sexta-feira, dezembro 05, 2008

Viagem sem fim


“A vida é muito curta pra gente ficar repetindo os caminhos” (Amyr Klink, falando direto da Antártida - rodeado de gelo e gelo, sozinho, com seu barco e seus sonhos de nunca parar de explorar o mundo - no magnífico documentário Mar sem fim, exibido pelo GNT).
Como podemos nos intitular viajantes quando nos deparamos com um explorador chamado Amyr Klink, o brasileiro que atravessou o Atlântico num barco a remo e depois o mundo, pela terrível rota mais sul possível, farta em tempestades, ondas de até 15 metros e um frio extremo, no círculo polar?
Se não podemos correr o mundo como Amyr, por faltar coragem (e dinheiro), nada nos impede de empreender outra viagem, tão maravilhosa e árdua: a travessia dos corações humanos.
Amyr vai longe, em jornadas incomparáveis, fartas em experiências fantásticas. Mas e os que ficam e tentam conhecer, profundamente, um lugarzinho ou as outras pessoas?
Amyr se entrega ao oceano infinito, aos mistérios mais desconhecidos da Terra. Outros, cada vez mais raros, entregam-se à descoberta do coração humano. Pena que muitos não entendam e não permitam serem navegados pelos corações azuis desses marinheiros da vida.
Talvez as montanhas brancas, de geleiras e icebergs, que Amyr descobriu sejam menos inóspitas que algumas pessoas que estimamos e com quem tentamos nos relacionar. Não dá para entender, por exemplo, a frieza dos que partem de nosso porto-amizade para nunca mais voltar.
Ou será que eles é que têm razão, em suas eternas viagens sem olhar para trás, tocando a vida e novos portos?
Sim, precisamos nos contentar um pouco em sermos apenas boas lembranças para esses viajantes que nunca regressarão. Pois sabemos que em algum momento, fomos nós o mar sem fim que inspirou esses corajosos exploradores que olham a vida e o mundo como a próxima viagem.
Mas quem sabe um dia não olhem uma velha fotografia
descubram uma carta antiga
ou escutem, em um lugar distante,
aquela velha canção,
chamada amizade ou amor verdadeiro.
(30/03/2004)

quarta-feira, dezembro 03, 2008

A menina que surfa com os pés



Segundona. Último dia na escola da praia. Na escola e praia que foram minha casa esse ano todo. Na escola que, triste demais, está fechando. Madruguei para surfar antes das aulas. Queria pegar a missa das seis lá dentro, na catedral azul. Netuno se escondeu, e minhas tão presentes companheiras do Itararé simplesmente não estavam lá. Não havia ondas. Na escola também não estava mais presente aquela turma com quem surfei as mais belas ondas da educação com amor. Mas sempre há algum surfista de alma, basta sabemos olhar e sentir, como percebi em minha outra turma. Veio então aquele presente surpreendente, de uma aluna difícil mas tão valiosa. Um bloquinho de notas artesanal feito por crianças humildes. Um pequeno caderno para minhas palavras futuras; feitas em folhas de vontade, embrulhadas em saudade. Valeu, Julia.
Palavras são menores que gestos e olhares. São menores que outro presente inesquecível. Um presente vivo, que seria construído com arte, beleza, alegria e parceria por outra menina. Ana Luiza sempre me chamava pra jogar bola com ela nos mágicos e longos intervalos da Escola Americana de Santos, 30 minutos, mas eu ficava tomando aquele café da manhã gostoso com a moçada da turma mais velha. Mas ontem, no último dia, joguei com ela.
Horas mais tarde, na estrada de volta para Sampa, as imagens e sensações das tabelinhas com a Ana permaneciam como o sal sagrado após uma session de surfe. Como uma onda perfeita que a gente não esquece.
Foram tabelas e mais tabelas. Foram passes com afeto. Foram gols e alegrias sinceras. Foram nossas últimas brincadeiras na escola que foi o lar dela por tantos anos. Na escola que ela aprendeu a amar. Talvez por isso a Ana conheça tão bem cada cantinho daquela quadra. Mas não é por isso que ela joga tão bem. A menina é um talento natural raro. Nasceu para jogar bola. Incrível como parece flutuar pela quadra numa aceleração de bailarina que é jogadora de futebol. Incrível sua objetividade, seu jogo vertical em direção ao gol. E sua humildade ao achar que não joga bem.
Acorda, minha querida aluna e parceria desse jogo tão belo, você é especial também com a bola nos pés. Por isso acredito tanto que seu sonho de jogar bola e estudar fora vai dar certo. Porque ontem eu e você jogamos como se estivéssemos surfando. As ondas nasceram, como mágica, de nossas jogadas, de nossa vontade. Da nossa vontade de partilhar a bola como se estivéssemos lá atrás esperando as ondas mais bonitas.
Obrigado por essa partida que ficará em minha memória talvez para sempre. Como poderia esquecer a minha última onda na EAS?
Vai fundo, artista, você surfa com a bola nos pés.

Um cachorro na esquina


Ontem fim de tarde. Esquina da Heitor Penteado com a Pereira Leite. Farol fechado na minha pista, para pegar a descida da Pereira. Na direita, zilhões de carros e buzões indo pra Lapa ou Cerro Corá. Foi quando o vi. Um cachorro felpudo (tipo sheepdog, mas metade do tamanho) com cara triste, muito triste, olhava caladão, parado-sentado em frente de uma portinha pequena e detonada ao lado de um muro sujo. Devia se tratar de um cão humilde, de dono que não tava nem aí pra dar um banho no meninão acinzentado. E, com aquele olhar triste, e com a fachada deteriorada daquele lugar (de onde ele parecia vir), desconfiei que o bicho não recebia muita atenção, carinho e cuidado. Comecei a viajar, vendo a calma e pose de estátua do bicho, sobre a estupidez e loucura daquele monte de carros e pessoas com pressa e mal humor dentro da maioria dos veículos.

O que o cão devia pensar da vida apressada, estressada e cinzenta dos paulistanos? Qual o sentido de estarmos sempre em movimento, mas sentados dentro de um estúpido carro ou ônibus, veículos ou sem graça (o carro é a solidão em 4 rodas e anda cada vez mais caro) ou desconfortáveis e ultra barulhentos (buzão)? Sorte de quem pode curtir o conforto e barulhinho gostoso do metrô, que ainda permite ver as pessoas, até dar uma secada na mulherada, mas isso, claro, longe do horário de pico e das proximidades das estações Paraíso ou Sé... e longe do isolamento dos mps3´s e iPods, esses castradores do contato e relacionamento humano, mas isso é assunto pra outro post...

Volto ao cão e seu olhar triste de desconsolo com si próprio e com essa neurótica humanidade da grande cidade. A visão que levaria pra minha casa seria de tristeza e pena, de nós e do bichinho, mas aí eles apareceram. A pé, claro. Ele, aquele típico sangue bom de bem com a vida, andando com uma mulher e fazendo-a sorrir. Ela, uma bela gata que sabe sorrir fácil e sincera. Pois ela passou do lado do bichinho, falou algo com ele e foi então que o cão mais triste do mundo deu o olhar mais bonito e doce do mundo. Ele virou o pescoço, ela seguia falando com ele enquanto caminhava e o olhar do bichinho era uma explosão de amor à primeira vista e carinho pidão.

O sinal abriu, tive que vazar. Mas tenho certeza que aquela bela moça, em todos os sentidos (até na blusa amarela alegre que usava), retornou um passo e fez um cafuné gostoso e inesquecível no bichinho. Depois ela teve que voltar ao seu trabalho e o cãozinho deve ter ficado parado ali na frente daquela portinha horas e horas esperando-a voltar.

Ela não volta e ele tem que voltar, se arrastando e com o velho olhar triste, pra dentro daquela portinha toda zoada e mal cuidada. Ou fica parado de novo olhando a estupidez e violência do transito e dos humanos (?) que não falam com ele nem dão uma paradinha pra lhe fazer um agrado.

Eta vida besta. Mas, graças a Deus, o mundo voltará a girar quando outra bela mulher ou criança pura parar naquela esquina para acarinhar o cachorro que parecia um santo abandonado esperando para que se provasse que a humanidade está perdida de vez ou ainda tem salvação.

domingo, maio 20, 2007

Ele voltou


Inesquecível. Muito mais que uma imitação. Alma. Emoção. Calor. Técnica. Arte. Espetáculo. Comoção do público. Magia. Só mesmo muito amor por uma banda para existir algo chamado Diós salve la reina, uma das melhores bandas covers do Queen do planeta. E eles estiveram aqui em Sampa ontem à noite, surpreendendo a todos que estiveram no Via Funchal. Logo na entrada, damos aquela risada gostosa ao vermos a incrível semelhança do cantor Pablo Padín com Freddie Mercury. Logo as risadas são substituídas pela emoção de descobrir que o argentino tem voz (e isso não é mentira!) parecida com a do maior vocalista de todos os tempos, Freddie. Sim, ele não consegue alcançar aquelas esticadas de voz monumentais do mito, nem tem tantos recursos de variação, mas é sim o espírito da garganta do líder do astro que escutamos. É sim algo muito parecido com o Queen que ouvimos, sensação reforçada ao acrescentarmos os outros três fantásticos músicos da banda, especialmente o guitarrista Francisco Calgaro, que toca uma réplica da guitarra Red Special, do gênio das cordas Brian May; e destaco também o batera dessa banda cover, o cabeludo meio Maradona louro que simplesmente estraçalhou sua batera feito um coração se declarando com a maior beleza e sinceridade do planeta.

Algo mágico demais aconteceu ontem à noite, por isso tantos sorrisos de satisfação espontâneos ao longo da noite toda, por isso tanta gente fazendo solos imaginários de guitarra, de moleques a coroas, de crianças às deusas morenas da platéia (me perdoem as louras, mas quando as morenas têm charme...). Por isso tanta gente cantando junto e batendo palmas.
O set list de ontem? A primeira a emocionar foi Somebody to Love, e haja culhão do argentino para tentar fazer essa versão de um original em que Freddie chegava a lugares jamais alcançados na história do rock, e ele se saiu muito bem. Depois teve I want to break free, Who wants to live forever (tema do filme Highlander), Radio Ga Ga, Save Me, Crazy little thing called love, a balada maravilhosa pouco tocada hoje, Jealously, I want it all e, claro, em número espetacular, Love of My Life, etc etc. A última canção? Uma honestíssima versão da ópera rock, Bohemian Rhapsody.

No bis eles voltaram atendendo aos gritos da galera que gritava We will rock you. Eles voltaram com essa pedrada e adicionaram We are the champions com uma pegada monumental! Agradeceram emocionados, partiram, mas a galera não arredava o pé. E aí veio o milagre que só quem tem coragem de colocar o coração pra fora, que só quem tem tesão pela vida consegue realizar. O brotherzinho ao meu lado pede, pô, só faltou Don´t Stop Me Now... Aí ele e eu começamos a gritar o nome dessa canção supersônica do Queen e alguns outros acompanham. E os caras voltam para o segundo bis e atacam de... Don´t Stop Me Now!!!

Puta merda, mas que puta show! E pensar que boa parte da molecada de hoje nem conhece Queen e fica se embriagando, desculpem o linguajar, de tanta merda que as rádios enfiam goela abaixo deles!

Mas voltando aos argentinos do Diós salve la reina, só queria agradecer por ter trazido “Ele” de volta nessa inesquecível noite em que uma banda cover foi a emissária mais fiel possível dessa que a foi a segunda melhor banda da história do rock (e às vezes não me questiono se não seriam a primeira, tomando o posto dos Beatles, caso Freddie não morresse cedo...), esse fantástico Queen, dono de uma melodia, voz, guitarra e variações rítmicas que nenhuma outra banda da história do rock jamais igualou.

E, pelo menos um moleque ontem, o irmãozinho, foi pra sua casa com a certeza que o rock de verdade e inesquecível só pode estar no passado. Que venham em agosto o Scorpions, ainda mais com a formação original! E que venham mais pessoas com a gente pro próximo super show!

PS - O vídeo, acreditem, é do Diós salve a la reina.
Que voz e guitarra é essa?!

A voz é deliciosa, entre o agudo passarinho feminino e o grave rouco leão. O dedilhar da guitarra é maravilhoso como uma conversa cheia de atenção e prestar atenção no outro enquanto passeiam por algum lugar mágico. Essa é Leslie Feist, uma super artista do Canadá da qual não consigo encontrar um CD aqui no Brasil. Um pecado, pois desde Alanis não conhecia uma voz de cantora tão bela e rica, e ela é ainda melhor, pois tira melodias e riffs belíssimos e cheios de ritmo da sua guitarra. Uma bela mulher, que canta como uma fada e hipnotiza com uma guitarra que nos envolve e leva pra passear, o que mais podemos esperar? Essa canção, Secret Heart, seguramente entraria para uma lista das mais deliciosas e saborosas canções de amor da história.

quarta-feira, outubro 18, 2006

Os pinguins que surfam!

Um surfista pioneiro, verdadeira lenda, Big Z. Um surfista corajoso e de grande caráter que inspiraria muitos outros. Um pinguinzinho garoto que admira demais seu ídolo, Big Z, e depois vai tentar seguir seu legado e ultrapassá-lo. As cenas e a trama desse desenho animado de surf são maravilhosas, vai estrear nos cinemas dos EUA em breve, rezem pra chegar no Brasa.

domingo, novembro 27, 2005


O herói em que ninguém acreditava
Diego Hypólito é um daqueles raros casos de campeões que se formam dentro de si próprio - graças ao seu próprio talento e força interior - e contra as expectativas de toda a mídia.

Por que ninguém falava dele ou apostava nele? Por que, no dia em que disputaria a final do solo (madrugada de sexta para sábado), os jornais apenas registravam que ele estava na final (em duas, três linhas) e preferiam escrever longos artigos sobre Daiane dos Santos (que faria a final feminina do solo) ou sobre sua irmã, Danielle, que terminara a prova individual geral (que consagra as ginastas mais completas em todos os aparelhos) com um bom 9o lugar? Por que ninguém acreditava no garoto que em 2004 conquistou cinco medalhas de ouro em etapas da Copa do Mundo de Ginástica?

Mas ontem, em Melbourne, Austrália, Diego Hypólito, 19 anos, surpreendeu a todos e depois de se classificar em 8o lugar para a final da prova de solo (só haviam 8 vagas para essa final), fez uma série fantástica e venceu. Tornou-se o primeiro homem brasileiro campeão do Campeonato Mundial de Ginástica Artística (competição mais difícil que a Copa do Mundo e inferior apenas à Olimpíada). Nunca li na mídia que Diego poderia ser campeão mundial.

Mais surpreso fiquei, ao ler hoje nos jornais e sites, a história dessa conquista, uma das mais inacreditáveis do esporte em todos os tempos. A razão? Diego fraturou em abril deste ano a tíbia do tornozelo esquerdo. Teve que botar gesso, pino, encarar fisioterapia e depressão. Em junho, quando o médico anunciou que ele poderia voltar a treinar duas semanas depois, Diego se precipitou, foi treinar e fraturou a tíbia de novo. Criticado como imaturo e irresponsável, voltou ao inferno da luta pela recuperação espalhada em mais longos três meses.

Enquanto os atletas rivais treinavam e disputavam competições, “o irmão de Danielle Hypólito” (a carioca que colocou o Brasil no mapa da ginástica em 2001 ao ser prata no Mundial de Ghent) seguia apenas fazendo fisioterapia e tentando manter a forma treinando duro apenas nos braços, onde foi ficando cada vez mais forte.

Diego voltou a treinar ginástica apenas em outubro, três semanas antes do Mundial da Austrália. Lá, errou em sua apresentação na classificação e, depois de alcançar o 8o lugar teve que torcer para que vários atletas não o ultrapassassem em exibições posteriores à sua. Deu certo, naqueles (de novo) raros casos em que a história parecia apenas um destino pré-determinado. Mais de dez atletas se apresentaram depois dele e não conseguiram superar a sua nota 9,300 que garantia a 8a e última vaga para a final.

Na grande decisão, Diego praticamente não errou, marcou 9,675 pontos e se tornou o melhor ginasta de solo do planeta. No dia seguinte, a sempre tão badalada Daiane falhou novamente (como ocorrera na Olimpíada de Atenas, em que era a grande favorita) ao errar o seu salto “Dos Santos”, cair sentada no tablado e ficar apenas no modesto sétimo lugar na final do solo.
"Ele acertou o exercício quando tinha que acertar. Esperou três anos para ganhar, e conseguiu", disse o ucraniano Vyacheslav Azimov, técnico da equipe masculina brasileira, referindo-se ao quarto lugar obtido por Diego no Mundial da Hungria, realizado na cidade de Debrecen, em 2002.

O primeiro grande ato de Diego como campeão foi revelar que não ganha nada de seu clube nem da Seleção Brasileira, que vive apenas do salário do seu patrocinador pessoal, a Credicard. Coragem de campeão, que cobra mais para si, para seus companheiros de seleção (sempre ofuscados pelas meninas, que ganham bem mais que os homens) e para seu esporte.

Simples, sempre humilde e sem a arrogância de outros grandes atletas, Diego Hypólito construiu na madrugada de sexta-feira uma das mais espetaculares façanhas da história do esporte brasileiro e mundial. Que seja, finalmente, valorizado como se deve por um país que o ignorava.

quarta-feira, outubro 19, 2005


Um convite do coração
- Tem jogo meu hoje, sábado, domingo...; Raíssa convidava para um jogo atrás do outro, mas seu professor nunca ia. Na maioria das vezes não dava mesmo; em outras ele podia ter se esforçado mais. Não o fez, mas mesmo assim ela tentava de novo, com a mesma beleza dos que convidam de verdade, fazendo o convidado se sentir especial. Vinha e vinha de novo, porque o ser humano precisa ser visto e apoiado no que faz com mais paixão. O apoio, mágico, que sentimos quando alguém vem nos ver em pleno dia de semana.

Um dia ele foi, depois de muito tempo sem vê-la em ação. Como foi bom perceber a evolução dela. A atacante irregular do passado se tornou mais firme e forte. A garra e vontade aumentaram, além dela ter adquirido uma notável concentração para sacar: olhos fixos nas adversárias enquanto se abaixa e bate a bola várias vezes no chão com as duas mãos, antes de levantá-la e enfiar a mão com força e precisão. Não errou nenhum! Me lembrou a concentração dos grandes atletas da história, imperturbáveis e decididos antes de cobrar um pênalti, lance livre ou saque.

E ainda preciso ressaltar suas defesas, em como também melhorou nesse fundamento cada vez mais exigido e essencial em um time de vôlei.

Parabéns, moça, pena que tão poucos foram lá te ver, como seu professor, seus colegas, Renato, o torcedor número um dos esportistas do seu colégio, a Bia, e, claro, seu fã número um, seu pai. Aliás, precisava ver a tensão e alegria de seu velho a cada ponto.

Obrigado também por me convidar por outro motivo: pude voltar ao Pinheiros, o clube onde fui tão feliz treinando atletismo e sonhando com uma intensidade parecida com a sua paixão pelo vôlei.
Queria assistir mais momentos felizes de sua vida como esses, Raíssa. Como não dá, saiba que estaremos sempre torcendo por você. Não sabemos onde chegará, mas lembre no futuro que houve uma época em que conseguiu nos inspirar e motivar com sua raça, talento e determinação em uma quadra de voleibol.

Finalmente, nunca perca esse seu jeito tão transparente, alegre e esperançoso de convidar as pessoas para assisti-la. É tão bonito como aqueles apresentadores que anunciam um espetáculo para o público.

PS - Mas da próxima vez vê se dá pelo menos um tchauzinho para seus torcedores né!!!

segunda-feira, outubro 17, 2005


Sonhos da bola laranja
São meros garotos, mas já treinam e sonham como homens. Fernando Soria, Thiago Ortega e Henrique Aguiar jogam basquete nas categorias inferiores do Palmeiras. Domingo passado estrearam nos playoffs do Campeonato Paulista. Pela primeira vez pude vê-los em ação e constatar aquele brilho nos olhos de meninos que sonham tanto. Com o basquete brasileiro? Seleção? Talvez. Mas minha aposta maior é que quando a noite e o sono chega, o travesseiro gostoso e o corpo exausto os levam direto para a NBA ou para a Europa, porque o basquete profissional nacional anda cada vez mais triste. Que moleque será louco de sonhar em jogar para uma seleção que tem o Lula como treinador? Ou o Grego como presidente há milênios? E como vão sonhar com o Brasil se não existem mais ídolos aqui desde que o eterno Oscar encerrou a carreira? Tá, posso estar errado, porque o Fernando já me disse achar um absurdo o Nenê se recusar a jogar pela seleção, mas sei não...

Antes do sonho, uma jornada longa demais. Direto para o jogo Palmeiras e Paulistano, no ginásio desse último. Fernando volta de contusão no tornozelo, está meio mal nos primeiros dois quartos, mas depois, mostra o seu valor. No momento mais dramático, quando o Paulistano empata o jogo em 50 a 50, ele pega a bola, atravessa a quadra toda, se infiltra, marca uma bela cesta e ainda sofre falta. Depois, vai fazer isso de novo e ir além, pegando rebotes, dando belas assistências (duas desde o seu garrafão até a zona morta do inimigo, servindo seu companheiro; uma com extrema habilidade, servindo o parceiro passando a bola por trás de suas costas) e marcando pontos importantes. Atuação de jogador que trabalha bem em todas as funções e fundamentos essenciais de quem sonha em ser grande. Mas é preciso melhorar, muito, em um detalhe que decide muitos jogos: os lances livres. Errou demais, e o jogo poderia ter sido mais tranqüilo (o Paulistano encostou no finalzinho, quase virou) se não errasse cinco ou seis arremessos desse.

Outro menino que esteve bem foi Ortega, pivô trabalhando bem nos rebotes defensivos, se projetando bem nos primeiros passes das ações ofensivas e até fazendo uns pontinhos. Falta ao guri mais força física, que virá com o tempo, e um pouco mais de calma.

Henrique não jogou, mas quantos garotos podem se orgulhar de fazer parte de uma grande equipe e um grande clube como o Palmeiras? E quantos ele não terá superado para garantir um lugar naquele banco de reservas honrado?

Os três garotos representam bem o que é ser um jovem esportista batalhador e respeitoso. Ao final da partida Fernando fez questão de apertar a mão não só de adversários e juízes, mas também do pessoal da mesa de cronometragem. Humildade e educação são passos fundamentais nos caminhos de um campeão. E ele ainda mostrou algo raro para os tão jovens: calma nos momentos decisivos da partida, não é daqueles de se enervar facilmente, pelo menos foi o que mostrou nesse jogo.

Parabéns a essa molecada por essa valiosa vitória. E que sigam na postura, determinação e talento que exibiram domingo passado. Quem sabe um dia a Europa ou até aquele sonho gigantesco não vire realidade.

PS- Lembrem, guris, que humildade e respeito deve valer em todos os lugares. Portanto, nada de sacanear os (as) atletas de outros esportes com quem vocês convivem. Ao Fernando, vai um recado especial: nunca vi a Raíssa errar um saque, é incrível a concentração dela nesse momento e o ritual dela antes de levantar a bola e meter a paulada com precisão e força. Se aproxima dela, moleque, vai aprender muito. E lembra que o Oscar, ao final de cada treino, ficava um tempão treinando arremessos sozinho.

terça-feira, outubro 11, 2005


Centro Olímpico?
O Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa (COTP), localizado ao lado do ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, foi criado em 1970 com a intenção de formar atletas de alto nível. Por um bom tempo a meta foi alcançada. Mas desde o início da década de 90 o complexo passou a sobreviver dos escassos recursos do orçamento esportivo do governo municipal e de doações de algumas empresas e instituições.


Extensa matéria no jornal Lance de ontem, com o título de “Olímpicos na sucata” mostrou o abandono do local, em especial de sua pista de atletismo toda deteriorada e cheia de buracos. O mais incrível é que jovens promessas em formação e atletas de ponta ainda treinam ali, se sujeitando às freqüentes contusões como a canelite (inflamação na região da tíbia).

O COTP vive hoje dias bem distantes dos bons tempos em que recebia investimentos da iniciativa privada (empresas) e um eficiente programa chamado de “Adote um Atleta”, em que as empresas patrocinavam um esportista. Assim foram formados e evoluíram talentos como Ricardo Prado, na natação, Amauri e Montanaro, no vôlei, futuros ídolos e campeões em suas modalidades.

Montanaro afirmou ao Lance que recebia uma bolsa-auxílio em dinheiro, além da alimentação no refeitório do Centro, que não funciona mais. Hoje, os meninos e meninas que treinam atletismo, por exemplo, ganham um lanche depois do treino. E só.

A atual administradora do COTP, a ex-heroína do basquete, Magic Paula, faz o possível pra administrar e melhorar o lugar, mas sofre com a falta de recursos. O orçamento todo da Secretaria Municipal de Esportes anual é de irrisórios R$ 1,5 milhão.

Até quando o COTP vai ficar abandonado, caro Agnello Queiroz, Ministro dos Esportes? Ah, não venha se gabar da verba de R$ 1 milhão que liberou para o Centro (já diminuiu para R$ 800 mil porque o montante demorou a ser liberado), porque isso é apenas um paliativo perto dos mais de dez anos de abandono e necessidades de reformas do COTP.

Quem quiser ler mais sobre o amadorismo com que é tratado o esporte olímpico brasileiro leia hoje (terça-feira, 11 de outubro), também no Lance um artigo sobre as péssimas condições materiais dos aparelhos de ginástica dos Jogos Abertos do Interior, que acontecem esta semana em Botucatu (SP). O site do Lance é www.lancenet.com.br