domingo, outubro 11, 2009

Por Amor


Não há, no mundo todo, um povo que ame mais o futebol que o argentino. Por isso, para eles, ficar fora da Copa do Mundo seria uma tragédia tão dolorosa e amarga. O argentino respira futebol todos os dias, nas charlas (conversas) apaixonadas nos cafés; nos jornais que devoram nos mesmos cafés, nos balcões; nos meninos que ainda encontram muitos campinhos mesmo em uma grande metrópole como Buenos Aires; e, claro, nos estádios que eles transformam em arenas e espetáculos arrepiantes através de seus cânticos criativos, belos e emocionados. Cânticos de apoio e amor aos seus clubes que duram toda a duração das partidas.
Voltando ao tema Copa do Mundo, o que aconteceu ontem em Buenos Aires só não emocionou aqueles que não amam, de verdade, o futebol. A sofrida Argentina, mal escalada e treinada, sim, por Maradona, em toda as Eliminatórias para a Copa, sofria com um pobre 1 a 0 em cima do último colocado, o Peru. Sofria até essa vitória parcial virar drama quando, debaixo de uma tempestade de filme de terror, os peruanos empataram o jogo aos 45 minutos do 2º tempo. O empate deixava os donos da casa em situação terrível na luta para classificar-se à Copa. Mas eis que no último minutos dos três de desconto, aos 48 minutos, na pressão pelo gol salvador, a bola espirrada sobra justo nos pés de um centroavante veterano, folclórico, ridicularizado por muitos (um dia perdeu três pênaltis num jogo só) e amado por outros tantos. Amado por mais da metade do país, pois é ídolo histórico do time do povo, o Boca Juniors. A bola bateu em todo mundo e sobrou para o grandalhão grosso mas valente, corajoso, bravo, e desde ontem, imortal, Martin Palermo.
Imortal porque Palermo estava no lugar certo para empurrar a bola ao fundo das redes, fazendo o talvez gol mais dramático e esperado da história do futebol argentino. Na sequência, estádio e país inteiro vindo abaixo, o também ridicularizado Maradona (até por seu próprio povo, quanta ingratidão), saiu correndo feito louco e mergulhou num peixinho sensacional no gramado inundado, deslizando metros e metros de amor àquela camisa que ele tornou mítica em seus tempos de jogador.
Podem falar o que quiserem de Diego, acusá-lo de tudo, menos de falta de sinceridade, paixão e emoções verdadeiras. A explosão daquele que já foi Diós parecia selar a épica vitória argentina mas, incrível!, na retomada do jogo, um peruano chutou do meio de campo e acertou o travessão dos argentinos!, após um leve desvio do arqueiro. Escanteio e só depois dele a seleção da casa se salvou.
Salvou-se por ontem, porque ainda virá uma batalha muito maior, na Montevidéu do único povo que tem motivos fortes para odiarem os argentinos: os uruguaios, que sempre foram tão sacaneados e desprezados pelo país de Diego. O Uruguai de outros dois monumentais Diegos, o zagueiro Lugano, ex-São Paulo e o atacante Forlán, que realizou o outro milagre de ontem: a vitória celeste, fora de casa, contra o Equador, de virada, com gol decisivo convertido de pênalti aos 47 do 2o tempo...
Diferente dos uruguaios, nós, brasileiros, não temos motivos para entrar na onda dos tolos ou ignorantes que falam mal dos argentinos sem jamais terem colocado os pés na terra dos nossos, sim, hermanos. Sem jamais terem sentido e percebido como é profunda a loucura do argentino pelo futebol. Sem jamais terem conhecido um povo que, diferente de nós, luta por seus direitos, pressiona governos e enfrenta a polícia para defenderem preços justos e condições de vida decentes. Sem jamais terem percebido como, sim, os argentinos gostam dos brasileiros e de nossa cultura. Basta um dia na terra deles para percebermos, seja num banco de táxi, num café ou numa balada, como eles adoram elogiar nossos craques, praias, música e, claro, mulheres.
E, diferente de muitas estrelas do futebol brasileiro - que vestem a camisa da seleção sem entrega, comprometimento e raça (Robinho?) – os argentinos defendem sua camisa celeste e branca com uma dedicação e amor sinceros. Porque os jogadores argentinos bem-sucedidos não esquecem suas origens humildes. Não esquecem que um dia foram um pibe (menino) torcendo por um ídolo, um clube e um país.
Por isso tudo, por amor ao futebol de toque e alma; à maravilhosa cultura (o tango, a literatura e jornalismo riquíssimos, o cinema do cotidiano emocionante, por J.J. Campanella e Darín), culinária (carne, alfajores!), vinhos e até cerveja (Quilmes, leve, gostosa, a única que não m dá ressaca!); por respeito à garra e consciência política e social dos hermanos, pude dormir ontem com um sorrisão enorme e coração feliz porque o amor ao futebol venceu ontem uma das partidas mais dramáticas já realizadas. Fiquem então com a narração dos gols de ontem, na voz apaixonada de um locutor local.
PS - Engole essa, Thiago Leifert!, mala que vive debochando dos argentinos, não entende nada de futebol, muito menos de amor ao futebol, e por isso acabou com o ex-melhor noticiário esportivo da TV brasileira, o Globo Esporte.


terça-feira, outubro 06, 2009

Adeus, Voz da América


Calou-se anteontem a grande voz da América Latina, a argentina Mercedes Sosa. Calou-se seu canto de protesto, tão importante nos anos das ditaduras em seu país e quase toda a América. Calou-se também seu canto pelos desfavorecidos e oprimidos. Mas viverá sempre a voz que era uma força irrefreável pela vida, justiça, beleza e liberdade, pois Mercedes é parte fundamental da alma de tantos povos e lutas. Ela era o coração que cantava. E seguirá cantando enquanto resistir algo encantado e vital chamado memória.

domingo, outubro 04, 2009

A grande chance


A Olimpíada no Rio de Janeiro é uma oportunidade fantástica e única para o Brasil se transformar não apenas esportivamente mas social e economicamente também. Mas isso só acontecerá se os homens do Rio 2016 pensarem nos Jogos não apenas como um evento impecável, de instalações esportivas maravilhosas, mas depois abandonadas e em soluções viárias meia-boca – como ocorreu no Pan 2007, em que tiveram a coragem de chamar uma linha especial de ônibus com poucas paradas de “metrô de superfície”.
É hora do Rio realmente transformar-se e não apenas ganhar uma maquiagem, como ocorreu no Pan. É hora de lutar mesmo pela diminuição da poluição na Baía da Guanabara; revitalizar toda a zona deteriorada do Porto, ganhando-a para o Turismo e serviços – como fez Barcelona´92 - e mudar o pobre sistema viário e de tráfego da cidade com, no mínimo, a sempre prometida e nunca executada ampliação do metrô da zona sul até a Barra. Só assim o Rio será pujante de novo e deixará de viver apenas de suas paisagens maravilhosas, carnaval e turismo.
Quanto ao esporte, o governo brasileiro, que injetará a maioria dos bilhões em obras de infra-estrutura dos Jogos, precisa também perceber que só investindo na base - no esporte desde a escola e em projetos esportivo-sociais – é que poderemos nos tornar uma potência olímpica e fazer bonito em 2016. Torcemos para que os erros de Pequim (gastamos uma fortuna na preparação de nossos atletas de ponta e fizemos uma campanha fraquíssima) não se repitam. Só botando grana lá embaixo, nas crianças e adolescentes que praticam esportes, poderemos dar nosso salto esportivo. Só assim poderemos escapar da sina de país de poucas modalidades de sucesso em Olimpíadas, como o vôlei, judô e iatismo, e outros brilhos isolados graças a raros fenômenos como um César Cielo.
Não podemos seguir apostando no fracassado modelo (em número de medalhas) do COB (Comitê Olímpico Brasileiro), que recebe uma bolada das loterias do governo e repassa essa fortuna para as confederações esportivas, em vez do dinheiro chegar a quem realmente revela e apoia atletas nesse país, os clubes formadores.
É hora de Nuzman, presidente do COB - grande responsável pela vinda da Olimpíada ao Rio, junto do empenhado governo brasileiro – repassar um pouco de seu poder e recursos para os clubes e, por que não, para programas de iniciação esportiva.
Lula emocionou o país em sua brilhante e apaixonada defesa do Rio 2016 em Copenhague. Que agora trabalhe para realmente merecermos o maior evento do planeta, que não merecemos por nossa falta de uma política esportiva ampla e, sobretudo, falta de transparência dessa política, como ficou provado no escandaloso aumento de orçamento em cinco vezes (custo final de 5 bilhões) do Pan 2007, além de inúmeras denúncias de irregularidades nas licitações.
O duro será conter esses caminhos nebulosos do dinheiro que entrará visto que os cabeças da Olimpíada são os mesmos do Pan...
Rezemos então, para não perdermos a chance de mudar o Rio e o Brasil com algo tão grandioso e promissor chamado Jogos Olímpicos. E há ainda algo talvez ainda mais belo e humano, os Jogos Paraolímpicos, que são outra oportunidade: de propiciarmos uma inclusão decente de nossos portadores de necessidades especiais, coisa de que também estamos muito distantes.
PS – Já é notório que a maior parte dos bilhões necessários para as obras do Rio 2016 virá do governo. Me pergunto onde está a iniciativa privada nesse caso? Os empresários brasileiros não se interessam em melhorar o país? Que eles também abracem essa oportunidade apoiando nossos atletas, desde a infância, e ajudando a fomentar um país esportivo, coisa que não existe num Brasil onde apenas 16% de nossas escolas públicas possuem uma quadra poliesportiva.

quinta-feira, outubro 01, 2009

O mestre dos instantes


Ele caçava as imagens mais difíceis de serem capturadas, as do cotidiano. As fotografias que precisavam ser percebidas e clicadas com a velocidade e serenidade (como é possível aliar coisas tão díspares?) de quem olha e enxerga toda a vida dos pequenos atos e gestos. Pequenos flashes simples do dia-a-dia urbano pacato ou da loucura da guerra. A guerra onde foi vizinho e testemunha, tantas vezes, da morte.
O francês Henri Cartier-Bresson foi o mestre maior dos instantes decisivos. Fotografava como um arqueiro zen a lançar suas flechas precisas e por isso, sua receita da foto perfeita era “colocar na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração”, como ele mesmo afirmou. O coração que derramava-se de cada simples e mágica imagem que ele perseguia nas ruas de sua Paris e mundo todo. Mundo porque, mais que fotografar, Bresson tinha sede de viver e defender seus ideais. Por isso serviu o exército de seu país na II Guerra Mundial, foi capturado, fugiu e então lutou na Resistência contra os nazistas que ocupavam a França. Por isso, finda a guerra, rodou o planeta fazendo excepcionais trabalhos de fotorreportagem em diversos conflitos. Depois criou, em 1947, junto de outros jovens e geniais colegas, como Robert Capa, a inesquecível agência Magnum, nome mágico, verdadeiro ícone do jornalismo, humanismo, arte e fotografia mundial.
Uma imperdível mostra-restrospectiva de Bresson - com retratos que fez de artistas e intelectuais famosos do passado e as poesias do instante que citei aqui - está sendo realizada no SESC Pinheiros até 20 de novembro.
Oportunidade imperdível para amantes da fotografia e da humanidade. E aprendizes talentosas e sensíveis como minha ex-aluna querida, Rafinha. Ela um dia registrou, numa praia paulista, esse instante poderoso que é a síntese de seu próprio país:

terça-feira, setembro 29, 2009

Miniprograminha de música


Brincadeira nova que eu divido com vocês. Fiz um curso rápido (e de graça) de podcast no SESC e aprendi a fazer um pouco de rádio para a net. Desculpem o amadorismo, mas deem uma escutada e sugiram outras boas canções sobre esse primeiro programa em que tentarei falar da vida através de canções.
É só apertar o play.

O fim do passeio


Quantos ainda passeiam de verdade nas grandes cidades, a pé ou de bicicleta, pensando na vida ou conversando com um amigo ou cara metade?
Passear não é ir no shopping, ver lojas ou caminhar ultra-acelerado para manter a forma, o que transforma esse ato em obrigação ou malhação.
Passear não é colocar um headphone nos ouvidos e sair por aí sem prestar atenção ou pensar em nada.
Passear é permitir-se jogar tempo e conversa fora contra a ditadura opressora do time is money. É um ato de rebeldia contra o “tempo é dinheiro” com que seu chefe tira seu sangue e horas extras (ou você, que não respeita o horário de seus funcionários...)
Pena que passear, para muitos escravos ou carrascos do trabalho e lucro a qualquer preço com prazos cada vez mais “pra ontem”, é coisa de vagabundos.
Pena que dar uma volta com alguém importante é ato cada vez mais raro, a não ser nos esporádicos encontros de domingo em algum parque ultra-lotado de São Paulo nesses dias.
Pena que uma das maravilhas propiciadas pelo caminhar tranquilo cidade afora - a dedicação e atenção que damos ao outro - é soterrada pela pressa, trênsito, neurose e competitividade exacerbada. Assim a vida cotidiana não nos deixa ver que “as horas que não se podem dedicar ao passeio ou à amizade são horas que já não se dedicam ao amor próprio”, afirmou o escritor espanhol Rafael Argullo. Sim, não passear também joga contra nós porque deixamos de ficar um tempo essencial com o melhor de nós mesmos, que aflora muito enquanto passeamos.
O espanhol Argullo dá um belo exemplo, de uma habitual volta a pé por sua Barcelona:

“Esta manhã estava passeando com um amigo debaixo deste sol magnífico e estávamos a uma hora conversando, passeando tranquilamente, por uma das poucas ruas que isso é possível no centro de Barcelona, porque ainda não teve êxito comercial... Encontramos um terceiro amigo, que há muito tempo não nos via. Se aproximou de nós e disse: “Vocês ainda têm tempo de ir caminhando tranquilamente pela cidade". Eu lhe respondi que no momento em que não tem mais tempo para fazer isso, é melhor deixar de viver, porque já abandonou previamente a vida... Há algo nestes momentos de calma caminhada que é profundamente revolucionário: a dedicação, por exemplo, que damos à comida, quando tem tempo para saborear o alimento em vez de enguli-lo. Essa dedicação que significa a sensualidade e o erotismo contra o fast food da pornografía. A dedicação que significa a cultura frente à falsa religião dos bestsellers ... A atenção que significa um filme de estrutura clássica frente aos jogos artificiais dos efeitos especiais. A atenção que significa uma conversa com um amigo frente a uma espécie de comunicação com símbolos, puramente utilitária, em que degeneramos (MSN? Orkut, eu pergunto). Passear, mesmo sendo difícil, segue sendo algo reivindicável porque é a base de nossa capacidade de pensar e se expressar para os outros. Portanto, creio que o ritmo mais lento é profundamente revolucionário... Poderíamos exaltar a lentidão, a dedicação, a capacidade de atravessar a complexidade da vida, acossados como estamos por todos os lados pelo fast-food.”
Claro que passear é difícil demais em megalópolis mega-apinhadas de gente e carros como São Paulo, mas ainda é possível. Tenho procurado pessoas importantes para isso, na hora do almoço ou depois do fim do expediente, e passeamos pela Vida Madalena ou calçadas largas da Av. Paulista. Mas tenho saudade mesmo é da adolescência em que tinha tempo para visitar os amigos pedalando com minha bicicleta. E, sobretudo, das horas em que passava com o maior amigo pensando na vida, nos sonhos e nas nossas musas. Bom, mas a gente adapta isso, e há pouco tempo costumava fazer reuniões de pauta com meu editor na revista de surfe dando um longo rolê por ruas pacatas de um bairro ainda especial chamado Vila Mariana. A Vila Mariana que não tem a pose da Madalena. Andando, pensando, trocando ideias e sendo iluminados por belas moças ou senhores educados e simpáticos, planejamos várias resportagens. Incrível como naquelas ruas a arquitetura das matérias saía prontinha, nem precisávamos passar para o papel depois, é ou não é, Edu?
E claro, é preciso celebrar e abrir uma champanhe se você ainda passeia, de mãos dadas, com sua namorada ou esposa. De mãos dadas e sem a agressão do celular no bolso. Ou sua companheira não merece sua atenção total e exclusiva?
E então, alguém aí quer passear de verdade? Alguém aí quer fazer um saudável balanço da vida ou planos para o futuro? Chega mais que sei rotas perfeitas para isso, e temperadas ainda com paradinhas em cafés e padarias sem frescura e pagação. Vai passear, moçada!
PS – Não falei dos passeios com os cães, não dá pra pensar muito com o que eles aprontam, né, mas a loucura que eles têm para dar uma volta explica um pouco a importância de passear para nós também.

segunda-feira, setembro 28, 2009

Isso é atacante


Pra variar ele acabou com a gente. Fez um ("obrigado", Papai Noel André Dias e Coelhinho da Páscoa Jean, que perdeu a bola que originou o contrataque alvinegro), fez a jogada do gol injustamente anulado de Dentinho (lance normal com Renato Silva, que perdeu pra força de Ronaldo) e só não fez o gol da vitória deles porque Rick conseguiu consertar a burrada que ele mesmo causou, perdendo a bola ao sair jogando. Aliás, se fizermos as contas de quantos gols o São Paulo já tomou em saídas de bola erradas de Rick e Jorge Wagner, seria uma barbaridade de pontos perdidos só por culpa desses dois. E agora o Jean entra na lista.
Ronaldo é atacante.
Bórges é o bobo de uma jogada só, o pivô de costas. Ops, perdão, João Bobo, porque você não cai à toa como o Borges. E quem vai explicar pra esse cara que não joga futsal, onde o pivô costuma funcionar bem porque o campo é menor, o jogo é mais rápido e os companheiros estão mais próximos? E perfeito o comentário sobre a atuação de Borges no Jornal da Tarde: "deve ter batido o recorde mundial de impedimentos". É isso, além de ter uma jogada só, o cara ainda fica largado na banheira, típico de jogador sem garra.
Washington é atacante. Grosso, sim, mas matador também. E tem garra, algo que simplesmente não existe em Borges. Foi expulso por rigor demais do juiz fraco querendo aparecer.
Dagoberto voltou, de novo, ao seu jogo pipoca inofensivo. E quem garante que ele faria o gol naquele impedimento mal anulado? E tomou, pra variar amarelo bobo e desfalcará o time contra o Naútico.
O São Paulo cada vez mais manda o hepta pra longe. Porque tem uma defesa que vacila na hora h, um meio-campo que não cria (exceto Hernanes, que fez grande partida ontem antes de cansar), um ala direito incapaz de acertar um cruzamento e um atacante titular inofensivo. E Ricardo está acovardando o time sem Marlos.
Título cada vez mais verde. Ainda mais porque Borges será o único atacante na próxima rodada. Se Ricardo nao entrar com Marlos para ajudá-lo, não ganhamos nunca. Se entrar com o Hugo, mostrará de vez a covardia cada vez mais exposta.

sexta-feira, setembro 25, 2009

Tatuagens na pele e alma



Um livro sobre os efeitos que o surf produz em quem tem o privilégio de deslizar sobre as águas. É isto o que oferece “O Sal na Terra”, do cientista político e surfista português (colunista da Surf Portugal e do blog Ondas), Pedro Adão e Silva. “O sal da água do surf dá sabor à vida mas é também, o sal que trazemos da experiência concreta de surfar que nos ajuda a olhar para as coisas quotidianas de um outro modo”. Aqui surge a beleza e profundidade deste livro: o “outro modo” de Pedro olhar para as coisas é ver – sobretudo, sentir - conexões entre cinema, música, literatura, HQ, pesca, futebol e outras artes com o surf e o mar. Um exemplo é a semelhança que encontra entre cowboys e surfistas, “na vontade de busca nos confundimos com os heróis dos westerns: procuramos uma mitificada onda perfeita e vivemos uma insatisfação permanente quando parece que estamos prestes a encontrá-la...”
Na cultura, em que mergulha com a sede do privilégio dos dias ao mar, Pedro vê inspirações para o surf ou para aguentar os dias sem ondas: ´Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto ao mar´, escreveu um dia Sophia (de Mello Breyner Andresen, poeta portuguesa). A mim, a sua beleza pura serve-me também para suportar os momentos que não vivo junto ao mar e em que não posso usufruir da ´felicidade máxima de tomar banho entre rochedos´. Nas ondas do mar. A poesia não muda o mundo, nem muito menos faz de nós pessoas melhores. Serve apenas para ajudar a viver. E isso, como as ondas que apanhamos no surf, é tudo.”
As palavras de Pedro Adão são sprays de mar e cultura banhando os surfistas que sabem também surfar a vida. Um livro perfeito para imaginarmos a próxima session e uma vida melhor - mais próxima das alegrias, liberdades e purificação que as ondas nos proporcionam: “Quando visto o fato (roupa de neoprene) e pego na prancha já dentro de água, mas ainda não deitado na prancha, dou os primeiros passos antes das primeiras espumas... costumo sentir um desligar cujo primeiro sinal é ouvir um eco da minha voz. Nada disto é misticismo, pelo contrário, é a razão que fica pura, compartimentada apenas por água. Em poucos sítios se pensa com uma clareza tão absoluta e tão pouco censurada.”

* O livro pode ser comprado no site http://www.bertrand.pt/catalogo/detalhes_produto.php?id=185830

quarta-feira, setembro 23, 2009

Ibra sensacional


Temos o privilégio de poder ver, nos dias de hoje, um dos melhores times de todos os tempos em ação. Sim, muitos não sabiam como ficaria o Barça sem o goleador impiedoso, Eto´o. Mas a dúvida se dissipa cada vez que seu substituto, o sueco Ibrahimovic, faz coisas como a que fez no terceiro gol do Barça, ontem contra o Racing, em Santander. Quando um grandalhão como esse sabe proteger a bola (como poucos) e ainda possui uma técnica e habilidade excepcional, o estrago é pesado. E Ibra ainda é um daqueles raros jogadores inteligentes, que enfia a bola onde ninguém espera. Na melhor tradição Doutor Sócrates, vejam o que o sueco aprontou ontem. De quebra, acompanhem outras jogadas mágicas, do cirúrgico armador Xavi e do genial Messi. Mais um recital. Futebol arte puríssimo.

segunda-feira, setembro 21, 2009

Um monstro exemplar


Um gigante também no caráter

A história do formidável título espanhol no Europeu de Basquete – um torneio que, pelo nível técnico e dificuldade, faz a nossa Copa América parecer torneio colegial – passa por esse rosto tão iluminado como guerreiro. Passa por esse fantástico pivô de 29 anos chamado Paul Gasol. Passa por esse monstro dos garrafões e arremessos curtos que já fora, há menos de 3 meses, campeão da NBA com os Los Angeles Lakers. Ele - que foi campeão mundial de basquete em 2006 e medalha de prata na Olimpíada de Pequim, dando um inesperado suadouro simplesmente nos EUA com o melhor da NBA – liderou a Espanha em uma campanha avassaladora no Euro Basket terminado ontem. A Espanha triturou a Sérvia por mais de 20 pontos, mas a mídia esportiva brasileira simplesmente não revelou a história de superação e amor de Gasol pouco antes do Mundial.
Gasol estava esgotado depois de brilhar na Olimpíada de Pequim (agosto 2008) e emendar direto a temporada 2008/09 da NBA. Até pensou em não ir ao Euro, disputado na Polônia. Mas falou mais alto seu compromisso de não abandonar seus companheiros de seleção e país. Em 8 de agosto passado, integrou-se à seleção uma semana depois do início dos treinamentos visando o Campeonato Europeu. Precisava descansar pelo menos uma semana para recuperar parte das forças. Só que dois dias depois, num coletivo, ele sofreu uma lesão no ligamento do dedo indicador esquerdo. Ele foi operado logo e o diagnóstico foi: 20 dias sem tocar numa bola de basquete. Detalhe: o Euro começava no início de setembro. Por isso o Lakers enviou seu preparador físico para a Espanha, a fim de analisar a mão de Gasol e, possivelmente dissuadi-lo de jogar o Euro, após a lesão no dedo.
Penso logo nos brasileiros Leandrinho, Varejão e Nenê, que seguidamente recusaram convocações da seleção alegando problemas físicos, contratuais (caso de Varejão) ou porque não quiseram mesmo (Nenê, alegando discordância com a política da Confederação Brasileira de Basquete) para não vestir a camisa do Brasil. Alguém acha que um desses três não desistiria imediatamente da competição com uma lesão como a do espanhol?
O caso é que Paul Gasol foi consultar um traumatólogo em Barcelona, enquanto permanecia na concentração da seleção, junto do grupo, fazendo o trabalho físico possível. Dedicou-se demais e trabalhou até nos 2 dias de folga que os jogadores da sua seleção tiveram, quando pediu ao Barcelona que liberasse o clube para ele treinar sozinho.
Gasol recuperou-se pouco antes da estreia do Euro, jogou mal e sua Espanha perdeu da Sérvia. Assim como perderia na partida seguinte e seria muito criticado junto de todo a seleção. Só que ele não é da espécie que se esconde nas horas ruins. Poderia até refugiar-se no tempo que perdeu, as três semanas tratando do dedo, mas o super pivô fez o contrário. “Eu cresço na adversidade e sempre convivi bem com a pressão das expectativas. Isso não me dá medo”, disse Gasol após as derrotas.
Na sequência, sua Espanha ganhou todos os jogos, foi subindo de produção e massacrou os gregos ma semi e os mesmos sérvios na final. Claro que ele não venceu sozinho, contou com as excepcionais participações de Rudy e Navarro, sobretudo, e outros talentos como o jovem armador Ricky Rubio. Mas Gasol foi, claro, o líder e força maior da sua Espanha. A Espanha que ele jamais abandonou na hora H. Igualzinho aos nossos mimados brazucas da NBA, que deram as desculpas mais esfarrapadas para não vestiram a amarelinha no último Pré-Olímpico, e agora posam de heróis depois de conquistarem mais uma “sensacional” Copa América...
Vejam abaixo os melhores momentos do show espanhol ontem e, por amor ao basquete, deem uma olhadinha na jogadinha do Ricky com o Gasol lá pelos 2´40!