segunda-feira, setembro 26, 2011

Anjo

    Babalu e Sansão, inseparáveis 
Já nasceu enorme e ainda agarrou as tetas de sua mãe, a louca e elétrica Babalu, com uma fome de Obelix querendo beber no caldeirão mágico. Nenhum outro cachorro que tivemos ganhou um nome tão rápido e óbvio: Sansão. E ele honrou o nome, cresceu e se tornou o maior cachorro que já tivemos.
Seu tamanho, porém, contrastou com o temperamento mais calmo e dócil de todos que fizeram a nossa história. Sinônimo transparente do que é ser bonzinho.
Atropelado quando ainda filhote, não permitiram que ele partisse tão cedo.
Ganhou uma segunda chance.
Ou foi embora e alguém lá de cima, comovido com tamanha injustiça, o mandou de volta.
Sim, talvez não fosse um cachorro e sim um anjo.
O anjo atrás da porta da cozinha. Porta que, se aberta, libertava dos mais duros problemas do dia-a-dia e da vida sua família sofrida.
Bastava abrir a porta e lá estava ele e sua imensa cabeça e olhar meigo esperando um carinho.
Nunca vi um cachorro gostar tanto de carinho como ele. Tampouco ficar paradinho, recebendo com tranquilidade angelical os afagos enquanto dava seu obrigado em forma de gemidos de alegria.
O anjo também meio malucão quando invadia a casa, fazendo a alegria também dos visitantes, como fez na Copa de 2002 em que nos ajudou com sua correria alegre a trazer o hexa. Todo jogo do Brasil de Felipão, Rivaldo, Ronaldo e Marcão, quando a coisa apertava tinha alguém pedindo, “solta o Sansão!”
O anjo que foi, por 10 anos e meio, o equilíbrio daquela casa, pois era impossível não melhorar o astral só de vê-lo, nosso imenso bicho de pelúcia vivo.
Nosso amigo.
Nosso melhor amigo e sua imensa cabeça a procurar as nossas mãos, como se fossem mãos nos fazendo carinho.
Mãos que eram também suas patas, que nos dava enquanto ficava sentadinho, elegante, bondoso.
Amoroso no sentido máximo, de amor mesmo que nos dava sempre.
Era tão bonito e forte que não percebemos que envelhecia, nessa que é a grande injustiça cometida pelo Criador com os cachorros. Envelhecem e parecem os mesmos. Por isso jamais nos preparamos para sua velhice.
Por isso não percebíamos que sua dificuldade, nos últimos tempos, para se sentar e depois levantar, podia ser algo grave.
Cachorros não deveriam viver tão pouco, em geral uma década.
Deveriam ser eternos.
São.
No coração de quem os amou, Sansão será sempre o ombro amigo e paz necessária que devíamos ter sempre. Como seria bom bastasse olhar pra cima e recebêssemos de novo sua benção, seu conforto, sua serenidade de bebê crescido puro, inocente, pacífico que nunca fez mal a ninguém.
Que nunca brigou com ninguém.
Que nunca desrespeitou a mãe, que ficou junto dele a maior parte de sua vida, mais de 8 anos.
Incrível como, quando abríamos a porta, era sempre ela primeiro a aparecer, a querer entrar, enquanto ele ficava paradão, na boa, respeitoso, só olhando, sabendo que mãe é mãe, que ela vem sempre em primeiro lugar.
Incrível como nunca avançou em uma migalha de comida dela.
Incrível como nunca, mas nunca mesmo, brigou com sua mãe.
Incrível como cuidou dela até o fim, e mesmo quando sua mãe estava indo embora, cada vez mais magra, tinha muito cuidado para não machucá-la com sua força.
Incrível como a limpava lambendo mesmo ela já velhinha e frágil. Ela, a mãe que ele amou como todo filho grato ama sua mãe, com todo o carinho e amor do mundo.
Esta é uma das poucas coisas que atenua um pouco a nossa dor: poucos cachorros tiveram uma vida tão bonita como ele, vivendo protegido e amado pela mãe (ela também nunca levantou a voz ou o latido pra ele) por tantos anos, e sabendo retribuir com tanta beleza todo o calor que Babalu lhe deu.
Mas um dia tudo acabou. Um dia o rei de nosso cães não se levantou mais. Foi internado dias e depois operado, mas poucos dias depois não resistiu.
É duro demais resistir sem ele.
Acho que só resistimos porque ainda existe sua irmã, que não se dava bem com a mãe, e por isso viveu a vida toda longe do irmão. Mas Capitu, mesmo danada e meio maluca como a mãe, também é carinhosa, também geme falando como o irmão. Também tem o coração bonito dessa família e geração maravilhosa de dálmatas que começou com a avó, a inesquecível Duda, que até estrelou meu primeiro livro (Mundaka).
Também tem o amor, que não conseguimos medir, dessa geração de dálmatas que esteve junto de nós por mais de duas décadas.
Uma geração de dálmatas que só existiu porque um dia eu amei demais uma menina e nós dois, cada um com seu dálmata, criamos tudo isso, mas essa é outra história...
Capitu é a última.
Que resista mais, por favor. Porque anjos são maravilhosos mas não conseguem nos dar seu calor.
Mas pelo menos nos deram sua história e suas lições de afeto.
Com Sansão, além de todo o amor e fidelidade, aprendi que é preciso ter calma e ser bom, sempre.
Paz e bondade. O que mais um ser humano, num mundo como esse, precisa aprender?
Obrigado, meu amigo, você foi tão belo e digno que será eterno e um dia passarei para a filha que eu tiver tudo o que me ensinou.
                     Duda (deitada), Babalu e minha mãe

segunda-feira, setembro 12, 2011

O sonho máximo (O Homem do Futuro)


“Todos os dias, quando acordo,
não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo”

O mais duro é que não temos. O homem conseguiu curar o incurável, afastar doenças e até a morte, estender sua jornada, mas há uma barreira que ainda não venceu.
A barreira que é talvez o maior de todos os sonhos.
O tempo.
Viajar no tempo.
Voltar atrás.
Voltar para quê?
Para consertar. Os nossos erros. Sobretudo, os erros que cometemos com o mais belo e terrível dos sentimentos-poderes, o amor.

O amor que Zero, personagem de Wagner Moura, busca, desesperadamente, resgatar.
Reencontrar num passado distante.
No passado mais belo de quando ainda acreditamos e podemos tudo.
O passado do amor da juventude.

Neste passado está Helena, nome de deusa para uma Aline Moraes arrebatadora a cada cena em que aparece. Tão sexy quanto doce. Tão divina quanto humana. Porque ama de verdade, porque ama com pureza, Helena merece qualquer coisa para não perdê-la, ou reconquistá-la.
Até uma viagem no tempo.
Um tempo que ela canta com paixão, visceral, no grande hino da juventude brasileira não só dos anos 80, mas até hoje, Tempo Perdido, de Renato e sua Legião Urbana.
De seus lábios emanam toda a sensualidade, tesão e urgência da juventude. Do amor que ainda sabe ser paixão da juventude.

Você lembra dos momentos mais apaixonantes da sua vida?
Você lembra das canções que embalaram esses momentos?
Você lembra e essa cena ainda o assalta, ainda o invade, tantos anos depois?
Você já tentou o impossível de voltar atrás e viver aquilo de novo?
Se você sente tudo isso, O Homem do Futuro não será um simples filme.
Não será apenas esse espetáculo irresistível que nos faz rir lá do fundo de forma tão gostosa, e tantas vezes, com as loucuras que Zero diz e faz para viajar no tempo e tentar reescrever a sua história.
Não será “apenas” essa magistral aula de atuação de um Wagner Moura espetacular, que nos faz de morrer de rir em um momento e no minuto seguinte nos emociona com seu amor e sonho tão palpável, tão verdadeiro. Tampouco veremos apenas uma Aline Moraes sublime, conseguindo a perfeição de expressar o maior dos sentimentos a cada palavra, a cada gesto, a cada olhar vulcânico.
Mais que um filme arrebatador, comédia romântica impecável, o Homem do Futuro é também um drama-hino ao primeiro amor, talvez o mais verdadeiro para muitos, porque puro.
E esse hino ainda vem não só embalado, mas completado com cada verso tão belo quanto furioso da canção que atravessa e sustenta todo o filme.
Uma canção que é tanto a verdade quanto a desgraça dos amores e realidades juvenis:
“Todos os dias, antes de dormir,
lembro e esqueço como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder
Nosso suor sagrado
é bem mais belo que esse sangue amargo
E tão sério
E selvagem, selvagem, selvageeemmm!”

Desgraça porque o amor, explodindo de paixão, pode queimar até ferir de forma irreversível.
A bateria então acelera a canção. A música vira o filme. O filme, a vida. A vida que é essa batalha de amor, do amor tentar suportar as dores que virão, que já estão vindo:
“Veja o sol dessa manhã tão cinza
a tempestade que chega
é da cor dos teus olhos... castanhos
Então me abraça forte
E me diz mais uma vez que já estamos
Distantes, de tudo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo”

Um dia descobrimos que não temos o nosso próprio tempo.
É o tempo que nos têm.
que nos consome.
que passa
e muita vez nós ficamos.
Parados num tempo perdido.
Cantamos então gritando forte, suplicando
“Não tenho medo
do escuro
Mas deixe as luzes, acesas,
Agora,
O que foi escondido é o que se escondeu
E o que foi prometido
Ninguém prometeu...”

A vida passa, alucinadamente rápida, atropela e derruba muitos.
Os que têm sorte ficam de pé, amparados nos braços que soube manter ao seu redor, no abraço-laço inquebrantável que sustentamos sem o erro das paixões cegas.
Outros tantos sonham. Lembram. Tentam desesperadamente voltar.

E a gente volta, embalados por Aline e Wagner nos cantando essa canção
Nos envolvendo em uma química total que explode a cada encontro
a cada reencontro.
A cada cena desse filme que faz a mais perfeita utilização de uma canção em toda a sua trama que o cinema brasileiro já viu. E olha que o resto da trilha sonora também é TNT pura, penetra nos poros em outras cenas-canções espetaculares como Creep, do Radiohead.

Por tudo isso, mesmo com tantas cagadas que fizemos em nossas vidas, O Homem do Futuro nos lembra que
“Nem foi tempo perdido”.

quinta-feira, setembro 01, 2011

A Artista e a História


Não existe prova mais técnica e requintada no atletismo. Nada requer mais habilidade. Poucas modalidades são tão arriscadas e requisitam tanta coragem nos anos de iniciação e aprendizagem. O salto com vara é a prova dos grandes artistas e atletas cerebrais do atletismo, rivalizando um pouco, talvez, só com o salto em altura. É preciso ter força e velocidade na corrida, uma visão de longo alcance para enquadrar a pista, vara e sarrafo, terra e céu. Não é prova para gente ansiosa e desequilibrada, pois é preciso saber a hora exata para lançar a vara e deixá-la em busca do sarrafo celeste. São anos e anos de ajustes finos nos treinos e muita coragem para desafiar alturas inimagináveis e os próprios limites nas competições.
Fabiana Murer superou todas essas etapas e ainda o violento baque de perder uma de suas varas na Olimpíada de Pequim (sumiram com ela, numa falha de organização absurda), perder a concentração e acabar fora do pódio no desafio máximo de seu esporte, o ouro olímpico. Como os pobres de espírito sempre surgem nas derrotas, Fabiana virou motivo de chacota para alguns pela vara desaparecida que arruinou seu sonho em 2008.
Guerreira, porém, ela seguiu lutando e dois anos depois conseguiu o ouro no Mundial Indoor. Uma competição com peso menor, mas valiosa. A consagração estava chegando, e veio esta semana em Daegu, no Mundial, ao ar livre. Igualou a maior marca de sua vida, 4m85, bateu suas maiores rivais, incluindo a lenda Isinbayeva, e colocou o Brasil pela primeira vez no lugar mais alto do pódio num Mundial em ar livre, que é a conquista máxima deste esporte, perdendo apenas para uma Olimpíada.
Além do talento e esforço pessoal - e de uma tranqüilidade sob pressão e concentração rara para uma atleta brasileira, sempre sujeita às emoções intensas que é nossa grande característica - a vitória de Fabiana passa também por alguns homens fundamentais. Seu treinador desde o começo, Élson Miranda, o homem que a formou no salto com vara e a fez evoluir. E também o super treinador desta modalidade, o russo Vitaly Petrov, simplesmente o cara que criou o mito Isinbayeva, e há algum tempo se dedica a ensinar à brasileira o que separa um grande atleta de um campeão mundial e olímpico. A dupla Élson/Petrov é uma ferramenta poderosa para Fabiana lutar pelo pódio olímpico em Londres, ano que vem.
Destaco também nesse histórico feito do salto com vara (e do atletismo brasileiro, pois é nosso primeiro ouro num Mundial), um homem que ajudou a sedimentar o salto com vara no Brasil. Falo do ex-campeão brasileiro e sul-americano várias vezes do salto com vara e um dos primeiros grandes atletas dessa modalidade no Brasil, o grande Renato Bortoloci, que depois se tornaria o inesquecível treinador Bortô. Quem teve a honra de ser seu atleta, como eu fui no E.C. Pinheiros no final dos anos 80, sabe que a paixão, dignidade, caráter e inspiração do Bortô tem um pouquinho de importância na medalha da Fabiana. Vi então nesse ouro um pouquinho do suor e alma do Bortô, que inclusive, se não me engano, foi quem iniciou o Elson Miranda, treinador da Fabiana, no salto com vara.
Campeões do esporte nesse Brasil que nunca fez nada pela massificação do esporte nas escolas e universidades costumam ser super talentos que brilham por conta própria, verdadeiros milagres. Fabiana, por mais genial que seja, não me parece ser esse caso. Parece mais o produto de um trabalho de amor e dedicação feito no salto com vara há algumas décadas. Campeões precisam de tempo e um longo trabalho em suas modalidades por trás, como é o caso do vôlei e judô brasileiro. O resto são promessas estapafúrdias do nosso Comitê Olímpico, que diz que criará um país olímpico sem investir na base do esporte. Que a história do salto com vara no Brasil e de Fabiana sirva de exemplo.

sexta-feira, agosto 19, 2011

O pior é que ele é a regra

Tudo pelo sucesso. Passar por cima dos outros. Fazer qualquer coisa para alcançar seus objetivos. E esse qualquer coisa envolve qualquer tipo de artimanhas e recursos (falta de?). Este é o José Mourinho do Real Madrid, e também, em menor escala, o da Inter de Milão.
Quando Mourinho percebeu que não ganharia do Barcelona de Messi, Xavi, Iniesta e Guardiola na bola, resgatou uma profissão que não existia no grande Real, um clube orgulhoso de esquadrões que encantaram o futebol jogando um futebol ultra ofensivo e belo. A profissão de capanga.
Uma das poucas vezes em que o bando de Madrid de Mou venceu este Barça maravilhoso ocorreu quando o capanga Pepe entrou em campo com uma única missão: não deixar Messi jogar. Sem eufemismos: enfiar a porrada no Melhor do Mundo sem dó.
O problema para Mou é que nas partidas seguintes, nem as pancadas assassinas de Pepe (não entendo como esse boçal ainda não quebrou a perna de Messi) adiantaram. Então ele reforçou o Bando de branco. Bastou perceber quais seus jogadores de caráter mais frágil e duvidoso. Pronto. O primeiro da lista é Michel Salgado, que começou a distribuir pontapés sem dó.
Não bastou. Então Mourinho percebeu um capanga dos sonhos: jovem, veloz, forte. O brasileiro Marcelo. Resultado? O colocou em campo com uma única missão: arrebentar Fábregas. Quase conseguiu, mas por um dos mistérios do Barça, não quebrou o filho pródigo barcelonista que acabava de voltar pra casa.
Batendo e batendo (e, na sua única estratégia vinculada ao futebol, pressionando o Barça em seu campo), Mou quase conseguiu sustentar um empate com a orquestra de Xavi, Iniesta e Guardiola. Até que Messi, pra variar, colocou um enorme ponto final na violência sem fim do Bando do português.
O mais incrível da história é o talvez maior clube de todos os tempos, o Real, aceitar vender sua alma para vencer o Barça depositando confiança e poder total a um general sem nenhum escrúpulo como Mourinho. E Mou, com seus seguidos ataques de histeria e imbecilidade fora de campo (a última foi sua agressão covarde no assistente de Guardiola, pelo que tomou um revide mais forte que sua agressão, toma!), contagia cada vez mais seus jogadores e não me surpreenderia se até o santo Kaká começasse a dar bordoadas quando entrar em campo.
Até o grande goleiro Casillas entrou no estúpido clima de guerra e deu uma entrevista vergonhosa ao final do último jogo, dizendo que Fábregas, ao ser agredido por Marcelo, "fez cena, como sempre". Por isso foi repreendido por um antigo ídolo do Real, o artilheiro Fernando Morientes. Este condenou não só a falta de sinceridade de Casillas como a postura bélica do Real.
Como bem disse hoje no Jornal da Tarde um de seus colunistas, essa apelação de Mourinho nunca caberia num time de Telê Santana. O jornalista lembra de uma declaração de Junior Baiano, que revelou não ter dado pontapés num jogador do Velez (o baixinho infernal Turco Asssad) que acabou com o São Paulo na final da Libertadores de 1994, porque o técnico era Telê.
O jornalista ainda diz que Mourinho tem muitos títulos no currículo, mas nenhum deles com o brilhantismo, beleza e jogo limpo de um Mestre do futebol como Telê.
O problema é que hoje, os Mourinhos aumentam cada vez mais, no futebol e na vida.
Fala-se muito no Mou “grande estrategista” que superou o Barcelona na Champions League em que venceu com a Inter de Milão. Daquela eliminação, com a Inter se defendendo o jogo todo, e baseando-se apenas nos contra-ataques e pauladas, lembro do comentário do grande Falcão, que era o grande líder do Brasil que encantou o Mundo em 1982, com Telê na direção. “Nunca vi uma retranca tão covarde em toda a minha vida como a da Inter contra o Barcelona”.
Triste é perceber que os covardes, violentos e arrogantes são reverenciados por muitos jornalistas e profissionais de outras áreas como homens de visão e mestres da estratégia.
Mas graças que existem ainda Homens e Artistas como o Barcelona, seu treinador e sua filosofia para mostrar como se pode ganhar com beleza e de forma limpa.
Cada jogada magistral de Xavi, Iniesta, Piqué e cia; e cada golaço de Messi não são apenas uma vitória do futebol arte.
São um foco de resistência dos homens decentes, nobres e corajosos contra a selvageria dos Bandos de Mourinhos e seus genéricos que infestam e dominam outras carreiras e empresas.

segunda-feira, agosto 15, 2011

Ajoelhem-se!

Foi simbólico. De joelho ele marcou nosso gol de empate. De joelhos, comemorou. Mas Rivaldo é tão grande que ele subverteu o sentido de estar de joelhos. Em vez de subjugado e dominado, como estavam todos os seus companheiros em mais uma medíocre atuação do São Paulo este ano (só mesmo o equilíbrio por baixo desse Brasileiro explica estarmos a 2 pontos dos líderes), ele mostrava que estava por cima, soberano.
Ainda tento entender sua comemoração e não me contento com a física, de que ele saiu ajoelhado do lance porque assim marcou o gol e não teve forças para se levantar. Creio mais na mágica do futebol, naquele inexplicável meio místico que ronda e protege os raros deuses do futebol brasileiro de hoje. Sim, deus, porque quem já foi o melhor do mundo e o maior jogador da conquista do Penta (sim, mais que Ronaldo) será sempre do Olimpo. Será sempre o único Rivaldo.
Colocado no banco por Adílson (acredito que queria poupá-lo mesmo, mas pecou nesta escolha porque sem ele o São Paulo vira um time comum), Rivaldo entrou e decidiu. Sim, tomamos o segundo gol com ele em campo, mas logo seus toques inteligentes e precisos começaram a machucar a até então tranquila defesa paranaense. E no finalzinho, sua colocação impecável de sempre, o fez estar onde os atacantes tricolores não tinham a inteligência para estar: pronto para marcar.
E lá foi então o velho Riva salvar o São Paulo.
E de joelhos ele comemorou. Talvez querendo mostrar que quem deve ajoelhar-se na verdade é o seu treinador e todo o elenco tricolor, com exceção de outro deus, Rogério. Sim, elenco do São Paulo, ajoelhem-se e agradeçam por terem o privilégio de ter um dos maiores jogadores da história do futebol ao seu lado.
Escutem o grande lance do Riva na narração da rádio Jovem Pan aqui
PS – Começo a desconfiar que Lucas não consegue aproveitar as lições práticas (toque rápido, passes certos, colocação, calma para decidir a melhor jogada etc) e os conselhos do gênio. Não dá pra admitir a afobação daquela isolada que nosso menino aprendiz deu na última chance do jogo. Toca a bola, garoto! Pensa mais, aprende com o Riva.

segunda-feira, agosto 08, 2011

Colômbia (1) – O povo é a viagem

   A Colômbia é um grande jardim. Não só das pequenas praças, jardins e parques em todo canto, mas de pessoas. Raros lugares e países possuem sintonia tão grande entre lugar e pessoas. Entre um povo e a natureza da qual cuidam com um capricho que é amor.
Um capricho quase inacreditável, porque muitos dos jardins são pequenos canteiros de grama verdinha aparada e flores na rua, ao lado das casas ou pequenos predinhos. Tradução? Os jardins não são escondidos dentro das residências mas sim oferecidos a todos.
Enquanto tantos, nesse mundo egoísta e individualista, guardam a beleza para si, os colombianos semeiam-na, compartilham. Porque assim é o coração desse povo: com fragrâncias variadas, múltiplas, colorido como sua bandeira.
Uma bandeira que ficaria mais exata se mostrasse nela o sorriso, indescritível (é preciso ir lá e perceber a dimensão dele) desse povo que acolhe com a alegria sincera de uma criança que deseja mostrar ou oferecer seu desenho para o pai ou mãe.
Oferecer, este um dos verbos que mais traduz a alma do colombiano, pois eles sempre estão nos oferecendo um sorriso e algumas palavras com uma simpatia genuína. Um simpatia que traduz a alma de um dos povos mais educados que conheci na vida. Ou não é educado um povo em que até os policiais e soldados, quando pedimos uma informação, nos atendem com um “a su merced, caballero” (a sua mercê, cavalheiro). Igualzinho aos oficiais brasileiros... 
Ou não é educado um povo que, em qualquer comércio, é amabilidade pura, com raras exceções como uma das únicas vendedoras secas que encontrei, no único dia em que fui a um shopping... Talvez porque shoppings se assemelham em qualquer lugar do mundo ao esconder e matar  a essência de um lugar, povo e país. Se bem que o shopping que visitei em Medellín tem até um belíssimo jardim e atividades culturais...
Mas volto às flores, onipresentes no bairro onde fiquei, em Bogotá. Quando o verde e os jardins acabavam, encontrava uma área esportiva, com quadras e barras para exercícios. Então as flores viravam pistas de patinação e quadras poliesportivas. E as cores e verde vinham é das crianças e jovens que praticavam esportes orientadas por treinadores. Treinadores na maioria voluntários. Esporte e cidadania, ao lado da rua.
Ou cultura e cidadania, como no incrível evento educacional que presenciei (graças à dica da mocinha da recepção de meu hotelzinho, em Medellín) no Jardim Botânico. Eram dezenas de oficinas de texto, argila, desenho, música, circo etc etc lotadas de crianças aprendendo brincando. 
   Jardim Botânico, Medellín
   Aí lembro do belíssimo Jardim Botânico, do Rio de Janeiro, por exemplo, e nunca soube de um evento para crianças lá. Incrível como os parques brasileiros são subutilizados. O nosso Ibirapuera, aqui em São Paulo, por exemplo, tem eventos incríveis, mas em geral dentro do Pavilhão da Bienal ou da Oca, quase sempre em eventos pagos. Só os shows de música são grátis ou uma ou outra atividade esporádica.
Ainda na cultura, a Colômbia é tão inovadora e bela que construiu bibliotecas enormes dentro das favelas e parques, e podemos ler enquanto olhamos a paisagem, pois não são bibliotecas como as nossas, verdadeiros sarcófagos, mas isso é assunto para outro post.
    Biblioteca Pública ao lado da favela, no morro, em Medellín
   Volto aos sorrisos, e lembro com saudade da incrível hospitalidade do pessoal do pequeno hotel com jeito de casa de família onde fiquei em Bogotá. Toda hora em que saía do quarto recebia sorrisos e palavras calorosas. Bem diferente da simpatia falsa, por obrigação, de muitos hotéis, ali o Juan, o Diego e a inacreditavelmente atenciosa Paulina fazem cada hóspede sentir-se mesmo em casa.
Uma grande casa e lar chamada Colômbia.
Não preciso de paisagens de cartão postal, ou imagens de National Geographic, de tirar o fôlego, para ganhar a beleza, com que sonha qualquer viajante.
Preciso apenas de belezas simples de lugares bem cuidados e de um povo incomparável.
Preciso apenas conhecer um lugar em que o destaque é o calor humano, e não monumentos ou dádivas monumentais da natureza.
Os maiores tesouros deste planeta, para mim, não são lugares. São pessoas. E o que as pessoas fazem desses lugares.
* Dedico esse texto a uma querida aluna que anda meio distante, mas que um dia escreveu um maravilhoso texto revelando o tipo de viagem com que ela sonha: a viagem para lugares e países não tão badalados, porque ela sabe que nesses lugares e povos ela encontrará sentimentos e belezas mais genuínas e secretas. Vá um dia pra Colômbia, Victória, um lugar igualzinho aos seus sonhos.
    Parque Simón Bolívar, Bogotá

quinta-feira, agosto 04, 2011

Pasión por el fútbol

 Para los amantes del fúbol y de las histórias, he creado un nuevo blog, de histórias sobre el fútbol que es pasión. Basta hacer el click en Recuerdos del Balón

segunda-feira, julho 25, 2011

El arte de ser Celeste

No dejen decirles que ustedes son solamente garra. No dejen decirles que ustedes no tienen grandes artistas, del tamaño de otros grandes campeones.
No dejen decirles que esa selección es solamente un equipo bien organizado, donde juegan hombres que están juntos hace mucho tiempo.
No dejen los derrotados y algunos periodistas extrangeros- que no saben ver más allá y más para dentro - intenten disminuir el valor de esa Celeste.

No dejen, porque no es verdad.
La verdad es que no hay hoy, en el Mundo, un delantero tan completo como Luisito Suárez, una tormenta para cualquier defensa adversária, un ilusionista, un inventor de espacios donde no hay, un mágico, un matador implacable frente a frente con los arqueros. En ese grande western que son los partidos de decisión, Suarez es el Clint Eastwood del gol. No duda nunca. Marca. Y, pistolero romántico (¿existe eso en las películas?), tiene el placer de dejar algunos disparos fatales para sus compañeros, como hizo en el último gol. El gol que consagró su amigo y también matador, Diego Forlán.
¿Acuerdante del arte, que empezó ese texto? Forlán es arte puro cada vez que sus piés tocan la pelota. Mirarlo es como volver en el tiempo y revivir aquellos maestros del snooker, que daban sus tacadas con una clase, estilo y fuerza mágicas. Es Forlan también un esgrimista del fútbol, haciendo siempre un gesto casi perfecto de patear la pelota. Como sí fuese un D´Artagnan del balón, no solamente pateas, mata, hace siempre un gran touché!
El destino y la poesía épica que escriben los grandes campeones no podia dejar el mosquetero sin besar las redes en esa Copa América ya mítica. Hicelo dos vezes, porque es um hombre de leyenda, y la leyenda del mayor goleador de la história de La Celeste necesitaba el número 2.
El mismo número, pero en las espaldas, lleva o Gran Capitáin, el General, Ese verdadero Rey Viking. Diego Lugano, El Thor charrúa, un monstruo, el hombre que mira altivo los exércitos enemigos y gritales con todas sus venas: NO PASARÁN! Y, caso lo casi imposible suceda, que Lugano sea derrumbado, los adversários veen El Sucesor del Furioso, veen al también hercúleo, enorme, Sebastián Coates. Solamente pueden desistir y bater en retirada. Pues los defensores uruguayos son como el Obélix de la historieta belga, conocen todo de la arte de resistir. Y tratan a todos como romanos...  (¿Suarez y sus compañeros serian un exército de Asterix???)
Ante un invasor, La Celeste tiene el espírito, el coraje y el arte de las palavras del espartano Leónidas cuando el emissario del rey Dario mandó decirle para bajar las armas, porque Persia tenia tantas flechas que cubriria el Sol. Leónidas, ese grego de alma charrúa, contestó: "Mejor, combatiremos en las sombras".
La resistencia, sin embargo, no es únicamente el arte de Lugano y Coates. Es también el poder de quitar la pelota, es el poder de anticiparse. ¿Quién es mayor, hoy, que Arévolo Ríos, en esa tarea de bravos? ¿No es arte lo que hice en el segundo gol de Uruguay, robando y después regalando su amigo Forlán???
¿No es arte la capacidad de los Pereiras de crear ataques peligrosos en las esquinas del campo?
¿No es arte esa gana de dar el sangre por una simple recuperación de la pelota, como aquella increíble carrera de Ruso para no dejar la pelota salir?
¿No es arte, enseñanza de la vida para el fútbol y para todos, el hecho de que eses jugadores celestes son también amigos, más que eso, compañeros?
¿No son arte las sonrisas del fondo del alma y los abrazos de hermanos que eses jugadores ofrecen para cada uno que viste ese manto celeste?
¿No es arte la emoción de niños que eses hombres demostran en cada partido, en cada gol?
¿No es arte, una verdadera pedagogia del fútbol más humano y bello, lo que enseña el padre de todo eso, el Maestro Óscar Tabarez?
¿No es arte todo ese proyecto que Tábarez empezó seis años atrás?
A los pobres de espírito que no veen más que la eterna vieja charrúa (si, colosal!) en ese Uruguay, no comprenderan nada. Tal vez porque, como enseñó el viejo maestro (Jackie Chan) de la película Karate Kid al hijo de Will Smith, no saben que “no basta ver, hay que sentir”.

Hay que sentir el fútbol - en la piel, en el corazón y en el alma – para aprender todas las lecciones grandiosas de los hombres de Tabárez.
Hay que amar, el fútbol y la vida, para aprovechar las maravillhosas jornadas de esa Celeste, tal vez la más bella campeona de la história de la Copa América.
La más bella porque la más humana.
Porque hecha de jugadores que son hombres nobles y apasionados.
Hombres solidários, que juegan por todo un país.
Gracias por todo eso! (y perdonánme por ese castellano lleno de errores de un brasileño).

"Aunque no sea Uruguayo 
Me emociona ese país de corazón 
Amo el fútbol de los charrúas
Su Equipo que me deja feliz 
Porque pelea con el alma 
Pelea sin temor 
Porque pelea por el País 
y lo hace con amor"  
(Versos de José Eduardo de Oliveira Costa, 76 años, mi papá)

PS - ?No es arte el gol más bonito de toda esa Copa América, el último gol de Uuguay???

quinta-feira, julho 21, 2011

Um surfista de coração

Num meio tão individualista como o surf e, sim, tão alienado (surfar é tão viciante que a maioria dos surfistas não aproveita para conhecer os lugares e povos que visitam), é bacana perceber que existem alguns caras diferentes como o australiano Joel Parkinson. Há anos ele ajuda financeiramente uma senhora sul-africana que conheceu quando ela cuidava da casa onde ele se hospedava em Jeffreys Bay, África do Sul. A senhora limpava a casa, fazia as refeições e, muito mais que isso, oferecia um carinho e uma alegria gratuita com que os australianos que lá se hospedavam não estavam acostumados.
Um dia Thelma, nome da senhora, foi violentamente ferida em um assalto, e ficou impossibilitada de trabalhar. O que fez Joel, lá em 2003? Começou a depositar dinheiro na conta dela para que mantivesse uma vida digna para sua família na favela em que vive a 10 km das ondas perfeitas de Jeffreys Bay. Um lugar chamado Oceanview, mas que não tem vista para o mar.
Além da nobreza do gesto e atitude, as palavras de Joel, explicando a razão de ajudar essa senhora há tantos anos, merecem uma reflexão de todos nós:
"Eu tenho muitos amigos que ajudo mas você não recebe um obrigado, um sorriso enorme, um abraço ou um beijo deles (as). Com ela, você sente como se desse um pouquinho e ela sente como se recebesse o mundo. O rosto dela ilumina mais que qualquer coisa que você possa imaginar e faz tudo valer a pena”, revelou Joel na reportagem do site surfline.com.
Num mundo em que poucos agradecem a ajuda, força ou conselho que recebem em algum momento importante de suas vidas, Joel e Thelma são exemplos raros.
Joel já era um dos surfistas que eu mais admirava fora d´água pela temporada em que deixou de competir em 2 eventos importantes porque sua esposa estava perto de dar à luz. E isso ele fez numa temporada em que era o líder do ranking. Abdicou da chance de vencer o mundial porque queria apoiar a esposa, o amor de sua vida.
Amor parece ser algo mesmo grande demais no peito de Joel Parkinson, um surfista e homem fora de série.
* Mais detalhes desta história no link da Surfline

quarta-feira, julho 20, 2011

A crise moral do esporte brasileiro

A vergonhosa participação da seleção brasileira na Copa América passa, muito, pela crise moral que o futebol e várias modalidades atravessam no Brasil. A crise começa no visual, com muito jogador se preocupando demais com o corte novo no cabelinho, a roupinha descolada e até o headphone mais vistoso e potente. Há também muita brincadeirinha, tiração de sarro e trotes bobos na seleção. Coisa normal, da “alegria” do jogador brasileiro? Ontem o goleiro Julio César revelou que temia pelo desempenho brasileiro nos pênaltis porque ele sabia do fraco aproveitamento nas cobranças dos seus companheiros nos treinos. Treinos de pênaltis que eram mais brincadeiras do que ensaios sérios. Treinos que Mano Menezes nem acompanhava.
O visual é um elemento banal, menor, mas já demonstra uma excessiva vaidade individual. Que Neymar use aquele moicano ridículo, vá lá porque ele se garantiu no Santos ganhando tudo assim (não na seleção...). Quando Daniel Alves imitou o penteado, deu no que deu...
Pior é a falta de uma equipe e espírito de grupo, claríssima na seleção do grupo dos veteranos liderados por Lúcio e no dos moleques, liderados por Neymar e apadrinhados pelo veterano que nunca amadureceu, Robinho. Mas não me venham falar no grupo unido do Dunga, porque grupo unido em torno de uma ideia e estilo imbecil (o tal futebol guerreiro que resultou em aberrações como Felipe Mello), não vale.
Cada vez mais nítida também a postura blasé, fria, com que os jogadores vestem a camisa da seleção. Em campo, a postura blasé vira aliada do individualismo de quererem decidir os jogos sozinhos. E voltando a respeito, eles só demonstram isso por quem lhes pagam fortunas, os seus clubes. Uhn, respeito em termos, porque é um tal de jogador quebrar contrato e fazer chantagem pra ser liberado para outros clubes... Grande parte dos jogadores de ponta brasileiros só pensam em grana, em salários maiores. Mesmo um ídolo amado de uma torcida, Kléber, anda fazendo de tudo para ir para o Flamengo. Amor da torcida? Ele não tá nem aí pra vocês, palmeirenses.
Claro que a culpa não é só dos jogadores. Há também os empresários inescrupulosos que assediam e compram os direitos dos atletas desde que são garotos. Há os dirigentes dos clubes, que não estão nem aí em acompanhar os estudos dos meninos das categorias de base. Todos só querem faturar em cima dos garotos. E não estão nem aí quando 99% deles não dão certo na bola e, como não estudaram, vão se ferrar na vida.
Há também a culpa da mídia, que exalta qualquer um com um pouquinho mais de talento, massageando o ego vazio de nossos jogadores sem a mínima formação educacional e moral.
O mais triste é que o problema não fica só no futebol. O descaso com a formação dos atletas como homens existe até no “tão organizado” vôlei, em que os melhores do país passam longas temporadas concentrados no CT de Saquarema, e a escola que se dane.
E esse desrespeito acontece em várias modalidades. Tenho um grande aluno, cabeça boa, sério, dedicado, grande coração, que simplesmente quase não esteve em sala de aula no primeiro semestre inteiro. Ou estava concentrado com a seleção, em outra cidade, ou estava disputando competições no exterior. Óbvio que os dirigentes do seu esporte não está nem aí para a formação dele num ano-chave, o último do colegial, às portas do vestibular e da escolha de uma carreira. Só querem saber das conquistas do garoto, que vem trazendo grandes resultados ao país. Planejamento da Confederação e organização para respeitar o período letivo do garoto? Zero. Qual o preço que o menino pagará, no futuro, por seu empenho no esporte?
Basquete? Talvez o caso mais claro de falta de respeito com seu país. Os mais badalados atletas brasileiros simplesmente se recusam, seguidamente, a vestirem a camisa da seleção, como fazem Leandrinho e Nenê. E ainda dão desculpas esfarrapadas para não defenderem o Brasil. Gozado que o MVP das finais da NBA, onde os brasileiros jogam (pouco, são reservas de luxo...), o alemão Dirk Nowitiki, nunca deixou de atender a uma convocação da seleção alemã. E disse uma vez que, se for preciso, ele mesmo pagaria o seguro exigido por seu clube na NBA.
Mais da crise moral? Mesmo os diferenciados jogadores de vôlei da seleção, dos quais realmente podemos sentir a paixão e orgulho com que defendem a amarelinha, mancharam suas carreiras belíssimas com aquela vergonhosa partida entregada ordenada por Bernardinho no Mundial do ano passado.
Natação? Sim, Cielo está ainda se defendendo da acusação de doping na China, mas o fato é que, neste século, adivinhem qual o país que teve mais atletas flagrados no exame anti-doping de natação em todo o mundo? Sim, Brasil.
O mesmo doping que fez um verdadeiro arrastão em muitos grandes nomes do atletismo brasileiro no ano passado, incluindo um dos mais renomados treinadores de nossa história.
Até no vôlei de praia somos pêgos agora, como ocorreu com Pedro Sohlberg, flagrado por tomar esteróides. Imagino o desgosto de sua mãe, a grande Isabel, uma das mais valentes e íntegras atletas de nossa história, uma das responsáveis por o Brasil ser hoje uma potência no vôlei feminino.
Tudo isso para dizer que há um descaso muito grande na formação dos atletas brasileiros hoje que resulta em cabeças vazias e individualistas e um vale tudo por resultados (doping, entregadas etc).
Como resolver isso? O pequeno e vizinho Uruguai dá a receita, com seu belíssimo projeto implantado por Oscar Tabarez no futebol, em que os jogadores das seleções de base estudam e são acompanhados por profissionais de várias áreas. Os frutos estão aí, com a Celeste brilhando na equipe adulta e no sub-17 (vice-mundial) e sub-20.
O problema é que basta olhar para o presidente do órgão esportivo mais poderoso do país, Ricardo Teixeira e sua CBF (sua porque ele faz dela o que bem entende) para imaginar ele refletindo sobre a formação do jogador brasileiro. Com sua linguagem chula típica (leiam a chocante, debochada e nojenta entrevista dele na revista Piauí deste mês) ele deve pensar, “que se f...”.
Pensando nas outras modalidades, o poderoso Nuzman e seu milionário Comitê Olímpico Brasileiro (sim, seu...) só trabalha pelo esporte de alto rendimento. Joga a responsabilidade do trabalho de base para o governo e para os clubes (como, se estes, com raras exceções como um Pinheiros, um Minas Tênis, só pensam no futebol?).
O futuro é negro.
PS – A razão das fotos que ilustram esse post? Reparem no uniforme sóbrio, respeitoso e padrão dos uruguaios e pensem na seleção brasileira... Ah, e eles preferem a companhia de um mate (que compartilham) que de aparelhinhos, celulares etc. A outra foto é do jovem Denílson, que volta ao São Paulo depois de anos na Europa e não se dá o trabalho de tirar o bonezinho e o óculos-escuro para posar com a bandeira do clube.
Nunca vi Raí, maior jogador da história do São Paulo, de boné ou óculos-escuro.