todo o nosso corpo, o abdome???
O futebol precisa de mais Marcos e Rogérios.

segunda-feira, junho 13, 2011

A adorável menina que se importava



Acontece quando toca uma canção e a beleza e emoção é tão grande que escutamos no mesmo instante o grande álbum de nossas vidas. Mais que isso, a trilha sonora do filme da nossa história. Ou uma novela sem fim em que guardamos algumas das cenas e capítulos mais importantes de nossas vidas. Eu passava pela sala quando então a TV tocou essa canção, em homenagem à uma mulher que tanto se importou com as pessoas que mais precisavam, Oprah Winfrey. Vi pouco seus programas mas sempre pensei nela como uma grande dama que em vez de exibir banalidades, celebrava a humanidade em seus programa e atos, como no colossal movimento tocado por ela para ajudar as vítimas do Katrina.
Isn´t she lovely? Ela não é adorável?, cantou Jamie Foxx pra ela, e logo surpreendeu Oprah ainda mais quando de um truque do palco elevou-se um piano e uma lenda, Stevie Wonder, continuando a cantar essa canção maravilhosa mas modificando a letra em homenagem à Oprah.
Volto então ao início desse texto, sobre as canções que nos fazem recordar, e o nome veio instantâneo, o seu. E, não, a associação da canção com você não veio porque era uma das canções que você mais amava. Isso veio depois. O que aconteceu é que quando escutei o verso “é incrível o quanto você fez”, fui transportado para algumas cenas em que, no meio de tanta gente, foi apenas você quem se aproximou e ofereceu palavras bonitas de afeto, e um olhar vital doce, para quem tanto precisava.
Obrigado por ter sido a protagonista de pequenas cenas inesquecíveis de meu filme.
E espero que um dia alguém cante essa canção para você. Cada verso será merecido, adorável poeta de afetos, palavras (escritas com tanto capricho e sentimento naquelas folhas de papel), olhares e, ainda bem, atitudes.
A atitude de quem sabe que a vida é urgente, e um presente que não devemos guardar, apenas oferecer, e aquecer.
PS - Que falta que você faz!E vá para o 2min16s do vídeo, é lá que rola a sua canção.

domingo, maio 29, 2011

Barça – Homens que oferecem presentes

  Como um filme arrebatador que não nos deixa ir embora nem depois do seu final, um dos grandes símbolos e segredos deste Barça campeão europeu pela quarta vez ocorreu só enquanto rolavam os “créditos finais”. Quando Guardiola coloca Puyol, nos últimos minutos do jogo, ele quer é homenagear seu grande capitão e a maior força anímica e física de todo seu elenco; o Puyol que tantas vezes se sacrificou pelo time que defendeu sempre com uma garra e comando extraordinários. Guardiola faz isso para que seu Capitão tenha o prazer e orgulho de erguer a Taça. É então que percebemos o real tamanho moral e humano do Capitão. Em vez da glória eterna de erguer a Taça antes que todos, o que sempre cabe aos capitães, Carles Puyol prefere ceder a honra e a emoção incomparável àquele que enfrentou uma doença tão terrível, o câncer, e venceu. Coração gigantesco, Puyol tira a braçadeira de seu braço e entrega-a para Abidal, pois quer que o francês, o herói que sobreviveu e voltou a lutar por seu Barcelona, tenha o privilégio de fazer o gesto eterno. Aqui percebemos um pouquinho do que move Puyol e a maioria dos jogadores do Barça, algo tão raro no seleto universo das super-estrelas do esporte. Algo que não consigo nem definir direito, mas que poderia passar não só por coração mas também como caráter, altruísmo, amizade, amor.
O amor que é parte integrante, indissociável, do jogo deste Barcelona que é mesmo muito mais que um clube e um time de futebol.
O amor começa em La Masía, a escolinha-academia de futebol do Barça.
O amor pelo alicerce maior do futebol de verdade: o passe.
Amor, sim, porque Xavi, Iniesta, Messi, Piqué e cia não passam, simplesmente, a bola. Eles a oferecem aos companheiros. O passe como um presente. O passe como uma conversa. Um ato de genuíno companheirismo.
Em tempos de tantas “conversas” e presentes virtuais chamados links, vital esse Barça que nos mostra o que é conversar de verdade, bola de pé em pé com afeto e beleza como um diálogo verdadeiro, real, deve ser.
Esse bate papo com uma menina redonda aos pés é tão natural porque é muito treinado em La Masia. Treinado é pouco, os passes desses jogadores que se querem bem - tanto dentro como fora do campo – são é amados.
Amados por jogadores com alma de garotos que crescem juntos conversando à beira da calçada e da vida.
Amados por jogadores que amam passar a bola e a honra para seus companheiros, em campo e no pódio.
Amados por jogadores tão humanos como o pai que se veste de Papai Noel para entregar o presente dos sonhos de seu filho.
Sim, o presente com caixa, papel e fita que é cada troca de passes deste Barcelona que faz muito mais do que jogar futebol.
Deste Barcelona que deveria ser matéria de estudo, discussão e estudo não só nas escolinhas de futebol como nas escolas normais.
Como seria bom se nossos professores ensinassem as crianças a sonhar como faz o Barcelona tetracampeão da Europa.
    Do Mestre, com carinho

segunda-feira, maio 16, 2011

Fé de asfalto


(O videozinho eu afanei da internet só pra mostrar o pico de que falo; não tenho ideia de quem são, os caras vão mais reto, sem manobras, mas a velocidade e o espírito estão lá.)
É fácil aliviar a mente, sentir a liberdade do vento, o vento mais valioso, aquele que produzimos com nosso próprio movimento. É fácil esquecermos da opressão da cidade cada vez mais agressiva, sobretudo nos motoristas em escalada de velocidade e estupidez brutais. É fácil, por incrível que pareça, encontramos silêncio e paz em plena São Paulo. Não deu pra ir à praia? Tá cansado da mesmice do seu clube ou crowd de nossos poucos parques? Tudo o que você precisa é de um skate longboard e uma boa descida sem muito tráfego.
Sabadão cedo caí lá de novo, numa avenida recapeada há poucos anos, tapetão maravilhoso, suave como nossas ondas do mar amadas. Tá, o tráfego existe, mesmo cedo é preciso ter sorte pra descer sem um carro querendo te ultrapassar e atrapalhando as longas e relaxantes curvas, relaxantemente rápidas mas à velocidades não tão perigosas como as ladeiras mais cabreiras.
Inacreditável, porém, o egoísmo dos motoristas em suas máquinas: não podem esperar alguns segundos um skatista; não conseguem ser gentis; não querem.
Tudo bem, eles passam, nos atrapalham, mas o coração do skatista é guerreiro, sempre há uma outra descida, ou é preciso mostramos quem manda: quem vem primeiro. Por isso começo a fazer as curvas sem me importar com a pressa do animal em pleno sábado. Só estendo um braço pra trás, “espera”. Eles que engulam seu individualismo desumano. Eles que matriculem-se num curso de pilotagem ou que descarreguem suas frustrações ou nariz em pé (“sai da minha frente, vagabundo, folgado”, devem pensar em sua grandeza só de imbecilidade...) em Interlagos.
Mas tudo bem, o barato do downhill tosco, o meu, sem muita radicalidade, é que um drop, a velocidade, o vento e algumas manobras gostosas nos fazem esquecer de tudo, até das bestas “racionais”.
E há outra parte tão valiosa e gostosa quanto o voo asfalto abaixo: a subida até a plataforma de lançamento. Sim, muitos perdem essa parte, preferem pegar carona com um carro subindo. Eu, como odeio coisas não-naturais como um motor e sua fumaça quando faço esporte, prefiro subir com meus pés.
Melhor ainda, subo pela tranquila e bela, toda arborizada, avenida paralela. Tranquila porque é fechada na parte de baixo para eles, os carros. E há mais beleza ainda na radical e acentuada inclinação desta via, verdadeira montanha. A subida é então uma escalada. Dura, exige pernas, fôlego, mas a ascensão, no meio do silencio e verde, é quase espiritual. Sinto-me caminhando numa grande catedral que é toda montanha. Catedral de nossa paz interior. Uma paz que renova e nos torna melhores ao nos abrir os olhos e coração para algo tão simples e rico quanto escalar e depois descer.
Quantos têm ou agarram essa oportunidade? Descer brincando e tecendo telas imaginárias no asfalto; e depois desacelerar com a subida que é quase uma reza e um profundo disparador de reflexões?
Algo simplório demais? Exatamente. A simplicidade esconde os mais belos e profundos atos como o skate downhill. E encontram-se até brothers de session, como o Dudu, parceiro desta sábadão, outro paulistano que parou por ali para descarregar toda a tensão da semana que passou. E em dois, um descendo em seguida do outro num breve intervalo, é mais fácil fazermos os carros nos esperar pois, por mais que a imbecilidade reine por trás de um volante, eles pensam melhor: atropelar dois caras de uma só vez é algo que faz até os idiotas pensarem um pouco.
Aquele abraço e desculpas por não atualizar o blog há tanto tempo, os trabalhos não permitiram, mas vou tentar encontrar um pouquinho.
Saudações especiais ao motorista de ônibus que desceu devagarinho atrás da gente, a maior demonstração de respeito e civilidade desta session.

quinta-feira, abril 28, 2011

O coração da verdadeira América

Existem pessoas que basta vermos a primeira vez que já suspeitamos que estamos diante de alguém raro, destinado a fazer algo especial. Algumas conversas e a suspeita estava confirmada: Marta Elena Sanchez, uma argentina de coração e consciência, e praticamente também uma brasileira - na simpatia pura e calor humano – é uma daquelas pessoas que a maioria das pessoas costuma “conhecer” apenas na pele de um personagem do cinema.
Marta é quase um sinônimo de juventude, não muito a de hoje, mas a daquela que realmente sonhava e lutava por um mundo melhor. Ela é uma canção de protesto, sentimos o vento soprar mais forte que nunca quando ela fala; na verdade, brada, por dentro grita com um coração e humanidade do tamanho da verdadeira América, a Latina.
Marta condena os poderosos egoístas, os que querem perpetuar-se no poder mantendo seus privilégios e mantendo o povo enfraquecido na pobreza. 
Marta está sempre, e tão claramente, do lado da procura da verdade. Por isso ela busca esta verdade na fonte: lá fora, nas ruas e nas mesas dos pequenos bares e cafeterias; e lá dentro, nas conversas amigas em sua cozinha ou na poderosa consciência política que herdou de seus pais.
Por isso que a palavra mais importante para ela é humildade. A humildade de querer conhecer as pessoas, os povos e suas culturas e história.
A humildade, essencial mas tão esquecida hoje, de aprender com os outros, com o diferente.
Sim, Marta é mesmo uma canção, Bob Dylan deve ter imaginado uma moça como ela, buscando um mundo melhor, ao compor Blowin´the Wind.
How many roads must a man walk down,
Before you call him a man?
Quantas estradas um homem deve percorrer
Antes que possam chamá-lo de um homem?
Herdeira do espírito do jovem Che e/ou da juventude que sonhava (não apenas) dos anos 60, por isso ela resolveu mergulhar numa das palavras vitais desta canção: estrada.
Sim, tantos anos depois, Marta atravessará a América para conhecer, de verdade, o que é um latinoamericano.
Muda apenas o veículo, e aqui sacamos ainda mais a dimensão da jornada desta moça com sonhos de menina e coragem e ideais de guerreira: ela cruzará a América não com uma moto – como a lendária La Poderosa de Ernesto e Alberto.
Ela atravessará os pampas, cordilheira e planaltos; cidades, montanhas e praias de bicicleta...
Marta seguirá o vento mais poderoso, o sopro desse imenso coração do tamanho da sua Buenos Aires, Argentina e América Latina.
Marta seguirá suas palavras, que zumbem no ar feito uma pancada nas mentes anestesiadas. Lembro uma frase marcante dela, dita numa noite de verão na amizade acolhedora da cozinha de sua casa-pousada:
“Eu pergunto às pessoas se elas leem jornal, se conhecem o que estão falando ou se apenas repetem o que viram na TV”.
A frase, o questionamento dela, é ainda mais necessário se pensarmos nos que se informam ainda menos, dando apenas leves olhadelas nas páginas iniciais dos portais da internet.
Marta lê jornal, todos os dias, sobretudo o Página 12, o grande jornal humano, honesto e ético de seus país, mas lê também o Clarín, porque sabe que precisa ler o outro lado, o dos poderosos e muitas vezes, mentirosos.
Mas Marta lê-decifra mais ainda as pessoas e o mundo. Talvez por isso ela tenha decidido botar o pé na estrada e fazer a viagem da vida.
Talvez por isso ela tenha desejado transformar seu coração e consciência em memória viva.
A memória viva de quem vai poder contar para a gente o que ela viu nas esquinas e entranhas da América.
Boa sorte, guerreira, um brinde a sua garra e à sua viagem quase inacreditável nestes tempos em que muitos acham que viajar é navegar pela internet.
Saludos desde Brasil, que venham então os Diários de Bicicleta!
Aguardaremos ansiosos pelos relatos de seu olhar e coração profundos.
Boa estrada da vida, moça, pra você, seu companheiro também valente, o Julián, e o fiel e inseparável cachorro que salvou das ruas!
Que essa canção te acompanhe nessa maravilhosa aventura dentro dos corações da América, e mando ela na voz de dentro da terra do maior cantor desse planeta, o grande Bruce:

domingo, abril 24, 2011

SESI - Caráter e coração de campeões

    Jogadores do SESI reverenciam o mestre-treinador Giovane, ex-mito das quadras

Um jogo, mesmo uma decisão, não acaba com o apito do juiz, o fim do tempo ou o último ponto da consagração. Algumas vezes, a razão da vitória, e também a paixão e beleza, encontramos nas entrevistas depois da conquista. O SESI foi campeão brasileiro de vôlei hoje pela primeira vez com uma fantástica atuação de Wallace, que mais parece uma daquelas vigorosas e ultrapotentes máquinas de jogar vôlei cubanas; do bloqueador e meio de rede Vini e outros heróis, como o sempre regular Murilo, o melhor jogador do planeta no último Mundial. Mas o inédito e belo título deste time de vôlei criado em São Paulo em 2009, foi melhor explicado quando as câmeras e o repórter buscaram o depoimento do treinador campeão, Giovane.
Giovane, ele mesmo, o primeiro jogador brasileiro a ser apontado como o melhor do mundo, lá no início dos anos 90, quando foi um dos destaques da seleção que conquistou a primeira medalha de ouro olímpica de nossa história, em Barcelona´92. O Giovane que se transformou num pop star assediadíssimo naqueles tempos e depois brilhou ainda mais 12 anos na seleção até ser ouro de novo, agora como humilde reserva, em Atenas´2004. Pois foi este supercampeão como atleta que agora teve o microfone à sua disposição para cantar sua glória precoce como treinador. Foi então que Giovane fez o que nunca vi em uma grande conquista do esporte. Logo que o repórter Nalbert (ele mesmo, outro ex-formidável atleta de gloriosa história na seleção) pediu sua palavra, Giovane olhou para o lado, como que procurando alguém, e disse “espera”.
Pouco depois entendi: Giovane chamou o treinador da outra equipe, do derrotado Sada/Cruzeiro, para estar na entrevista informal, ainda na quadra, junto dele. Ou seja, no momento em que poderia aproveitar sozinho o seu título, a sua façanha como treinador, Giovane teve a grandiosidade e generosidade de valorizar nesse momento o trabalho do treinador derrotado, mas cujo time fez também um excelente campeonato. Humildade é pouco, nem consigo encontrar palavra mais adequada para a belíssima e inesquecível atitude do nosso eterno Gighio, apelido com que Luciano do Valle cantava suas proezas nos tempos de jogador. O gesto é ainda mais valioso ao compararmos com a marra, ego descomunal e soberba dos super badalados e bajulados técnicos de futebol do Brasil e Mundo.
E o exemplo de caráter, hombridade e amor ao esporte do vôlei do SESI não parou aí. Após Giovane deixar a tela com seus olhos marejados e palavras e gesto exemplares, vemos outro eterno, o líbero Serginho. O guerreiro que saiu das quebradas de Pirituba, que perdeu vários amigos para o crime ou trabalhos inglórios, e um dia se transformou no melhor líbero do mundo, Serginho continua o mesmo mano decente e batalhador. Ele já chegou chorando na entrevista, por ter superado um grave problema nas costas, “coloquei quatro pinos, não conseguia nem amarrar o cadarço do meu tênis, e aí consegui superar isso, aos 35 anos...”. E logo ele ficaria ainda mais emocionado quando Nalbert chamou Murilo pra falar junto dele e perguntou:
- Como é jogar junto do Murilo, o melhor jogador do mundo, Serginho?
- Antes de ser jogador, ele é meu amigo, meu companheiro, Serginho falou como o grande ser humano que sempre foi e desatou a chorar de novo, amparado feito criança pelos abraços do parceiro Murilo, que ainda o animou com uma palavrinha mágica, “Seleção” e disse, - Você não vai me deixar na mão, vai voltar pra Seleção.
Depois dessa não havia mais porque ficar assistindo, a lição estava dada. Fui embora da lanchonete do clube (vi isso na TV de lá) com o sorrisão na alma de quem sabe o quanto o esporte pode criar um mundo mais bonito, em especial o vôlei.
O vôlei onde os caras comemoram pontos importantes comemorando-gritando com os companheiros, sem dancinhas ridículas, não naturais ou tiradoras de sarro.
O vôlei dos que são ídolos de verdade. Caras que têm ouro olímpico e o Mundo na bagagem falarem essas coisas e fazerem essas coisas, caraca, moçada, quanto caráter, quanta decência!
    Serginho e Murilo, irmãos campeões da quadra e da vida

sábado, abril 23, 2011

Bróder - Irmãos da Vida

(Indicado para quem não esquece dos amigos e amigas de infância que um dia foram inseparáveis)
Por mais que a vida seja um fio frágil suspenso num trapézio altíssimo – é muito fácil arrebentá-lo; acertar ou errar, cair, dar o passo errado – há algo imutável e inquebrantável na alma dos homens de verdade: os fios artesanalmente tecidos, com as linhas mais belas e fortes chamadas amizades do coração.
Amizades que vêm da infância, época da vida em que se sonha e se chora junto porque há sempre um ombro, uma palavra, um olhar ou gesto amigo nos amparando. Bróder é exatamente isto: uma celebração das amizades mais fiéis, dos manos que bateram bola juntos num campinho de terra esburacado quase sem terra.
Manos que curtiram as festas, os botecos e piraram nas mesmas minas – por que amigos do peito quase sempre se encantam pelas mesmas meninas?
Manos que um dia tiveram que tomar rumos diferentes e por isso se afastaram, mas jamais se esqueceram.
Broder é a história desse reencontro. Pibe saiu da favela do mas segue lutando para sobreviver com poucos recursos num pequeno apartamento em cima do Minhocão, esposa e filho pequeno e muitas incertezas. Jaiminho se deu bem, o sonho da bola deu certo e ele fez fortuna e fama na Europa. Macu (visceral interpretação de Caio Blat, o cara parece mesmo um mano da periferia em qualquer característica; no físico, gestual, linguajar, até na mente que oscila entre o sorriso e a raiva, entre a esperança e o medo) ficou. Continua junto da rara camaradagem e vizinhança que se conhece e se cumprimenta nas vielas do imenso Capão Redondo, zona sul de São Paulo. Mas continua também perto demais do outro lado: o crime que espreita sem parar quem precisa de dinheiro ou oportunidades “fáceis”.
O reencontro vai se dar no aniversário de Macu. Feijoada, pagode, samba, bolo caseiro; comidas que nenhum restaurante fino poderá igualar, mesmo se o arrogante empresário de Jaiminho acha que é muito melhor ele ir comer no Le Jardin, algum típico templo caríssimo da zona mais nobre – e esnobe, de São Paulo. O samba e o pagode? Mesmo quem não gosta vai finalmente entender a preferência da boleirada e galera da periferia pelo estilo alegre, um sopro bom, divertido e sensual – há sempre uma mulher sexy dançando - num ambiente cada vez mais duro.
Mas há o lado errado farejando como um franco atirador covarde escondido num telhado. Há a dívida de Macu. Há o sucesso de Jaiminho a incomodar a bandidagem, não importa se o craque cresceu ali, sonhou e sofreu no Capão antes da vida lhe dar uma chance.
Há as roupas, o relógio e o super carro do craque. Há o rap, que entra na trilha sonora do filme quando os três amigos fogem um pouco do Capão e escutam “Fim de semana no parque”. Há a catarse dos amigos que se reconhecem cantando juntos de novo uma das canções da adolescência. Mas lembremos, é rap, é Mano Brown quem canta. A canção só pode ser sobre uma dura divisão: a realidade da quebrada contra a vida mais fácil e o luxo e consumismo do lado de fora (e de dentro dos muros).
Onde há rap, quase sempre há a história de um conflito. Bróder poderia descambar para o típico banho de sangue fácil dos “favela movies” como Cidade de Deus, mas lembremos: este é um filme sobre três amigos, sobre o sentimento que nenhum criminoso conseguirá comprar: a amizade indestrutível de três meninos-jovens-homens quem um dia cresceram e sonharam juntos no Capão.
Sim, o perigo do crime ronda feito caçador de recompensas impiedoso. O sucesso de um e o fracasso dos outros incomoda demais, mas Macu, Pibe e Jaiminho, mesmo agora em vidas tão diferentes, um dia foram amigos do peito na infância. E isso o coração não esquece.
O coração, aquele que nem a distância ou a morte apaga.
O coração amigo, este o grande alicerce deste filme que nos faz acreditar que os sentimentos mais nobres ainda conseguem enfrentar o tanto mal e indiferença que se proliferam mundo afora; ou no cotidiano que nos afasta dos antigos parceiros.
Bróder é um daqueles raros filmes que têm seus momentos duros e impiedosos, mas também nos faz acreditar.
Bróder não. Mano. Esta a palavra mais exata, porque ser mano é ser paulistano, é ser brasileiro, é portar uma palavra e um sentimento mais fiel ao que ser irmão de coração de alguém quer dizer.

Aê, manos, vejam esse filme. É nóis. Tum Tum Tum, estou batendo, de mão aberta, no meu coração.

quinta-feira, abril 14, 2011

Paciência

Conectar é a palavra-chave. Deveria ser a palavra-sentimento mais importante desse mundo. Outro dia fui buscar minha jaqueta preferida na lavanderia com nome francês. Depois de ser atendido com muito mau humor, quando deixei a peça de coração*, desta vez, a recepção foi bem diferente. Recebeu-me um sorriso aberto, franco, daquelas raras pessoas que riem de dentro, com o coração. Na hora de pagar, percebi. A moça não perguntava, ela apontava as opções na maquininha e fazia gestos. Era surda-muda. Algo me distraiu e de repente ela sumiu, para buscar algo de outro cliente. Esperei, queria me despedir e agradecer atendimento tão belo e simpático. Ela demorava, caminhei até a porta (a pressa cotidiana, falta de paciência, pragas modernas) e de repente ela surgiu. Acenei dando tchau e ela devolveu o tchau mais efusivo que já vi, usando cada músculo das mãos com vigor e, claro, exibindo aquele espetáculo de sorriso de novo. Esses instantes me fizeram esquecer o dia duro, desarmar a cara fechada e ganhar um novo ânimo, essa palavrinha que simplesmente é igual à palavra em latim para alma: anima.
O mesmo ânimo ganha esse senhor que recebia parcas moedinhas na calçada até que uma mulher espirituosa e boa resolveu mudar as palavras que ele tinha escrito no papelão velho.
“Mude suas palavras. Mude o seu mundo”, é a mensagem do vídeo. Mude o seu olhar, ou melhor, use seus olhos, de verdade. Olhe querendo ver. E depois dos seus olhos se cruzarem e se conectarem, embarque nesse trem, experimente a maravilha de viajarem juntos.
O problema é que muitas vezes falta ânimo, disposição e coragem, falta essa vontade de alma.
Muito mais fácil é passar pelo velhinho e apenas jogar uma moedinha.
Muito mais fácil é não interagir com as pessoas.
Muito mais fácil é não se envolver.
Como bem escreveu o ex-roqueiro e hoje jornalista Felipe Machado, antigo colega de Cásper Líbero, em sua coluna no Jornal da Tarde,
“Ninguém tem mais paciência para nada, ninguém tem tempo para perder com nada: nem com o que é importante”.
Felipe falava de outra coisa, de novos relacionamentos, mas não estará tudo conectado? Será que não vale também para relações antigas, como amizades que não são resgatadas? Velhas ou novas ele cavoca fundo, “não há tempo para uma segunda chance. Como é que uma relação vai nascer se não dermos espaço para isso acontecer?... Deixa-se de amar por nada. Mata-se por nada. Vive-se para nada. Por que tanta ansiedade? Quem disse que o que virá depois é melhor do que o que está aqui? O importante é aproveitar o momento. Afinal, entre o ‘antes’ e o ‘depois’, a única coisa verdadeiramente real é o ‘agora’.”

Muitos vivem repetindo o clichê de que o agora é o mais importante mas não agarram o agora. Falta ânimo.
Música então, moçada, escutem Paciência, do Lenine, e coloquem um pouco mais de alma. Façam hora, façam horas e dias junto de quem pode ser muito importante.
A vida não para, eu sei, mas a vida é tão rara.
Paremos ela então. Dê um tempo, dê uma nova chance.
Paciência, grande ciência das relações, boa e cuidadosa mãe de amizades e amores construídos aos poucos. Só ela permite a verdadeira conexão.


* Minha jaqueta preferida é do grande San Lorenzo de Almagro, time de futebol argentino, de Buenos Aires, famoso pelo futebol bonito, bem jogado, bem tramado, bem amado.

sexta-feira, abril 08, 2011

Turma de 83

Ao sair de casa ontem à noite, me senti com a mesma alegria do passado, como se estivesse indo de novo me formar na escola. Me formar com meus amigos e amigas. Mais que isso, meus irmãos e irmãs, meus amores. Porque lá nos anos 80, não havia essa de conversar por telinhas, era com palavras, olhares e abraços. Muitos de nós éramos inseparáveis. Na escola, nas ruas em que caminhávamos sem medo, nas praças em que fazíamos nossos clássicos sagrados toda 6ª feira, nas casas dos colegas que eram muito mais que colegas e por isso visitávamos durante a semana, de tarde. Nas viagens em que íamos em um bando enorme, nas viagens em que consolidamos amizades que pareciam inquebrantáveis.
O tempo, o tempo... A luta fora de nosso refúgio, o Rainha da Paz, logo nos separou. Perdi primeiros o contato com as amigas que amava, e pouco a pouco os irmãos foram tomando caminhos diferentes, cuidando da vida, lógico, mas se separando.
Alguns anos depois do fim da escola, o grande irmão de papos intermináveis à beira da calçada permaneceu junto. Foram ainda alguns anos em que não fazíamos outra coisa senão lembrar de vocês, de nossos amigos e nossas musas, de nossas festas, viagens e até aulas. E ainda levávamos essa saudade para o mar, onde surfávamos e na espera das ondas, logo seus nomes invadiam nossas memórias mais bonitas, de uma infância e adolescência mágica. Dos anos incríveis que tivemos.
    (Bons tempos de surfe e lembranças azuis, de vocês, junto do brother-irmão)
Quando não estava com o irmão de escola, surfe e vida, a aura mágica do Rainha permaneceu comigo junto de minha namorada de tantos anos, de uma outra geração da escola, mas Rainha. Incrível como gostei dos amigos e amigas dela, e fiz uma irmã justo da melhor amiga dela. Incrível como o novo grupo era também baseado em rock, sorrisos, futebol e camaradagem. Eram Rainha. Éramos Rainha.
O tempo, o erro... isso também foi embora.
Quase não via mais vocês, e admito que me afastei, pois não podia compartilhar com vocês o que era fazer a própria família, não sabia o que era isso.
Cuidei então de criar outras crianças, meus alunos e alunas a quem tentei ensinar, mais que a escrever e ler com paixão, a viver as coisas mais belas. Ensinei a muitos o valor das canções, do esporte, do cinema, ensinei muitos a surfar, e fiz amigos, nas minhas turmas mais antigas, que se tornaram os meus irmãos de hoje.
Foram eles, o rock e as ondas que me apoiaram e salvaram nos anos mais duros, já que vocês precisavam de cuidar de suas famílias e novas vidas.
Mas sempre chegava uma lembrança de vocês quando a rádio (primeiro a 89 FM dos bons tempos, depois a Kiss) tocava certas canções. Quando a rádio tocava os afetos e carinho imenso que a gente exercia com os outros. Exercia é pouco, celebrava.
A gente se amava como só aqueles amigos de filmes se amam.
A gente se amava como a melodia e o significado da canção que começa a tocar agora enquanto lhes escrevo, In my life, Beatles. There are places I remember, all my life...
Um dia, anos e anos depois, até décadas, o Mariano resolveu criar essa lista e depois de bater um emocionado papo com o Luis pela net (isso aqui tinha que servir pra alguma coisa né), resolvi que tinha chegado a hora.
As mensagens bombando antes de ontem mostraram que havia a vontade de nos vermos de novo, de verdade.
Então veio ontem.
De repente vocês foram chegando.

De repente fomos nos abraçando e colocando as mãos sobre os ombros que um dia nos ampararam tanto.
De repente lembrávamos as gostosas loucuras que um dia fizemos nos anos do Rainha.
De repente vencemos um duro inimigo das velhas amizades, de repente viajamos no tempo.
Quase 30 anos se passaram depois dessa foto e conseguimos, tanto tempo depois, nos olhar e nos reconhecer de novo. E foi especial também como nos reconhecemos até em quem tinha nos deixado  há mais tempo e de quem lembrávamos pouco.
No final, confesso que bateu a tristeza, porque sei que voltarmos a nos ver será difícil.
Mas pelo menos percebi que o mais importante ainda existe. Milênios atrás, eu e o Português, sentados sozinhos em nossas pranchas, em nossa antiga praia mágica, olhando o horizonte, perguntamos um para o outro:
Será que só nós dois pensamos e sentimos isso.
Será que só nós temos saudade?
Será que eles e elas não esqueceram?

Ontem percebi que não. No álbum de fotografias mais bonito e verdadeiro, o coração, senti ontem que vocês não esqueceram.
Nunca quis fazer uma tatuagem talvez por isso. Sempre olhei dentro do peito e vi vocês, meus amigos irmãos, minhas amigas e meus amores do Rainha da Paz.
Um puta abraço a todos e deixo uma canção e um estado de espírito que deverei sempre a vocês, pela melhor infância e começo de juventude que poderia ter e tive.
Youth are like diamonds in the sun
And diamonds are forever

domingo, abril 03, 2011

O último suspiro do swell

Uma última respirada, o fôlego que se vai, o fim. O nada. Graças que até nisso o mar é diferente. O finalzinho do swell, na última 6ª feira, pedia um bate-volta urgente. Pedia uma reorganização nos trabalhos. Fazer da 6ª o sábado e depois trabalhar em pleno sabadão. Na mosca, seu Netuno me brindou com pequenos mas belos presentes. Suspiros de ondas. Doces meninas a surgir, demorando um pouco, mas a surgir. Pequenas mas perfeitas. A perfeição presente no tesão e no coração de quem percebe e aproveita a dádiva de uma manhã de sol, surfe e vida. A vida mais colorida de quem madruga e vê as primeiras cores do dia na estrada. As cores, só enxergadas por quem percebe a grandeza dos pequenos momentos. Sim, todo surfista quer ondas maiores, telas mais amplas e desafiadoras, mas como renegar essas pequenas paredes se vivo longe da praia? Como não sentir sensações e emoções grandiosas em uma simples paredinha lisa se essas pequeninas são o Mundo perto da realidade áspera e cinza de São Paulo? Como não me sentir em casa se ali no pico os estranhos sempre me saúdam com um cumprimento sincero, bem diferente das caras fechadas e buzinas abertas da megalópole?
Como não sentar lá atrás e dar um tempo felizão e surpreso só de ver as três belas e habilidosas surfistas pegando boa onda atrás de boa onda? Um grupo de amigas que em vez de ir ao shopping vai ao mar; em vez de comprar, surfar, a cena é deliciosa. Não, caras moças que não surfam, não é uma crítica, apenas uma constatação da opção infinitamente mais bela que a praia oferece.
A praia. Só de vê-la, a mente já se acalma, se liberta, sonha, viaja longe. É estacionar, descer, pegar a menina prancha, ser recebido suavemente  pela menina areia, sublime massagista natural, e logo brincar junto das meninas mais brincalhonas e divertidas que conheço, meninas ondas.
Depois de momentos junto delas, as décadas no corpo parecem regredir e volto a ser menino.
Volto, toda vez que volto para elas.
Toda vez que regresso ao elixir de conto de fadas chamado surfe.
O elixir que é existir, de verdade.
Surfo, logo existo. Respiro. Resisto.
O último suspiro, no mar, é sempre uma maravilhosa promessa azul, de uma nova vida.

* Pintura de Colleen Gnos