quinta-feira, dezembro 25, 2008

A arte de viver


Em meio à tanta vaidade, egoísmo, falta de tempo e interesse do homem em se relacionar com seus semelhantes, é sempre um alívio aprender com eles. Eles, os que primeiro amam, incondicionalmente, e só depois pensam em suas necessidades. Eles, os cachorros. Os nossos cachorros. Para quem quiser começar o ano bem, com esperança e beleza, é só procurar esse livro, "A arte de correr na chuva". A história de um piloto de automobilismo, sua família amada e seu cão mais que fiel é contada pelo próprio ser de quatro patas, o sábio Enzo, um bicho meio filósofo meio criança. O bacana do livro é também as analogias que o cão e seu dono, o piloto Derek - fã do maior piloto de todos os tempos, o nosso Ayrton Senna - fazem entre as corridas e a vida. Curtam abaixo o trailer do livro e levem esse livro pras férias.
Feliz Natal a todos os que enxergam os outros.
PS - Curtam no cineminha, à esquerda ao alto, a arte do mito Senna na chuva.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

O Herói da LDU


Talvez o futebol não mereça mais a pequena LDU e seus heróis. Os heróis que choraram hoje a perda do título mundial de clubes para o ultra-poderoso Manchester United. O Manchester cujos jogadores pareceram não dar a mínima para essa conquista histórica. Encerrado o jogo (1 a 0 suado), nenhum jogador saiu correndo ou abraçou um companheiro. Nenhum jogador gritou, bateu a mão no peito ou desfilou com a bandeira do clube. Os super astros Cristiano Ronaldo e Wayne Rooney (homem que fez o belo gol do título), “celebraram” apertando as mãos, ou dizendo insossos parabéns e obrigados sem alterar o tom de voz. Foi a manifestação mais blasé - sem graça, arrogante – que vi em minha vida no futebol. Talvez esse seja o futuro do futebol mundial: a supremacia dos “profissionais”, dos milionários dos super clubes que amam apenas as fortunas que caem em suas contas bancárias, e não o escudo que defendem. Muito menos o país que defendem, pois que bandeira poderia surgir no palco dos campeões? Da Inglaterra de Rooney? do Brasil do super máscara Anderson, ou do menino Rafael, que deixou o país e o Fluminense com 16 anos?, do Portugal de Cristiano “Máscara da Galáxia” Ronaldo?, da Holanda do goleiraço Van der Saar? Da Argentina de Tévez? E faltam ainda outras nacionalidades no elenco planetário do Manchester. Do belo time do Manchester de toques rápidos e muita precisão, mas um time que não apaixona.
Não me apaixona um time que conquista o mundo e não dá a mínima para isso, talvez porque o Mundial dê muito menos dinheiro do que a Champions League ou o Campeonato Inglês. Não me encanta um super astro que joga muito (mas bem menos que o verdadeiro melhor do mundo, Lionel Messi) mas que é arrogante dentro e fora de campo e ainda ostenta aquele sorrisinho besta a cada falta que acha que sofreu.
Os verdadeiros heróis para mim foram os homens que colocaram a pequena LDU no mapa mundi da bola. Depois da épica conquista da Libertadores em pleno Maracanã, contra o Fluminense, primeiro troféu internacional de uma equipe do Equador em toda a história, Cevallos, Mansio, Bolaños e cia venderam caro a derrota para o super time inglês. Sim, perderam, mas o que ficará de mais bonito nesta final para mim não será a jogada envolvente que resultou no gol de Rooney. Será a imagem do goleiro Cevallos imobilizado junto da trave do gol que defendia, do gol que não conseguiu defender do chute mortal de Rooney. Só, com sua dor, Cevallos ficou minutos encostado à trave. Os minutos que simbolizaram o fim do seu sonho mais bonito. Do sonho mais bonito não só dele mas de todo um país para quem o futebol é uma das poucas alegrias. Assim é em todo país sul-americano pobre.
As lágrimas de Cevallos são também as lágrimas de quem ama o futebol, de quem faz daquele palco verde uma razão de sentir, existir e sonhar.
Cevallos venceu o destino mesmo já um veterano, quando superou os críticos que o davam como acabado e velho antes da Libertadores deste ano para ser o grande herói na conquista da América, pegando três pênaltis naquela final. Hoje ele fez um verdadeiro milagre numa cabeçada de cima para baixo de Tevez e fechava o gol até o chute mortal de Rooney. Era o fim. Espero que no gol, o comentarista da ESPN Brasil, não tenha dito a mesma maldade que disse logo no começo da partida. Após fazer aquela defesaça testada de Tévez, o comentarista disse que ele “não é um mal goleiro”. Poucas frases poderiam ser mais depreciativas como essa. Falta a esses homens da TV que babam o ovo em qualquer jogadorzinho que atue no milionário futebol europeu a humildade, decência e espelho de olharem com respeito para os pequenos grandes jogadores do mundo fora da Europa. Cevallos é sim um grande goleiro, o mais importante da história em seu país. Um dos mais heróicos e inacreditáveis da história do torneio mais duro do mundo, a Libertadores. Por isso suas lágrimas emocionaram quem ainda ama o futebol. Quem ainda acredita que a fórmula milhões + craques sem pátria ainda podem perder para a raça e amor dos pequenos.

quinta-feira, dezembro 18, 2008

Salvadores do Futebol


Buenos Aires ontem, primeiro jogo do triangular decisivo do Campeonato Argentino. Duas torcidas não se calam e cantam sem parar antes do começo do jogo. O estádio é pequeno; o futebol, enorme. O futebol grandioso do San Lorenzo de Almagro, bem jogado, belo, ofensivo. Assim os muchachos de azul e vermelho vão massacrar o surpreendente e pequeno Tigre nos históricos 20 minutos iniciais da partida. Históricos porque os meninos atrevidos e homens destemidos do San Lorenzo vão praticar nesses 20 minutos sua própria tradição: “lo juego bonito” (mais conhecido aqui no Brasil como futebol arte).
O show começa logo nas primeiras articulações de duas peças-chave: o jovem craque Pablo Barrientos, justíssima camisa 10 nas costas e alma e o líder Solari. Se o goleiro rival impede o 1 a 0 com uma defesa incrível após uma cabeçada, ela falhará pouco depois. Se o primeiro gol do San Lorenzo não será bonito, a jogada será. Aureliano e Solari tabelam pela esquerda, até a ultrapassagem de Solari, que ilude um marcador, em bela finta, e tem clareza e liberdade para cruzar. Islas solta a bola e o pibe da camisa 10 não perdoa, 1 a 0. Poucos minutos depois esses salvadores do futebol, os artistas-guerreiros de Almagro (quantos ainda praticam o futebol arte hoje?) seguem impondo sua escola e marca histórica de toque de bola. Impõem seu jogo de equipe que permite pequenas explosões individuais. Ocupam cada espaço e pressionam o adversário como um sonho que prende a atenção e paralisa quem está sonhando, na verdade, tendo um pesadelo, pobre Tigre. Assim cresce a música de Almagro, numa melodia de belas jogadas que vão ganhando intensidade e ao mesmo tempo emitindo pequenos solos maravilhosos de jogadores que escapam pelas laterais do campo em alta velocidade e habilidade.
Mais rápido e artístico é o menino craque, Barrientos, que recebe pela direita e pulveriza o marcador com uma finta e drible que orgulharia não só Maradona mas como o próprio deus do drible, Garrincha. El pibe mágico avança, levanta a cabeça e faz um cruzamento que só os grandes são capazes de fazer. Enquanto 9 entre 10 jogadores iria apenas mandar a bola para a área, o garoto dá um tapa forte na bola, dá um passe para a entrada da área. Ali ele percebeu a chegada de um companheiro, numa zona perigosíssima para o adversário: a entrada da área. Como o garotinho que joga um Jorgito (alfajor) para seu melhor amigo, Barrientos serve o matador Bergessio com açúcar. E como Bergessio também honra um clube que é arte pura, ele vai pegar a bola no ar e bater com precisão de pintor a dar o último e vigoroso toque numa obra de arte: coloca com força, de primeira, golaço, San Lorenzo, 2 a 0.
Depois foi só cozinhar a bola e se poupar numa infernal tarde de 36 graus para esperar o jogo acabar. Porque domingo é o dia da verdade contra o Boca. Pena que podiam ter goleado e acabaram até tomando um golzinho do Tigre. Mas domingo (18 e 30, ao vivo na Sportv, não percam!) é o dia da glória do fabuloso futebol do San Lorenzo!

(Texto dedicado a minha ex-aluna e artista de contos encantados, Gabriela Dorado, que está lá, morando em Almagro, e torcendo muito pelo San Lorenzo, clube da sua família, que aprendeu a amar. E essa história tem que acabar domingo, pois dia 23 ela volta ao Brasil).

terça-feira, dezembro 16, 2008

A última chama dos anos 80


Oceano, luz dourada da aurora ou entardecer. Um homem a remar. A participar desses que são os mais belos momentos do dia. Momentos em que a luz do sol é vela, a assoprar a beleza de cores tão delicadas quanto o conforto de uma luz quase abraço, a envolver-abençoar esses seres românticos que estão vivendo nos instantes fundamentais: do dia que nasce e da noite que cai.
Quantos estão acordados logo cedo realmente observando de corpo e alma preparados e dispostos nesses tempos de baladas que começam de madrugada e varam a manhã?
Quantos sentem o sol a nascer de cara limpa, sem falsas viagens?
Quantos se entregam à noite para se divertir e sentir mais (nas sombras encontramos a luz das pessoas que não se escondem) sem precisar de balinhas, ervas e outros aditivos?
Quantos percebem mais um dia que se esvai enquanto dão o sangue no trabalho ou viram a tarde largados, desperdiçando mais uma jornada?
Lembro de minha adolescência carioca e do dia em que descobri o pôr-do-sol de Ipanema e aquela galera reunida batendo palmas. Isso ainda existe, meu caro amigo, Deko?
Adolescência carioca? Não, não morei no Rio, mas todo ano íamos em um bando de amigos da escola pra curtir o feriadão de outubro e novembro no Rio. E aqueles feriados valiam como anos, porque pertencíamos talvez à última geração que ainda saudava a vida, a dos anos 80. Os 80 não tão culturais, rebeldes e libertários como os 60 e 70, mas que foram tempos tão alegres, espontâneos e também ricos (Cazuza, Lobão, Blitz, Paralamas, Legião; Flamengo de Leandro, Júnior, Adílio, Nunes e Zico; Corinthians de Biro-Biro, Sócrates, Zenon, Casagrande e Vicente Matheus; Brasil de Telê e um monte de gênios; São Paulo de Careca, Muller e Silas; povo nas ruas pelas Diretas Já, abertura pela democracia etc etc).
Porque a gente valorizava demais a aurora e o crepúsculo. Porque a gente fazia festinha na casa dos amigos toda semana, porque a gente morava em casas, porque a gente namorava firme (mas “dançava” nos bailinhos com todas); porque a gente viajava junto, dez, vinte de cada turma da escola; porque a gente tinha uma turma na escola e não esses mini “grupos” de três ou quatro das escolas de hoje; porque a gente não jogava vídeo-game; porque "nossos emails" eram tardes de rolê na rua e bolo de chocolate na casa dos amigos; porque amizade era coisa fácil, e amor, fundamental, era o que mais sonhávamos.
A coisa fundamental ainda persiste em raros, como o jovem Rodolfo, que poucas noites atrás, enquanto seus amigos só falavam em putaria, sexo fácil e descartável, ele se virou, xingou todo mundo e afirmou que “o que eu quero mesmo é um romance!”.
Pelo menos ainda tenho o surf e esse raro lugar, o oceano, onde ainda posso ver o sol nascer (a esperança) e a noite (medo, a vida ficando pra trás, correndo rápida, “depressa demais” como diz o roqueiro louco Lobão) chegar.
E ainda consigo acreditar que uma grande mulher, simples e bela como esses instantes mágicos do dia, ainda vai chegar feito uma canção do Paralamas.
Mas, como a vida ensinou, espantemos as pirações, porque não há nada nada mais maravilhoso que viver e fazer de cada amanhecer um coquetel de brincadeiras, sonhos, cabeçadas na lousa, tapas na orelha carinhosos, palavras, canções e filmes compartilhados em meu "trabalho" como professor; esporte feito com tesão e por terapia, palavras e palavras lidas e escritas, aqueles abraços dos amigos, solos de guitarra, gritos com a alma e o amor pelas mulheres com a mesma lei do sábio Rodolfão: com romance.
Salve, salve, sol e noite!!! Salve, vida e, lembrando outro sábio, o Gutão, “Barbudo!!!!!!!!!!! Manda umas ondas pra gente!!!!! Gozado que toda vez que o louco gritava assim (chocando a galera estranha no pico), acho que Netuno ficava com dó do maluco e não é que vinha onda?!
(08.11.2005)
(Hoje, três anos depois desse texto, o Gutão já mora na praia há alguns anos, virou professor de Educação Física e graças à indicação dele passei todo este 2008 dando aula no litoral pra uma molecada sensacional e ainda pegando onda toda 2a. feira depois das aulas. Pena que a escola acaba de fechar e o sonho de trabalhar na praia foi interrompido. Que Netuno dê uma força, pô, Barbudo, descola outra escola pra mim na praia!)
* PS - Curtam o rock brazuca anos 80 na barra lateral do Cineminha, o 2o. e 4o. vídeos dão uma bela retrospectiva!

segunda-feira, dezembro 15, 2008

A marca e a farsa


Ronaldo, o ex-fenômeno, no Corinthians, é mais um pontapé por trás nos que ainda amam um futebol do passado que quase não existe mais. Aquele futebol em que muitos jogadores ainda amavam a camisa que defendiam e diziam a verdade em vez de criarem factóides marketeiros. Óbvio que a contratação do ex-jogador é um ótimo negócio, uma ótima marca a ser bem explorada pelo departamento de marketing do Corinthians. Mas o que não se revela é que Ronaldo não jogará como antes, não fará gols como já fez, não será o ídolo e fenômeno que já foi. Não é só por seu peso muito acima do normal (chocante na sua barriga e até rosto ultra-inchado), mas também pelo histórico de seguidas terríveis contusões e operações no joelho. Uma coisa foi ele se recuperar do joelho estourado quando ainda tinha 26 anos e ainda precisava provar que era realmente um fenômeno, antes da Copa de 2002. Outra coisa é fazer isso depois de consagrado, depois de se tornar mais uma celebridade envolvida em farras e escândalos sucessivos, depois de chegar aos 32 anos gordo, baleado e sem a disciplina, humildade e cabeça necessária para ser um atleta de ponta de novo.

O pior é ler e escutar a condescendência e covardia da maioria dos jornalistas, que afirmam que o negócio é arriscado mas que talvez dê certo... que talvez Ronaldo volte a encantar. Balelas, mentiras. Poucos nomes decentes da mídia, como ex-gênio Tostão (leiam seu artigo na Folha de S. Paulo de ontem) tiveram a coragem de afirmar que isso não dará certo, que é um negócio feito pra faturar em cima de torcedores ingênuos ou desesperados que, felizmente, não são todos. E isso, quando o marketing é usado pra vender uma mentira, é uma tremenda sacanagem. É jogo sujo mesmo. Pobres dos corinthianos que ainda acreditam em Ronaldo ou no presidente Andrés Sanchez, aquele mesmo que sempre foi parceiro de Alberto Duailibi...

Triste também é a cara de pau do Ronaldo que chegou afirmando que é mais um louco no bando de loucos dos torcedores corinthianos. Usou uma expressão de amor dos alvinegros pra se dar bem, prometeu-jurou uma identificação com o novo time que ele nunca teve. Ou alguém já esqueceu que ele sempre se jurou flamenguista de coração??? O mesmo Flamengo em que ele se recuperou (?) da última operação e que depois abandonou por uma proposta milionária do Corinthians. Hipocrisia pura, como os jogadores que por exemplo fazem gols no São Paulo e correm pra torcida fazendo o símbolo da selvagem e assassina Torcida Independente, pra ficar de bem com a arquibancada. Como os jogadores que fazem gols e beijam o escudo e na temporada seguinte já foram embora, e se defendem usando a covardia do "sou profissional".

Triste também a declaração do médico do Corinthians de que em um mês Ronaldo estará em forma. Todo mundo que conhece um pouquinho de futebol sabe que Ronaldo jamais entrará em forma de novo.

Graças que ainda há raras vozes decentes na mídia, como a do jornalista Júlio Maria, do Jornal da Tarde, que falou a verdade, mas não no caderno de esportes do jornal, mas sim no de Variedades em que ele trabalha. A seguir, trechos das palavras do corinthiano Júlio, que ficou feliz ao receber o seguinte depoimento do porta-voz da Gaviões da Fiel, depois de perguntar se a torcida ia fazer alguma música pra receber Ronaldo:

"Não, cara, a Gaviões não faz música pra jogador, só faz música para o Corinthians. Vamos receber muito bem o Ronaldo, mas ele ainda não é um ídolo nosso. Um jogador tem que jogar muita bola pra virar ídolo no Corinthians".... Contra todas as capas de jornais que vendem Ronaldo com a festa necesária para se vender jornal, contra a direção de um clube que reconhece ter comprado uma marca, não um jogador... ouço da arquibancada um lampejo de lucidez que jamais esperava ouvir... Eles não acreditaram nas imagens e nas manchetes, não acreditaram no populismo ronaldiano que mandou avisar que ´está chegando mais um louco´...

O Corinthians e Ronaldo, a marca, sabem que Ronaldo, o jogador, não joga mais bola há um trempo e não é agora que vai sair faceiro correndo como lebre pelos gramados. A carreira de Ronaldo acabou, mas até Ademir da Guia colocaria as chuteiras de novo se lhe oferecessem tanto dinheiro.

A postura da torcida, ao dizer que não aceita um ídolo só pelo seu passado, será a salvação do Corinthians...", escreveu Júlio.


sábado, dezembro 13, 2008

You can dance...


Poucas canções são tão felizes como essa. Poucas emitem essa vontade de apenas erguer os braços e celebrar a vida. Poucas que falam em "dançar" referem-se a esse dançar pela vida. Dançar com a alma. "Dancing Queen", som antigaço dos suecos do Abba, é um daqueles clássicos essenciais em qualquer festa e deveria tocar sempre que precisamos de um pouco de alegria. Alegria para lembrarmos que a vida pode se resumir em uma canção, uma dança e alguns sorrisos inesquecíveis. Curtam essa música que é uma terapia e guia para os que gostam de viver. Bono, a grande alma do rock and roll, sabe alimentar o espírito, sempre soube. Sabe que "you can dance, you can dance and have the time of your life"...


* Espero que gostem da casa nova do Pão na Chapa, com mais recursos (como os videozinhos no canto esquerdo e o set list, que reúne textos afins: por exemplo: os textos sobre surfar a vida e surfar no mar tão no link "ondas da vida"; alguns textos que usei em minhas aulas, ou criei pela emoção das aulas, estão em "aulas e afeto"; e por aí vai)

** Além dos posts novos, vou resgatando e arquivando no novo Pão na Chapa os textos velhos, reparem sempre se há uma data no final do post, entre parênteses, quando tiver, é um post antigo)

Cutback


Guarujá, verão de 1994
U
m, dois anos depois? O tempo não significa nada diante dos amigos de infância que estudaram, cresceram, viajaram, viveram e surfaram juntos tantas vezes.
Pleno domingão de feriadão e segundo turno da eleição municipal e lá estavam os dois de novo pegando a estrada cedinho. Chegando lá, a primeira providência é a velha Bono chocolate e um pão de milho com requeijão para sustentar o moedor de carne [corpo de surfista depois de um dia de ondas]. Mais um pouco e um momento fundamental, sempre uma grande torcida: como estará o mar?

Ondas pequenas. Eu já ia desanimando, mas o velho Português, sábio lembrador das manhas e segredos de nosso pico, enxergou algo mais, “não, tem umas ondas, e tá formando legal”.

Logo estávamos lá fora, logo pintaram as primeiras paredes, límpidas, belas, vestidas de um mágico verde azulado, a cor da inocência e das nossas melhores lembranças.

Lembranças, incrível que depois de 15 anos de surfe junto do irmão da vida [aquele tipo de amizade eterna só possível com os anos de convivência na escola e, sobretudo, nos papos nas tardes fora dela], são sempre as mesmas. De amigos e amigas, de paixões e viagens, sobretudo daquelas pessoas especiais de um tempo e colégio que não voltam mais.

Pausa no álbum de fotografias e momentos marcados com tanta força [mesmo depois de tantos anos, como é possível?], recordados lá atrás, onde o silêncio, paz e verdade do mar nos lembram apenas o que é inesquecível. Pausa para o presente, essa explosão de energia, inspiração e desabafo chamado surfe.

Pausa para o moderno, para minha incrível pranchinha nova, tão mais veloz, controlável e capaz que minha velha companheira de tantos anos. Duro perceber, mas romantismo nessa hora é besteira: por que perdi tanto tempo com minha prancha velha? Inacreditável a evolução instantânea que me está me permitindo essa menina nova, verdadeiro brinquedo maravilhoso de descobrir e inventar novos caminhos e movimentos nas ondas.

Vem uma das melhores ondas da manhã e engato uma velocidade jamais imaginada, e no caminho tá o brother, gritando, incrível como não dá vontade de sair, caraca, quase o atropelo e ainda brinco com o idioma dele, usando o sotaque e palavras portuguesas, “car..., lá vinha o gajo voando totalmente fora de controlo”...

Foi então que o Português disse a palavra mágica, rindo, “pensei que você ia VIRAR”...

Incrível, eu estava curtindo tanto o excesso de velocidade, que simplesmente tinha esquecido o tão vivo e energizante cut-back, a curva para o outro lado, que nos permite cortar a onda e depois voltar de novo para a parede que se abre, formando um S maravilhoso de baixo para cima.

E lá fui eu, na próxima menina perfeita [é, brothers, tava pequeno mas com aquela formação clássica, verdadeiro playground para longos passeios marinhos], dei aquela virada e voltei na maior tranquilidade!, que equilíbrio tem essa prancha!
CUT-BACK! O corte para trás, a virada para o passado, sem perder a conexão com o futuro, para a nossa onda que está arrebentando na outra direção. Não é isso o que rola em toda session como essa, sagrada, com um irmão da vida? Não é isso o que significa lembrar quem foi tão importante e imaginar se ainda pensam na gente como pensamos?

Cutback! A manobra e as recordações ficam ainda mais poderosas nas palavras do Português, um cara que consegue guardar ainda mais lembranças que este aqui. Claro, o cara é português, o povo que criou a palavra saudade...

Fim do surfe, estrada de volta e o lusitano começa a gritar quando o som do carro despeja aquele bom e velho Metallica tocando peso e melodia, fúria e delicadeza [segredo dos mestres do rock] do álbum preto. Resgata um antigo ritual de “dois jovens indígenas de anos atrás”. Resgata a vida em um de seus momentos mais significativos, um simples bate-volta para surfar.

Mas a vida continuou e dá uma inveja gostosa quando ele fala da filhinha. Quando ele fala o que é ter o grande sonho de minha vida.

Um dia ainda escutarei a frase mais esperada: “boa noite, papai”. Porque se o português pirou em um lance, “não tem uma música do Metallica que chama Don´t give up?”. Não, respondi, mas ele acertou ao aconselhar a canção que só ele conhece.

Don´t give up. Não desista. Jamais.
(o2/11/2004)

Para ver o céu


Minha "filha" me perguntou como eu conseguira escrever bonito a partir da simples observação dela tomando chuva. Bom, posso ser meio exagerado, já até me disseram que sofro da doença de “sentir demais”. Virtude de coração ou defeito de peito frágil ? A verdade é que nós, o românticos e sonhadores incuráveis, podemos amar e sermos felizes demais, e sofrer como ninguém. Isso não tem cura [tá, a vida ensina...], mas o que escreve nossos textos, é apenas o amor. E esse - quando munido de pincéis, canetas, teclas de computador etc – pode pintar as telas mais expressivas. Exageradas? Não, verdadeiras. Sim, você deveria se esforçar para escrever também, mas talvez sua poesia seja outra: aquele abraço de verdade que está me devendo.
Mas está bem, vou lhe dar então um poema de presente. São versos encantados do americano William Blake, que ensinam muito sobre escrever bonito a partir da observação. Tenho certeza que você, com esse olhar tão belo e expressivo, conseguirá se expressar [escreva, por favor] depois de ler e viajar em cima dessas palavras:
To see a world in a grain of sand
and a heaven in a wild flower
hold infinity in the palm of your hand
and eternity in an hour

[Para ver o mundo num grão de areia
e o céu numa flor selvagem
abrace o infinito na palma de sua mão
e a eternidade em uma hora]

P.S. E vocês, meus leitores, conseguem enxergar o mundo num grão de areia? O que vocês vêem?

Namorada nova


Namoro, relacionamentos? Sou das antigas, todos sabem. Minha época já tinha esses lances de “ficar”, mas não com o vazio e jeito descartável que rola hoje. Parece que virou esporte [sem a paixão envolvida em várias modalidades]. Talvez por isso tenha passado os últimos anos junto de minha mulher pura, toda branquinha, delicada e suave, 6´4 de altura. E foram anos maravilhosos de muitas ondas incríveis que ela me permitiu experimentar, em belos caminhos-carinhos que descortinávamos juntos.
Sim, éramos apaixonados, e viajamos o país curtindo o tão belo e intenso romance do surfe.
Pena que o tempo, esse malvado, sempre passa. Ela foi perdendo aquela cor e textura tão gostosa da pele, foi perdendo a suavidade e precisão com que abraçávamos juntos as ondas mais incríveis. Pior, foi sendo machucada, ganhando algumas cicatrizes que foram comprometendo seu corpo antes perfeito como uma de linda beldade da juventude.
Triste foi vê-la amarelada, velhinha, machucada, algumas vezes, juro, até escutei gemidos de dor. Porque uma prancha tem, sim, vida. Que escultura de arte não tem vida?
Vida útil? A dela já tinha passado há muitos tempo.
Deveria tê-la trocado há milênios, para eu mesmo poder evoluir mais rapidamente no surfe.
Abandono. Tive sessions mágicas nos últimos dois anos com uma prancha que roubei um pouco do amigo Pimenta, uma super gata azul. Mas não é que em pleno outside, às vezes meu coração apertava porque ficava com pena da minha pranchinha que abandonara em casa, largada encostada na parede.
Não aguentei e voltei a passear com ela.
Mentiroso. A enganava em muitas tardes em que varava as surf shops de São Paulo à procura de uma namorada nova.
Até que há algumas semanas, meus olhos se perderam de novo.
Uma jovem mais baixa, 6´2, mas de curvas também delicadas, e tão bela em sua pele amarela-ouro com mechas alaranjadas... Suspirei. Finalmente encontrei o que procurava. Tá, ela pode ter a cintura-borda um pouco recheadinha, mas vejo isso apenas como o charme de minha gordinha.
Sim, já está aqui em casa.
Esperando pelo primeiro beijo, porque o surfe não é como o namoro dos seres humanos.
O primeiro beijo e sexo feito com amor, só vai acontecer quando pudermos nos deitar juntos nas ondas de minha praia amada.
Enquanto o dia não chega [com essa chuvinha chata não vai dar, ela merece o céu azul e o sol dourando sua pele], apenas a admiro, deitada em minha cama. Como se fosse um moleque descobrindo os encantos da primeira namorada.
Não são os surfistas os únicos que conseguem parar o tempo com seus corações de Peter Pan? Que conseguem, sempre, amar como da primeira vez?
Ela é linda. Minha amarelinha dourada, prancha do sol.
(15/10/2004)

sábado, dezembro 06, 2008

A onda perfeita



[Um ex-aluno, futuro jornalista, me pediu para dar um depoimento sobre o que é dar aula, para uma reportagem sua. Tentei então esse texto.]
Dar aula? Sobretudo é ouvir e aprender, se importar. Existem professores de Redação que apenas lêem e corrigem a gramática e forma dos textos. Esquecem o mais importante: ouvir os corações por trás dessas palavras. Ouvir corações? Que outro professor recebe vidas desnudas, esperanças, medos e sonhos, alegrias e tristezas em folhas de papel?
Sim, é delicado nosso papel, talvez responsabilidade demais ter um pouquinho de vidas depositadas em nossas mãos. Mas temos que ter a coragem de conversarmos com os alunos através dessas mesmas redações. Tradução: atenção. Por isso, não corrijo apenas, procuro sempre deixar um comentário para o aluno. Às vezes incentivo um talento, às vezes apenas tento demonstrar um abraço - um “conta comigo” – se percebo tristeza ou medo. “Ah, os alunos devem superar seus medos e problemas sozinhos”, dirão os céticos. Mas não custa nada, e creio ser fundamental, apontar alguns caminhos ou alternativas.
Vital também é dar forças e encontrar qualidades [todos têm!] naqueles que têm maior dificuldade em escrever. Onde algum outro poderia encontrar apenas erros gramaticais e talvez um desenvolvimento precário do texto, se enxergo um pensamento maduro, consciente ou um belo valor, valorizo isto demais. Porque são poucos os que tiveram a facilidade de ter pais amantes da literatura e da leitura. E também porque, às vezes, num texto mal escrito, mas sentido com beleza, força ou indignação [ou tudo isso junto], podemos aprender e nos emocionar.
Aprender. Um professor que não aprende a cada aula com seus alunos está na profissão errada. Como fazer isso? Escutando, dando oportunidades, chegando perto daquele que quase não fala [mas que grita com os olhos] e pedindo, sem alarde, que se exponha.
É preciso fazer das aulas atos religiosos. Não, não falo em sermões de missa, e sim no aspecto sagrado da comunhão. Precisamos todos, professor e alunos, comungar do mesmo objetivo: aprender com respeito, atitude, amor e muita, muita garra. Aí está o lado sagrado da educação em que acredito. Chega através de aulas dinâmicas, alunos entusiasmados, discussões acaloradas sobre temas relevantes e no final, o silêncio da hora de escrever. Pronto, acontecem assim belos momentos, até inesquecíveis, tão cheios de sentido e criação.
Aulas como essas, que acontecem tantas vezes!, me dão a sensação de estar lá fora no mar, esperando as ondas enquanto converso com um amigo de vida toda. E como surfo, enquanto escuto as palavras dos alunos nos debates ou leio seus textos. Encontro em sala de aula a tão sonhada onda perfeita.
Essas são as aulas em que acredito, cujo símbolo maior que encontro é um ato que comecei a fazer por necessidade de me posicionar na mesma altura que meus alunos, que estão sentados: quando me chamam - olhos brilhando de curiosidade, querendo dizer algo ou apenas pedindo ajuda para um início de redação – não peço, algumas vezes, que venham até a “mesa do professor”. Vou até lá, me agacho, ou me ajoelho e dou uma respirada, mirando seus olhos. Nessa posição, eu e eles parecemos aprender juntos. Por um texto, sentimento. Por um significado. Pela vida. Aos alunos com carinho.