sábado, dezembro 06, 2008

A onda perfeita



[Um ex-aluno, futuro jornalista, me pediu para dar um depoimento sobre o que é dar aula, para uma reportagem sua. Tentei então esse texto.]
Dar aula? Sobretudo é ouvir e aprender, se importar. Existem professores de Redação que apenas lêem e corrigem a gramática e forma dos textos. Esquecem o mais importante: ouvir os corações por trás dessas palavras. Ouvir corações? Que outro professor recebe vidas desnudas, esperanças, medos e sonhos, alegrias e tristezas em folhas de papel?
Sim, é delicado nosso papel, talvez responsabilidade demais ter um pouquinho de vidas depositadas em nossas mãos. Mas temos que ter a coragem de conversarmos com os alunos através dessas mesmas redações. Tradução: atenção. Por isso, não corrijo apenas, procuro sempre deixar um comentário para o aluno. Às vezes incentivo um talento, às vezes apenas tento demonstrar um abraço - um “conta comigo” – se percebo tristeza ou medo. “Ah, os alunos devem superar seus medos e problemas sozinhos”, dirão os céticos. Mas não custa nada, e creio ser fundamental, apontar alguns caminhos ou alternativas.
Vital também é dar forças e encontrar qualidades [todos têm!] naqueles que têm maior dificuldade em escrever. Onde algum outro poderia encontrar apenas erros gramaticais e talvez um desenvolvimento precário do texto, se enxergo um pensamento maduro, consciente ou um belo valor, valorizo isto demais. Porque são poucos os que tiveram a facilidade de ter pais amantes da literatura e da leitura. E também porque, às vezes, num texto mal escrito, mas sentido com beleza, força ou indignação [ou tudo isso junto], podemos aprender e nos emocionar.
Aprender. Um professor que não aprende a cada aula com seus alunos está na profissão errada. Como fazer isso? Escutando, dando oportunidades, chegando perto daquele que quase não fala [mas que grita com os olhos] e pedindo, sem alarde, que se exponha.
É preciso fazer das aulas atos religiosos. Não, não falo em sermões de missa, e sim no aspecto sagrado da comunhão. Precisamos todos, professor e alunos, comungar do mesmo objetivo: aprender com respeito, atitude, amor e muita, muita garra. Aí está o lado sagrado da educação em que acredito. Chega através de aulas dinâmicas, alunos entusiasmados, discussões acaloradas sobre temas relevantes e no final, o silêncio da hora de escrever. Pronto, acontecem assim belos momentos, até inesquecíveis, tão cheios de sentido e criação.
Aulas como essas, que acontecem tantas vezes!, me dão a sensação de estar lá fora no mar, esperando as ondas enquanto converso com um amigo de vida toda. E como surfo, enquanto escuto as palavras dos alunos nos debates ou leio seus textos. Encontro em sala de aula a tão sonhada onda perfeita.
Essas são as aulas em que acredito, cujo símbolo maior que encontro é um ato que comecei a fazer por necessidade de me posicionar na mesma altura que meus alunos, que estão sentados: quando me chamam - olhos brilhando de curiosidade, querendo dizer algo ou apenas pedindo ajuda para um início de redação – não peço, algumas vezes, que venham até a “mesa do professor”. Vou até lá, me agacho, ou me ajoelho e dou uma respirada, mirando seus olhos. Nessa posição, eu e eles parecemos aprender juntos. Por um texto, sentimento. Por um significado. Pela vida. Aos alunos com carinho.

De onde vem essa força?



Eles ultrapassam talvez tudo o que já vimos de surpreendente, motivador e belo em se tratando de grandes momentos do esporte. São os atletas portadores de alguma deficiência, física e/ou mental. São esses fabulosos lutadores e lutadoras que começaram hoje a disputar a Paraolimpíada, em Atenas. E que ontem, protagonizaram um tão humano desfile na inacreditável cerimônia de abertura desses Jogos [quanta sensibilidade, arte e simplicidade - mais uma medalha de ouro em bom gosto e humanidade foi vencida ontem pelos gregos].
Assisti hoje cedo à uma prova de ciclismo de pista, dentro do velódromo. Alguns ciclistas mal conseguiam ficar de pé e andar, por possuírem sérios comprometimentos nas pernas e pés. Eram ajudados pelos voluntários para subirem no selim e se acomodarem em suas bicicletas. Como conseguiriam pedalar?
Eles conseguiram. Em cima dessa maravilhosa máquina chamada bicicleta [com tão pouco jeito de máquina, por ser silenciosa, delicada, bela], eles voaram pista afora. Pássaros da garra e coração humano que não se abate com nada. Como uma antiga aluna valente uma vez escreveu - sobre um deficiente que praticamente não se movia, mas pintava como um gênio com o pincel na boca – o que os movem é uma alma pura e guerreira, sem as deficiências que muitos de nós carregamos.
Pureza e vida foi o coquetel essencial da festa de abertura, com aquela imensa árvore que os gregos colocaram dentro do estádio olímpico. Árvore que significa tanto [a fertilidade, os frutos, o verde, a proteção, a preservação, o futuro...], que os gregos iluminaram a cada momento com uma cor e bailarinos diferentes, representando todo o espetáculo da vida: água, terra, fogo, ar; mar, céu, paraíso, inferno; morte, vida etc etc. Não assistiu? Perdeu o inesquecível. Mas sentirá emoções parecidas se ligar no canal Sportv e acompanhar, todos os dias [até dia 28], os espetáculos de coragem e beleza da Paraolimpíada.
Beleza, sobretudo. Porque precisamos parar de ter pena desses atletas - tratando-os ou sentindo-os como coitados - e valorizar as manobras e atuações sublimes que eles conseguem fazer. Como esse balé frenético e sutil com que o pessoal do basquete conduz suas cadeiras de rodas; como as adaptações que esses leões conseguem fazer com seus corpos mutilados [em alguns casos] para conseguir, por exemplo, nadar em alto nível mais rápido que nós, mesmo sem parte da perna ou dos braços.
Como esses pássaros que me encantaram hoje no ciclismo. Que provam que, mais que uma mente e corpo são, o que produz um campeão da vida é a alma incansável que não conhece o significado da palavra “impossível”.
A alma que sonha, quer e persegue não conhece barreiras. Por isso voa.
(18/09/2004)

Carta a um corinthiano



Caro Corinthiano,

Domingo, ao escutar na TV alguém falando da “velha garra corinthiana”, lembrei de você. Lembrei então daqueles tempos inesquecíveis da adolescência, quando você enchia o meu saco sãopaulino falando primeiro do Doutor Sócrates [ainda bem que ele tinha um irmão caçula...], de Biro-Biro [existiu algum homem mais alvinegro que ele, que vestiu mais no peito cheio de raça, no jeito humilde e na atitude de empurrar seu time sempre para a frente o que significa Corinthians?]; e depois do louco genial, Neto [por que não existem mais craques com o caráter e a coragem de falar o que sentem como ele?], daquele figura do Ronaldo [grande goleiro cheio de mandingas e péssimo roqueiro, mas eu e o Dudu demos boas risadas escutando ele cantar] e daquele maldito talismã chamado Tupãzinho, que marcou o gol aquele gol do título brasileiro pra vocês em minha casa, o Morumba...
É, cara, acho que foi você quem inventou um ritual sagrado depois daquele campeonato: passar em minha casa buzinando, gritando Timão e tirando sarro [ah, não sei, posso ter sido eu o primeiro a sacanear, né, pois o Tricolor ganhava tudo nos anos 80...]. Mas como você e seu pai se arrependeriam depois, pois depois que Rei Raí chegou, acho que passei muito mais na sua casa comemorando títulos e zoando que o contrário [precisa ver como o Kaju adorava esse ato!, é, o São Paulo era tão bom que mesmo com o Kaju a gente era campeão...].
Bom, corinthiano, escrevo esse bilhete só pra te lembrar que nesses tempos difíceis, em que pode não estar acreditando em mais nada, existem coisas que não mudarão jamais,
como a beleza da infância regada à muita loura [gelada ou não...], festas e aquele futebol jogado com amor em tudo que é campinho! Você criou até um time lendário, o Independente Futebol Clube! E olha, que depois de ver o ex-urso Nando magrinho de novo, deu vontade de refazer aquela grande zaga Nando-Zé, só não podemos chamar de volta o Bala, o bicho tá grande... cara, lembra quando ganhamos do time dos babacas loducas e juniors na USP, O Carlinhos metendo uma bicicleta atrás da outra?...
como aquelas corridas que a gente dava, tenizão Rainha no pé, encarando grandes vendavais [continua curtindo correr na chuva?]
como aquele Iron no talo [que você me zoou anos, porque eu não tinha visto o Bruce ao vivo, até o ano passado, quando só vi porque vocês passaram em casa]
É, corinthiano, os amigos também não morrem, cara, e mesmo você e o mais Bundão [grande Dudu] morando tão longe, a gente tá sempre aí.
Deixo abaixo então, além de um grande abraço de Ribeirão, e uma inveja. Pelo menos vocês tem raça, e eu fico aqui sofrendo pra eternidade, porque o maior de todos, Raizão, só teve filha mulher...
E pra fechar, lembra do Iron e do Churchill, You must never surrender.
PS – Tá, pro Dudu não encher o saco, lembro tb do grande curinga Wilson Mano.
PS2- Torneio da FIFA e aquele jogador “mau caráter é pouco” não entram, que isso aqui é site de gente direita hehe.
(set 2004)

O homem sem medo



“O tempo não pára. E a gente ainda passa correndo demais”, esse era o lema de Cazuza. Consumir cada momento feito um louco. Sem freios, sem medo, embriagado pela vida. Com muita paixão: pela música, juventude, noite e, sobretudo, por si mesmo. Foi sim um grande egoísta, abusando do amor e proteção de seus pais. Mas foi preciso ser um egoísta e um ego inflado e inflamado demais por ter consciência de sua garra e genialidade, para escrever e cantar alguns dos mais belos, críticos e poderosos versos – verdadeiros hinos – do rock e de algo maior chamado música brasileira.
Foi esse poeta guerreiro um demolidor de preconceitos e talvez a voz mais corajosa no país naqueles pasmacentos anos 80, embrião da alienação e falta de atitude que formaria a triste nova juventude brasileira dos anos que viriam: a acomodada, consumista e cega “geração coca-cola”, como cantou e criticou outro poeta morto, Renato Russo.
Coca-cola para ele era só para misturar o rum, a vodka, algum outro álcool pesado, e ainda maconha, cocaína e a droga que pintasse. Ou para lavar o estômago e o coração do país podre em que vivia, da elite política e econômica que metia a mão nos bolsos dos brasileiros decentes e trabalhadores [mudou algo hoje?]. “Brasil, mostra tua cara, Quero ver quem paga pra gente ficar assim, Brasil, qual é o teu negócio? o nome do teu sócio?... Não me ofereceram nem um cigarro, fiquei na porta estacionando os carros, não me elegeram chefe de nada, o meu cartão de crédito é uma navalha...”, assim ele detonou na canção Brasil, que virou hino pela redemocratização e limpeza do país. Por que essa canção não entrou no filme, produzido pela Globo?... Algo a ver com “o nome do teu sócio”?
Pena que as drogas e a promiscuidade levaram cedo esse poeta fundamental. Imaginem o que poderia ter feito e cantado mais pela vida vivida com a paixão que ele nos ensinou.
A paixão de um exagerado consciente de que vivemos numa piscina cheia de ratos, cansados de correr na direção contrária, sem pódio de chegada ou beijo de namorada, mas com garra e, sobretudo, coragem. Porque, se você achar que eu tô derrotado, saiba que ainda estão rolando os dados, porque o tempo não pára...”.
A paixão de quem sabia que era preciso - nesses tempos negros em que nossos heróis já morreram faz tempo, de overdose - combater e denunciar nossos inimigos, os que estão no poder. Pena que hoje, 14 anos depois de sua morte, os heróis dos adolescentes sejam caras vazios que cantam sem dizer nada e estimulam os jovens a consumir aquela mesma coca-cola condenada por Renato e Cazuza. Pelo menos Cazuza não envelheceu para ver todos os belos ideais em que acreditava destruídos. Porque as ideologias de hoje, que nunca estiveram tão fortes, são as mesmas que ele teve peito para condenar – o poder, o dinheiro, a mentira e o consumo.
Porque Cazuza era homem.

Uma lágrima então porque ele era o cara.
Uma lágrima então, porque a vida segue a mesma:
Nas noites de frio é melhor nem nascer / Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros... Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro...

Assim segue o povo brasileiro, sem armas – educação, trabalho, dignidade. Sobrevivendo da caridade de quem o detesta.
(17/07/2004)

o verdadeiro amor é todo dia



Como é bom, nas horas duras ou depois de uma briga com alguém que a gente preza demais, ir lá fora e olhar a cara dela. Perceber o olhar tão puro, doce, cheio de carinho. Amor incondicional. Amor todo dia, todo instante. E não esse amor que só é bonito de vez em quando, quando o amigo ou a amiga não estão de pá virada. Porque um cachorro, por mais que tome uns tapas na bunda ou um balde de água fria quando começa a latir ou uivar feito doido [né, Capitu? !], não guarda essa besteira chamada rancor. Porque um cachorro, ainda mais se for uma louca dálmata baixinha que mora aqui em casa e detona tudo, só sabe amar. Amor sem essas barreiras tolas que os seres humanos, mesmo os amigos, colocam entre si.
É, foi preciso que o cara lá de cima colocasse um cachorro entre nós para aprendermos um pouco sobre o lado mais bonito do sentimento mais importante.
Portanto, pense muito antes antes de bater boca com um amigo. Antes disso, chega pra ele e faz uma perguntinha simples, - por quê?
O mundo seria muito melhor se as pessoas perguntassem antes de bater.
O mundo seria muito melhor se todo mundo tivesse uma cachorrinha amorosa como a Capitu.
PS – Em breve, pra não causar ciúme e revolução no quintal, falo também da minha maior companheira, Babalu [mãe dessa baixinha que falei] e do maluco tranquilão, parece um cachorro hippie, com cara de urso polar, o Sansão, o cachorro que é a cara do Higino! E não poderia esquecer da matriarca da família, que me acompanhou 14 anos sempre me dando um amor especial, a inesquecível Duda
(23/07/2004)

Túnel do Tempo



“Bem que podia existir uma máquina do tempo, imagina a gente vendo esses caras ao vivo”, falou o Atleta, pirando no ponto máximo em que a trilha sonora, estrada em direção ao mar, nos envolveu. Era Led Zeppelin, uma banda fundamental para qualquer legítimo roqueiro. Existe som mais poderoso e belo para levar amigos de velhos tempos de volta em direção ao mar? Amigos que não viajavam juntos há anos [porque se encontrar só na praia, depois de trem viajado separados não tem o mesmo sentido]. Finalmente iam para a praia amada deles de novo. Surfar, zoar, sacanear um ao outro com as mesmas piadas e brincadeiras estúpidas de sempre. Podia mesmo existir a máquina do tempo. Ou apenas precisamos ter mais coragem para lembrarmos, sempre, dos velhos amigos.
Mas será que voltei ao passado mesmo? Chegando no nosso pico de sempre, outro velho amigo, o Mergulhador, estava lá nos esperando, com o mesmo super carro de sempre, com o mesmo sorriso maroto que eu logo desconfiei o que significava: brothers se reencontrando e em seguida, ele me sacaneando, como rolou quando vimos um surfista andando na praia com três gatas, “é, a vida é assim mesmo, o cara andando com três deusas e a gente trazendo o velhinho pra passear”... Na seqüência, claro que queria quebrar meus três velhos amigos, ainda mais pela velha risada histérica do Velho, misto de ironia, sarcasmo, maldade e sacanagem que aumentam qualquer gozação a níveis astronômicos.
Zueiras à parte, logo estávamos lá atrás, e nosso pico bombava como sempre, um metro pra mais perfeito. Bom, logo, é força de expressão, porque penei para varar a arrebentação com o pranchão de 9 pés [pqp, pra que fui acreditar no boletim das ondas, que previa merrecas...], assim como o Velho, que anda em forma da padaria do pai dele he he. Mas uma hora a gente chegou, e era um tal de um aplaudindo a onda do outro [e tirando o maior sarro nos caldos sinistros] que o tempo deu um rewind brutal [tá, esse “voltar pra trás” escrito em inglês ficou uma tremenda viadagem, podem zoar seus malas] e me vi anos atrás. Os mesmos caras, as mesmas ondas, o mesmo astral. O mesmo papo profundo com o Mergulhador, sentados em nossas pranchas esperando as ondas, lembrando viagens e aquelas mulheres inesquecíveis do nosso colégio...
O que mudou? Talvez nós mesmos, pelos caldos cabulosos que a vida nos pregou, especialmente aos mais velhos e parceiros mais antigos. E talvez tenha mudado também a amizade. Porque, por mais que os anos passem, ela só aumenta.
Marquem então a próxima session. Porque, por mais banal que seja o que eu vou dizer, a vida é uma onda, e o movimento ondulatório é algo que sempre retorna.
Como o sol, como o sorriso besta e tão bonito que estampou a alma desses irmãos depois de tanto tempo. Tanto tempo...
(26/07/2004)

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Procura-se vivo ou morto


Foi no meio do bar, da noite já turbinada por baladas roqueiras e pelo sempre poderoso combustível de velhos amigos lembrando os bons tempos, as experiências vividas, as aventuras e os amores sonhados. De repente o coração do amigo - outrora tão jovem, decidido e revolucionário [queria mudar o mundo] – reduzira-se apenas à uma amarga e dolorosa pergunta que ele fez, com a coragem e tristeza dos que um dia acreditaram tanto:
- O que fizeram com o amor, Zé?! Ele ainda existe?????
Tomei um susto grande, e simplesmente não consegui responder, tamanha a força e angústia daquela pergunta fundamental. Olhei para o amigo e tentei falar alguma coisa. Não deu, só saiu, após segundos intermináveis, um “esclarecedor”,
- Porra, Paulinho...
Foi tudo o que consegui dizer, talvez por ter, há algum tempo, a mesma dúvida violenta e corrosiva. Ainda bem que naquela noite logo pintaram risadas pelo papo profundo demais. E o peso da bateria, os gritos do cantor, as viagens e barulho das guitarras concretizaram a anestesia. Mas volta e meia a pergunta daquele ex-sonhador se transforma em outras. Se transforma numa dura página de classificados da vida:
Procura-se o amor.
Procura-se a coragem de amar
, o novo e o velho sentimento.
Procura-se uma fotografia e tudo o que ela representou.
Procura-se uma menina que inspirou um final feliz de um romance de um surfista.
Procuram-se as canções de amor que o rock fez pra ela através da paixão dele pelo rock.
Procura-se a melodia daquele sentir juntos, com a mesma intensidade e significado, aquelas cenas dos filmes.
Procura-se aquela canção, que falava de um louco mundo e de um sensato e tão verdadeiro amor.
Procura-se uma reunião de amigos que se comprometeram a não se esquecerem embalados por uma canção do U2, “One”.
Procuram-se os amigos que compartilhavam as ondas.
Procura-se tanta coisa
e tão pouco é encontrado
.

Procura-se uma luz como aquele sorriso puro e doce da menina que ficava bem em qualquer lugar.
Procura-se uma luz. Nas ondas, canções, esportes, pais, raros amigos e amigas de verdade. Mas tudo isso não resolve nada.
Porque, caro Paulo, não sei o que fizeram com o amor.
Talvez esteja morto.
Ou escondido nas profundezas,
com medo de novas cicatrizes,
com medo de lutar de novo.
Só que lembro sempre o que pregava um poeta romano antigo, "o amor é como o serviço militar: Para trás, covardes!"
(06/07/2004)

O inverno de nossas vidas



Como podemos ser tão tolos, nos encondendo na estação mais reveladora da vida?
Mas e o frio, a chuva e o desânimo que o inverno traz ao corpo e às almas perturbadas?
Sim, os dias cinzentos nos tornam animais enjaulados, tristes, acuados.
mas um dia ele aparece e a vida continua, apenas algumas fagulhas é o suficiente
porque quando o sol ressurge num dia de inverno, não podemos desperdiçar a benção, descemos a serra então,
os irmãos da vida,
surfistas
retornando ao lugar onde o inverno fala com a gente: nosso amado pico local,
a praia onde o tempo não existe
onde as lembranças estão sempre presentes
onde até a dolorosa saudade torna-se uma memória mágica,
onde as incríveis histórias do passado – os amigos, festas, fogueiras, músicas junto da lua e de mulheres inesquecíveis ou dos brothers comemorando – apenas nos lembram que vida maravilhosa tivemos,
que temos,
pois logo estamos de novo lá dentro
no lugar a que mais pertencemos
o oceano imenso
o lugar onde mais somos nós mesmos.

Só quem sente que pertence ao mar sabe como os sonhos e esperanças são mais intensos lá dentro,
a água fria, mais verdadeira, com a temperatura das nascentes dos rios, cachoeiras,
geladas como as fontes da vida,
sim, trituram os ossos, mas aquecem a alma dos que a enfrentam
e as ondas? ah, que tonalidade mágica, não são mais azuis dos dias quentes,
não lembram o céu do sol brilhando poderoso
são mais envolventes, densas, cor de conto de fadas antigos
verdes
verdes escuras,
e elas vêm
e remando feito loucos para empurrar nossos corpos pesados envolvidos em roupas de borracha
finalmente as encontramos
e viajamos num vital túnel do tempo
pois surfar as ondas do inverno é penetrar no silêncio e mistérios daqueles bosques verdes da infância, daqueles inesquecíveis passeios na floresta

Verde,
a cor da inocência
a cor dos surfistas.

Lembro então da frase da jovem Valentina, que evoluiu tanto nos últimos meses [deve ser o inverno a amadurecendo]:
“Viver? Não se trata de aproveitar cada momento, mas sim tornar cada momento único”.
(11/06/2004)

Canções da Vida



Quando tudo parece perdido, quando o queixo não quer levantar, quando a boca não fala e os olhos não brilham mais e o telefone não toca,
Quando nossa outra metade não aparece mais naquele nosso lugar mágico, silencioso [som era só o dos nossos corações],
Quando os amigos não pintam de repente, tocando a campainha, o interfone ou gritando,
Quando o mundo parece congelado numa tela triste e sombria, envolta em fantasmas lá dentro do peito, é hora de buscar o melhor remédio.
Sim, não cura por muito tempo, mas poucas coisas são tão poderosas para nos lembrar que ainda há esperança como a MÚSICA,
as canções que nos aquecem o peito.
Tá, algumas delas aumentam ainda mais o vazio, mas essas, de tão belas e tristes pelo menos nos lembram que ainda há arte e maravilha lá fora,
pelo menos no louco mais deprê que a gente que criou essa canção tão dolorosa.
Mas nada de deprê na caixa de som, como é bom escutar de repente na rádio [KISS FM, claro] baladaças que nos lembram, p...: ainda estamos vivos, e temos muita coisa boa, aqui dentro para oferecer.
Um acorde de guitarra ou baixo, um verso e estamos salvos de novo,
lembrando de alguma cena inesquecível
com ela [dane-se se ainda não deu certo, sejamos felizes pelo que vivemos]
ou com aquele brother, com aqueles amigos
naquela praia, festa ou naquele bar,
de noite, olhando as estrelas, o mar
celebrando o amor,
ou a amizade.
Porrada, a gente nunca está preparado, e incrível como a rádio vem e toca aquele som que não podia tocar,
vem mais lembranças, profundas, antigas, cenas maravilhosas que talvez não voltem mais,
MAS AUMENTA QUE ISSO AQUI É ROCK AND ROLL,
Depois de uma balada vem um petardo,
TÁ COM MEDO DO ESCURO?
Somos salvos então por uma poderosa canção que invoca isso mesmo,
O MEDO DO ESCURO,
É Iron Maiden com Fear of the Dark
incrível como os solos de guitarra e a bateria acelerada desse som jogam o medo do futuro e a dor do passado pra casa do...
e ainda tem aquele finalzinho mágico, suave, dedilhar suave da guitarra e o canto “when i´m walking a dark road, iam a man who walks alone”,
[Quando eu estou andando em uma estrada escura, eu sou um homem que caminha sozinho]
Sim, podemos ficar sozinhos,
mas ainda podemos pegar a nossa própria estrada, dos nossos sonhos.
Ninguém se perde de vez enquanto existir uma canção para nos salvar.
(12/05/2004)

O menino que gostava de Oasis


“Tá me tirando?!”. Era a frase típica dele, servia para brincadeiras descontraídas e também para quando ficava esquentado mesmo. Mas a verdade desse moleque enorme que gostava de fazer panca e cara de mau era fácil de sacar: era o coração grande e o carinho com os amigos. Só que “carinho” ele não diria nunca, era machão demais pra isso. “Inho” só dizia se fosse seu sobrenome, Godinho, e assim mesmo tinha que vir acompanhado do que sempre adorou: style. Estilo. Tá, o cara é super desajeitado, mas até que tem um certo estilo, mas claro, a anos luz do email que ele teve coragem de colocar como seu, David Beckham!
Pô, Beckham não dá, né, você está mais pra aqueles centroavantes trombadores, mas estabanados. Tá, mas fazendo seus gols.
E gols esse moleque fez muito para a turma dele. Porque hoje de manhã, logo na primeira aula, ninguém dormiu ou fez bagunça. Sua classe e seus amigos ficaram mudos quando li suas palavras d despedida. E claro, vaidosão, que algumas meninas choraram... E todos pareceram sentir o baque daquela carteira vazia.
É, você sabe que acabou é se tornando símbolo de outra palavra que adorava, “vacilar”. É, vacilou bastante, como você mesmo disse ter consciência. Melhor assim, porque só os grandes sabem quando pisam na bola. E só os bons corações, como o seu, aproveitam isso pra dar a volta por cima.
Mas não encana quando botar a cabeça no travesseiro. Tô achando é que os amigos e amigas que deixou aqui vão é ficar mais intensos. Porque o seu nome, para muitos de seus brothers e gatinhas não lembra vacilo ou mancada. Lembra é saudades.
Lembra é amizade. Pura.
Té mais, “maluco”, nunca esqueça do que construiu aqui dentro. Sei que conversamos pouco, e te cobrei por ter escrito e se esforçado tão pouco. Mas saiba que suas raras redações foram lidas com gosto.
Porque você despejava sinceridade e emoção naquelas folhas de caderno.
Esse é o cara que quero lembrar. Aquele que escreveu com alma sobre como é de verdade, naquele auto-retrato [proposta do livro de Português, viu Rafinha!!!] que eu li pra sua galera.
Por isso tudo, esqueça um pouco o estilo. Seja mais o “maluco” beleza, de bom coração e cheio de atenção com os amigos. Entre todas as rebeldias que você gosta de empunhar, escolha a revolução de lutar pela amizade, que tão bem descreveu nas redações.
E nunca, velho, nunca “don´t look back in anger”.
Olhe para trás apenas para as lágrimas sentidas e sorrisos que deixou.
Abraço do "vovô o escambau!",
“Stand by me” e boa sorte.