
As pessoas que amamos devem ser livres, e isso inclui nossos cães. Por isso eles devem poder fazer tudo o que querem. Devem ser eles mesmos, sem as manias opressivas de controle impostas pelo homem. As manias militares que vejo toda vez numa praça perto de casa. Ali “donos” e “donas” ditadores obrigam seus cães a pegar coisas, a andar em passadas ritmadas, a ficarem quietos e uma série de comandos. Muitos pensam ser superiores a seus cães, por isso se acham “donos”. Não sabem como seriam mais felizes se deixassem seus bichinhos serem eles mesmos e cometerem todas as suas loucuras que são apenas travessuras de almas selvagens-infantis. É isso o que sempre fez o insano labrador Marley, que jamais foi servo de seus “donos”, mas sim um companheiro fiel, mais que isso, um ser da família.
Por isso Marley ajudou seu parceiro humano, o jornalista John Grogan, a se tornar um colunista famoso. Porque Grogan criou uma coluna de crônicas sobre o cotidiano em que Marley quase sempre fazia uma participação especial. Porque Marley era um cão especial, único, e não esses bichinhos amestrados sem graça que se proliferam pelas praças e parques dos seres humanos “civilizados”. Por isso o livro Marley e Eu foi um sucesso mundial, assim como está sendo esse delicioso filme que faz rir e chorar nos cinemas. Porque Marley não tem freios morais e adestradores (bom, na verdade até tentaram levá-lo a uma aula.. em que ele foi expulso depois de enlouquecer a adestradora...). Porque Marley, “o pior cão do mundo”, alcunha com que Grogan o chama algumas vezes pelas diabruras, é na verdade apenas um cão que deseja viver e amar intensamente. Por que será que o cão mais estabanado do mundo de repente para quietinho na frente dos bebês do casal (sim, Grogan vai ter três com sua esposa) sem machucá-los. Por que o cão mais doido do planeta de repente dá um tempo de comer até o assoalho da casa e bota sua cabeça no colo da mulher que acaba de perder aquele que seria seu primeiro filho?

Marley é adorável porque contraria as ordens e paranóias humanas. Minha pequena dálmata gordinha insana Capitu se apaixonaria facilmente por ele.
A Capitu para quem um dia joguei uma bolinha e ela apenas acompanhou com os olhos e cabeça e depois olhou para mim como se eu fosse um idiota, como na verdade era pedir que ela pegasse a bolinha.
A Capitu para quem eu grito “desce!” e ela deita e fica me olhando com a maior cara de sonsa do mundo.
A Capitu para quem eu falo firme “fica aqui!” e ela sai correndo para procurar comida no pé da árvore e na moita onde sempre tem alguma coisa.
A Capitu para quem eu grito “larga isso!” e ela olha pra mim encapetada antes de devorar meio mamão inteiro que o velhinho da praça não desconfia que não são os passarinhos que comem o papaya mas sim uma dálmata legítima: esfomeada 24 horas por dia. Detalhe: o meio mamão é apenas parte da mamãozada que não deixo ela comer tudo.

A Capitu que pula no meio das minhas pernas enquanto eu tento fazer abdominais no banco da praça.
A Capitu que se enfia por baixo da minha cabeça e lambe minha testa enquanto tento fazer flexões.
A Capitu que na hora em que os outros dois dálmatas finalmente foram dormir e ficaram quietos resolve dar sua uivada tradicional feito um lobo das estepes toda santa noite.
A Capitu que, nos dias de calor, eu ordeno “fica deitada aí!” (fora da casa) e ela fica até eu sair do campo visual dela e desembestar pela casa feito um furacão, subir as escadas feito um bólido e descer, invariavelmente, com uma meia branca na boca.
A Capitu que só entende, por alguns segundos, uma coisa: uns tapas na bunda. Que logo ela esquece para aprontar mais uma de novo.
A Capitu que deve ser o único cachorro do mundo que de repente fica com saudades da sua casa, pega a guia com a boca e sai correndo da praça em direção à casa enquanto eu saio correndo atrás dela.
A Capitu que ama sua casa e seu dono com a liberdade e loucura que os cães adestrados perdem um pouco pela mania de controle de seus donos neuróticos.Viva Marley e Capitu!








