terça-feira, janeiro 25, 2011

O homem de papel

Margens do Rio Paraná, Rosário, Argentina, janeiro. O rio segue belo, amplo, verde, silenciosamente valente correndo em direção ao mar. Belo porque é a grande vista da cidade, seu respiro. O problema é esse: Rosário antes não precisava deste respiro, desse alívio. Porque esta era a “ciudad para se vivir”, pela excepcional qualidade de vida que suas amplas áreas para o lazer e esporte proporcionam, às margens do rio. Não me parece mais se inserirmos na equação do viver algo vital para mim: o calor humano do povo . Os rosarinos já me parecem não ter a simpatia de antes, ou eu é que não percebia isso pela paz que o Paraná me dava. O caso é que o rosarino típico está mais apressado, dá informações tão rapidamente como se quisesse se livrar logo de quem lhe pergunta. Outro indicador de simpatia em queda é o tratamento frio no comércio, em especial na hora das refeições e nas lojas de qualquer coisa.
Assim, desanimado, estava meu estado de espírito, enquanto olhava para o rio (como um surfista pode ficar em paz num rio se o temor maior desta espécie é justamente uma água tranqüila? Bom, isso já expliquei num post antigo). Eis que aproxima-se um pescador e sua sacolinha de tralhas úteis para a sobrevivência.
Sabe como é a desconfiança típica de um paulistano, né, ainda mais quando o cara perguntou se eu tinha cigarro ou um baseado. Eu já me preparava para sair dali quando o cara começou a perguntar de eu onde era e percebi sinceridade quando ele disse do parente que tinha ido pro Rio, “deve ser muito bonito lá, né?”, me perguntou.
Foi então que troquei ideias com o pescador que na verdade era cartonero (catador de papelão e coisas, o nosso carroceiro). Foi então que ele sacou o seu maior tesouro, que começou a me mostrar todo entusiasmado: uma revista das mais caras, mas com belíssimas fotos e dicas de lugares especiais na Argentina e Chile.
Foi bacana ver a alegria genuína deste legítimo representante do povo argentino mais carente, da massa mesmo, ao revelar que já estivera em alguns desses lugares, ou perceber o sonho dele em conhecer esses lugares bonitos. E bacana foi ver como tratava aquela revista como uma jóia, muy rica, como ele afirmava.
Aqui divago um pouco sobre a joia e a sensação que só o papel provoca. Em tempos de internet, i-de-todo-tipo e livros eletrônicos, só o papel tem esse feitiço e portabilidade democrática e segura de ser levada a qualquer canto. E como alguém pode se dizer um leitor sem ler no papel um jornal ou revista importante (elas ainda existem entre o lixo fascista ou vazio das vejas e caras que se proliferam)? Não pode, porque a leitura no papel é muito mais ampla do que a na internet. Eu digo a leitura de um jornal ou revista por vez. O jornal em que lemos um caderno de cada vez, e não os poucos links de algum caderno que lemos na net. É fato: quem lê no papel, lê muito mais, porque ninguém consegue ler muito sentado desconfortavelmente na mesa de um computador e olhando para uma tela cansativa. E façam um teste: quantos compradores de i-Pads leem mais uma edição virtual que o leitor da boa e velha edição em papel?
Ali, em Rosario, do pequeno tesouro daquela revista que o cartonero achou no lixo, o papel - que muito moderninho e/ou hiper consumista quer matar porque prefere gastar muito dinheiro em aparelhos novos – voltou a mostrar seu valor.
Mas valor maior mostrou esse homem do povo, que me ofereceu um papo profundo sobre a economia e sociedade argentina, as mulheres (que o deixaram e a de hoje), Brasil e lugares para se conhecer. Ah, só me lembrei de fazer a pergunta fundamental entre homens da maior parte do mundo no final. Uma pergunta tola em se tratando de Argentina, porque para a esmagadora maioria dos homens do povo de lá, a resposta é a mesma:
- Qual o seu time do coração?
Ele dá uma risada, a resposta só poderia ser uma:
- Boca, por supuesto!
- La mitad mais uno!, devolvo para a satisfação imensa dele com o lema do clube mais popular de nossos hermanos.
Despedi-me do homem de papel mas antes de ir ele ainda me surpreenderia com sua consciência e conhecimento político. Ele diz que está com a presidenta Cristina – “os Kirchner foram os melhores para o povão”, sabe do complô dos grandes produtores agrícolas com a extrema direita argentina. Sabe até que o maior jornal do país, o Clarín, é da direita, e que sua dona tem como filhos duas ex-bebês arrancados de seus pais, porque seus pais desapareceram na mãos da ditadura militar. Pior, esses dois filhos foram comprados pela empresária. Pior ainda: esses filhos não querem saber quem foram seus pais. Preferem a fortuna e o conforto que têm hoje em vez de descobrir qual o sangue e classe social que lhes deu a vida.
Depois disso, parti, e lá ficou o homem de papel, um dos poucos seres humanos que salvaram a simpatia em baixa deste lugar que já foi maravilhoso, Rosário.
* Além do homem papel, teve a moça da loja de roupas e os três figuras da livraria mais humana da cidade, bem diferente dos mal educados e antipáticos atendentes da rede Ateneo, mas isso é assunto para outro post. E claro, os taxistas apaixonados por futebol.
PS - Quem quiser ler outro texto, mais antigo, sobre a dignidade de um catador de papelão argentino, leia o segundo texto do link abaixo:
Sobre a dignidade

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Ciclovia de araque


A Ciclovia do prefeito Kassab estreou ontem em São Paulo do Parque Villa Lobos até Moema, 10 km só para as bikes. A ideia é boa mas a concepção uma piada ao funcionar apenas aos domingos. Tá, bacana poder pedalar tranquilo no domingão sem esses motoristas doentes e mal educados de Sampa, mas pensando em cidadania, alternativa de transporte e respeito ao meio-ambiente é um minúsculo paliativo, quase inútil.
Motivos? O impacto contra o trânsito é zero. A melhora da qualidade de vida também é zero, ou até mais baixa. Explico: quem for pedalar apenas uma vez por semana, nos domingos da ciclovia, não melhora em nada a saúde, pois qualquer atividade física precisa ser feita pelo menos três vezes por semana para trazer benefício ao praticante. Imagina o cara que passa a semana trabalhando feito louco no escritório e domingão vai pedalar a ciclovia toda... A chance do maluco ter problemas físicos é grande.
Aliás, isso é uma ciclovia coisa nenhuma. A prefeitura colocou é faixas nas vias normais de veículos. Por isso que não é nenhum absurdo o comentário distraído do meu pai: “isso é um corredor de ônibus novo”. Ciclovia de verdade tem que ser CONSTRUÍDA. Falando nisso, que fim levou a ciclovia de verdade mas mal feita que acompanha os trens na Marginal? Mal feita porque tem uma entrada aqui e outra na casa do.... Kassab prometeu que até o fim do ano (de 2010...) estariam prontas outras saídas e entradas (Cidade Universitária, Pinheiros, Villa Lobos etc) e elas não saíram das promessas. Aí ele resolveu comprar um monte de tinta vermelha e branca e pintar as faixas dessa ciclovia de mentirinha.
Dá pra levar a sério uma "ciclovia" aberta só aos domingos???
Ciclovia de verdade funciona todos os dias, como acontece, por exemplo, em Bogotá. É, galera, na Colômbia que tem muito menos dinheiro que nossos governos mas lá os melhores urbanistas trabalham com muita eficiência pelos cidadãos. E é óbvio que a nova ciclovia do Kassab nunca poderá funcionar todos os dias, porque senão a cidade para de vez.
Gênio...

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Viajando na praça

Buenos Aires, meio da tarde. O sol reina no meio das torres da catedral. O sol queima. Não só ele. Na praça diante da catedral é a vida que é acendida em suas chamas tão fortes quanto simples. Porque aqui, nessa praça, tudo parece mais vivo.
Ouvem-se vozes conversando. Charlando, como dizem os argentinos. Ouvem-se crianças gritando, porque estão brincando de verdade: com bolas, no parquinho, com carrinhos etc.
Ouve-se a batida seca dos skates queimando energia e obstáculos porque garotos inquietos têm The Doors nos pés, come on baby, light my fire.
Ouve-se o silêncio dos que leem compenetrados, porque barulhos externos não invadem a mágica da leitura de obras que fazem imaginar, pensar, sonhar.
Volto ao calor, nítido nas belas moças tomando sorvete, passeando, namorando. O fogo não se apaga nem na senhora que ao me ver pegar uma parte do jornal, sobre a mesa do café, corre a me dar o resto, porque não queria que eu ficasse sem ler tudo. E as páginas que ela me entrega são justo sobre Clint Eastwood, “o último dos clássicos” segundo este jornal, que aborda seu último filme, que narra, ao que me parece, a vida dos que chegaram perto do fim e sobreviveram.
Fim? Um viajante, mesmo na Buenos Aires trágica dos tangos e do habitual pessimismo portenho, é sempre um dos mais vivos dos seres.
Muitos podem achar esse relato distante de uma viagem emocionante, mas a alma humana não precisa de grandes aventuras para sentir-se maior. Há várias formas de viajar. Mas viajar é sempre mudar o tempo, é colocá-lo em uma outra dimensão. Nada de horários, rotinas e hábitos que teríamos em nossas casas.
Casa? Poderia ser apenas este ritual natural de caminhar, observar, sentir, sentar num banco, pensar, e depois chegar na pousada e bater papos profundos sobre a humanidade com essas guerreiras Martas, mãe e filha, argentinas-brasileiras. Mais precisamente talvez, latinoamericanas. E há ainda o "jovem Evo", o boliviano cheio de atitude e orgulho que trabalha ali sempre com um sorriso e palavras calorosas para os hóspedes que sentem-se irmãos desta imensa América.
Volto à praça, já é de noite, e um ambiente sempre meio pomposo de uma grande igreja é quebrado pela boa e velha maior paixão mundial, o futebol. Só mesmo essa molecada doida por entoar um grito de gol para transformar o hall de entrada desta igreja com jeito de catedral em arco, traves. Sim, os dois “times”, num clássico dois contra dois, driblam e lutam até que um consegue enfiar o pé para fazer o gol na porta da catedral. A blasfêmia para alguma beata carola é apenas a louca e mágica benção da infância.
A infância que parece mais genuína aqui nessa pracinha de classe média também frequentada por pessoas mais humildes que entregam-se a jogar bola em frente ao "campo do Senhor".
Sim, a praça me parece até mais sagrada com seu brincar, sorrir, gritar, namorar, charlar.
A vida deveria ser simples como uma tarde na praça Güemes diante da Iglesia de Nuestra Señora de Guadalupe, uma santa mexicana em terras argentinas. Isto é a América, Marta, a América mais genuína, atrás dos muros dos ianques...

quarta-feira, janeiro 19, 2011

A pureza de viver

   (Montevidéu 2011)

Tudo ali parece, a este morador da tão moderna quanto opressiva São Paulo, coisa de outro tempo. De um tempo em que mesmo o dia-a-dia transcorria num ritmo mais calmo e com mais sabor e alegria. Tudo na Montevidéu que conheço me remete à minha inesquecível infância e adolescência dos anos 80, de futebol e brincadeiras na rua e pracinhas; conversas intermináveis à beira das calçadas dos amigos e amigas; e dos passeios de bicicleta atrás das nossas meninas-musas.
Não sei se os montevideanos sabem do privilégio e vida de verdade que usufruem. Não sei se talvez muitos deles não prefeririam ter mais grana e poder em vez de curtir as delícias e astral desta cidade e tempo de outros tempos.
Espero que não, espero que tenham a consciência do valor de sua cidade e capital que parece preservada da agressividade, estupidez, trânsito e poluição infernal de megalópoles como São Paulo. Espero que valorizem até seus muitos prédios velhos, que espantam a pior espécie de turistas, os endinheirados e fúteis demais. Deixem-os ir para Miami ou Dubai...
Preservem sua vida, hermanos charruas. Não são muitas capitais do mundo que têm o que vocês possuem:
As pessoas curtindo tranquilas a caminhada, a corrida e sol na beira do rio que é o mar, o Plata.
A tão simples quanto genial arquitetura debruçada sobre o rio – quilômetros e quilômetros de bancos, com vários pontos para se apoiar as costas (acho uma sacanagem lugares que só têm bancos sem apoio para as costas, ninguém aguenta). Essas muradas são um convite à uma bela relaxada ou uma boa conversa (a charla, como dizem os uruguaios e argentinos).
Tanta gente, de todas as idades, tomando e compartilhando o mate, a toda hora e lugar. Esse mate compartilhado que sai muito mais barato e é muito mais solidário e amigável que o famoso ritual do cafezinho brasileiro.
Os parques admiráveis e tranquilos como o Rodó e o imenso, verdadeiro paraíso para um esportista, o Battle, ao lado do Centenário.
As exposições fotográficas do Rodó, ao ar livre, não sabem como isso é melhor que ter que se enfiar dentro de um museu!
Suas ruas com árvores dos dois lados, formando imensos e gostosos tubos verdes de sombras que confortam e envolvem o pedestre.
Sim, o pedestre que é tratado como cidadão. Não queiram saber como o pedestre é tratado em São Paulo. E pergunto se os estadunidenses acham que civilização é ter que pegar o carro pra tudo, em suas cidades-freeways. Civilização, como disse uma vez aqui nesse blog, é uma cidade que pode ser percorrida a pé, como podem fazer os europeus, os argentinos e vocês.
Não é só um ritmo de vida e o prazer que vocês parecem ter em se encontrar e aproveitar o melhor da sua cidade.
Há algo maior, ainda mais belo.
Há algo quase absurdo nesse mundo em que as pessoas são cada vez mais consumidoras e menos gente.
Num mundo em que cada vez mais só se pensa em vender e consumir, num mundo cheio de vendedores exibindo uma falsa simpatia para atrair os clientes (e muito louco mal educado também, que trata o cliente com frieza e/ou agressividade porque sabe que o cara vai comprar mesmo), os (as) funcionários (as) do comércio montevideano mostram uma simpatia e educação de verdade.
Por isso que mesmo sozinho em Montevidéu, nunca me senti sozinho.
Os responsáveis?
O cara de quem comprei duas laranjas e disse, “que ricas elas estão né, senhor?”.
A moça da lotérica Abitat que me atendeu com todos os detalhes, sem pressa e com um sorriso que queria levar pra casa, me dizendo tudo sobre o jogo que eu queria ver, Nacional e Peñarol.
Os senhores e senhoras das bancas de jornal (kioscos) em que eu ia pegar meu exemplar do melhor jornal do mundo, o (me perdoem, uruguaios), meu fiel Página 12 argentino. Mas saibam, hermanos, que os caras do seu conservador El País, têm o feeling pra falar de futebol no caderno Ovación.
As moças dos restaurantes mais simples ali do Bairro Sur.
Os torcedores do Nacional, que ao me verem com a camisa do São Paulo, vinham falar como se nossos times fossem irmãos pelo passado comum de Lugano (e a mesma história continuará, se Deus quiser, com esse fantástico Sebastian Coates).
O torcedor do Peñarol que tem uma sensacional lojinha de discos, camisetas pop de filmes e séries (remeras) e livros de rock numa galeria da 18 de Julio, pertinho da Plaza Caganchas.
E até, coisa quase surreal, os caras da casa de câmbio, que ao me verem com uma camisa do Rosario Central da Argentina, e ao perceberem meu sotaque de brasileiro, começaram um papo de minutos sobre o futebol brasileiro, argentino e uruguaio. Caraca, amigos, alguém já viu atendente de câmbio simpático em algum lugar do mundo????? Só mesmo em Montevidéu! Falamos de Lugano, Forlán, pai e filho, Pedro Rocha, Dario Pereyra, Coates, papo de amigos antigos de boteco.
E nem falei no clima fantástico dos arredores do Estádio Centenário (a reforma está deixando-o belo de novo!) e de suas arquibancadas, mas isso é assunto pra outro post.
E nem falei da beleza de suas moças, de um charme incrível e sem pose. Um charme do interior antigo do Brasil, das nossas morenas cativantes e autênticas que estão desaparecendo pelo avanço da estúpida incultura dos BBBs (Gran Hermanos) e outros reality shows.
Ponto negativo? Só encontrei no antipático vidro dentro dos táxis que isola e sufoca os passageiros e na atendente de informações turísticas (logo ela???) do terminal de ônibus de Tres Cruces.
Mas fico com a educação, os sorrisos e o tratamento maravilhoso que recebi de seu povo que não me deixou sozinho, que não me deixou acuado.
Fico com o calor humano de um povo que não sei se sabe o tesouro de viver (e não apenas sobreviver) que guardam. E dou risada da ignorância dos idiotas que dizem que criticam Montevidéu como “uma cidade que parece de 50 anos atrás”. Ainda bem que Montevidéu é assim! Mas digo que o 50 anos atrás vale mais para o coração deste povo, um coração de uma época em que as pessoas se tratavam com mais civilidade, interesse e amizade.
PS - Este post é dedicado também à atenção e simpatia da Ele, da Federação Uruguaia de Futebol, que tentou me ajudar numas entrevistas (não deu, moça, mas obrigado pelos esforços!) e do casal Eliza e Miguel, que volta e meia me enviam palavras amigas e cultas por email.

sábado, janeiro 01, 2011

O caminho mais difícil


Às vezes não importa quanto de bem alguém distribuiu em sua vida, pois certas quedas fazem o desespero dela esquecer o tamanho de seu coração. A fronteira entre toda a bela luta já realizada e o futuro negro que se vê ante um erro que se comete, é tênue demais. O abismo é logo ali e é muito fácil ir ao seu encontro.
Desistir de tudo é um dos temas principais desse monumental A felicidade não se compra. A história gira em torno de um homem e uma família genuinamente bons, os Baileys. Genuinamente bom é a marca dos que colocam o bem acima de tudo. Fazer o bem. Essa é a vida de George Bailey desde menino. Um moleque que sempre cuidou dos outros, mesmo tão novo. Mas sua história não é uma dessas fábulas modernas fáceis do cinema de hoje, em que os jovens conquistam tudo o que sonharam.
Sim, o jovem George também sonha demais, quer estudar e conhecer o mundo. Quer deixar a sua pacata cidadezinha sem grandes oportunidades e riquezas. Quer pegar a estrada e construir a sua própria história. O “problema” de George, porém, é um coração e caráter maiores que seus sonhos. Mesmo tão puro, ele percebe o que acontecerá com sua cidade caso o negócio da sua família, um banco popular, seja engolido por um empresário inescrupuloso.
Revelar mais estragará as surpresas e emoções grandiosas deste clássico do mais idealista dos diretores, Frank Capra.
Só posso adiantar que George não lutará sozinho. Haverá uma mulher, daquelas que entendem o valor de um coração altruísta. Haverá outros homens, que entendem o valor de um homem bom. Haverá uma grande batalha entre o bem e o mal, este representado por um senhor de terras e dinheiro tão parecido com os senhores egoístas de qualquer época. Haverá a luta do dinheiro que compra a felicidade contra a felicidade que só depende do amor, da amizade e de uma palavrinha tão vital e meio sumida hoje, dignidade.
Haverá uma catarse tão grande na meia hora final deste filme, que desistiremos de desistir.
Se algum dia você se perdeu e não encontrava a saída, o magistral James Stewart e seu comovente e tão real George Bailey, vai te mostrar um caminho. Junto de Mary – outra atuação epidérmica, visceralmente delicada e afetuosa, por essa maravilhosa atriz Donna Reed – George nos mostrará que nada pode deter um coração generoso. Porque atos de amor em série produzem, num mundo decente e menos egoísta, gratidão em série.
Pena, talvez, que George, Mary e Frank Capra venham de um mundo antigo, de valores mais fortes que status. Pena que muitos jamais verão um filme tão antigo (de 1946) como esse, ainda em preto e branco.
Pena que o feliz título dado ao filme no Brasil não seja verdade para um número de pessoas cada vez maior.
Pena que hoje, algumas pessoas que ainda se esforçam em fazer o bem, chegam ao Natal e ao ano novo sem nem ao menos escutar na última noite um simples “feliz ano novo”. Para essas pessoas, sorte que ainda existem um desses raros "filmes da vida" como A felicidade não se compra. Porque a arte, nesta dimensão, conforta até os que deixaram de acreditar.

Feliz 2011, com mais amor e amizade no coração, sobretudo para as horas mais difíceis de quem precisa. Esqueçamos um pouco nossos mirabolantes planos e metas pessoais e pensemos, em vez de ter um ano melhor, em oferecer um ano melhor.

segunda-feira, dezembro 27, 2010

A trilha de 2011


Final de ano é sempre um parto. Exaustos, só pensamos nas férias, numa praia ou qualquer lugar distante da neurose, barulho e suor do trabalho e vida cotidiana. Os que ainda não conseguiram partir se viram largados no sofá vendo filmes até tarde, lendo um bom livro ou escutando belas canções. Quem prefere a última opção, melhor ainda se puder curtir um som junto de sua companheira. Pra vocês então, acessem esse fantástico blog feito para uma noite daquelas... O nome do blog já diz tudo, Sex Music... É só apertar o play que o set list gigantesco começa a tocar e bandas famosas como The Killers e outras desconhecidas, como a ótima Iron & Wine, só querem que vocês tenham uma noite inesquecível.Cliquem em

quarta-feira, dezembro 15, 2010

Dreams

(Pessoas que são canções)

We'll get higher and higher
Straight up we'll climb

Era a mais livre das meninas. Queria voar. E voava. Mais louco ainda, queria viver disso. A ginástica olímpica era seu sonho de vida. Passeávamos na praia e de repente ela dava paradas de mão, fazia estrelas e detonava a ignição daquela louca manobra. Um salto mortal para trás. Um voo tão bacana e alegre que sempre desconfiei que foi um desses que fez meu melhor amigo se apaixonar por ela.
Paty via o mundo de ponta cabeça, ao contrário. Ela fazia muitas coisas ao contrário. Numa época meio certinha e careta, o início dos anos 90, ela era uma legítima roqueira que ia no quarto dos amigos escutar o bom e velho rock and roll, especialmente a banda de seu coração, Van Halen. E era também uma guardiã dos sentimentos mais belos do passado, as amizades verdadeiras que geralmente são mais criadas quando somos ainda tão jovens.
O tempo correu demais. Enquanto seu amigo aqui - que sempre desejou ser, mais que amigo, irmão - andou em círculos e algumas ladeiras vida afora, Paty seguiu voando alto direto para os seus sonhos. Como um avião de caça, ela foi lá pra cima feito essa canção que é a cara e alma dela. Dreams. Do seu Van Halen.
O comecinho da música já é ela: o teclado clássico e belo é igual à olhada profunda que ela dá na gente com seus olhos pequenos mas intensos; e, quando ao teclado junta-se a bateria, e depois a guitarra e o canto, é hora dela falar com a gente com a mesma alegria e garra de viver que ela teve ontem, hoje e sempre.
O único problema é o tempo e a distância. Paty é treinadora lá no Qatar e por isso não a via há 3 anos e meio, desde o Pan do Rio quando ela veio, do Japão onde vivia, ser árbitra de ginástica.
Ela não sabe como os anos sem poder conversar com ela, cara a cara, fizeram falta.
Faz falta demais aquela com quem dividi alguns dos anos e momentos mais bonitos e intensos da minha vida.
Aquela que um dia percebi irmã talvez naquele show dos Stones em que tomamos 7 horas de chuva seguidas nos Pacaembu mas nos emocionamos juntos com a garra imortal de Mick Jagger, uma garra tão parecida com a dela.
Mas ontem a vi de novo, e no bar em que fomos, rolava, claro, rock. Scorpions, outra banda que participou um pouco de nossa história e juventude.
Ontem ela pôde me dar uma atenção de novo, pois, eu, egoísta, queria mais isso até do que saber do primeiro filho dela. Desculpa, irmã, mas era muito tempo sem te ver e sem contar com a sua força.
Mas saiba que de alguma forma me ajudou. Porque você, mesmo agora uma mãe, ainda possui aquele mesmo brilho, melodia e versos que só a sua banda conseguia mesclar com tanta perfeição. Por isso, de algum jeito aproveitei algumas coisas que me falou. Porque você segue sendo a Van Halen girl, por isso
we'll get higher and higher, leave it all behind. (vamos chegar alto, alto, deixe isso pra trás...vou tentar...

we'll get higher and higher, who knows what we'll find? Vamos chegar alto, alto, quem sabe o que vamos encontrar?

Obrigado por me fazer olhar pra cima de novo.
E vê se não demora tanto a voltar.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Paul - O homem que cantou nossas vidas

You and I have memories
Longer than the road that
stretches out ahead


Você e eu temos memórias
Mais longas que                 
a estrada que se estica adiante

Morumbi, 22/11/2010. Aquilo não foi um mero show, foi sim um encontro, foi história. Ali não estava um profissional entregando um serviço (coisa que Bono, infelizmente, vem fazendo há anos) e sim um músico oferecendo sua arte. Sim, havia um set list, mas a lista era na verdade uma retrospectiva de nossas próprias vidas, pois cada canção mexia com um sentimento especial de cada privilegiado (a) que esteve no Morumbi naquela 2ª feira inesquecível. Sim, claro que Paul é também um profissional, mas a alma do antigo menino de Liverpool ainda está lá, e quando ela está, cada nota, melodia e palavra nos envolve. Envolve-nos como um amigo do peito nos dizendo verdades, como uma mãe tentando nos aconselhar pela última vez (when i find myself in times of trouble, mother Mary comes to me speaking words of wisdom, let it be...), uma paixão nos assaltando de novo (close your eyes and i kiss you, tomoroy i´ll miss you... all my loving i´ll send to you) ou o próprio tempo e algum acontecimento em especial que resolve se revelar de novo, yesterday all my problems seemed so far away... , enquanto Paul canta algum dos hinos dos Beatles.
Enquanto Paul canta algum hino da maior banda de todos os tempos, canções que elevam ao máximo nossos corações e lembranças. Incrível como cada canção, para os que já viveram um bocado, resgatava um momento de nossas vidas.
Tudo começou quando ele sentou-se ao piano pela primeira vez, tocando notas que não eram meras notas mas as suas veias, as nossas próprias veias, ao cantar que a vida é uma the long and winding road, uma longa e larga estrada. Sim, a canção é de um amor partido, mas como em tudo dos Beatles, é tão bela nas melodias e palavras que sua dor, you left me standing here, a long, long time ago..., você me deixou esperando aqui, há muito, muito tempo atrás  é pulverizada pela beleza.
Pela beleza de um cara e uma banda que interpretaram e traduziram os sentimentos mais simples e verdadeiros com uma precisão poucas vezes equiparada por uma banda de rock, talvez porque poucas vozes soam tão cristalinas e naturalmente belas, sem gritos fora de tom, como as de Paul.
Por isso Paul foi especial, por isso que ouvi-lo naquela noite, e agora, nos vídeos deste show postados no youtube, de novo emociona, arrepia, pode até botar a emoção para fora numa lágrima que não é qualquer
E numa alegria que não é qualquer, porque, reafirmo, suas canções mais tristes são tão belas que nos elevam. Pelo poder da canção, pelo poder da música, pelo poder incomparável de Paul e de toda a mágica que ele um dia criou e entregou com seus três companheiros daquele grupo que era a vida traduzida em canto, guitarra, baixo, bateria e piano.
Pelo poder desse mago Paul, que conseguiu transformar a tristeza numa alegria inesquecível, como em Hey Jude: take a sad song and make it better, pegue uma canção triste e faça-a (torne-a) melhor. Faça-a feliz.
Quisera ser possível que pudéssemos escutar essas canções todos os dias, assim não deixaríamos de acreditar na esperança de cada canção dessa.
De cada emoção entregada por Paul, e pelas milhares de vozes que comungaram desses sentimentos juntas, naquela noite mais que memorável. Naquela noite fundamental. Portanto, vocês que estiveram lá, tentem lembrar do que viveram e sentiram. Os céticos dirão que foi apenas um show. Jamais entenderão o que foi aquele imensa verdade e beleza coletiva de milhares de pessoas, entre estranhos, amigos e amores, recebendo e devolvendo o mesmo amor pela música e pela vida.
Pela vida que é música. Que deveria ser sempre musica.
A síntese de tudo o que Paul nos proporcionou foi talvez esse par de versos dizendo que existirá uma resposta para nossos medos, sonhos e dores,
there will be answer
Let it be
Vai existir uma resposta, deixe rolar....
Sim, muitas vezes não há saída, e nos perguntamos
Why she had to go, i don´t know.
Now i need a place to hide away

Quando os amigos já não estão presentes, ou dispostos a nos escutar ou procurar, só contamos com nós mesmos, com o pai e com o maior amor do mundo, que é sempre o da nossa boa e velha mãe.
Podemos contar também com a força de Paul, de sua antiga banda e suas canções.
E contamos com a sabedoria e conselhos desta amiga que estará sempre lá, pronta para nos abraçar:
a música.
Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
Pegue essas asas quebradas e aprenda a voar.
All your life...

PS - Lá em cima, que John siga descansando em paz, 30 anos depois.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Muricy - O homem reto

Ele nem precisava provar mais nada de seu caráter depois de recusar a seleção brasileira porque seu clube e patrão não aceitou liberá-lo. “Não quebro meus contratos”, afirmou na época Muricy. Ninguém do mundo sujo da bola o criticou publicamente por isso mas muitos o julgaram tolo por essa recusa.
O tempo e talvez a justiça divina o premiaram com o título brasileiro mais sofrido de sua carreira, este, com o seu Fluminense. Com um time que sofreu tanto com contusões ao longo de todo o Brasileirão – Fred, Emerson Sheik jogaram muito pouco, Deco também ficou bastante tempo fora, o goleiro titular também e Muricy descobriu Ricardo Berna.
Para suprir a ausência de suas estrelas, o treinador soube formar um time de guerreiros mas que jogaram um bom futebol graças à regência e toque de bola deste gigante armador baixinho chamado Conca. O argentino foi o toque de classe deste Flu bicampeão brasileiro.
 Mas falemos do mais importante, porque quando se fala em Muricy a bola vira vida.
Vida porque diferente da maioria dos personagens no futebol brasileiro de hoje, promessas, estrelas e celebridades vazias e vaidosas, Muricy, ao falar de futebol, fala de coisas maiores.
E isso, num país tão cheio de malandros que usam todo artifício para obter vantagens, é importante demais. Enquanto a CBF e a FIFA, por exemplo, semeiam barbaridades atrás de barbaridades (Copa no Qatar é brincadeira, um “tô nem aí pro futebol!, quero é grana!”), Muricy, o homem reto, semeia nobres valores.
Reto da retidão não só de suas palavras como de suas atitudes.
“Agora é trabalho”, ele dizia no São Paulo, com a simplicidade sábia e digna de Rocky Balboa dizendo aquele “lutadores lutam”. E ontem, foi mais uma lição de vida escutar algumas de suas frases. Uma delas escutei na rádio ESPN Brasil. Enquanto falava de sua relação com seus jogadores, ele explicava que não faz diferença entre as estrelas e os jogadores menos badalados. Não concede privilégios, e isso é vital para ter um grupo unido. Muricy sintetizou isso então ao dizer que “não sou simpático, mas sou correto com os jogadores”.
Correto. Quantos se preocupam com isso hoje? Pior, quantos não dizem que ser correto é ser um tolo, um babaca?
Graças que Muricy se preocupa e talvez por isso o Mestre e Homem maior da história de nosso futebol tenha aparecido para ele em sonho, na véspera da decisão para o Flu: Sim, só mesmo Muricy para ser agraciado com a presença de Mestre Telê Santana em seu devaneio tão real antes da consagração de ontem.
Lá vai então Muricy Ramalho, conquistando com correção, caráter e dignidade o que muitos, neste país, só obtêm com tramoias, acordos, subornos e outras sacanagens: a vitória.
O Mestre está orgulhoso lá em cima.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

Val(h)a-me, Deus!

Plena 5ª. feira, enquanto a galera de Sampa fritava em trabalhos insuportáveis (é sempre insuportável trabalhar em dezembro, ninguém aguenta mais) eu ria feito bobo pelo privilégio de ser um freelancer e poder entrar no mar. Era muita sorte eu ter marcado uma entrevista com um mito do surf brasileiro na praia justo neste dia, mas antes eu iria surfar. A previsão acertara em cheio: o único dia com chances de algumas boas valinhas era esse. Melhor ainda que o vento não dera as caras e as meninas azuis-esverdeadas estavam lisinhas como pele de mulher gostosa que se cuida (é o verão hehe). Por isso que gritei sozinho, ao olhar as valas, “Vala-me Deus!”
Logo curtia uma session em solitário, o que é comum durante a semana neste pico incrustrado em um condomínio gigante.
Logo uma de minhas pranchas mágicas, uma Evolution vampiresca (agarra as paredes como uma vampira metendo os dentes no pescoço de sua vítima) feita pelo grande Kareca da Shine surfboards, me levava a passear em alta velocidade. Não tem erro, quando o mar diminui de tamanho essa menina sedenta me deixa em condições de surfar qualquer coisa minimamente surfável.
Depois de uma session rápida, 90 minutinhos, a cabeça tava feita. Bora trabalhar no litoral norte. Na volta ao meu pico, o vento fizera sua caca, mas mesmo assim entrei, torcendo pra chuva que pintava alisar as meninas.
“Vai, Santo Pedro!, manda a bala, beija as meninas com vontade!”, eu gritava, mas o Santo só mandou uma chuvinha leve. Raras merrecas (é, o tamanho diminuiu ainda mais) deram uma ajeitada. E aí, meus camaradas, as poucas valinhas que acertaram, junto com a chuvinha gostosa batendo no rosto, aí o sorrisão invadiu o rosto. Lá fora, com o oceano preenchendo o coração vazio, a felicidade, mesmo tão breve, renova a vontade de viver.
O surf sempre renova, qualquer surf.