sábado, abril 23, 2011

Bróder - Irmãos da Vida

(Indicado para quem não esquece dos amigos e amigas de infância que um dia foram inseparáveis)
Por mais que a vida seja um fio frágil suspenso num trapézio altíssimo – é muito fácil arrebentá-lo; acertar ou errar, cair, dar o passo errado – há algo imutável e inquebrantável na alma dos homens de verdade: os fios artesanalmente tecidos, com as linhas mais belas e fortes chamadas amizades do coração.
Amizades que vêm da infância, época da vida em que se sonha e se chora junto porque há sempre um ombro, uma palavra, um olhar ou gesto amigo nos amparando. Bróder é exatamente isto: uma celebração das amizades mais fiéis, dos manos que bateram bola juntos num campinho de terra esburacado quase sem terra.
Manos que curtiram as festas, os botecos e piraram nas mesmas minas – por que amigos do peito quase sempre se encantam pelas mesmas meninas?
Manos que um dia tiveram que tomar rumos diferentes e por isso se afastaram, mas jamais se esqueceram.
Broder é a história desse reencontro. Pibe saiu da favela do mas segue lutando para sobreviver com poucos recursos num pequeno apartamento em cima do Minhocão, esposa e filho pequeno e muitas incertezas. Jaiminho se deu bem, o sonho da bola deu certo e ele fez fortuna e fama na Europa. Macu (visceral interpretação de Caio Blat, o cara parece mesmo um mano da periferia em qualquer característica; no físico, gestual, linguajar, até na mente que oscila entre o sorriso e a raiva, entre a esperança e o medo) ficou. Continua junto da rara camaradagem e vizinhança que se conhece e se cumprimenta nas vielas do imenso Capão Redondo, zona sul de São Paulo. Mas continua também perto demais do outro lado: o crime que espreita sem parar quem precisa de dinheiro ou oportunidades “fáceis”.
O reencontro vai se dar no aniversário de Macu. Feijoada, pagode, samba, bolo caseiro; comidas que nenhum restaurante fino poderá igualar, mesmo se o arrogante empresário de Jaiminho acha que é muito melhor ele ir comer no Le Jardin, algum típico templo caríssimo da zona mais nobre – e esnobe, de São Paulo. O samba e o pagode? Mesmo quem não gosta vai finalmente entender a preferência da boleirada e galera da periferia pelo estilo alegre, um sopro bom, divertido e sensual – há sempre uma mulher sexy dançando - num ambiente cada vez mais duro.
Mas há o lado errado farejando como um franco atirador covarde escondido num telhado. Há a dívida de Macu. Há o sucesso de Jaiminho a incomodar a bandidagem, não importa se o craque cresceu ali, sonhou e sofreu no Capão antes da vida lhe dar uma chance.
Há as roupas, o relógio e o super carro do craque. Há o rap, que entra na trilha sonora do filme quando os três amigos fogem um pouco do Capão e escutam “Fim de semana no parque”. Há a catarse dos amigos que se reconhecem cantando juntos de novo uma das canções da adolescência. Mas lembremos, é rap, é Mano Brown quem canta. A canção só pode ser sobre uma dura divisão: a realidade da quebrada contra a vida mais fácil e o luxo e consumismo do lado de fora (e de dentro dos muros).
Onde há rap, quase sempre há a história de um conflito. Bróder poderia descambar para o típico banho de sangue fácil dos “favela movies” como Cidade de Deus, mas lembremos: este é um filme sobre três amigos, sobre o sentimento que nenhum criminoso conseguirá comprar: a amizade indestrutível de três meninos-jovens-homens quem um dia cresceram e sonharam juntos no Capão.
Sim, o perigo do crime ronda feito caçador de recompensas impiedoso. O sucesso de um e o fracasso dos outros incomoda demais, mas Macu, Pibe e Jaiminho, mesmo agora em vidas tão diferentes, um dia foram amigos do peito na infância. E isso o coração não esquece.
O coração, aquele que nem a distância ou a morte apaga.
O coração amigo, este o grande alicerce deste filme que nos faz acreditar que os sentimentos mais nobres ainda conseguem enfrentar o tanto mal e indiferença que se proliferam mundo afora; ou no cotidiano que nos afasta dos antigos parceiros.
Bróder é um daqueles raros filmes que têm seus momentos duros e impiedosos, mas também nos faz acreditar.
Bróder não. Mano. Esta a palavra mais exata, porque ser mano é ser paulistano, é ser brasileiro, é portar uma palavra e um sentimento mais fiel ao que ser irmão de coração de alguém quer dizer.

Aê, manos, vejam esse filme. É nóis. Tum Tum Tum, estou batendo, de mão aberta, no meu coração.

quinta-feira, abril 14, 2011

Paciência

Conectar é a palavra-chave. Deveria ser a palavra-sentimento mais importante desse mundo. Outro dia fui buscar minha jaqueta preferida na lavanderia com nome francês. Depois de ser atendido com muito mau humor, quando deixei a peça de coração*, desta vez, a recepção foi bem diferente. Recebeu-me um sorriso aberto, franco, daquelas raras pessoas que riem de dentro, com o coração. Na hora de pagar, percebi. A moça não perguntava, ela apontava as opções na maquininha e fazia gestos. Era surda-muda. Algo me distraiu e de repente ela sumiu, para buscar algo de outro cliente. Esperei, queria me despedir e agradecer atendimento tão belo e simpático. Ela demorava, caminhei até a porta (a pressa cotidiana, falta de paciência, pragas modernas) e de repente ela surgiu. Acenei dando tchau e ela devolveu o tchau mais efusivo que já vi, usando cada músculo das mãos com vigor e, claro, exibindo aquele espetáculo de sorriso de novo. Esses instantes me fizeram esquecer o dia duro, desarmar a cara fechada e ganhar um novo ânimo, essa palavrinha que simplesmente é igual à palavra em latim para alma: anima.
O mesmo ânimo ganha esse senhor que recebia parcas moedinhas na calçada até que uma mulher espirituosa e boa resolveu mudar as palavras que ele tinha escrito no papelão velho.
“Mude suas palavras. Mude o seu mundo”, é a mensagem do vídeo. Mude o seu olhar, ou melhor, use seus olhos, de verdade. Olhe querendo ver. E depois dos seus olhos se cruzarem e se conectarem, embarque nesse trem, experimente a maravilha de viajarem juntos.
O problema é que muitas vezes falta ânimo, disposição e coragem, falta essa vontade de alma.
Muito mais fácil é passar pelo velhinho e apenas jogar uma moedinha.
Muito mais fácil é não interagir com as pessoas.
Muito mais fácil é não se envolver.
Como bem escreveu o ex-roqueiro e hoje jornalista Felipe Machado, antigo colega de Cásper Líbero, em sua coluna no Jornal da Tarde,
“Ninguém tem mais paciência para nada, ninguém tem tempo para perder com nada: nem com o que é importante”.
Felipe falava de outra coisa, de novos relacionamentos, mas não estará tudo conectado? Será que não vale também para relações antigas, como amizades que não são resgatadas? Velhas ou novas ele cavoca fundo, “não há tempo para uma segunda chance. Como é que uma relação vai nascer se não dermos espaço para isso acontecer?... Deixa-se de amar por nada. Mata-se por nada. Vive-se para nada. Por que tanta ansiedade? Quem disse que o que virá depois é melhor do que o que está aqui? O importante é aproveitar o momento. Afinal, entre o ‘antes’ e o ‘depois’, a única coisa verdadeiramente real é o ‘agora’.”

Muitos vivem repetindo o clichê de que o agora é o mais importante mas não agarram o agora. Falta ânimo.
Música então, moçada, escutem Paciência, do Lenine, e coloquem um pouco mais de alma. Façam hora, façam horas e dias junto de quem pode ser muito importante.
A vida não para, eu sei, mas a vida é tão rara.
Paremos ela então. Dê um tempo, dê uma nova chance.
Paciência, grande ciência das relações, boa e cuidadosa mãe de amizades e amores construídos aos poucos. Só ela permite a verdadeira conexão.


* Minha jaqueta preferida é do grande San Lorenzo de Almagro, time de futebol argentino, de Buenos Aires, famoso pelo futebol bonito, bem jogado, bem tramado, bem amado.

sexta-feira, abril 08, 2011

Turma de 83

Ao sair de casa ontem à noite, me senti com a mesma alegria do passado, como se estivesse indo de novo me formar na escola. Me formar com meus amigos e amigas. Mais que isso, meus irmãos e irmãs, meus amores. Porque lá nos anos 80, não havia essa de conversar por telinhas, era com palavras, olhares e abraços. Muitos de nós éramos inseparáveis. Na escola, nas ruas em que caminhávamos sem medo, nas praças em que fazíamos nossos clássicos sagrados toda 6ª feira, nas casas dos colegas que eram muito mais que colegas e por isso visitávamos durante a semana, de tarde. Nas viagens em que íamos em um bando enorme, nas viagens em que consolidamos amizades que pareciam inquebrantáveis.
O tempo, o tempo... A luta fora de nosso refúgio, o Rainha da Paz, logo nos separou. Perdi primeiros o contato com as amigas que amava, e pouco a pouco os irmãos foram tomando caminhos diferentes, cuidando da vida, lógico, mas se separando.
Alguns anos depois do fim da escola, o grande irmão de papos intermináveis à beira da calçada permaneceu junto. Foram ainda alguns anos em que não fazíamos outra coisa senão lembrar de vocês, de nossos amigos e nossas musas, de nossas festas, viagens e até aulas. E ainda levávamos essa saudade para o mar, onde surfávamos e na espera das ondas, logo seus nomes invadiam nossas memórias mais bonitas, de uma infância e adolescência mágica. Dos anos incríveis que tivemos.
    (Bons tempos de surfe e lembranças azuis, de vocês, junto do brother-irmão)
Quando não estava com o irmão de escola, surfe e vida, a aura mágica do Rainha permaneceu comigo junto de minha namorada de tantos anos, de uma outra geração da escola, mas Rainha. Incrível como gostei dos amigos e amigas dela, e fiz uma irmã justo da melhor amiga dela. Incrível como o novo grupo era também baseado em rock, sorrisos, futebol e camaradagem. Eram Rainha. Éramos Rainha.
O tempo, o erro... isso também foi embora.
Quase não via mais vocês, e admito que me afastei, pois não podia compartilhar com vocês o que era fazer a própria família, não sabia o que era isso.
Cuidei então de criar outras crianças, meus alunos e alunas a quem tentei ensinar, mais que a escrever e ler com paixão, a viver as coisas mais belas. Ensinei a muitos o valor das canções, do esporte, do cinema, ensinei muitos a surfar, e fiz amigos, nas minhas turmas mais antigas, que se tornaram os meus irmãos de hoje.
Foram eles, o rock e as ondas que me apoiaram e salvaram nos anos mais duros, já que vocês precisavam de cuidar de suas famílias e novas vidas.
Mas sempre chegava uma lembrança de vocês quando a rádio (primeiro a 89 FM dos bons tempos, depois a Kiss) tocava certas canções. Quando a rádio tocava os afetos e carinho imenso que a gente exercia com os outros. Exercia é pouco, celebrava.
A gente se amava como só aqueles amigos de filmes se amam.
A gente se amava como a melodia e o significado da canção que começa a tocar agora enquanto lhes escrevo, In my life, Beatles. There are places I remember, all my life...
Um dia, anos e anos depois, até décadas, o Mariano resolveu criar essa lista e depois de bater um emocionado papo com o Luis pela net (isso aqui tinha que servir pra alguma coisa né), resolvi que tinha chegado a hora.
As mensagens bombando antes de ontem mostraram que havia a vontade de nos vermos de novo, de verdade.
Então veio ontem.
De repente vocês foram chegando.

De repente fomos nos abraçando e colocando as mãos sobre os ombros que um dia nos ampararam tanto.
De repente lembrávamos as gostosas loucuras que um dia fizemos nos anos do Rainha.
De repente vencemos um duro inimigo das velhas amizades, de repente viajamos no tempo.
Quase 30 anos se passaram depois dessa foto e conseguimos, tanto tempo depois, nos olhar e nos reconhecer de novo. E foi especial também como nos reconhecemos até em quem tinha nos deixado  há mais tempo e de quem lembrávamos pouco.
No final, confesso que bateu a tristeza, porque sei que voltarmos a nos ver será difícil.
Mas pelo menos percebi que o mais importante ainda existe. Milênios atrás, eu e o Português, sentados sozinhos em nossas pranchas, em nossa antiga praia mágica, olhando o horizonte, perguntamos um para o outro:
Será que só nós dois pensamos e sentimos isso.
Será que só nós temos saudade?
Será que eles e elas não esqueceram?

Ontem percebi que não. No álbum de fotografias mais bonito e verdadeiro, o coração, senti ontem que vocês não esqueceram.
Nunca quis fazer uma tatuagem talvez por isso. Sempre olhei dentro do peito e vi vocês, meus amigos irmãos, minhas amigas e meus amores do Rainha da Paz.
Um puta abraço a todos e deixo uma canção e um estado de espírito que deverei sempre a vocês, pela melhor infância e começo de juventude que poderia ter e tive.
Youth are like diamonds in the sun
And diamonds are forever

domingo, abril 03, 2011

O último suspiro do swell

Uma última respirada, o fôlego que se vai, o fim. O nada. Graças que até nisso o mar é diferente. O finalzinho do swell, na última 6ª feira, pedia um bate-volta urgente. Pedia uma reorganização nos trabalhos. Fazer da 6ª o sábado e depois trabalhar em pleno sabadão. Na mosca, seu Netuno me brindou com pequenos mas belos presentes. Suspiros de ondas. Doces meninas a surgir, demorando um pouco, mas a surgir. Pequenas mas perfeitas. A perfeição presente no tesão e no coração de quem percebe e aproveita a dádiva de uma manhã de sol, surfe e vida. A vida mais colorida de quem madruga e vê as primeiras cores do dia na estrada. As cores, só enxergadas por quem percebe a grandeza dos pequenos momentos. Sim, todo surfista quer ondas maiores, telas mais amplas e desafiadoras, mas como renegar essas pequenas paredes se vivo longe da praia? Como não sentir sensações e emoções grandiosas em uma simples paredinha lisa se essas pequeninas são o Mundo perto da realidade áspera e cinza de São Paulo? Como não me sentir em casa se ali no pico os estranhos sempre me saúdam com um cumprimento sincero, bem diferente das caras fechadas e buzinas abertas da megalópole?
Como não sentar lá atrás e dar um tempo felizão e surpreso só de ver as três belas e habilidosas surfistas pegando boa onda atrás de boa onda? Um grupo de amigas que em vez de ir ao shopping vai ao mar; em vez de comprar, surfar, a cena é deliciosa. Não, caras moças que não surfam, não é uma crítica, apenas uma constatação da opção infinitamente mais bela que a praia oferece.
A praia. Só de vê-la, a mente já se acalma, se liberta, sonha, viaja longe. É estacionar, descer, pegar a menina prancha, ser recebido suavemente  pela menina areia, sublime massagista natural, e logo brincar junto das meninas mais brincalhonas e divertidas que conheço, meninas ondas.
Depois de momentos junto delas, as décadas no corpo parecem regredir e volto a ser menino.
Volto, toda vez que volto para elas.
Toda vez que regresso ao elixir de conto de fadas chamado surfe.
O elixir que é existir, de verdade.
Surfo, logo existo. Respiro. Resisto.
O último suspiro, no mar, é sempre uma maravilhosa promessa azul, de uma nova vida.

* Pintura de Colleen Gnos



quinta-feira, março 24, 2011

Os bons amigos, reais, onde estão?



Antes a vida rolava como a letra dessa canção maravilhosa que o lado frio da comunicação virtual tenta matar:
You just call out my name,
and you know wherever I am
... all you have to do is call
... and soon I will be knocking upon your door
and I'll be there,
You've got a friend.

“É só chamar meu nome, você sabe onde posso estar, tudo o que tem que fazer é ligar que logo eu estarei batendo na sua porta. Eu estarei lá. Você tem um amigo.”
Caraca, onde se perdeu a visita surpresa, tão comum até os anos 90, em que o amigo de repente tocava a campainha de casa?
A canção parece ainda mais pré-histórica,
I'll come running to see you again.
Winter, spring, summer or fall,
all you go to do is call
“Eu vou correndo te ver; inverno, primavera, verão, outono; tudo o que precisa é chamar.”

Quem chama o amigo ou amiga pelo telefone hoje, em vez de postar algo na net e receber algumas tecladas afetuosas mas distantes em que o encontro nunca ocorre?
Pior, as tentativas de encontros marcados pela net quase sempre dão em nada. Formam-se grupos, instala-se a vontade de se verem, onde vamos?, e dá em nada. “É tudo fogo de palha”, como definiu bem o amigo que vejo uma vez a cada muitos anos, parceiro de infância e adolescência de altas viagens, camaradagem, rock and roll (porra, cara, acho que foi você que tatuou AC-DC em minha alma roqueira!, e isso só já basta por um agradecimento eterno, pela válvula de escape contra dores ou a energia contagiante dos solos do Angus), as paixões que tínhamos por musas impossíveis e por filmes que sedimentaram parte importante de nosso coração e até caráter. É, irmão, aqueles velhos filmes que cultuávamos em fitas de VHS, a rebeldia de Jeff Bridges, Kevin Bacon, Emilio Estevez, Matt Dillon, cara, o Matt Dillon visceral, enquanto ele fazia filmes fortes, e não as bobagens que faria no futuro. E o que dizer de outra preciosidade que talvez deva a você (a memória vai falhando, né, meu velho), O primeiro ano do resto de nossas vidas (Demi Mooree novinha, aquela voz rouca, e loura!) e sua trama bela mas dura dos amigos que sabem que vão se separar, mas amigos do fundo do peito, que no filme a gente percebe que nunca vão se esquecer um do outro. É, cara, você é um grande filho da puta que me fez pirar nesses filmes românticos de amizades e amores eternos hehe. Mas valeu, irmão, e gozado como antes de escrever esse texto, não tinha noção de como tinha me mostrado e ensinado tanta coisa. Triste, né, como muitas vezes nem percebemos como os velhos amigos deixaram presentes importantes em nossas vidas? Bom, e quem sabe eu tenha te dado também presentes bacanas mas maléficos à saúde como aquelas sessions entornando a 51 enquanto detonávamos aquela república na Fazenda (puta merda, a Fazenda, aquele Templo!, quanta zona, brincadeiras, esporte e gatas!, em tantos anos...) escutando e berrando Iron Man, grande Ozzy...

Foda, né, esse Zé continua sentimental demais, mas porra, sei que James Taylor nunca foi seu forte, mas Hey, ain't it good to know that you've got a friend?
É, brother (caralho, cara, será que foi você também o primeiro que me falou de surf?!,  naquelas velhas revistas (Visual?) que recortava para encapar os cadernos da escola, aí então te devo tanto que jamais poderei pagar na mesma moeda), como o tempo passa e apaga coisas boas, e hoje, em vez de marcarmos uma queda, ficamos apenas sacaneando um ao outro o surf diferente de cada um (surf x stand up) pela net...


Bom, tá na hora do AC-DC fazer eu respirar embalado por aquele bolachão ao vivo dos loucos australianos que tu me apresentou (ou foi o louco do Strauss? Uhn, acho que ele passou pra ti e depois tu pra mim).
Um puta abraço, ensina teus filhos a pirarem no rock pesado e nas ondas, mas agora escuta sim essa canção do James Taylor aí do vídeo de cima, a versão é punk, tem até um riffzinho de guitarra escavador da alma.
E um dia a gente resgata aquela turma de filho(a)s da puta sem memória que a gente não esquece e ama pacas...
PS - O fdp é afetuoso, é com carinho!

quarta-feira, março 23, 2011

Um olhar mais humano

Caros leitores, peço a visita de vocês em meu novo projeto, um site de depoimentos curtos mas profundos de pessoas que têm o que ensinar e passar de bom. O projeto, em parceria com o irmão Dudu Stryjer, é o Janela. Cliquem aqui

sexta-feira, março 18, 2011

O ídolo que arrancou esse sorriso

Ele é um dos maiores atletas de todos os tempos. O maior jogador de vôlei do planeta por anos e anos. Campeão mundial e olímpico. Um líder cheio de garra e inspiração para os jovens talentos. Falo de Giba, o fantástico jogador de vôlei brasileiro. Um super craque das quadras e ídolo muito assediado. Um cara que poderia ser marrento e de poucos sorrisos como a maioria dos badalados do futebol. Há dois anos, quando voltei ao clube em que vivi meu sonho de atleta no passado (atletismo), ele entrou quase no mesmo momento, na forte equipe montada pelo E. C. Pinheiros. Logo saquei que máscara passava longe dele. Um dia perguntei à moça que comanda um dos elevadores do clube Pinheiros quem era o atleta mais simpático do clube. “Giba”, ela respondeu sem pestanejar enquanto abria um sorrisão, “ele sempre cumprimenta a gente, diz alguma coisa”.
Tratar com simpatia sincera e conversar com as moças e senhoras dos elevadores do Pinheiros, que enfrentam um festival de bom dias e obrigados meio sem graça e forçados o tempo todo, foi a primeira prova que tive do Giba sangue bom. Do raro ídolo humilde, “gente fina” como diriam antigamente.
O tempo passou, sempre o via malhando na academia com seus companheiros de vôlei, mas nunca importunei o craque. Até esta 2ª feira de carnaval, em que ele estava dando duro para se recuperar de uma contusão no tornozelo. Me aproximei apenas para lhe dizer que minha avó, que acaba de completar 100 anos, sempre foi fãzaça dele, não perdendo um jogo importante da seleção de vôlei anos e anos seguidos. E ainda hoje, quando ela às vezes perde a lucidez, quando recobra, sempre pergunta do vôlei e do Giba.
Na hora os olhões azuis dele brilharam de verdade, o cara abriu um sorrisão e me disse na hora: “você vai treinar amanhã? Vem aqui que vou trazer uma camisa minha para você dar a sua avó”.
No dia seguinte eu fui lá, com receio dele esquecer. Cheguei lá, Giba estava brincando com outro campeão olímpico, Gustavo, chamei-o e ele disse, “tava te procurando”. Subimos para onde estava o armário dele, ele mostrou a camisa e começou a procurar uma caneta de escrever em tecido, que encontrou com seu treinador. Ele fez questão de escrever uma dedicatória para Dona Helena e esse é o resultado: deixou minha avó felizona, como há muito não a via. E minha avó, que detesta tirar fotos, posou animadona para essa foto.
Só não sei se ela aguenta o pedido do ídolo: “traz ela num treino, quero conhecê-la”.
Esse é Giba, um ídolo de verdade, dentro e fora das quadras.

segunda-feira, março 14, 2011

Máquinas de Detenção

São atos simples, mas que vamos abandonando pelo conforto e/ou sedução das máquinas e novas tecnologias virtuais. O clique se deu apenas quando deixei o carro na garagem para o break cotidiano que faço nos períodos de trabalho em que apenas escrevo. Caminhar até o mercado, em vez de guiar até ele, muito mais que a liberdade para os olhos, liberta a mente para pensar e refletir. E nem preciso citar o ganho na saúde, né? Ah, “mas isso é tão óbvio”... Sim, só que o conforto, velocidade e praticidade do carro nos emburrece e cega para a riqueza de uma simples e cada vez mais rara caminhada no meio da jornada de trabalho. Tente andar em vez de guiar até o almoço ou lanche da tarde e perceberá a diferença.
Poucas coisas nos devolvem com tanta energia a vida real, mais prazerosa, bela e até produtiva, como a caminhada. Até podemos ver as pessoas, olhá-las e escutá-las. Até podemos ver cachorros e fazer um afago neles.
Caminhar nos torna mais produtivos? Experimente e ficará surpreso com o tanto de ideias e até soluções que encontra ao ter a mente livre de uma direção e outros motoristas.
A máquina vai matando o homem sem ele perceber.
A máquina e as telas. Ou preciso dizer quantas horas perdemos em cliques inúteis atrás de uma telinha de computador? Quanto tempo realmente você aprende algo ou se comunica de verdade na internet? Receber um “curti” no Facebook não é comunicação, é preguiça de quem clicou e não teve a vontade ou esforço de escrever um simples, porém mais humano, comentário. Sim, não lembro de um único “curti” que apertei na rede, pois preferi estabelecer um contato maior, o que só as palavras podem fazer. Preferi fazer um afago.
E o que dizer então das pessoas que só escrevem na nossa rede pra mostrar que elas têm uma opinião “mais correta” que a nossa? E os chatos de plantão, que só escrevem para nos alfinetar e são incapazes de dizer algo legal?
Claro que a internet ensina demais se sabemos onde entrar, mas o saber onde entrar é uma exceção. A maioria entra nos grandes portais, lê algumas manchetes, clica em uma ou duas noticias, e só. O resto é MSN, redes sociais ou jogos on line. E assim vai pro saco, quando se é criança e adolescente, a visita aos amigos e o futebolzinho nas praças. E assim desaparece, nos trabalhadores, os simples mas humanos telefonemas, além da disposição para ler um jornal e um livro.
Assim as máquinas e as telas vão nos tirando vida real e a arte do encontro. E elas, “tão eficazes”, segundo seus escravos, acabam minando nossa própria eficácia. Como? Tente criar o hábito de produzir algo no computador antes de checar seus emails ou mensagens no Facebook e Orkut. Acabo de fazer isso: ainda não acessei a net e já consegui escrever a sempre difícil introdução de minha coluna na revista e também essa divagação para o meu blog pessoal, que ando atualizando muito raramente.
Tomara que eu consiga criar esse hábito, para escrever e render muito mais.
Você não consegue? Em vez de deixar as redes sociais ou emails apitando, deixe num site de música (como o shuffler.fm ou o hypem.com, ou mesmo a sua rádio on line) que poderá ficar muito mais inspirado a trabalhar sem essa louca ansiedade de ver quem escreveu pra gente.
Cuidado com os ladrões de tempo, trabalho e vida.

quarta-feira, março 09, 2011

Gênios


Jogo do Barça, ainda mais pela Liga dos Campeões, é ocasião de gala. Jogo, não, show. Show é pouco. Arte. Fantasia. Magia. Ou não é coisa de magos as jogadas do primeiro e segundo gol do melhor time do mundo de verdade? O que foi a penetração e o passe genial de Iniesta no primeiro gol, completado com a levantadinha surreal de Messi na bola pra tirar a bola do goleiro antes de fuzilar? E o que dizer da triangulação Iniesta-Villa-Xavi no segundo tento, completada com uma frieza de super craque de Xavi? Até pênalti os caras transformam em arte, porque a simplicidade perfeita de Messi no penal é coisa rara de gênio calmo, de gênio que faz obra de arte até quando domina a simplicidade.
O futebol é muito mais fácil, simples e belo quando Xavi, Iniesta e Messi começam a tocar a bola de pé em pé até o veredicto irrevogável de mais um gol maravilhoso do fantástico Barcelona.

terça-feira, março 08, 2011

O Carnaval é do Rei e da Ilha

Não dá para discutir. Carnaval, carnaval mesmo, é o sempre inesquecível desfile da Sapucaí. Assisti apenas a trechos de algumas escolas, e duas me conquistaram. Primeiro, a garra e beleza tão simples quanto sofisticada (como conseguem?) da União da Ilha, a escola que perdeu muito com os incêndios dos barracões às vésperas do Carnaval mas jamais perdeu a magia. A magia de um enredo histórico, sobre as descobertas de Darwin e sua teoria de evolução das espécies; espécies essas que vieram tanto em fantásticos carros alegóricos (o que era aquele tartaruga gigante de Galápagos?) como em delicadas e perfeitas fantasias de abelhas na ala das baianas. A União da Ilha soube como poucas a misturar a grandiosidade com ideias simples como os tatus bolas estilizados. E o drama do fogo fez os foliões se superarem e desfilarem com uma garra poderosa que contagiou a multidão.
No final de todas, no último desfile, veio Ele. O Rei. O verdadeiro Rei, porque o mais amado. Sim, um Rei um pouco recluso, mas que quando aparece, um Rei sempre humilde. Tão humilde que sempre se entrega de corpo, canção e alma aos seus súditos, ao seu povo, à sua vida. Impossível não emocionar-se com a comoção de Roberto Carlos enquanto a Sapucaí toda cantava o samba-hino em sua homenagem. Nada mais justo para o homem das tantas emoções. De amizades inquebrantáveis como a do terno amigo irmão camarada Erasmo que desfilou outras tantas emoções em um dos carros. De amores tão grandes que abraçaram o Brasil inteiro e fizeram milhões cantar seu amor por suas mulheres a partir dos versos do Rei e seu amigo Erasmo.
O Rei, o Rei que chorou enquanto o povo cantava esses singelos mas profundos versos, No mar navegam emoções
Sonhar faz bem aos corações
Na fé com o meu rei seguindo
Outra vez estou aqui vivendo esse momento lindo
De todas as Marias vem as bênçãos lá do céu
Do samba faço oração, poema, emoção!
Foi o ponto alto do desfile do Rio, reverenciando o maior, sim, artista deste país, porque ninguém canta com mais sinceridade e entrega que o Rei.
Obrigado então, Beija-Flor de Nilópolis pela mais bela e justa das homenagens.
Em tempos de tantos falsos reis, é sempre bonito demais ver um Rei de verdade emocionando-se desse jeito.
PS – Sim, há os que dizem que o Rei é brega, que suas canções são bregas, mas duvido que consigam encontrar, lá no fundo de seus corações, palavras mais fortes e belas que as usadas pelo Rei para cantar a amizade e o amor. A amizade e o amor de verdade, de quem viveu cada pedacinho e escala desses sentimentos como Roberto viveu. E olha que quem escreve isso é um roqueiro pesado de carteirinha e milhares de shows, bares e garagens no currículo. Só que esse roqueiro também tem memória: adivinhem quem inventou o rock no Brasil!
PS 2 - Belíssima a matéria-homenagem do Globo Esporte de hoje para o desfile do Rei, entremeado com atletas revelando quais canções do rei cantaram para suas esposas (só Ronaldo não quis cantar...). E o sempre criticado por mim, Tiago Leifert, se redimiu ao espetar seguidas vezes a máscara de um falso rei no Carnaval 2011, Ronaldinho Gaúcho.