domingo, junho 07, 2009

Número 1 Eterno


Poucos ídolos e heróis do futebol foram tão discretos, fora do campo, como ele. Poucos foram tão decentes e humildes em campo. Porque Cláudio Taffarel era de uma espécie de homens dignos cada vez mais rara no mundinho ultrabajulado dos milionários da bola de hoje. Por isso deu gosto ver hoje a casa bonita mas pequena - em comparação com as megamansões de outros famosos dos gramados - desse fantástico goleiro. Fantástico porque mesmo tão criticado muitas vezes, ele crescia na hora certa. Quando o negócio era Copa do Mundo, Taffarel se tornava o maior goleiro do planeta. Neste vídeo, curtam a simplicidade de um dos heróis do Tetra (Copa de 94) e a cara de pau e malice do Galvão, que tentou fazer o papagaio falar várias vezes e não conseguiu a expressão que o locutor inventou e consagrou: "Sai que é sua, Taffarel!"
PS - Taffarel é um dos personagens de meu livro, Heróis do Esporte, Heróis da Vida, um livro em que "só entra" quem tem muito caráter. Quem quiser descolar e ler o capítulo "O anjo de Marselha", entre em http://tinyurl.com/qm279q

sexta-feira, junho 05, 2009

Alma nova


No meio de tanta porcaria ultracomercial que é o rock dos anos 2000, é bom escutar uma voz e uma banda que transmitem algo raríssimo hoje: alma. Já falei deles uma vez. Falo de novo. Kings of Leon. Toneladas de alma na batera furiosa, riff de guitarra energético e, sobretudo, no canto belo, rouco, visceral e urgente de seu vocalista. Pra reencontrar a beleza e fúria de viver, procurem esses caras, liguem no carro, acelerem ou simplesmente escutem-nos olhando pra lua, sozinho com seus sonhos, pensamentos e lembranças.

quarta-feira, junho 03, 2009

Gladiadores!


A ideia foi de Pep Guardiola: queria passar um vídeo motivacional para seus atletas antes da final contra o Manchester. Por isso encomendou a um amigo jornalista que editasse um vídeo, pedindo que ele incluísse algumas cenas do filme Gladiador e que todos os jogadores do Barça, entre titulares e reservas, aparecessem no vídeo. O resultado, sensacional, vocês veem aqui. Deixem rolar o vídeo (no começo essa história é contada no idioma catalão) ou arrastem até 2´04´´ que aí começa a rolar o filminho que injetou ainda mais vontade nos artistas-guerreiros que conquistariam a Europa. Cliquem no ícone para ampliar tela porque a imagem é perfeita!
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sexta-feira, maio 29, 2009

A rebelião das ondas


Já esperava ondas pequenas. Era o último suspiro do swell do fim de semana. Mas o mais importante era o verbo vital para os surfistas: eu esperava. Sabia que elas estariam lá.
Surfistas têm fé.
Surfistas sonham. Mesmo que o sonho seja tão banal – para os não-surfistas – quanto desejar alguns presentes ondulatórios para começar bem a semana.
O caso é que chegando lá - já cansado porque a viagem não é tão curta e o corpo e a mente estão sempre cansados do sono atrasado e conturbado – o desgaste físico sumiu com as meninas bem pertinho. Sim, mesmo numa maré cheia, o mar chamava, “vem brincar, moleque!”, mesmo se o moleque já varou os 40. E certo, as meninas eram pequeninas, mas com uma formação perfeita de desenho animado, e longas.
Longas como são toda boa session de surf. Longas porque nos levam muito mais longe que os reféns do cotidiano de escritório jamais vão entender se não pegarem um cavalo de fibra – a prancha – e galoparem oceano adentro como o menino que um dia foram sobre um cavalo de pau cheio de vida.
A vida que há na imaginação e fantasia.
A vida que há quando somos totalmente preenchidos de um outro mundo chamado mar.
O mar que fala através de palavras, brincadeiras e passeios chamados ondas.
O mar que hipnotiza com as cores que computador, sites ou videogames jamais conseguirão imitar: as cores do entardecer das segundas-feiras ao mar.
As cores da rebeldia que é surfar enquanto a maioria luta contra a insuportável retomada da rotina, compromissos, prazos e relação com chefes.

A rebeldia que é ter como chefe a vida.
A rebeldia que é estar sozinho no mar enquanto o mundo deve trabalhar.
Não há nada que um bom dia de surfe não cure é o clichê mais batido da história do surfe. Mas tão real como é a verdade de estarmos mais vivos dentro do mar. Tão real quanto o surfe ser meu remédio fundamental para suportar a vida sem seu elemento vital, o amor.
Por isso, surfo.
Por isso, resisto.
Por isso ainda sorrio, como um moleque, quando percebo que no entardecer de minha praia amada eu só consigo ver a tela maravilhosa do entardecer atrás do morro quando surfo de backside.
De costas para a onda.
De costas para o sistema.
De costas para a normalidade.
Ali e naquele instante, no finzinho da segundona brava do mundo que anda para o lado dos poderosos que mandam, um surfista sorria e gritava alucinado só porque surfava sozinho com a mesma convicção do nosso poeta maior:
PARA A ESQUERDA!

quarta-feira, maio 27, 2009

Campeões da Vida


Não foi a vitória “apenas” do futebol arte e da forma de jogar mais bela que há neste planeta. Não foi apenas um canto sinfônico de passes perfeitos e envolventes, conseguindo a proeza de unir prosa, poesia, matemática, pintura, música etc. A prosa e geometria das tabelas, triangulações, craques dialogando entre si; a poesia-pintura dos passes milimétricos - frutos de talento, originalidade e coragem para descobrir e servir os companheiros na cara do gol; a poesia dos dribles sensacionais de seus artistas; a orquestra musical em cada ação-blitz em conjunto de seus fantásticos meias e atacantes que jogam de forma solidária. Uma forma bem diferente do individualismo, por exemplo, da maior estrela do time inglês, Cristiano Ronaldo.

Não foram apenas as jogadas, tão bem tramadas quanto imprevisíveis nos movimentos - quase uma dança - de Xavi, Iniesta, Messi, Henry, Eto´o e companhia. Não foi apenas um domínio absoluto (“um massacre” até para o habitualmente comedido comentarista PVC, da ESPN), verdadeiro baile humilhante em cima do atordoado Manchester o que o Barcelona exibiu hoje em Roma. Sim, a palavra correta é mesmo “exibiu”, porque o Barça resgatou o futebol dos sonhos; um futebol fiel à escola de toque de bola com arte que há mais de 30 anos é o estilo deste clube. Um estilo implantado pelo gênio holandês, Cruyjff, primeiro como atacante do Barça, nos anos 70, depois como treinador.

Aliás, muito mais que um estilo, a beleza do jogo do Barcelona parece estar em seu próprio DNA. Mais que isso, em sua alma.

A alma de um futebol que transcende o próprio futebol. Pois as partidas-espetáculos do Barça são aulas de como jogar-viver no ataque a partir da bola rolada de pé em pé. Rolada, não, ofertada. Dada para o companheiro como um presente. Presentes que reunidos transformam-se nas obras de arte que parecem cada bela jogada do Barcelona. De como jogar-viver com coragem, partindo para cima do adversário com a arrebatadora fúria da beleza. A fúria de homens que sabem que a arte - quando expressada com habilidade, técnica e amor – vence qualquer barreira. Barreiras como o outrora poderoso Manchester, “um time mais equilibrado, forte e favorito” para muitos comentaristas antes desta final.
Para o bem do futebol e da vida, os comentaristas estavam errados. Venceu hoje o time mais belo, corajoso e imaginativo.

É sempre uma dádiva ver a vitória de tantos artistas juntos.

É sempre maravilhosa a vitória da fantasia e da arte nesses tempos tão covardes e pragmáticos.
PS - Número de faltas cometidas pelo Barcelona na decisão: 7 (!)
Porcentagem de passes acertados pelo Xavi: 93% (!) (em 77 passes)

domingo, maio 24, 2009

A temporada dele


Tanto atacante teve chance com Dunga, até o Afonso... Tanto cara mais badalado, como Robinho, o inútil do Manchester City ou o Luís Fabiano, aquele que vai sumir na hora h, como fazia no São Paulo quando mais precisavam dele. Falo do brasileiro que fez a temporada mais sensacional na Europa: o ágil, forte e impiedoso Grafite; ágil como uma pantera, avassalador como um tanque de guerra; preciso como um herói chamado para salvar aquelas cidadezinhas de faroeste antigo. O Grafite que fez incríveis 28 gols no Campeonato Alemão 2008/09 e que liderou o pequenino Wolfsburg no primeiro título alemão de sua história, confirmado neste sábado. O Grafite que fez até agora o gol mais bonito do ano na histórica goleada do seu time frente o poderoso Bayern de Munique. O Grafite que é o dono de Wolfsburg junto do capitão da equipe, o também brasileiro Josué. O Grafite que um dia foi alvo de racismo quando jogava pelo São Paulo e teve a coragem de denunciar seu agressor e levá-lo preso (o argentino Desábato, então jogador do Quilmes) na Libertadores de 2005. O Grafite que dava o sangue pelo São Paulo que ajudou a fazer um belo início daquela Libertadores que venceu (2005) antes de ser vendido ao exterior.
O Grafite que é herói agora no país que foi no passado um dos mais racistas da história graças àquele maluco facínora de bigodinho...
O Grafite que venceu com garra, talento e gols. Que venceu com a arte do gol antológico que reproduzo abaixo (o vídeo demora um pouquinho a rolar, mas começa):

quarta-feira, maio 20, 2009

Surfistas e Vagabundos

Segunda brava. Session nervosa, o primeiro drop já derruba sem dó, pescoço batendo forte. Ondas rápidas fechando um pouco. Algumas – poucas – belas paredes encontradas; raras pílulas de aceleração máxima e aquarela permitindo vários desenhos lá embaixo e esboços de pancadas lá em cima. Quase no fim da session, o corpo moído já pede o até logo e o chuveiro quente perto do anoitecer.
A solidão no pico também incomoda. Companhia no outside? Ninguém. Mas eis que o laranja e o dourado agem feito um imã no horizonte. O sol se põe com beleza de fotografia de filme de cinema. Aquele céu pede uma saideira digna como um copo erguido em homenagem a alguém. Remava e remava e tomava uma onda atrás da outra na cabeça, numa sequência humilhante. Mas havia aquela luz, não conseguia desistir. Pow! Mais um soco na cabeça, desisto. Viro em direção à praia e pego qualquer onda já meio estourada, típica última onda indigna. Mas o que é indigno quando podemos estar lá fora sozinhos mas preenchidos da luz única do entardecer? O que é uma session meia boca perto da dádiva de ter o corpo arrebentado, a pele salgada e a alma sempre elevada após algumas ondas, mesmo que poucas surfadas? Existe alguma chance de estarmos lá fora - ora surfando, ora apanhando – e isso não nos levantar o astral e a sensação de estar vivendo? Existe alguma chance de encaramos águas frias junto de nossos cavalos de fibra de vidro - enquanto outros estão trabalhando ou deitados no cobertor - e isso não ser uma experiência positiva?
Nenhuma chance. A session mais tosca de surfe sempre será uma experiência de vida maravilhosa perto do que a maioria das pessoas estão fazendo em seus cotidianos repetitivamente infernais e competitivos.
E há sempre aquele gostinho meio marginal do surfe em plena 2ª feira.
Vagabundo é quem deixa a vida e as ondas passarem esperando aquela viagenzinha de fim de ano (no verão sem ondas...) que você e a torcida do Flamengo programaram pra mesma praia.
Vagabundo é quem não faz de cada semana é uma viagem profunda.
Por isso, se o bolso vazio não permite que você surfe, jogue-se em outras ondas. Pegue um pedacinho da 2ª (ou 3ª, 4ª...) e faça dele uma viagem. Mas tem que ser na fronteira entre o dia e a noite. Tem que ser na hora em que parece que o tempo para antes da escuridão chegar. Tem que ter a cor alaranjada da vida mais bela possível.

domingo, maio 17, 2009

Barcelona x Ditadura


Barcelona, Espanha, 1974. A ditadura do general Franco, um dos mais terríveis facínoras da história, segue perseguindo sem dó os opositores do governo, ainda na mais na Barcelona que defende até um outro idioma do povo local, o catalão. Quem luta contra os carrascos de Franco é gente como o jovem Salvador Puig, que roubava bancos para arrumar dinheiro para a revolução contra os militares. O filme “Salvador”, depois da hora inicial lenta e arrastada, torna-se uma obra envolvente e dramática ao mostrar o idealismo de Salva Puig e sua coragem para seguir resistindo mesmo já preso. E na prisão ainda há a bela humanização do guarda que primeiro considera Salva apenas um assassino (em legítima defesa, de um policial) e depois estabelece uma tocante amizade com o jovem revolucionário.
O filme é ainda uma poderosa amostra da resistência que os catalães de Barcelona ofereceram contra o assassino governo de Franco. Impedidos de falar catalão ou protestar por um país livre e justo, os catalães só tinham duas saídas: suportar a ditadura ou enfrentá-la. Mas mesmo os que não lutavam, tinham 90 minutos de sonho a cada vez que o time de futebol do Barcelona jogava em casa, no estádio de Camp Nou. Só ali dentro as dezenas de milhares de torcedores do Barca podiam cantar e falar livremente e cantar no idioma de seus corações: o catalão. Nem um Hitler espanhol como Franco tinha coragem de mandar matar 100 mil rebeldes do Barça durante uma partida de futebol. Se bem que matar milhares Franco já tinha feito ao permitir que seus aliados nazistas bombardeassem Guernica (no país basco, outra região espanhola que queria exprimir-se livremente em oiutro idioma). Ali Hitler testou os armamentos dos caças alemães, em 1936, episódio que seria eternizado com horror e arte por Pablo Picasso.
Voltando ao filme, no 1974 em que Salvador Puig foi preso (e condenado à morte), o Barça lavou a alma de seu povo ao enfiar 5 a 1 na equipe protegida do general, o Real Madrid... Esse jogo, em que brilhou o gênio holandês Cruyjff, é citado no filme “Salvador”, que traz uma poderosa interpretação em sua hora final do ator que já fez outros filmes políticos e anti-sistema, “Edukators” e “Adeus Lênin”.
Por que ver? Todo bom filme que relembra e denuncia uma ditadura é vital nesse mundo sem memória, especialmente o Brasil. E vejam abaixo um histórico show no estádio do Barça, no mesmo 1974, em que o cantor libertário LL Lach entoa um canto-símbolo da resistência contra o fascismo, "I si canto trist". Percebam as bandeiras da Catalunha e a emoção do povo de Barcelona naqueles anos negros de repressão.

quinta-feira, maio 14, 2009

Aulas vivas


Escolas são em geral lugares chatos e monótonos entupidos de livros didáticos e lousas repletas de teorias. A frase "peguem o livro" (o didático, de cada disciplina) é o pesadelo de 9 em cada 10 alunos. Por isso tento fugir disso. Se o livro ainda é obrigatório, procuro toda semana também usar outros meios. Ou deixar que outros professores deem essas aulas. Professores como um cara que partiu 15 anos atrás.
Incrível o poder de Ayrton Senna, mesmo se visto na tela pequenina de um notebook em uma aula na escola. Incrível como suas façanhas na pista e exemplos, como piloto e ser humano, resistem ao tempo. Enquanto passava uma reportagem antiga do Jornal Nacional sobre ele em uma classe, logo algumas cabeças, de outras turmas, apareceram na janela. Cabeças e corações que também queriam ver Senna. Por isso deixei o herói acelerar e ensinar nas outras turmas também. Por isso meninos e meninas que não haviam nascido quando ele corria, puderam aprender mais com o mito. E incrível como ficaram calados, mesmo os mais bagunceiros. Essa é a educação em que acredito: deixar grandes mestres falarem diretamente aos meus alunos, por vídeos, filmes, textos de jornais, canções etc.
Sei que a teoria e um pouco de técnica (no meu caso, de Redação) ajudam a escrever melhor. Mas nenhuma aula teórica de narrativa ou dissertação suscitaria a mesma percepção e vontade em meus alunos que essa aula que o Senna deu ontem e hoje em minha escola paulistana. Ao final dos vídeos, coloquei algumas perguntas na lousa e alguns alunos perguntaram: em vez de responder cada pergunta, posso escrever uma redação?
Isso os dinossauros teóricos jamais entenderão: para um jovem gostar de escrever, ele precisa, sobretudo, se envolver, se emocionar, se entusiasmar. Só aprende quem ama.
Nunca vi um texto sobre Ayrton Senna em um livro didático...

quarta-feira, maio 13, 2009

O santo mais humano


Como admirar um ídolo do clube rival odiado? Como não ficar p... da vida com o cara que salva o time que a gente não suporta da desclassificação da Libertadores? Como não estragar a noite de sono de nós, secadores? A resposta é Marcão, um imenso goleiro e ser humano. Um cara maior que suas defesas fantásticas. Um raro ídolo e homem exemplar dentro e fora de campo. Bom, homem é pouco às vezes, porque ontem, ressurgiu de novo em sua alma lutadora um herói antigo: São Marcos.
Ontem, em plena Ilha do Retiro, Recife, a cada defesa difícil que ele fazia, atirando-se para espalmar a bola e depois caindo no chão, sua dor e sofrimento era visível. A dor de um corpo castigado por uma longa carreira e diversas fraturas no passado. Ontem essas defesas foram várias. Pelo menos três milagres no tempo normal e depois os pênaltis que defendeu (bom, esses foram mais fáceis, porque das 3 defesas, 2 vieram de jogadores do Sport que simplesmente tremeram ao ver o enorme Marcão na frente).
Marcos já podia ter parado de jogar futebol faz tempo. Campeão do mundo com a Seleção em 2002 (pegando muito em todo o Mundial, inclusive no difícil início de final contra a Alemanha). Campeão de quase tudo com o Palmeiras, incluindo uma Libertadores que ele garantiu nos pênaltis (1999, contra o Deportivo Cáli). Um campeão que depois se estourou de tudo quanto é jeito, com as fraturas. E fraturas, quando se é um atleta com mais de 30 anos, é coisa muito dura de encarar.
Mas Marcos encarou tudo e voltou a jogar em alto nível. Voltou a ser santo. E levou seu limitado Palmeiras às quartas de final do torneio mais duro do mundo, a Libertadores.